20.3.09
18.3.09
Trapalhices
Escreve Francisco José Viegas, na crónica de ontem do Correio da Manhã, reproduzida aqui:
O ministro da Cultura, Pinto Ribeiro, anunciou em Cabo Verde que o Acordo Ortográfico entraria em vigor, em Portugal, no segundo semestre de 2009. No Brasil já está na rua: os jornais já se publicam com a «nova ortografia» e começam a ser distribuídos os primeiros manuais escolares especificamente dedicados à ortografia. Acontece que, em Portugal, há um abaixo-assinado para reenviar a lei ao Parlamento. Ao ultrapassar as cem mil assinaturas, esta petição pública obriga os deputados a reapreciar toda a lei. De modo que o anúncio da entrada em vigor do Acordo pode ser uma má decisão política (...)
Muito sinceramente, gostaria de saber onde é que Francisco José Viegas, autor que respeito e admiro – foi buscar a ideia que o Parlamento vai ter de reapreciar a resolução (não a lei) que aprova o Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa? E de onde é que vem o número das cem mil assinaturas? A Lei do Exercício do Direito de Petição apenas confere aos peticionários um direito a um procedimento, que se traduz na exigência de que a petição seja apreciada, ponderada, e o resultado desta vertido num relatório final. Nunca dá lugar a qualquer deliberação ou votação. Aliás, a lei proíbe-o expressamente. Ou seja, uma petição nunca dá origem a qualquer processo legislativo, nem pode obrigar os deputados a reapreciar qualquer acto que seja. Quando muito, pode sugerir ou propor a adopção de determinadas medidas (sendo esta a sua principal função enquanto direito de participação política) mas não há qualquer direito a uma deliberação, em sentido favorável ou desfavorável.
Quanto às assinaturas, para além da audição dos peticionários, a lei apenas prevê que, acima das quatro mil assinaturas, as petições devem ser obrigatoriamente discutidas em plenário. Isto é, o objecto da petição é sujeito ao contraditório político mas, volto a insistir, sem que haja lugar a qualquer tomada de posição formal.
Reparo, entretanto, que Vasco Graça Moura, em crónica do passado dia 4, repete, como ele diria, as mesmas trapalhices.
O ministro da Cultura, Pinto Ribeiro, anunciou em Cabo Verde que o Acordo Ortográfico entraria em vigor, em Portugal, no segundo semestre de 2009. No Brasil já está na rua: os jornais já se publicam com a «nova ortografia» e começam a ser distribuídos os primeiros manuais escolares especificamente dedicados à ortografia. Acontece que, em Portugal, há um abaixo-assinado para reenviar a lei ao Parlamento. Ao ultrapassar as cem mil assinaturas, esta petição pública obriga os deputados a reapreciar toda a lei. De modo que o anúncio da entrada em vigor do Acordo pode ser uma má decisão política (...)
Muito sinceramente, gostaria de saber onde é que Francisco José Viegas, autor que respeito e admiro – foi buscar a ideia que o Parlamento vai ter de reapreciar a resolução (não a lei) que aprova o Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa? E de onde é que vem o número das cem mil assinaturas? A Lei do Exercício do Direito de Petição apenas confere aos peticionários um direito a um procedimento, que se traduz na exigência de que a petição seja apreciada, ponderada, e o resultado desta vertido num relatório final. Nunca dá lugar a qualquer deliberação ou votação. Aliás, a lei proíbe-o expressamente. Ou seja, uma petição nunca dá origem a qualquer processo legislativo, nem pode obrigar os deputados a reapreciar qualquer acto que seja. Quando muito, pode sugerir ou propor a adopção de determinadas medidas (sendo esta a sua principal função enquanto direito de participação política) mas não há qualquer direito a uma deliberação, em sentido favorável ou desfavorável.
Quanto às assinaturas, para além da audição dos peticionários, a lei apenas prevê que, acima das quatro mil assinaturas, as petições devem ser obrigatoriamente discutidas em plenário. Isto é, o objecto da petição é sujeito ao contraditório político mas, volto a insistir, sem que haja lugar a qualquer tomada de posição formal.
Reparo, entretanto, que Vasco Graça Moura, em crónica do passado dia 4, repete, como ele diria, as mesmas trapalhices.
17.3.09
Joga bosta na Geni
Correndo o risco de cometer uma daquelas heresias - a da comparação abusiva -, ver, por esse mundo fora, tantas e tão importantes empresas, antes tão prontas a denunciar o Estado almofada/prestador/garantístico, agora de mão estendida a pedir ajuda a este mesmo Estado, faz-me lembrar a forma como o povo tratava a Geni, naquela música de Chico Buarque. Numa outra versão, para certas pessoas o Estado passou de besta a bestial, até ao dia em que voltará a ser a besta.
Realidade virtual
Perguntam-me se já pus o sitemeter. Acabei, ainda que com algumas reservas – será que queria mesmo saber que quase ninguém me lê? -, por registar-me no tal medidor de sites. Estava, por isso, à espera do pior. Mas não estava preparado para isto:
Será que sonhei que fiz um blog?
16.3.09
A estabilidade de Cavaco
Tendo em conta o que aqui escrevi, não admira que Cavaco espere que, das próximas legislativas, saia um governo de maioria relativa do PS. Bom para Cavaco, mau para o país.
15.3.09
Um post sobre a disciplina de voto
Mais uma crónica, desta vez na Visão, sobre Manuel Alegre. Enaltece-se o seu inconformismo, liberdade de espírito, o não deixar-se amordaçar pela força da maioria absoluta do seu partido. Compreendo que, sobretudo num tempo que cultiva uma certa menorização dos políticos, estas características sejam bastante sexy (como diria, com piada, um amigo). O que tenho mais dificuldade em compreender é que muito raramente se reflicta sobre o que está no outro prato da balança, nomeadamente a disciplina de voto. É que sem esta dificilmente um partido consegue pôr em prática o programa que submeteu ao escrutínio eleitoral. De igual modo, a sua ausência dificulta a responsabilização de um partido pelas políticas adoptadas, não lhe sendo reconhecida a capacidade para determinar o sentido de voto dos seus deputados. Qualquer reflexão sobre este assunto deverá, necessariamente, passar por uma ponderação destes (e de outros) aspectos, independemente da conclusão a que se chegue. Enfim, importa lembrar que se houve momentos na história parlamentar nacional em que a não submissão de um deputado à disciplina de voto poderá ter revelado coragem política e inspirado admiração, também é verdade que permitiu os queijos limiano. E talvez devêssemos pensar no seguinte: quereríamos mesmo um parlamento em que todos fossem indisciplinados partidários?
14.3.09
E o melhor do mundo são as crianças (e são mesmo)
Vamos menos ao cinema, saímos menos à noite, lemos menos, vemos menos telejornais. Até ao dia em que estas coisas voltam mais ou menos ao normal. Enfim, ter filhos pequenos é uma espécie de criopreservação das células culturais.
13.3.09
Poderá isto acontecer a qualquer um?
Oiço de manhã na rádio a notícia da morte de uma criança de poucos meses que o pai se esquecera no carro. Fiquei, como todos, angustiado com o caso. Penso naquele pai e em como será viver com tamanho sofrimento. Leio a notícia e fico a pensar se, do pouco que se sabe, não poderá ter sido este homem uma trágica vítima das circunstâncias: trabalhar ao lado do berçário; a pressa daquele dia; talvez a pressa de todos os dias; toda a espécie de problemas que podem roubar a atenção de uma pessoa. Leio os especialistas dizerem que este homem deverá ter concerteza algum problema psicológico para ter agido daquela maneira. Fico, no entanto, incomodado com tanta certeza. E penso, com um gigantesco nó no estômago, se, verificadas umas quaisquer malditas circunstâncias, não poderia isto acontecer a muitos de nós.
Os poderes do Presidente
Síntese da crónica de hoje de VPV: com Cavaco em Belém, a Presidência não serviu para nada. Este facto é, no entanto, fiel a uma das regras do semi-presidencialismo: a secundarização da presidência quando o Governo, de uma côr política diferente, é apoiado por uma maioria parlamentar confortável. É por isso que há quem considere que, nestas conjunturas, o sistema de governo se torna parlamentar, com o Presidente a desempenhar um papel próximo da irrelevância. Concordo genericamente com a existência de uma tendência de apagamento do papel do Presidente quando o Executivo controla o Parlamento. Porém (porém, no entanto, todavia, contudo), esta tendência pode ser quebrada, haja vontade e, sobretudo, habilidade por parte do PR. Por mais irrelevante que pareça, o Presidente mantém sempre ao seu dispor um conjunto importante de poderes formais, dos quais o direito de veto e o poder de dissolução serão os mais relevantes. Além disso, existem poderes aparentemente insignificantes que, em determinadas circunstâncias, podem ser potenciados. Acresce ainda os poderes informais com que os presidentes podem tentar ganhar influência. A história portuguesa tem disto alguns exemplos, destacando-se a muito glosada magistratura de influência de Soares, de cujo expoente máximo terão sido as presidências abertas. Mas, se olharmos para Leste, para sistemas semi-presidenciais com algumas parecenças com o nosso (Polónia, Bulgária ou Roménia), podemos encontrar muitos outros exemplos de como os presidentes procuraram adquirir influência política, dentro e fora das respectivas constituições.
12.3.09
Formas de Portugal, regionalização e outras coisas que gostava de compreender
Portugal é um pequeno país comparado com os restantes países europeus? Não. E em termos de população? Também não. Esta é uma das conclusões a que chega Manuel Lima, num dos vários exercícios que se encontram disponíveis no muito interessante Formas de Portugal. Manuel Lima foi recentemente considerado por uma revista americana como uma das 50 mentes mais criativas e influentes de 2009, a par de personalidades como David Fincher, Jeff Bezos (fundador da Amazon) ou David Axelrod. O seu mais recente trabalho de investigação está disponível em VisualComplexity.com e consiste numa compilação de centenas de projectos de visualização de redes complexas, em áreas como a biologia, redes sociais, Internet, transportes, etc. Fui espreitar o site e do seu conteúdo apenas posso dizer que é fascinante, embora (ainda, ou assim espero) tenha percebido muito pouco do que lá está.Voltando ao Formas de Portugal, num outro exercício, este dedicado às divisões administrativas de Portugal, podemos ver que “a distribuição dos distritos portugueses é bastante homogénea, sendo que o maior distrito (Beja) é apenas 4.6 vezes superior ao menor distrito (Viana do Castelo), o que comprova em parte a desadequação à actual estrutura do país, que apresenta uma distribuição da população e do PIB em nada semelhantes”. Esta é, aliás, uma das razões para a necessidade de uma reorganização administrativa do país (e em nome da qual se têm feito alguns progressos, como a aprovação de uma nova lei do associativismo municipal) e, naturalmente, da regionalização.
11.3.09
Futebol de Causas
Este documentário, realizado por Ricardo Antunes Martins, é sobre a Académica e, a partir do caso da final da Taça de Portugal de 1969, no Jamor, reflecte sobre a forma como este clube esteve ligado às questões políticas e sociais que desembocaram na crise de 69 e, de certa forma, constituiram um prenúncio do 25 de Abril. Enfim, I looked at the trailer e fiquei com curiosidade de ver mais.
Chico Buarque (Trocando em miúdos)
Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim ?
Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
Etiquetas:
Chico Buarque
10.3.09
Thank you speech

Não posso deixar de agradecer a simpatia de todos os que assinalaram a existência deste blog, como aqui, aqui ou mesmo (quem diria) aqui. Em especial, fiquei sensibilizado com a referência, ainda que em termos excessivamente generosos, feita aqui. A todos, muito obrigado.
ps: um obrigado também ao link para este blog que foi feito aqui
Não sou eu que penso assim, é o povo
“António Costa resolveu suicidar-se, marcando obras para o Terreiro do Paço em ano de autárquicas e apenas meses após as infindáveis obras do túnel do metro na praça terem chegado ao fim. Diariamente, do Marquês para baixo e da 24 de Julho a Santa Apolónia, milhares de automobilistas perdem horas e paciência a contornar o eterno estaleiro do Terreiro do Paço”.
“Na hora do voto, o que os lisboetas vão pensar é simples: este [Santana Lopes] sempre fez o túnel do Marquês; aquele não fez nada, senão acrescentar o caos.”
Portanto, destes excertos da crónica de Sousa Tavares (Expresso de sábado passado) devemos retiramos o seguinte:
1) Um presidente de câmara devia ajustar o timing das intervenções necessárias à cidade em função das eleições;
2) De pouco serve, por exemplo, a um presidente da câmara sanear as finanças do município, saldar uma parte da monumental dívida (herdada) aos fornecedores, regularizar a situação laboral de centenas de trabalhadores em situação precária ou ilegal, se não tiver pelo menos uma obra de betão (quanto maior, melhor) que possa ser usada pelos comentadores da praça para sintetizar o mandato. Infelizmente, o critério do betão parece ser o que ainda prevalece na avaliação que estes fazem dos mandatos políticos autárquicos.
“Na hora do voto, o que os lisboetas vão pensar é simples: este [Santana Lopes] sempre fez o túnel do Marquês; aquele não fez nada, senão acrescentar o caos.”
Portanto, destes excertos da crónica de Sousa Tavares (Expresso de sábado passado) devemos retiramos o seguinte:
1) Um presidente de câmara devia ajustar o timing das intervenções necessárias à cidade em função das eleições;
2) De pouco serve, por exemplo, a um presidente da câmara sanear as finanças do município, saldar uma parte da monumental dívida (herdada) aos fornecedores, regularizar a situação laboral de centenas de trabalhadores em situação precária ou ilegal, se não tiver pelo menos uma obra de betão (quanto maior, melhor) que possa ser usada pelos comentadores da praça para sintetizar o mandato. Infelizmente, o critério do betão parece ser o que ainda prevalece na avaliação que estes fazem dos mandatos políticos autárquicos.
Aprender com as crianças
- Papá, que estás a fazer?
- A fazer a barba, não vês?
- Não, tu estás é a desfazer a barba. Percebes?
- A fazer a barba, não vês?
- Não, tu estás é a desfazer a barba. Percebes?
9.3.09
Uma vez mais, Obama (e o elogio da franqueza)
Questionado numa entrevista sobre se os EUA e os aliados estão a ganhar a guerra no Afeganistão, Obama responde com um inequívoco "não". Barack Obama continua - agora que é a valer e a posse foi tomada - a surpreender pela franqueza e clareza com que assume as sua posições. Dir-se-á - e com alguma razão, suponho - que não é assim tão difícil reconhecer os problemas herdados dos outros. Difícil é admitir os próprios erros e limitações e só daqui a 4 anos, quando fizer o balanço do seu primeiro (sim, antes do segundo) mandato, é que poderemos ver se Obama é assim tão diferente. Até lá, é justo reconhecer que a forma como Obama explicou e assumiu a responsabilidade pelas várias trapalhadas que marcaram a constituição do seu gabinete não é habitual em política e faz-me antecipar o melhor.
8.3.09
Obama dá luz verde à investigação com células estaminais embrionárias
Mais um crime da Administração Bush a que Obama pôs fim.
7.3.09
Para quem tem mais olhos que barriga, hi hi hi hi...
* cartaz de 2008A Monstra é um excelente festival de cinema de animação. Um pouco por acaso, tive a sorte de ter ido a uma das suas primeiras edições (já lá vão uns 8 anos), no teatro Taborda, onde, se não me engano, Jiri Barta e Jiri Trinka eram os homenageados. Este último facto parece ser de pouca relevância mas não é todos os dias que nos surge a oportunidade de escrever o nome de dois mestres da animação checa (saravá, Vasco Granja). Isto a propósito do seu site. O festival, que entretanto se foi profissionalizando, começa depois de amanhã e ainda se encontram em branco partes do programa, como a Monstrinha, dedicada aos mais novos. Com alguma surpresa, acabo por encontrar alguma coisa não no site oficial mas aqui. Já agora, faz algum sentido que a quase totalidade destas sessões seja em horário de trabalho - que têm como alvo as escolas, suponho - e praticamente não haja sessões a horas a que os pais possam ir com os filhos?
6.3.09
Defesa da bipolarização
Imaginemos por um momento que o PS não tinha tido a maioria dos votos em 2005, mas a direita (PSD sozinho ou PSD+CDS/PP). De acordo com a esquerda mais radical teríamos tido, de um modo geral, as mesmas políticas. Agora esquece-se de dizer o que, seguramente, nunca teríamos tido: a lei que descriminaliza a IVG (pois não teria havido referendo); a lei da paridade; a lei da procriação medicamente assistida; o maior aumento do salário mínimo de há muito; uma reforma da segurança social que recusou a ideia de entregar uma parte das reformas aos privados; o alargamento do abono de família; o complemento solidário para idosos; a lei da nacionalidade, que permitiu a legalização de milhares de cidadãos estrangeiros; a nova lei do divórcio; o aprofundamento dos direitos das uniões-de-facto, entre muitos outros exemplos.
Em suma, e admitindo (sem conceder, como se costuma dizer) a leitura que esta esquerda faz da globalidade da governação socialista, seria, se bem percebo, ter aquilo que consideram negativo (e, provavelmente, numa versão ainda pior) sem as políticas com que se identificam. E é com isto que, goste-se ou não, uma parte do eleitorado de esquerda vai ter de se confrontar nas próximas eleições legislativas.
Em suma, e admitindo (sem conceder, como se costuma dizer) a leitura que esta esquerda faz da globalidade da governação socialista, seria, se bem percebo, ter aquilo que consideram negativo (e, provavelmente, numa versão ainda pior) sem as políticas com que se identificam. E é com isto que, goste-se ou não, uma parte do eleitorado de esquerda vai ter de se confrontar nas próximas eleições legislativas.
5.3.09
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