12.11.09

Muitos portugueses não acreditam que os preços estão a cair

... pode ler-se aqui. Instada a comentar a notícia, Manuela Ferreira Leite terá dito: "Não interessa se os preços estão a cair ou não. Interessa é que os portugueses não acreditam que estejam".

Da natureza humana

Circulo de carro pela cidade em hora de ponta, embora com trânsito tolerável. De repente, um semáforo cria uma pequena bicha para quem deseja virar à direita, deixando, no entanto, desimpedida a faixa da esquerda – destinada aos que pretendiam seguir em frente. Ao abrandar perante a fila, penso em ultrapassar este obstáculo pela desabitada faixa da esquerda, tentando regressar à minha faixa mais perto do semáforo. Hesito por um segundo. Desisto. “Isto não se faz”, assevero, ainda envergonhado pela ocorrência de tal ideia. No mesmo instante, dois carros guinam à esquerda, ultrapassam a bicha e voltam a penetrar com sucesso mesmo em cima da almejada curva. “Inacreditável”, declaro, furioso. “Que falta de civismo”, continuo, indignado. “Esta gente…”.

Angústias da democracia

Constato com angústia o que me parece ser uma inevitabilidade da vida democrática moderna. Há momentos em que um partido, sobretudo quando apoia o governo, se confronta com o seguinte dilema: manter-se irredutível na defesa de princípios que considera não admitirem qualquer transigência. Ou ceder face ao que vai passando como a opinião do grande público, demagogicamente instigada e cavalgada por alguma oposição, mas que, por isso mesmo, tem efeitos negativos na imagem e na credibilidade do governo e do partido que o apoia. Qual o caminho que se espera que um governo responsável adopte?

11.11.09

"Andando", de Hirokazu Koreeda


Aos poucos a minha vida recupera alguns fragmentos de normalidade. Anteanteontem fui ao cinema (ena, ena, viva, a vida é bela) ver um magnífico filme. Sobre uma família. Sobre a família. Pais e filhos, expectativas de uns e de outros; em relação a si e aos outros. Frustração, decepção, ressentimento, arrependimento e saudade (enfim, todo o catálogo de sentimentos que uma família arrasta). Saudade que dói, que já não faz lágrimas e nos torna apenas cruéis para com os outros. Apenas não. É crueldade que somos levados a compreender, ou até mesmo a desculpar. Crueldade que também parece uma forma de terapia, para viver o resto do ano sem o filho que se perdeu. Perda de um filho que, para Chico Buarque, é a própria definição de saudade: “A saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto. Do filho que já morreu”. No final - pode parecer estranho - pareceu-me que o filme era, no essencial, sobre o amor. Embrulhado em amor. Amor coxo, por vezes mal-agradecido, por vezes injusto, mas amor. Que surge nas pequenas coisas e nos pequenos gestos. Blá, blá, blá. Amor que faz bem e mal ao mesmo tempo. Que enternece mas que também cria as sementes da dor (como o avô, figura distante, que tenta convencer o neto a tornar-se médico, como fez com um dos filhos, que, no entanto, carrega, em adulto, o peso da frustração ou da culpa por ter desiludido os pais). Blá, blá, blá. Já ontem tinha desistido de escrever esta xaxada. Achei que hoje iria estar mais inspirado. Enganei-me. Bem, era só para dizer que fui ao cinema.

Coisas que tenho o direito de saber de alguém que se candidata a governar o país

Entram ilegalmente pela casa adentro de uma figura pública (um político, para facilitar). Sem mandado judicial, por exemplo. E que descobrem sei lá o quê que pode configurar uma situação de crime. Apesar de obtida ilegalmente, essa informação passa para os jornais. Considera a Dr.ª Ferreira Leite que a pessoa que foi alvo de buscas ilegais tem o dever de prestar esclarecimentos públicos sobre o assunto? É que, aos meus olhos, isto sim é a suspensão da democracia. Não por seis meses. Apenas suspensão. Sem ironias.

Eu não quero dizer que MFL não respeita a democracia


... mas quem diz isto ("As dúvidas não se resolvem destruindo provas") não pode respeitar a democracia. Quem não respeita a lei; quem não respeita o processo; não pode respeitar e compreender a verdadeira natureza do estado democrático.

ps: dúvidas e pedidos de aconselhamento sobre democracia e a sua verdadeira natureza para o mail supra infra ali ao lado.

Para que é que precisamos de deputados se temos o forum da TSF?

Manuela Ferreira Leite declara, no Parlamento, que os deputados devem trazer para a Assembleia da República a voz da opinião pública.

Eu não quero dizer que Ferreira Leite está a utilizar rasteiramente o populismo mediático mas...

Na SICN, um penalista defende que o Código do Processo Penal apenas impõe autorização prévia do presidente do STJ às escutas que visem o Presidente da República (PR), primeiro-ministro (PM) ou presidente da Assembleia da República (PAR). Já se estas escutas forem direccionadas a terceiros mas que, incidentalmente, apanhem conversas com aqueles representantes de órgãos de soberania aí já vale. Ou seja, se houver uma determinada suspeita ou indício específico de conduta penalmente relevante quanto ao PM, PR ou PAR, é necessária a autorização. Se nem sequer existir essa suspeita ou indício, então não há problema. Ou seja outra vez, nesta hipótese dispensa-se não apenas a exigência da autorização do presidente do STJ como também a existência de um qualquer indício prévio que justifique a escuta. Fica, desta forma, entreaberta a porta a que se escute o PR, PM ou PAR, sem qualquer controlo prévio acrescido, bastando-se para tanto encontrar a pessoa certa das suas relações com quem mantenha um contacto regular. E convém sublinhar que a maior exigência para as escutas aos representantes destes órgãos de soberania visa proteger não as pessoas que ocupam transitoriamente aqueles cargos mas todos nós e a segurança do Estado e da governação.

ps (com adenda): na tribuna parlamentar - onde está neste preciso momento -, Manuela Ferreira Leite continua a cavalgar a mais pura demagogia justicialista. "Não nos devemos imiscuir nos assuntos da justiça mas...". Outro momento alto de MFL aqui.

9.11.09

Não é nada contra o Porto ou o brilho, a cor e a muita animação

Mas suspeito que anda para aí alguém a ver se me trama (not that there's anything wrong with that):

Mas este Porto Pride foi mais: treze actuações de transformismo divididas em dois blocos animaram presentes que disfrutaram do trabalho destes artistas que, voluntariamente, levam a este evento brilho e cor, e muita animação. No primeiro bloco tivemos Elsa Martinelli, Nani Petrova (Boys'R'Us), Roberta Kinsky (Boys'R'Us), Lady Slim (Boys'R'Us), Tiago Tib (Miss Porto Pride 2009), Natasha Semmynova e Diana Prince.

STASI



Um relato fundamental sobre o funcionamento de um dos instrumentos que tornavam o lado de lá do muro num lugar mais justo, mais igual, menos perigoso e mais democrático.

O instinto político de JAS

O Muro de Berlim tinha caído. Não havia voos disponíveis para Berlim. Mas José António Saraiva, à data director do Expresso, considerava* que a queda do muro não era notícia de primeira página...

* via a Pluma Caprichosa, de Clara Ferreira Alves, do último sábado.

5.11.09

Ocorreu-me...

Astérix, Obélix, Bagão Félix.

Programa do Governo e mistificações

O líder parlamentar do BE, que está neste momento a fazer a sua primeira intervenção no plenário, acaba de dizer (ou de repetir, pois não é o primeiro a fazê-lo) que o Programa do Governo nada diz acerca do combate à corrupção, a não ser uma singela referência ao "combate à existência dos paraísos fiscais". É curto, reclama o líder do bloco. Concordo. Só que não é verdade. Poupo no verbo. É ver a página 108 e 109 do programa. Ou procurar o ponto 2 do Capítulo VII, com o título (um pouco equívoco, talvez) de... "combate à corrupção". Disponível aqui. Roger, over and out.

4.11.09

Negociar consigo próprio

O mais insólito na reacção dos partidos da oposição ao facto de o governo ter transformado o seu programa eleitoral em programa do governo é o facto de, na ausência de uma negociação entre as diversas partes (e nem interessa aqui saber de quem é a responsabilidade), ser suposto que o PS fosse, sozinho, escolher quais as propostas da oposição a incorporar no seu programa. O resultado seria, imagino, qualquer coisa como isto (os mais impacientes podem ir directo ao min. 0:45):

Pescadinha de boca no rabo


Consideram os estudiosos que um dos poderes que acentua a vertente parlamentar de um sistema de governo é a possibilidade de os executivos responderem perante a câmara parlamentar e, consequentemente, poderem cair por falta de confiança desta.

Numa situação de maioria relativa o parlamento ganha importância. A esta importância não será de todo estranha a possibilidade de poder usar a sua bomba atómica e fazer cair o Governo. Sucede que a queda antecipada de um governo é quase sempre interpretada como um factor de indesejável instabilidade política. Factor de instabilidade que é suprível atribuindo, nas eleições seguintes, uma maioria parlamentar mais sólida (absoluta, no limite) a um dos partidos com vocação de governo. Maioria (maxime, se absoluta) que, por sua vez, relega o Parlamento para um papel mais secundário. Conclusão deste aranzel: o uso da arma mais forte ao dispor de um Parlamento pode, paradoxalmente, conduzir à sua desvalorização no acto eleitoral seguinte. Contradições do parlamentarismo.

23.10.09

A eira e o nabal

No seu afã de tudo - e a todo o tempo - comentar, o comentarismo político cai, por vezes, em contradições lógicas. Uma delas é esta: apela-se, exige-se, deseja-se que o novo governo consiga chamar personalidades competentes, alheias aos quadros do partido e ao seu aparelho, oriundas da chamada sociedade civil. No entanto, quando este objectivo parece ser alcançado, não se resiste a denunciar e a lamentar a falta de peso político destes protagonistas.

Definitivamente, não percebo nada disto

É estranho mas acabo de ouvir dois comentadores, em canais diferentes, dizer que a escolha de Vieira da Silva para a Economia foi uma forma de agradar (ou de piscar o olho) à direita.