3.3.09

No they souldn't

Compreendo que o desemprego e os seus números constituam um importante activo argumentativo em política. Mas há qualquer coisa que incomoda no indisfarçável regozijo dos que vêm nestas estatísticas apenas mais uma oportunidade para atacar o Governo. Assim como o há na forma como, do lado do poder, se rejubila com as revisões em baixa das projecções económicas internacionais, que servem para mostrar a falibilidade de todas as projecções feitas há uns meses, e não apenas das do Governo. Ou até com a forma como se chama a atenção para a subida do desemprego em Espanha, como se se lançasse para a mesa um poker de ases, indiferente à preocupante situação a que se alude.

Julgo que foi também na recusa desta forma de fazer política que Obama marcou a diferença.

Ainda das animações sobre evolução (ii)

Ainda das animações sobre evolução

Esta é uma verdadeira obra prima.

1.3.09

PS e BE

Infelizmente, julgo que António Costa tem razão quando denuncia a falta de confiança que este BE inspira como potencial parceiro de coligação. Se a experiência na Câmara de Lisboa falhou, não vejo como é que, na actual conjuntura política, pode haver qualquer entendimento duradouro e de sucesso entre os dois partidos. Isto porque o entendimento que havia em Lisboa parecia, a todos os níveis, vantajoso para o BE. Mais, no pouco tempo que durou, parte das medidas lançadas foram da área do seu vereador, Sá Fernandes. Apesar disto, o BE preferiu, ao romper com o entendimento que tinha com o PS para Lisboa, desbaratar este capital político, que podia, legitimamente, reclamar como também seu. Ao invés, optou por trilhar a via do tacticismo com vista ao combate eleitoral de 2009. Ora, se é legítima esta escolha, é também ela que dá razão a António Costa, quando diz que «o Bloco de Esquerda é completamente alérgico a assumir qualquer responsabilidade e riscos de governação". Para quem tantas vezes acusa o PS e o primeiro-ministro de arrogância, esta absoluta falta de resiliência política, esta incapacidade de tolerar a mínima das contrariedades em relação aos compromissos assumidos, é, para mim, a suprema das arrogâncias em política.

26.2.09

Frost e Nixon


Vejo, por acaso, um excerto da entrevista que David Frost fez a Nixon, que tem estado a ser exibida na SIC Notícias. Do filme, ficara com a ideia que Nixon fez de Frost o que quis durante a quase totalidade da entrevista e que este apenas conseguiu impor-se na questão do Watergate, forçando Nixon a sair do seu monólogo encantatório. O excerto que vi da entrevista era sobre a política dos EUA em relação à América Latina e Frost esteve muito bem. Não deixou que a discussão se resumisse à simplificação do perigo vermelho que Cuba e o Chile representavam para os interesses dos EUA na região (dos económicos à segurança) mas confrontando-o com o significado das escolhas da política externa americana, como a do apoio ao derrube de um governo eleito democraticamente (Allende), em benefício de uma ditadura de direita. O critério era apenas o do interesse dos EUA, interpretado, a cada momento, pelo seu Presidente, o seu juiz derradeiro. Ou seja, o mesmo que orientou sua actuação no caso Watergate, como o próprio confessou a Frost, na famosa frase: “when the president does it that means that it is not illegal”.

25.2.09

Aposto que dizes isso de todos

Ao reler o último texto, fico com a ideia que estou a justificar-me por não saber quem era o Courbet... Já me tinham dito que isto dos blogues era como vermo-nos ao espelho. Mas neste caso em particular até que não é verdade.

O quê? Tu não sabes quem foi o Courbet!?

Do que leio parece que a intervenção da PSP de Braga foi despropositada a todos os níveis. Agiram “para evitar desacatos”? Mas então, se algum papel cabia à polícia neste episódio, não era precisamente o de assegurar o legítimo exercício de direitos, nomeadamente o de expor, em liberdade, aquelas obras? Tudo indica, assim, que o juízo da polícia foi de concordância com os queixosos, que consideraram a obra em causa pornográfica – e que, por essa razão, não devia estar exposto ao público.

Dito isto, este episódio chama a atenção para uma questão que não me parece nada pacífica. A imagem da controvérsia não é pornográfica porque é do Courbet, isto é, porque é arte? Se assim for, este domínio exclusivo da arte sobre a imagética da nudez e do sexo não constitui, em si mesmo, uma limitação da liberdade?

Dito isto – e também aquilo, claro –, não deixa de ser espantoso que neste, como em casos semelhantes, tantos venham prontamente indignar-se, ou contristar-se, com o iletrismo cultural dos portugueses – e em particular dos polícias! –, logo se demarcando os próprios como pessoas de muita, muita cultura. É que se a cultura dos cidadãos é algo que deve ser valorizado e incentivado por uma sociedade de homens livres, ela nunca deve servir para lançar o labéu sobre os que a não tenham, o que quer que isso possa significar.

Dito isto - e também aquilo e aqueloutro -, eu também não saberia identificar um Courbet.

18.2.09

Cartão de cidadão e o recenseamento eleitoral

O cartão do cidadão vem, finalmente, pôr fim à bizarra situação de haver pessoas que estão recenseadas num local diferente do da sua residência. Como Vital Moreira chama a atenção, o local do recenseamento eleitoral nunca foi de livre escolha. É, por isso, surpreendente quando ouvimos certas pessoas dizer que consideram alterar o local de recenseamento em função da simpatia que têm, ou não, pelos candidatos locais.

Embora não seja o caso de Pacheco Pereira, presumo que a maioria daquelas situações ocorre no caso das pessoas que vão residir para os grandes centros urbanos (é, pelo menos, essa a realidade que intuo a partir de vários casos que conheço), permanecendo recenseados na morada afectiva. Sabendo-se que, no caso das eleições legislativas, o número de deputados eleitos por círculo varia em função do número de eleitores (Lei Eleitoral da AR, art. 13, n.º2), esta correcção introduzida por via do cartão de cidadão não terá efeitos a este nível?

17.2.09

Bizarro world

O oposto da conhecida expressão da ciência política "when Nixon goes to China"* é o muito nosso "em casa de ferreiro espeto de pau".

* formulação que traduz a ideia de que, frequentemente, os actores políticos em melhores condições para prosseguir uma determinada reforma são, precisamente, aqueles que a ela se opunham.

Darwinismo para crianças

No outro dia, decidi explicar à minha filha de 3 anos e meio a teoria da evolução. A minha abordagem passava por tentar que compreendesse que nem sempre o homem tinha andado direito e que, há muito muito tempo, andava curvado e se assemelhava a um macaco. Ela perguntou-me se também eu tinha sido assim! Recorri então ao Youtube, à procura de auxílio. E ele surgiu nesta magnífica animação.

9.10.08

Boston Legal

Tenho amigos que nutrem grande entusiasmo por Boston Legal. Rasgam elogios ao Shatner. E ao Spader. Também gosto deles, embora me irritem alguns tiques da série, como o overacting (eu sei que é intencional, mas ainda assim...) que marca alguns dos seus momentos-chave, como nas reacções faciais dos actores que denunciam o brilhantismo das alegações em julgamento). Mas o que Boston Legal tem de melhor é a absolutamente contagiante música com que abre cada epísódio: téu néu, téu téu téu téu téu (mais agudo) néu… Foi ela que me fez ultrapassar as resistências iniciais à série.

Que fique claro, no entanto, que não é comparável ao superlativo absoluto sintético do magnífico "frolic", de Luciano Michelini.

8.10.08

MONSIEUR JEAN II

A ler com entusiasmo, depois destes:








MONSIEUR JEAN

Descubro que sairam mais dois números do Monsieur Jean, o divertido (há qualquer coisa de Seinfled, em versão soft) e um pouco melancólico trintão que Dupuy e Berberian têm vindo a dar vida desde o início dos anos 90.




COISAS QUE FAZEM FALTA

6.10.08

WHEN POLITICS IMITATES ART...

Luís Fernando Veríssimo conta numa crónica a deliciosa história de uma mulher que, movendo-se num círculo de pessoas de razoável cultura, tinha o inconveniente de, quando falava, revelar, aos olhos daqueles, e de forma pungente, a sua ignorância. Foi então que passou a ficar silente, dizendo o menos possível o que lhe ia na cabeça, limitando-se a acenar, de forma cortês, aos que com ela privavam. Rapidamente passou a adquirir, perante os mesmos que a consideraram ignara, a aura de “alguém interessante”, cujo silêncio indiciava a existência de pensamentos fascinantes.

Ia jurar que esta história vinha a propósito de algo mas não estou bem a ver...