8.4.09

Confusão

Pedro Sales, neste texto, faz uma enorme confusão entre liberdade de voto (que deve ser excepcional, em benefício da disciplina partidária) e liberdade em se exprimir posições diferentes das do partido. São coisas distintas. Não há, por isso, qualquer contradição entre a defesa destes dois princípios, que podem coexistir pacificamente. E, a meu ver, é esta a forma mais democrática de se fazer política partidária.

Vergonhoso?

No debate quinzenal com o primeiro-ministro, Paulo Rangel acaba de defender a ideia peregrina de que, a poucos meses das eleições, um Governo deveria considerar diminuída a sua legitimidade para lançar grandes obras (mesmo que essas obras constem, como é o caso, no programa eleitoral do PS), numa espécie de passagem automática a um governo de gestão, pelo simples decurso do tempo, conceito não apenas estranho mas contrário à Constituição. Paulo Rangel considerou mais, que o lançamento dessas obras é um acto “vergonhoso”. Não direi vergonhoso mas lamentável o contorcionismo argumentativo a que o líder parlamentar do PSD se presta apenas para se fingir chocado com a actuação do Governo. Há no mercado das ideias políticas dissenso suficiente para o PSD se distinguir do PS, sem ter de procurar, em permanência, essa distinção no plano moral.

Calaceiro

calaceiro adj. s. m.
1ª pess. sing. pres. ind. de calaceirar

calaceiro

adj. s. m.
1. Mandrião; frascário.
2. Pessoa que corre à procura do que gosta.

calaceirar - Conjugar

v. intr.
O mesmo que calacear.

Antigamente é que era bom

O DN de hoje recorda-nos um momento de bom vernáculo parlamentar entre o então deputado Francisco Sousa Tavares e Jerónimo de Sousa, na altura em que este ainda era um “badameco” (DAR 1190, I SÉRIE – N.º 54, de 18-02-1982), decorria o ano de 1982. Disse Sousa Tavares, em reacção a expressões do deputado comunista que considerou ofensivas: “Olhe, vá à merda! Idiota! Mandrião! Vá trabalhar, que foi aquilo que nunca fez na vida! Calaceiro!". Uma pesquisa pelo termo “merda” no Diário da Assembleia da República permite-nos uma descoberta interessante: aparentemente, apenas na I e na II legislaturas (i.e, de 1976 a 1983) esse termo foi usado, ainda que com moderação (uma vez na I e três vezes na II Legislatura – duas por Sousa Tavares e uma por Mário Tomé). Face a isto, hesito entre duas conclusões: ou os nossos deputados ficaram, como alguns diriam, mais educados ou os diaristas do Parlamento ficaram mais puritanos.

adenda: palhaço, idiota e imbecil, adjectivos bastante populares nos anos 80, têm hoje bastante menos sáída.

7.4.09

Da inversão do ónus da prova e não só

Enquanto Vasco Pulido Valente se entretém com imaginárias ameaças à liberdade dos cidadãos, no Hoje há Conquilhas fala-se do que verdadeiramente nos deveria preocupar.

Leis que fazem toda a diferença

Aborto: infecções e perfurações de órgãos deixaram de existir com nova lei.

As minhas músicas (já que inventaram tudo estes romanos, não podiam ter também inventado o zero?)

A cumprir escrupulosamente a receita médica, entretenho-me a revisitar mentalmente as músicas que mais me marcaram e as diferentes fases por que passei. Noto que ter um gosto musical muito pouco heterogéneo tem pelo menos uma vantagem: é fácil de resumir sem ter de deixar nada de significativo de fora. As imagens e os sons surgem nitidamente mas por ordem não cronológica. E é por essa ordem aleatória (bonito e banal oxímoro) que tent(ar)ei traduzi-los em posts. No final, tratarei de recolher e ordenar os cacos.

Diplomacia de princípios

Era uma matéria mais discreta na agenda do Presidente norte-americano mas era também uma das mais espinhosas e delicadas. A forma como Obama lidou com a questão do genocídio arménio pelos turcos no início do século XX, no final do império otomano – genocídio que, em campanha, disse que iria reconhecer quando eleito –, revelou o melhor que a diplomacia pode oferecer: a conjugação de uma política de princípios com as necessidades a que os mais cínicos chamariam de realpolitik, mas que passa também por, neste caso, dar prioridade à efectiva reaproximação destas duas nações e não tanto a meras declarações proclamatórias, por mais justas que sejam. As declarações de Obama na Turquia parecem, assim, ter agradado a turcos e arménios, numa prova de grande habilidade diplomática, como se enaltece aqui. Bem diferente do pessimismo veiculado aqui.

6.4.09

Damn you ABBA

Quando já nada o fazia prever, dou por mim a ver o “Mamma Mia” na sexta-feira passada. Tremenda imprudência. Desde então, não paro de ouvir, neste infinito ipod que é o nosso cérebro, o “Dancing Queen”, num enlouquecedor modo repeat.

5.4.09

As minhas músicas I

Acho que tudo começou com o que se ouvia em casa, que era fundamentalmente Música Popular Brasileira, sobretudo - são os que me lembro melhor - Chico Buarque, Vinicius, Bethânia e a menos erudita e mais popular Alcione. Não gostava nem deixava de gostar. Estava lá. Como uma espécie de banda sonora da minha infância.

4.4.09

As minhas músicas XI

Poderia ter sido um daqueles momentos de viragem e ter começado aí a minha verdadeira educação da música jazz. Mas não foi. Havia gosto e entusiasmo. Mas também muita preguiça. E um certo conservadorismo, uma resistência natural por músicas e autores novos, que hoje se mantém. E assim fui-me mantendo, auto-suficiente com o Miles Davis e pouco mais, que ouvi quase até à exaustão. O “Giant Steps”, do John Coltrane. O “Money Jungle”, do Duke Ellington. Dois do Dizzy Guillespie (o outro era o “Diz and Stan”).E um duplo CD, organizado pelo José Duarte, que desgraçadamente perdi, que continha uma sinopse do melhor Jazz de sempre, entre os quais constava o magnífico “Night in Tunisia”, tema que conhecia apenas na excelente versão improvisada do Bobby Mc Ferryn.

As minhas músicas X

E depois, tinha eu uns 18 ou 19 anos, quando mão amiga me ofereceu o “Kind of Blue”, do Miles Davis. Sempre tinha gostado de Jazz mas era um gosto difuso. Entusiasmava-me quando ouvia mas não conhecia quase nada e o que conhecia era secundário. Como Joshua Redman. Por isso, quando o ouvi foi como uma espécie de revelação. Como se, pela primeira vez, me tivessem dado acesso à prateleira onde estavam os livros dos crescidos. Pa ran pa ran pa ran, pa ran pan, paan pan.

Mais um momento Homer Simpson

Pior mesmo do que ter insónias é tentar evitá-las


Oiço na rádio (TSF, creio) uma médica dar conselhos sobre como acabar com as insónias. Sugere que, sobretudo ao serão, se evite: ingerir cafeína, bebidas alcoólicas, fumar nas 6 horas anteriores a ir para a cama, ver TV, fazer exercício físico. E ainda: esforços intelectuais (como estudar) e ler.
No final do programa oiço-a dizer: “se estiver com insónias, levante-se e vá ver televisão, leia, até ficar ensonado e poder voltar para a cama”. Bastante divertido este programa.

Valeu a pena

a denúncia firme, por parte dos principais partidos políticos, de uma situação que, não sendo ilegal, ultrapassava todos os limites da ética política, sendo justo reconhecer que, se o ar nesta latrina (salvo seja) ficou, ainda que microscopicamente, um pouco mais respirável, isso se deve, em grande parte, a José Sá Fernandes.

3.4.09

Trocando por míudos

Relativamente aos pequenos partidos, foi isto que eu tentei dizer aqui. Só que usei mais caracteres. É assim, sou um pródigo.

"Se o eurocepticismo hoje está desactualizado perante os desenvolvimentos económicos internacionais é importante compreender porque é que o PCP e o BE se assumem enquanto tal. Este eurocepticismo é em certa medida ideológico, mas também é estratégico. (…) Mas nem todo o eurocepticismo é assumido por princípio. Ele também é usado estrategicamente: (…) para congregar apoios de todos aqueles que se sentem insatisfeitos com o governo nacional."

Marina Costa Lobo, O eurocepticismo do PCP e do BE (via Câmara Corporativa)

1.4.09

A minha pescadinha de rabo na boca ou uma evidente lapalissada


Se bem compreendi o que aqui se diz (Margens de Erro), recorrendo a um excerto do artigo "Punishment or Protest? Understanding European Parliament Elections", de Simon Hix e Michael Marsh, nas eleições para o Parlamento Europeu os eleitores optam quase sempre por utilizar o voto como forma de punir o Governo em exercício no seu país. Isto traduz-se numa distorção do que deveriam ser estas eleições: uma forma de adesão ou não às posições dos partidos sobre as principais matérias europeias, assim como uma avaliação do desempenho dos deputados europeus cessantes e da confiança que merecem os novos candidatos. Como aquele estudo refere, esta ligação entre os eleitores e os deputados europeus é muito fraca. Este artigo também diz que os pequenos partidos são os mais beneficiados neste processo. E que, ainda que tenuemente, as posições antieuropeias tenderão a ser premiadas.

Ou seja, admitindo que os partidos podem fazer alguma coisa no sentido de contrariar a correlação descrita e considerando a responsabilidade dos partidos na condução da campanha e na definição da sua agenda, interessaria ao Partido Socialista, enquanto partido de governo, centrar o debate político nas questões europeias e não nas questões domésticas. Esta situação seria também a que deveria interessar mais na perspectiva do desejável reforço daquela ligação entre o mandato democrático europeu e o voto dos cidadãos. No entanto, do lado dos outros partidos, sobretudo dos mais pequenos, é-lhes favorável precisamente o contrário: centramento (esta palavra não surge no dicionário da Texto Editora, não sei porquê) da discussão nas questões internas e, referindo-se às matérias europeias, utilização de um discurso mais anti-europeu (ainda que muitas vezes o possam fazer de forma ambígua).

Fiquei com uma dúvida: aos grandes partidos mas que não estão no Governo, como o PSD, o que lhes interessa?

Dias Loureiro, num conto absurdo tipicamente gogoliano

Comemoram-se hoje os 200 anos do nascimento de Nicolai Gogol (ano de luxo, este). Numa das suas principais obras, o “Nariz”, essa hilariante sátira, o major Kovaliov acorda um dia, perplexo, ao perceber que o seu nariz tinha fugido. Mais tarde, foi encontrá-lo disfarçado na pessoa de um Conselheiro de Estado. Para grande consternação do major, o dito Conselheiro de Estado acabou, uma vez mais, por se esquivar depois de este o ter abordado. De facto, é só mesmo procurar nos russos: está lá tudo.