20.4.09

Esquizofrenia mediática

Todos os dias os media declaram que estamos a viver a pior crise económica desde, provavelmente, a Grande Depressão dos anos 30 do século passado. No entanto, todos os dias parecem estar à espera da notícia de que a retoma já começou.

A tensão democrática


As declarações de Cavaco foram críticas? Acho muito bem. Concordando ou não (e não concordo, genericamente) com o seu teor, a figura do Presidente também serve para fazer política. Aliás, é legítimo e positivo que o faça, atendendo à legitimidade que lhe advém da sua eleição por sufrágio directo e universal. O Governo reagiu, discordando, das críticas? É normal, sobretudo quando são diferentes as linhas político-ideológicas que professam. Isto é mau para a democracia? Não. Voltamos sempre a isto, parece que muito do nosso jornalismo e opinionismo não vê a crítica, a controvérsia, a polémica, o contraditório, como naturais em - e à - democracia. Como se fosse uma patologia desta e não fosse assim que ela se enriquece e se cumpre plenamente. A sua ausência é que nos remete para uma ideia de passado, em que a discórdia era anátema.

19.4.09

Corrupção, ai eu sou contra


Ou temos andado entretidos com questões acessórias ou distraídos com o que não importa. Jornalistas, colunistas, especialistas e políticos tornados especialistas vêm frequentemente a público avisar-nos que temos andado a trilhar o caminho errado no combate à corrupção. Subentendido está sempre que a corrupção está como está porque não se fez o que propunham ou, pior, que não se fez não se sabe o quê que insinuam que (eles e todos nós) sabem mas que nunca é dito. Por detrás disto está uma terrível demagogia, que consiste em fazer passar a ideia de que o fim da corrupção depende apenas da vontade de quem está no poder e do pretenso poder milagrento dos seus decretos.

18.4.09

A Igreja sempre teve uma certa queda para o humor


"Será verosímil que um nabo se esforçe por se tornar um homem?", indagava Samuel Wilberforce, bispo de Oxford, em 1860, pouco depois da publicação de "A Origem das Espécies", de Darwin

A franqueza é algo claramente sobrevalorizado

"O teu blog é um bocado seca", confidenciava-me, há momentos, um leitor.

Porque isto das indignações também tem dias



Menos dado a indignações, hoje seria menos tremendista (que exagero, aquele post) e diria, em tom nitidamente menos preocupado, que foi apenas néscia a actuação dos serviços jurídicos que fizeram aquela esdrúxula (por pouco não escrevia isto com um x) interpretação, que se auto-ridiculariza a si mesma.

Agência dos EUA considera que o CO2 é um poluente

Apesar das agruras da crise económica, esta notícia deve ser saudada e as preocupações que a motivam deveriam constituir uma prioridade de todos os governos. Que esta crise internacional não nos distraia a todos desta necessidade.

Modelo Nórdico

A sesta poderá vir a ser obrigatória na Dinamarca. A medida foi adoptada em 1800 empresas e, para já, será apenas aplicada a título experimental. A sesta será remunerada e não poderá ultrapassar os vinte minutos diários. Foi ainda consagrado o direito a um dia de baixa por morte de animais domésticos.

17.4.09

Ceci était une pipe





Depois de terem feito o mesmo com Sartre e Malraux, o fascismo higienista continua, como o bicho da madeira - lentamente mas com um sentido trágico de inexorabilidade -, a carcomer as nossas democracias.

Desta vez foram os serviços jurídicos do Ratp e Sncf (metro e comboios) que, peregrinamente, acharam que o cachimbo de Tati que ilustra a exposição sobre o cineasta na Cinemateca Francesa atentava contra a lei Evian, que proibe a publicidade, directa ou indirecta, ao tabaco. O resultado é o que se vê em cima, tendo ainda o responsável da exposição tentado argumentar que o cachimbo de Tati nunca tinha sido aceso (mas que importa isso!).

16.4.09

Back to the basics


O último inquérito Eurobarómetro diz-nos que apenas 34% dos eleitores da UE pretendem votar nas próximas eleições para o Parlamento Europeu. Quanto a Portugal, o desinteresse parece ser ainda maior. Apenas 24% se manifestam dispostos a ir votar. Uma maioria dos inquiridos portugueses (56%) diz “não ter interesse” por esta eleição. Uma esmagadora maioria (71%) confessa “não conhecer razoavelmente o papel do Parlamento Europeu”. E uma igualmente impressiva maioria (72%) considera “não estar suficientemente informado para ir votar”. Na mesma página do Diário de Notícias onde leio esta notícia consta a informação de que o Estado, através do Instituto da Juventude e do Ministério da Administração Interna, pretende, através de SMS, sensibilizar para o voto os 300 mil novos eleitores cujo recenseamento ocorreu automaticamente.

Os dados do Eurobarómetro permitem especular se o principal obstáculo ao exercício do direito de voto nestas eleições não consistirá, em primeira instância, na enorme ignorância sobre o fundamental do que está em causa nestas eleições, a começar pelo papel desempenhado por este órgão na política comunitária. E isto combate-se através de informação, destinada a eleitores que, assumidamente, conhecem muito pouco sobre aquilo que são chamados a votar. Esta componente não devia ser descurada pelas campanhas dos diversos partidos. A discussão em torno do Tratado de Lisboa e da forma como se deve organizar o poder no seio da UE poderia constituir uma boa oportunidade para esta pedagogia. Se esta não for feita, está-se apenas a tentar incentivar as pessoas a irem votar em algo que desconhecem, o que não augura grandes possibilidades de sucesso.

Claro que o melhor era que este trabalho fosse feito, com as devidas adaptações, a este nível (com a devida vénia pelo exemplar trabalho que a ex-juíza do Supremo Tribunal dos EUA tem feito nesta área).

14.4.09

Preocupações

Hoje foram conhecidos indicadores preocupantes. Mas não os que interessam a Sócrates este ano. Eram indicadores económicos, não era a última sondagem.

Outros parecem ver nas notícias da crise apenas mais uma oportunidade para atacar o primeiro-ministro. É apenas isto que parece, muitas vezes, preocupá-los.

Variações de Goldberg, BWV 988

Bach-Werke-Verzeichnis ("Catálogo de Obras de Bach" em alemão) é o sistema de numeração usado para identificar obras musicais de Johann Sebastian Bach, agrupadas tematicamente, não cronologicamente. Mas claro, BWV, Bach-Werke-Verzeichnis. Como pude não perceber!

Critérios

Acho curioso que, numa época em que existe tanto jornalismo opinativo ou interpretativo, alguma imprensa sinta necessidade de usar aspas (citando) para qualificar como obscena a campanha que colaboradores de Gordon Brown estavam a preparar para caluniar a liderança conservadora.

13.4.09

Histórias


Há tempos, contaram-me que os americanos tinham enviado para o espaço uma colecção com obras representativas do melhor que o ser humano foi capaz de fazer no século XX. Ícones da cultura terrestre do século passado para um eventual encontro imediato de terceiro grau. Ou então seria para salvar estes marcos culturais de uma possível catástrofe, nomeadamente nuclear. Já não me recordo mas esta última parece fazer, mesmo assim, mais sentido. Onde é que eu tinha a cabeça! Bem, disseram-me que um desses ícones era o sublime “Variações de Goldberg”, de Bach, interpretadas pelo excelso Glenn Gould. Tendo procurado saber um pouco mais sobre esta obra, assim como sobre o magnífico intérprete canadiano, não encontrei uma única referência a esta viagem espacial. Fui então ao grande oráculo do século XXI e o resultado foi o mesmo, o que, se não elimina, diminui drasticamente as possibilidades da história ter, efectivamente, ocorrido. Pior para os alienígenas. Melhor para mim, que ganhei uma bela história.

Sinal dos tempos II



Julgo que a forma de uma pessoa se vestir deve, tal como os bons dias quando chegamos de manhã ao trabalho, ficar na disponibilidade e ao livre arbítrio de cada um, que optará, ou não (e neste caso sujeitando-se à eventual censura social), por se acomodar a estas regras de convivência social. Apesar de tudo, nestas situações confio mais na sensatez destas regras e na margem que concedem para acomodar a diferença e a excepção do que na rigidez da norma administrativamente imposta.

12.4.09

Sinal dos tempos

Manuel Alegre reagiu, e bem, à imposição de regras de vestuário na Loja do Cidadão de Faro, dizendo que “é uma coisa de cariz fascizante, totalitário, contra a liberdade individual”. Mas acrescenta um alerta "para um clima cultural que está a tomar espaço no país". E frisa que “estas coisas são sinais” e “multiplicam-se estes sinais”. Isto é que tenho mais dificuldade em aceitar, pois episódios destes têm sido frequentes em democracia, como aconteceu há uns anos com as regras de vestuário que um banco (a CGD?) tentou, ou conseguiu mesmo, adoptar, e que ia ao ponto de definir a cor das meias que os homens deviam usar. E quem andou em faculdades públicas como, por exemplo, ali para os lados do Campo Grande, na área das ciências, digamos, jurídicas, sabe bem que estes são sinais, mas de tempos que vêm de longe.

Fim-de-semana nas cordas II

Fim-de-semana nas cordas (arigato)