14.2.11

Lá, como cá, como em todo o lado

"Os cortes orçamentais para efeitos da redução do défice público chegaram aos Estados Unidos. Até 2015, a administração promete fazer baixar o défice dos actuais 9,5 para três por cento do produto. Na América, como na maioria dos países europeus, a crise financeira de 2008 obrigou os estados a aumentar os gastos para aquecer a economia ou para mitigar danos sociais e chegou a hora de pagar a factura."

Editorial (link para assinantes) do Público de hoje.

Arriscar ângulos novos

E porque é que a integração profissional dos que têm um diploma universitário deveria ser muito mais fácil ou estável do que a dos que têm menos habilitações? Claro que o investimento que é feito nos estudos tem implícita uma expectativa de um retorno superior. Mas ele verifica-se. Mesmo no actual contexto de crise. Estudar compensa. Nisto, os números são inequívocos (ver references). Melhores salários e mais rápida inserção no mercado laboral. Disto isto, “having said that”, porque é que a estabilidade contratual deveria ser um privilégio dos diplomados. Estes estarão até mais bem equipados para reagir em caso de desemprego, como também o provam os dados sobre o tempo de espera dos licenciados, muito inferior aos restantes desempregados. Assim, arriscaria dizer que até é bastante de esquerda (e eu gosto de dizer coisas de esquerda) verificar que quem mais precisa é quem está contratualmente mais protegido da instabilidade laboral.

Ainda no outro dia estive uma boa parte do almoço a tentar explicar porque é que, apesar de achar a música feia para burro (aquele arraçado de fado…), considero que a letra espelha angústias importantes de parte desta (a minha também) geração. Não raro, sinto-me um autêntico Zelig.

References:

“Francisco Lima, que no ano o passado fez um estudo para o INE sobre a relação entre a qualificação e a rapidez com que se entra no mercado de trabalho, não tem dúvidas. Dois anos após terem terminado o ensino, mais de 40 por cento dos jovens com o básico ainda procuravam emprego e apenas 25 por cento dos licenciados permaneciam nessa situação.”

“O último relatório da OCDE Education at a Glance também é claro quando diz que Portugal é o segundo país da organização, a seguir ao Brasil, onde o prémio salarial dos licenciados que entram no mercado de trabalho é mais elevado. Quem faz uma licenciatura ou um grau mais elevado ganha duas vezes mais do que a média. E comparativamente aos que não foram além do secundário ou de um curso profissional, o ganho é 80 por cento superior."

WCCCB


Também amanhã, planeio demonstrar porque Javier Cercas é do caraças. Do prólogo da Anatomia de um Instante

Acho que amanhã vou escrever um post sobre esta coisa em torno da música dos Deolinda

11.2.11

Somos todos egípcios? Dúvidas

"Somos todos egípcios", lê-se um pouco por todo o lado. A minha pergunta é. Não deveríamos era ter sido egípcios nos últimos 30 anos, quando estavam a sofrer? A nobreza da expressão não reside, precisamente, em manifestar solidariedade para com essa condição ou, pelo menos, a sua iminência ou risco? Não foi essa a mensagem que Kennedy pretendeu transmitir quando disse que éramos todos berlinenses (embora não em português, mas em alemão). “Éramos” eram todos os povos livres, que se solidarizavam com a ameaça à liberdade que pendia sobre os berlinenses ocidentais. Ou estou a ver mal a coisa? E agora vou fazer uma coisa parva, que é lincar um post de Irene Pimentel, em que faz precisamente o que estou a questionar. E isto devia ser o suficiente para meter a viola no saco. Mas aqui estou eu...

Bons tempos para se estar vivo

Em toda a minha existência (cujo início remonta a meados dos anos 70), só assisti a transições para democracias. Nunca o contrário.

Le roi est mort, vive... vive qui?


Hosni Mubarak cede, finalmente, o poder. Mas sabiam que na Noruega os piores criminosos cumprem pena numa ilha-prisão: sem grades, muros ou guardas armados? Tudo, no Spiegel international, em língua inglesa.

10.2.11

Opiniões

"Na minha modesta opinião" é das formas menos modestas que conheço para exprimir uma opinião. Isto, claro, no meu humilde juízo.

9.2.11

Finger, Peter Bofinger


Parece que Axel Weber, o mais forte candidato à sucessão de Trichet à frente do BCE vai desistir da corrida. Não posso dizer que tenha muita pena. Já há alguns nomes a circular para substituto de Weber. Permito-me fazer a minha sugestão a Merkel, no mesmo espírito com que ainda no outro dia a chefe de Governo alemã sugeria uma alteração à Constituição portuguesa.
Peter Bofinger. Wikipedia: Peter Bofinger (born September 18, 1954) is a German economist and member of the German Council of Economic Experts. He is the only proponent of Keynesian economics in this council.

Por mim, não pensava mais no assunto.


Como é que se chama quando se ultrapassa o ultraliberalismo pela direita?

"Até mesmo para uma teoria muito liberal, estas [os défices crónicos das empresas de transporte colectivo) são perdas que têm de ser assumidas". Paulo Rangel, na tv.



Via Câmara Corporativa

As melhores e as piores notícias do dia

Weber desiste da corrida para a sucessão a Trichet no BCE

El Bundesbank confirma que Weber mantiene su candidatura a presidir el BCE.

À suivre

Sempre a aprender com os idosos. Com Roth, Larry David, ou com a velhinha de Northampton

"Ontem, a decadente Northampton aqueceu os corações dos noticiários mundiais. O assunto? O herói improvável. Sigamo-lo por uma câmara, numa esquina da velha Gold Street. De manhã e em dia de trabalho, três scooters e seis jovens investem contra uma joalharia. A loja está blindada, mas os jovens batem com marretas nas montras. Ninguém ousa fazer nada (a não ser o já instintivo filmar de telemóvel...). Mas eis que pela rua vem Ann Timson, septuagenária reformada, casaco vermelho de hussardo. Ela carregava porque não perguntou o que a sua rua podia fazer por ela - sabia que ela tinha de fazer pela sua rua. E até ia enganada: pensava que era altercação de jovens, um atacado por matilha. Em chegando, viu que era assalto. Não importa, era o mesmo, a rua a precisar dela. Ann levantou o saco das compras e espadeirou. Os bandidos tiveram o susto de ver coisa mais rara, hoje, que uma carga de brigada ligeira: um cidadão."

Ferreira Fernandes, claro, na sua coluna de opinião do DN.

O improvável (e maravilhoso) vídeo:

8.2.11

Porque se deve levar a sério a ameaça de moção de censura do PCP

É o que explica aqui, de forma cristalina, Paulo Pedroso. Os seis pontos deste texto são, aliás, uma síntese de quase tudo o que importa saber sobre o que faz correr o PCP. Em 2011. Tal como em 1975. And in between.

7.2.11

Já agora, o que é o Malaui?

Crime, dizem eles (não, não é no Malaui)

"Os professores estão a pensar avançar com uma queixa-crime contra o Estado devido aos cortes salariais."



Vantagens das ditaduras, dizem (entre muitos outros títulos possíveis)

Malaui quer criminalizar flatulência em público


«Chaponda (o ministro da Justiça e Assuntos Constitucionais) considerou que o mau hábito de libertar gases intestinais em público é uma consequência directa da democracia, sendo, em sua opinião, necessário que as pessoas aprendam a “controlar a natureza”.»


«Este hábito não existia nos tempos da ditadura porque os cidadãos temiam as consequências, mas desde que o país abraçou a democracia multipartidária há 16 anos as pessoas começaram a sentir que podem libertar gases em qualquer lado”, referiu o ministro da Justiça, que propôs a criminalização.»

4.2.11

Porque sim?

Porque não? Desculpa lá Domingos mas achei frouxo o argumento que apresentas a favor da redução do número de deputados.

Pelo contrário, vi bem sustentada a tese de que um maior envolvimento dos eleitores na escolha dos seus representantes por via do voto preferencial (com o que também concordo) poderia aproximá-los do processo democrático. A referência que fazes de que a AR funciona mais como um conjunto de grupos parlamentares do que de deputados não conduz necessariamente à bondade da redução de eleitos. Quando muito, remete para uma vaga ideia de eficácia dos trabalhos parlamentares. Mas, a ser verdade, julgo que isso confrontará mais os partidos com as suas práticas (e com a eventual necessidade de as mudar) do que com eventuais debilidades do sistema eleitoral.

E quando falamos de proporcionalidade convém sabermos exactamente do que falamos.

Proporcional à dimensão do país? Mas no que diz respeito ao rácio de número de deputados por habitante estamos abaixo da média europeia, nomeadamente em relação aos países com dimensões semelhante ao nosso (temos 1/43 mil hab, sendo a média de cerca de 1/38 mil; aliás, dos dez países com dimensões semelhantes à nossa, apenas dois têm um rácio mais elevado). Esta seria sempre comprimida com tal medida.

Proporcionalidade como garante de uma maior diversidade partidária no Parlamento, retratando mais fielmente a pluralidade de sensibilidades políticas e ideológicas no nosso país? Dificilmente essa não seria afectada. Pelo menos se não se mexesse significativamente na dimensão dos círculos. Mas aí, ao tornar maiores os círculos, estaríamos a contribuir para afastar os eleitos dos eleitores, ou não?

Proporcionalidade das várias regiões do país? Bem, não sei que dizer relativamente a estas mas intuo que também não seria beneficiada por esta mudança.

Assim, todas estas dimensões parecem-me mais ou menos intensamente afectadas pela redução do número de eleitos. E esta é feita exactamente em nome do quê? Da uma ideia de eficiência, cortando no número de representantes como se fossem membros de um qualquer conselho de administração.

Ora, parece-me que a diminuição do número de deputados sacrifica muito em nome de muito, muito pouco. E, ainda que seja um mero exercício de estilo, “porque não” é o oposto daquilo que seria necessário para fundamentar uma alteração destas. Agrada-me pensar que a inversão do ónus da prova ainda não chegou ao domínio constitucional.

A aquecer os motores para o NAO

Eu sei que há o Egipto, a crise das dívidas soberanas, o aumento do petróleo e das matérias-primas (primas de quem?). O défice, o desemprego, o crescimento. O Estado Social. Há isso e muito mais. Sempre haverá. E é por vos saber concentrados em tão importantes matérias que partilho convosco algo que, não estando no topo das prioridades mais prioritárias, vem fechar um longo e tormentoso percurso de dúvida de origem linguística. Que resumo. Guê ou gê? Guê, claro, respondo intuitivamente. Sem claudicar ou margem para hesitações. E assim seria, se não fosse a GNR... Sempre o raio da GêNR. Ora, parece que vários especialistas (entre os quais não me lembro) consideravam como possível a designação de gê ou guê para a letra G. Aliás, possibilidade análoga admitiam (???) para a letra F (fê ou efe) ou para a letra L (lê ou ele). Parece que era muito útil para as crianças aprenderem o alfabeto nos primeiros anos escolares. Concluamos. O maravilhoso novo acordo ortográfico não foge a esta questão e aceita a dupla designação para a letra G. Quem quiser dizer GuêNR, sinta-se, por isso, à vontade. Acaba, todavia, e para bem das gerações vindouras, com o fê e o lê, aceitando, unicamente, o efe e o ele. Para curtir mais, é só vir aqui.

Por outro lado...

O O' Reily podia estar a confundir Amsterdam com Hamstredam. Deve ser isso.

1.2.11

Meryl Streep

Com orelhas de burro, talvez deva confessar (mas porquê? que idiota!) que, contrariamente ao que dei a entender, me lembrava perfeitamente daquele filme dos ABBA que ela fez recentemente e que, arghhhh..., se inclui entre os filmes que, não obstante e verdadeiramente, se enquadram naqueles que não são excluídos a título de excepção da afirmação genérica de que, genericamente, gostei de todos os filmes da Meryl Streep.

Morte de John Barry...

... o compositor que criou, entre outras, a banda de "África Minha". Aproveito para dizer que nunca vi tal obra. Mas lamento-o. Acho eu. Gosto do Robert Redford. Menos da Meryl Streep (bule um poucocinho com o meu sistema nervoso, embora goste de quase todos os filmes que dela vi, como o "Kramer contra Kramer" e a "Escolha de Sofia", não me lembro de outros, além de que a confundo com alguma frequência com a Kathleen Turner). Também nunca vi o Titanic. Mas tenho grande orgulho nisso. E há outros.

Sem preconceitos




A crónica daquele que foi o director do Expresso durante tantos e tantos anos (bem sei que a pergunta é feita diariamente pelas mais diversas pessoas de bem mas: como foi isto possível?). Que eu desse conta, já foi, muito apropriadamente, evidenciada aqui e aqui. Destacando o parágrafo que, ainda assim, é insuficiente para sintetizar toda a parvoíce que se pode encontrar num único naco de prosa (odeio esta expressão; preguiça...). O destaque vai, muito merecidamente, para este excerto:

"O serviço militar obrigatório acabou sem qualquer debate público, como se fosse uma coisa sem importância nenhuma. Ora, para muita gente, era uma directriz. Havia jovens vindos da província que tomavam na tropa o primeiro banho! E às vezes aprendiam ofícios - como cozinhar ou conduzir - que lhes davam uma ferramenta para a vida, além de regras de disciplina que ficavam pelo tempo fora. Este jovem que estava em Nova Iorque com Carlos Castro - que terrível coincidência a proximidade entre as palavras Castro e castrado - noutra época estaria a cumprir o serviço militar e não teria dado cabo da vida."

Mas a minha parte favorita é esta pequena pérola:

"Observemos agora estes factores um por um, independentemente da opinião que tenhamos sobre eles."

Observemos...

"A família era a primeira rede caso um indivíduo caísse do trapézio. Ora, a família tradicional afundou-se. Repare-se que Renato pertence a uma família desagregada."

"Passemos à escola. Que, inegavelmente, perdeu autoridade. Perdeu autoridade como um todo e os professores perderam autoridade. A bagunça instalou-se"

"Olhando agora para as Forças Armadas, que eram uma reserva da nação , perderam toda a relevância. Por outro lado, o serviço militar obrigatório acabou sem qualquer debate público, como se fosse uma coisa sem importância nenhuma. Ora, para muita gente, era uma directriz"

"A Igreja Católica também contribuía decisivamente para a integração social das pessoas - e para uma certa igualdade. Perante Deus, todos são iguais: o pobre e o rico, o novo e o velho, o doente e o são. E a interiorização dos Dez Mandamentos fornecia um conjunto de princípios de convívio em sociedade: não matarás, não roubarás, não cobiçarás a mulher do próximo, etc."

"O Estado tinha uma imagem forte que foi perdendo (...), consequência da própria democracia, mas também de um abaixamento da qualidade dos políticos e dos governantes, que deixaram de ser pessoas respeitáveis e com qualidades reconhecidas pela sociedade para serem, muitas vezes, carreiristas."

E muito mais... Isto, claro, "independentemente da opinião que tenhamos sobre eles", como diz o ex-arquitecto (baralhei-me). É a"Política a sério", nome da coluna de opinião deste génio. Agora é imaginar como seria a brincar... (três reticências; no limbo.... bolas; ponto final).

26.1.11

Os novos tempos

O individualismo foi, nos dias de hoje, substituído pelo indivirtualismo.

Casamento entre pessoas do mesmo consulado

É sempre surpreendente verificar como é que o senso comum, ou o senso feito do saber comum, pode andar tão distante da verdade. Como tão bem prova este texto de Isabel Moreira. E de repente, o que antes parecia errado, passa a estar certo. E vice-versa. Viva o conhecimento.

Obamas's cunning plan

"By playing this rope-a-dope, Obama has positioned himself well to push back hard against the conservative agenda. Having refused to offer Republicans the cover they crave for “entitlement reform,” while offering his own modest, reasonable-sounding deficit reduction measures, he’s forcing the GOP to either go after Social Security and Medicare on their own—which is very perilous to a party whose base has become older voters—or demand unprecedented cuts for those popular public investments that were the centerpiece of his speech. Either way, in a reversal of positions from the last two years, Obama looks like he is focused on doing practical things to boost the economy, while it’s Republicans who are talking about everything else. Boring it may have been, but as a positioning device for the next two years, Obama’s speech was a masterpiece."

Aqui.

Como nasceu o mais conhecido festival de BD da Europa

A história contada aqui. Aos quadradinhos, evidentemente. Très cool.

Não ficará para a história mas esta é uma das razões por que gosto (cada vez mais) de Obama

"Several Democrats, speaking on condition of anonymity, expressed disappointment that Obama didn’t capitalize on the good will after his moving memorial speech in Tucson days after a gunman shot Rep. Gabrielle Giffords (D-Ariz.) and killed six bystanders. Obama acknowledged her empty chair but he quickly pivoted to maintaining America’s capacity to compete economically against other countries." (here)

25.1.11

Tenho muito para dizer sobre tanta coisa mas já tantos o disseram antes de mim. Links

Ando há tempos para dizer qualquer coisa sobre o novo Acordo Ortográfico. Qualquer coisa como esta.

Cidadania

A candidatura de Fernando Nobre foi, do meu ponto de vista, um desastre. Demagogia, populismo e arrogância. Julgo que, com isto, terá afastado mais eleitores do que atraído. Mesmo assim, teve 14,1% dos votos, representando quase 600 mil eleitores, que, imagino, procuram soluções políticas (Políticas) que não se esgotem nos partidos políticos. Do meu ponto de vista (ponto de vista 2, na minha opinião zero), a Presidência da República será o cargo electivo onde estas chamadas candidaturas cidadãs, ou independentes, podem fazer mais sentido. E eu até gosto muito de partidos políticos. Concluindo. Se uma candidatura como a de Nobre teve o resultado que teve, só posso imaginar como teria sido com uma candidatura com outra nobreza.

Pop



A prova de que a vida não precisa da música pop para nada está nos filmes do Woody Allen.

Pelo canto do olho

Ainda no outro dia fazia aqui um apelo à reedição da tradução de "Soldados de Salamina", do incrível Javier Cercas. Hoje, pelo canto do olho, pareceu-me ver na RTPN o escritor João Tordo a fazer-me pirraça com este mesmo livro de Cercas na mão. Tirei o mute e ainda fui a tempo de o ouvir dizer que considerava Javier Cercas o mais fascinante escritor espanhol contemporâneo e que "Soldados de Salamina" foi a obra que mais o marcou nos últimos cinco anos. Fui ao google e vi que João Tordo já falara de Cercas no seu blog, nestes termos. Não ando cá a fazer nada, é o que é.

24.1.11

Mais um insuportável post em que digo como é que acho que a democracia devia ser

Quem se indignou com o que o Governo de Cavaco Silva fez, em 1992, a José Saramago, não pode deixar de pensar o mesmo sobre o que o Governo francês fez a Céline, retirando-o da lista dos autores incluídos nas Celébrations nationales devido ao seu anti-semitismo. Não pretendo sugerir que ser ateu e anti-semita é equiparável. Quer dizer, até estou, se for para dizer que são posições irrelevantes para avaliarmos a arte, ou a ciência, dos opinantes. Ia para dizer que a democracia confronta-nos muitas vezes com dilemas complexos de superar. Mas nem é o caso (embora o seja naturalmente para muitas outras situações). A democracia obriga-nos é, com muita frequência, a fazer determinadas escolhas que, mais do que outra coisa, custam a engolir, moem no estômago, brigam com as nossas próprias convicções ou, até, com valores perfilhados pelo próprio Estado. Mas isto faz parte. Em nome de determinados valores e, à cabeça, da liberdade da opinião. Mas isto sou eu hoje. Ainda no outro dia acho que pensava algo vagamente diferente, como quando James Watson foi afastado do laboratório em que trabalhava por causa de declarações racistas. A coerência é algo tramado.

Parabéns ou talvez não

Caro Porfírio, para ti é o facto de Cavaco ter prolongado «a disputa eleitoral para dentro do estatuto presidencial, recusando objectivamente ser o presidente de todos os portugueses e escolhendo ser apenas o presidente "dos seus"». Para outros, o facto de Cavaco ter sido eleito com base numa imagem que não corresponde à realidade e, assim, num logro. Tal como eu vejo as coisas, felicitar o candidato ganhador é celebrar a democracia e o processo democrático. Nada tem que ver com a pessoa em causa. Não quero parecer um choninhas do género “ai, eu sou tão democrata” mas considero este simbolismo importante como manifestação de respeito por quem pensa de forma diferente da nossa, nomeadamente todos aqueles que, votando em Cavaco, não partilharão da tua opinião acerca da forma tão pouco democrática como Cavaco reagiu à sua vitória. Dito isto, having said that, subscrevo tudo o que dizes acerca de Cavaco em geral, e sobre a sua declaração de vitória em particular. Em bom rigor, e se estivéssemos numa mesa de café, era a altura para dizer, para que não restassem dúvidas: odeio o Cavaco e tudo o que ele representa. Acho que com isto já ninguém me chama choninhas….

Adenda: Discorda-se numas. Concorda-se noutras. Com ipsis e verbis.

Culturas distintas. Descubra as diferenças

Cavaco Silva

Jorge Sampaio

Dignidade. Antípodas

Este



e este

22.1.11

Infelizmente, sem link


A Ipsilon conta, na sua edição de ontem, a história de Romain Gary, o único autor a ter recebido por duas vezes (o dobro das permitidas pelo regulamento) o prémio Goncourt. Para isso inventou um pseudónimo, uma história de vida para este e até entrevistas de um primo que se fez passar pelo dito ao Le Monde. Uma maravilha.

Charada

O dia de reflexão e a reflexão acerca de um post sobre casamentos entre pessoas do mesmo sexo fez-me pensar numa grande piada. Mas não posso contar. Pois é dia de reflexão.

21.1.11

Democracia participativa


E a pergunta em que todos estão, provavelmente, a pensar é: como é possível que, estando prevista na lei desde 2003 (dois mil e três!), o Parlamento apenas tenha recebido uma (uma) iniciativa legislativa impulsionada por cidadãos? Iniciativa, aliás, coroada de êxito, tendo culminado na aprovação desta lei. Curioso número, não?

Gente como nós

Li-a apenas por insistência de um amigo. E ainda bem. Esta entrevista ao ex-inspector da Polícia Judiciária António Teixeira. Dele, apenas conheço o que aqui li mas creio que me reconforta pensar que temos pessoas assim na investigação criminal. Assim tão humanas, quero eu dizer.

"Nem gosto de usar a expressão "matar". Farto-me de dizer isto: o matar é um acto que acontece por força das circunstâncias. É um acto humano, quer queiramos, quer não. Todos somos capazes de matar em determinadas circunstâncias, quanto mais não seja para defender alguém ou a nós próprios. Se me disserem que para ser burlão é preciso ter jeito, admito que sim. Mas matar não é uma questão de jeito. A maior parte dos homicidas mata num momento de arrebatamento, não o premedita. Logo os outros nunca o poderiam prever. Estamos a falar do crime mais grave do nosso ordenamento jurídico mas, curiosamente, vamos às cadeias e estes homicidas são presos exemplares. Esgotaram tudo naquele acto.".

"Uma selva, pura e simples"

http://margensdeerro.blogspot.com/2011/01/uma-ideia-genial.html

20.1.11

Olha, estes não temem desviar as atenções do essencial

Irlanda terá eleições gerais em 11 de março

Última hora

Cavaco propõe alteração constitucional, de forma a acolher o princípio já por ele defendido, de que as eleições (presidenciais, legislativas, autárquicas) se devem realizar, em princípio, no final do mandato, se não houver assuntos candentes e mais urgentes a tratar. É o princípio do "não desvio das atenções daquilo que é essencial". A democracia não seria esquecida. Apenas viria em momento mais oportuno.

Talvez valha a pena esmiuçar aquele argumento de Cavaco

"Nós não podemos prolongar esta campanha por mais três semanas. Os custos seriam muito elevados para o país e seriam sentidos pelas empresas, pelas famílias, pelos trabalhadores, desde logo, pela via da contenção do crédito e pela subida das taxas de juro", declarou Cavaco Silva, durante um almoço de campanha em Felgueiras.

"Arrastar esta campanha mais três semanas, por desviar as atenções daquilo que é essencial, lançaria custos acrescidos sobre todos os cidadãos portugueses. E é por isso que tenho apelado aos portugueses para que não fiquem em casa", completou o candidato presidencial apoiado pelo PSD, CDS-PP e MEP.

Tudo, aqui.

Cada dia que passa, uma nova razão para não votar Cavaco

Cavaco: Segunda volta teria custos "pela via da contenção do crédito e subida das taxas de juro".

Democracias

Eu também fico decepcionado com a democracia portuguesa, quando vejo que produziu líderes de partidos políticos que ficam decepcionados com a democracia quando o processo democrático lhes é desfavorável. Não é lá muito democrático, quer-me parecer.

Sim, confundo deliberadamente cargos executivos e não executivos. Por maioria de razão.

«A Presidência da República precisa de ser ocupada por uma pessoa “com conhecimentos e experiência” que ajude Portugal a encontrar um rumo», defendeu, uma vez mais, Cavaco Silva.

A insistência de Cavaco Silva de que a experiência (governativa e no próprio cargo, presume-se) e os conhecimentos constituem uma quase condição para ocupar o lugar está muito longe de estar demonstrada.

Por economia de espaço, vamos até fingir que nem reparámos que a enorme experiência de Cavaco e os seus sólidos conhecimentos económico-financeiros de nada nos serviram nos últimos cinco anos.

A tese da experiência e dos conhecimentos, dizia eu… Se os eleitores americanos tivessem adoptado este critério através da história, Obama nunca teria sido eleito (e não foi por Hillary não se ter esforçado em atirar-lhe isso à cara). Nem Kennedy. Ou Roosevelt. Muito menos Reagan. Ou Clinton, que quando foi eleito não tinha sido mais do que governador de um pequeno estado como o Arkansas. Se os eleitores franceses tivessem adoptado esse critério, não teria havido Mitterrand. Se os eleitores britânicos tivessem seguido esse critério… bem, os britânicos despediram Churchill quando acharam que ele tinha experiência a mais. Se os portugueses se tivessem orientado por esse critério, o próprio Cavaco nunca teria sido eleito primeiro-ministro...

19.1.11

A Índia (ou o mundo) a vários tons

Gonçalo M. Tavares:


Na Índia, homens velhos que escutámos
durante horas e julgávamos já eternos,
levantam-se, subitamente, e começam a
urinar em plena rua, para cima do lixo
que cães, segundos antes, tentavam mastigar.
Respeito e nojo coincidem estranhamente
no mesmo homem: o mundo não
é claro e depois escuro, o mundo, cada pedaço dele,
é claro e escuro.
E quando um místico urina com displicência ao nosso lado
ensina-nos isso, e outras coisas.

Uma Viagem à Índia, Canto VII, estrofe 21

Furtado ao Porfírio Silva

Coisas simples

"face à la crise, la droite réagit très simplement : elle remet en question l'Etat-providence, réarme la guerre entre les ayants droit de cet Etat-providence et les autres salariés et, à la mondialisation et à ses peurs, répond par le langage de la peur et un discours sécuritaire." En somme, des réponses simples à des questions complexes, un exercice auquel la gauche ne peut, par essence, céder".

Daniel Cohen, presidente do "conseil d'orientation scientifique de la Fondation Jean-Jaurès", citado neste artigo sobre o impasse em que se encontra actualmente a social-democracia europeia.

18.1.11

Javier Cercas


Este livro já foi traduzido em português mas, por razões que desconheço, encontra-se esgotado há vários anos e sem perspectiva de reedição. Isto aborrece-me, pois "À velocidade da luz" e "O Inquilino" são dois livros muito bons. E castelhano é uma língua que me chateia, no sentido em que, se já sou lento a ler na língua materna, "peor, muy peor" é o cenário em língua estrangeira de Espanha. Um dia vi uma pessoa a ler este livro na esplanada do café do Parque da Serafina. E era a edição portuguesa. Mas tive vergonha.

Post sem final feliz

Muitos britânicos começam, finalmente, agora a compreender o legado dos doze anos de Partido Trabalhista, nomeadamente ao nível do Estado Social. Só agora, que o governo de direita se prepara para pôr em causa a generalidade dessas medidas.

É fácil antecipar que, um dia, o mesmo venha a acontecer por cá. Que só quando a direita chegar ao poder e começar a desfazer, tijolo a tijolo, o edifício do Estado Social, é que compreenderemos melhor o legado do actual governo (o tijolo do CSI, o tijolo da escola pública de qualidade para todos, o tijolo da Segurança Social pública, o tijolo do SNS, o tijolo da concertação social, etc.).

Aí tudo ficará mais claro. Mas também será tarde demais para voltar atrás.

14.1.11

Verdes anos

Pálidas ideias

Carlos Blanco de Morais, constitucionalista, membro da comissão de honra da candidatura de Cavaco Silva e seu consultor para os assuntos constitucionais em Belém, faz hoje nas páginas do Público uma prelecção sobre direito constitucional, nomeadamente sobre os poderes do chefe de Estado.

Dirige-a aos candidatos presidenciais adversários do actual chefe de Estado, que, reclama, “não fazem a mais pálida ideia sobre o que verdadeiramente é a função presidencial”.

Concretamente em relação a Manuel Alegre, critica-lhe o seguinte:

“Se, pelo contrário, estava a referir-se a leis ordinárias, deveria então também saber que, se as mesmas violassem direitos sociais previstos na Constituição, ele [Alegre] não poderia utilizar o veto político (que não é um instrumento de controlo de constitucionalidade), mas sim o sistema de fiscalização junto do Tribunal Constitucional.”

A inevitável pergunta que nos ocorre é, então, a seguinte: quão pálida é a leitura que Cavaco Silva faz dos poderes presidenciais, nomeadamente quando opta por vetar politicamente um diploma por razões de constitucionalidade, como aconteceu no estatuto político e administrativo dos Açores, algo que justificou (em entrevista ao Público) ter sido para manifestar a sua forte discordância “dando a cara e não através de terceiros*”?

* os terceiros, presume-se, são os juízes do Tribunal Constitucional

13.1.11

Círculo vicioso (ou será ciclo vicioso?)

Foi o cigarro do Lucky Luke. O charuto do Churchill. Do Sartre. Do Malraux. O cachimbo do Tati. Em todos os casos, achar-se que a ignorância é a melhor forma de nos protegermos de influências consideradas (e mesmo que sejam) perniciosas. Agora, este caso, relatado aqui, em que a obra de Mark Twain aparece higienizada, sem "niggers" mas com expressões menos ofensivas, como "slave". Parece que assim se contorna o boicote que à obra é movido em muitas escolas americanas e professores (e também os pais) são dispensados de explicar às crianças a complexidade da vida e da história. Um dia, saberemos tão pouco que nem conseguiremos dizer se o que nos foi ocultado é bom ou mau. E aí recomeçará tudo outra vez, suponho.

Para memória futura

No espaço de uma semana, duas excelentes entrevistas a dois dos nossos melhores. Pedro Magalhães e Rui Tavares, esta num registo sobretudo biográfico.

12.1.11

Accountability

Li, com espanto, que Francisco José Viegas apoia petição do Correio da Manhã a favor da criminalização do enriquecimento ilícito. Pelo menos, assim informava um tweet do Correio da Manhã (é um amigo meu que o segue...). Com espanto, pois, há cerca de um ano e sobre o mesmo tema, FJV escrevia isto:

"O pacote sobre enriquecimento ilícito é muito popular e corre o risco de ser aplaudido, de quatro, pela multidão — uma vez que se inclui a excrescência «ilícito», a que em breve bastará cair o «i» inicial para se entrar na paranóia aguardada."

E isto:

"Com o ataque ao enriquecimento ilícito, um justíssimo combate, vêm a inversão ao ónus da prova, a desconfiança permanente transformada em motor da investigação e a quebra dos sigilos profissionais."

E também isto:

"Com a inversão do ónus da prova, essa grande conquista da democracia (é o povo que a pede, suponho), entraremos num admirável mundo cheio de pessoas honestas ou tendencialmente purificadas, em que não haverá mais financiamento obscuro das campanhas partidárias (prometem?), não haverá mais nomeações sem escrutínio e sabatina (prometem?), não haverá mais empresas favorecidas — politicamente — em concursos (prometem?), não haverá mais «vírgulas» nem contaminações de investigações por suspeitas políticas. Seremos exemplares."

10.1.11

E porque anteontem foi sábado...

...foi dia de crónica de Pacheco Pereira no Público. Um excelente texto, sobre "a ascenção da demagogia" nos tempos de hoje, ilustrada por três exemplos políticos da actualidade: Francisco Louçã, a petição do Correio da Manhã a favor da criminalização do eriquecimento ilícito e, finalmente, a sede de poder político dos juízes. A não perder.

Livro de reclamações(inhas)


Se calhar é assim mesmo que estas coisas funcionam mas pergunto-me se faz sentido que a revista Ler deste mês pré-publique um excerto do que foi considerado por muitos como o livro do ano , o "Liberdade", de Jonathan Franzen, e se abstenha de informar os seus leitores desse facto na capa.

5.1.11

Cada país tem o escândalo Lewinsky que merece


"O que não se entende é o lamentável comunicado da PR de 23 de Novembro de 2008 onde Cavaco nega peremptoriamente qualquer relação com o BPN... sabendo ele, tão bem como nós, que as acções que tinha eram da SLN, sociedade que controlava o BPN. Esse é o pecado de Cavaco em todo este processo."

Nicolau Santos, no Expresso, citado aqui (via acolá).

Resumindo, Cavaco não teve qualquer relação com o BPN, assim como Clinton não teve "qualquer relação sexual com aquela mulher". Sendo assim, a SLN é..., precisamente.

Malangatana (1936-2011)


A citação é apenas para fazer um ponto político mas a entrevista vale pelo que nos ajuda a pensar a crise (alerta: sintaxe desta frase desconhecida)

"(...) a verdade é que as linhas gerais de contenção eram inevitáveis, porque temos um compromisso comunitário e seria impensável não o cumprir. O que é criticável não é o Orçamento apontar para o défice que aponta, mas sim que a UE tenha mudado de repente a sua política económica de uma forma que nunca foi completamente explicada. Parece uma austeridade sem grande justificação."

A Europa estava centrada no investimento público.

"E de repente passou para uma coisa completamente diferente. E isso não se pode fazer. Em política económica não se podem fazer essas mudanças sem uma justificação muito grande. Pode dizer-se que a Europa foi apanhada de surpresa pelas crises da dívida soberana. Talvez. Mas isso não deveria implicar fazer o que fez. "

João Ferreira do Amaral, em entrevista ao "i".

4.1.11

Notícias sem informação

“Governo insiste na nomeação de vice-procuradores jubilados”, escreve o Público. À primeira vista, compreende-se a chamada de atenção. O estatuto dos magistrados que o Governo apresentou ao Parlamento volta a propor que os procuradores-gerais adjuntos jubilados possam ser nomeados a "título excepcional". E esta proposta tinha sido rejeitada pela Assembleia da República há uns meses. Acontece que, conforme explica a notícia, na altura a polémica prendia-se com o facto de esta norma permitir a continuação em funções de Mário Gomes Dias como braço-direito de Pinto Monteiro (o actual procurador-geral), que já tinha atingido a idade limite para a reforma. Havendo já uma nova vice-procuradora, esta polémica já não se coloca, pelo que seria de esperar alguma informação na notícia sobre o objectivo pretendido com esta proposta, que até serve de título ao artigo. Mas sobre isto, nada. Total ignorância. Nossa e deles, suponho. Por acaso, até já estou esclarecido, pois acabo de ouvir as explicações que o PGR e a vice-procuradora acabam de dar à primeira comissão do Parlamento. Mas não sou jornalista.

28.12.10

Ontem fui ("fui", palavra estranha para português, não é?) ver este filme. Gostei

Quem não quer ser monge não lhe veste o hábito

"Esta semana, até ao início do ano, será particularmente activa em movimentações jurídicas. Sindicatos da Função Pública, entre eles Professores, Magistrados e Juízes estão a ultimar pareceres contra a redução salarial imposta pelo Governo."

Notícia daqui.

21.12.10

Aprender a democracia (dueto)

Já aqui fiz referência à antiga juíza do Supremo Tribunal dos EUA Sandra Day O' Connor e ao seu notável trabalho pela aprendizagem da Democracia. Também já aqui prestei homenagem ao gigante do jazz que é Winton Marsalis e ao seu admirável trabalho pela aprendizagem da música. Mas ainda não conhecia isto. Os dois juntos. Em dueto. Preciso de novos adjectivos.


15.12.10

Filho de pais incógnitos

Daniel Oliveira tem aqui um bom texto sobre o ensino e o sistema educativo português, que o último relatório PISA veio evidenciar.

Fala da clareza dos dados.

Fala dos piores resultados da Suécia e da República Checa na Matemática, Ciência e literacia, que imputa (e bem) às políticas da despublicização do ensino.

Dos incríveis (gosto de adjectivos) progressos de Portugal nestes domínios, bem como de sermos dos países onde o sistema educativo melhor corrige as assimetrias socio-económicas, que imputa a... não imputa.

Ao ler o texto de Daniel Oliveira, fico com a sensação que, ao contrário dos resultados da Suécia e da República Checa, os de Portugal são filhos de pais incógnitos. Como se dizia noutros tempos, quando havia embaraço em assumir as reais paternidades.

Pernicioso costume presidencial?


Entendo que o direito de veto político do Presidente da República apenas deve ser usado em caso de grave discordância política. Quando o decreto ponha, por exemplo, em causa valores e princípios que o PR considere recolherem o consenso da comunidade. Acho bem que utilize o crivo dos valores da comunidade e não dos seus valores pessoais, assim se cumprindo a ideia do presidente de todos os portugueses. Julgo ser também esta a posição mais consentânea com a função de controlo, de árbitro, que o presidente desempenha no nosso sistema político. O poder legislativo compete ao Parlamento e ao Governo, não devendo o PR ser caucionador das opções políticas materializadas em leis.

Ora, quando o Presidente da República introduz nos costumes presidenciais o hábito de promulgar leis sob reserva, exprimindo (até sob a forma de mensagem dirigida à AR) a sua discordância, deixa-nos com a seguinte perplexidade: quer dizer que concorda com todas as leis que promulga sem mensagem? Mas desta forma não se está a co-responsabilizar pelas opções políticas da AR e do Governo, pondo de alguma forma em causa o poder moderador e de controlo que deve exercer sobre estes órgãos de soberania? Dúvidas.

14.12.10

Holbrooke


Para quem apenas acompanha a diplomacia pelos media, Richard Holbrooke é uma das figuras marcantes das últimas décadas. O Público faz um bom resumo do que dele se diz na imprensa internacional. Parecia ser uma figura complexa e cheia de qualidades que são defeitos e defeitos que são qualidades. Para muitos, a guerra na ex-jugoslávia foi uma espécie de trauma. Do fim da inocência. A Europa, que vivia sem guerras há 50 anos (um recorde, creio) não iria viver feliz para sempre e mergulhava num conflito assustador, a que a União Europeia e as suas principais potências apenas conseguiam assistir, imobilizados, sem qualquer capacidade (e vontade?) de influenciar. Uma guerra que começara no início da década de 90 e que, à medida que íamos assistindo, em directo na tv, ao tempo a passar (os snipers, os massacres, os êxodos e o ódio, muito ódio), começava a parecer tragicamente irresolúvel. Sérvios, croatas e bósnios. Católicos, ortodoxos e muçulmanos. Peças do mesmo puzzle que pareciam já impossíveis de encaixar. Depois houve a intervenção da NATO. Mas não é isso. Dayton. Com todos os defeitos que já na altura se lhe conheciam, Holbrooke, o enviado da Administração Clinton, conseguiu o que parecia impossível de alcançar: um acordo e trazer a paz àqueles territórios. Visto à distância, parece que foram “apenas” três anos de guerra civil (1992-1995). Mas lembro-me bem demais da sensação de que a Europa estava a caminhar (outra vez) para o abismo. Talvez não seja exactamente assim que a história se conta. Mas foi isto que me lembrei quando soube da morte de Holbrooke. O bulldozer.

Previsões

"As sondagens são previsões, dão conta de sentimentos" (Rogério Santos, director do Centro de Sondagens da Universidade Católica, Público).

Ia jurar que oiço há anos Pedro Magalhães tentar afastar esta ideia de que as sondagens preveêm o que quer que seja. Medem intenções, dão-nos o retrato dessas preferências num determinado período temporal. Mas não pretendem adivinhar o futuro. Quer isto dizer alguma coisa? Não faço ideia. É apenas estranho.

13.12.10

Os telegramas da embaixada (ei, psst! agora com adenda)

Independentemente do que se possa pensar das leaks da wiki, tenho a dizer que os telegramas da embaixada dos EUA em Portugal são magníficos. Estilo directo e notável poder de síntese, expurgado de qualquer facto acessório ou menos relevante. Só miolo. Quando necessário, análise (informada e perspicaz). Gostava de ler um jornal assim.

Adenda: este post visava sobretudo manifestar a minha reacção à forma e ao estilo (enxuto) dos telegramas. Quanto ao conteúdo, parece-me haver de tudo, inclusivamente coisas destas:

"Both the PCP and BE are poised to gain support in national legislative elections, but are too small to govern. Each party hopes to form a coalition with the PS"

Assim, queiram, por favor, desconsiderar a parte em que refiro análise "informada e perspicaz". Quanto ao resto, mantenho.

As minhas músicas de 2010

Suites para violoncelo. Bruno Cocset.

10.12.10

Discutir a liberdade de expressão. Gerúndio.

Liu Xiaobao e Julian Assange. Em ambos os casos, a mesma questão: a da liberdade de expressão e os seus limites. No primeiro, encontramo-nos perante o núcleo essencial deste direito, perspectiva que, exceptuando casos patológicos, parece estar consolidada na generalidade das democracias. O segundo convoca-nos para uma dimensão da discussão que está longe de ser consensual, provando que o tema das liberdades essenciais e de como se relacionam entre elas e com outros valores fundamentais da comunidade é um debate in progress. Pessoalmente, sempre que acho que encontrei nesta discussão do wikileaks um ponto onde equilibrar-me, espalho-me. É ir tentando.



Na minha janela, a minha bandeirinha de Natal

6.12.10

Estranho mundo este...

... em que a palavra transparência (dos governos, das administrações, dos decisores) começa a deixar na boca um sabor a fel.

2.12.10

Como vai ser assistir ao mundial no Qatar

Dúvida metódica

Se a liberalização dos despedimentos surge, segundo os seus indefectíveis, da necessidade de os empregadores melhor poderem adaptar-se às vicissitudes do mercado, despedindo nos momentos difíceis, contratando na bonanza, não seria consequente (e coerente) defender, por exemplo, a proibição das cláusulas de rescisão dos membros de órgãos de administração, frequentemente com valores exorbitantes, que condicionam na mesma medida a capacidade de essas entidades empregadoras se adaptarem às vicissitudes do mercado, substituindo-os por melhores gestores? Recorrendo aos dois exemplos que me vêm à memória, os valores das cláusulas de rescisão de Teixeira Pinto (no BCP) e de Carlos Queiroz (na Selecção Nacional) não terão constituído um espartilho à capacidade destas entidades optarem por melhores profissionais? Ter-me-á escapado o apelo da Comissão Europeia ao fim destas cláusulas indemnizatórias e estou aqui a fazer figura de parvo? Ou estou só a fazer figura de parvo?

Sprechen Sie Deutsch?

Para quem sabe alemão, o Spiegel tem um excelente artigo sobre como a questão alemã começa a ser vista pelas altas esferas governativas europeias e como a opinião pública alemã se começa a aperceber disso. Para quem não sabe (como é o caso de todos os membros deste blog), ainda melhor, pois basta ler o excelente post do Porfírio Silva sobre o tema, que junta a isto uns pozinhos de Financial Times e de comentário mordaz (qb).

Gosto de viver num país assim (e onde os juros da dívida descem e etc.)

"Políticas de imigração de Portugal voltam a ser elogiadas: À semelhança das Nações Unidas, também a Organização Internacional para as Migrações (OIM) decidiu destacar as políticas adoptadas por Portugal com vista ao acolhimento e integração dos imigrantes. No relatório mundial sobre a migração relativo a 2010, publicado na terça-feira, a OIM realça em particular a experiência dos Centros Nacionais de Apoio ao Imigrante (CNAI), existentes em Lisboa, Porto e Faro, frisando que estes constituem "um serviço de informação integrado, exemplo de uma intervenção coordenada e coerente entre várias entidades parceiras".

30.11.10

Para que não subsistam dúvidas

Un panino di tonno e pomodoro e una birra piccola.

* grazie mille per la correzione

Não percebo um boi de italiano (embora saiba pedir uma cerveja e uma sandes de atum e tomate) mas isto não parece nada bom

Mercati, allarme per l'Italianuove tensioni sui BtpLetta: turbolenze rischiose
Disoccupati, record dal 2004

Cresce ancora il differenziale dei titoli di Stato rispetto a quelli tedeschi, al massimo da quando esiste l'euro. E piazza Affari va subito giù, per poi tornare in parità. L'euro resta debole. Disoccupazione all'8,6%. Il commento preoccupato del sottosegretario: "Servirebbe un vaccino"

Monsieur le premier ministre


Ségolêne Royal, que ainda há dias declarava juntar-se ao pacto de não agressão entre a secretária-geral do PSF (Martine Aubry) e o actual líder do FMI, Dominique Strauss-Khan (favorito nas sondagens para uma candidatura presidencial socialista), adiantou-se ontem e veio anunciar que está mesmo na corrida às primárias do PSF para escolher o candidato presidencial, que decorrerão apenas em Novembro do próximo ano. A antecipação de Royal (as candidaturas devem ser formalizadas em Junho) está a ser lida como uma forma de boicotar a candidatura de Strauss-Khan, constrangido por um dever de reserva enquanto estiver à frente do FMI. Nesta sua pré-declaração de candidatura, Royal não resistiu a uma alfinetada a Strauss-Khan, a fazer lembrar os melhores dias de Mitterrand*.


"J'ai dit que le moment venu je verrai avec Dominique [Strauss-Khan] quel est le meilleur 'dispositif gagnant' s'il revient", a-t-elle expliqué, avant d'ajouter... qu'elle le verrait bien en premier ministre si elle est désignée, puis élue : "S'il ne revient pas, il sera de toutes façons indispensable à notre équipe. Il est le meilleur chef de gouvernement que nous pourrions avoir."


*Video do debate entre Mitterrand e Chirac aqui (obrigatório; apenas 1 min.)

29.11.10

Wikileaks II

Esta história teria dado um grande episódio do West Wing.

Wikileaks

Desde que conheci Lisbeth Salander que estava à espera que acontecesse uma coisa do género.

O fundamental

"Espero que Marinho Pinto tenha conseguido ontem a sua reeleição para bastonário dos advogados portugueses. Porque nunca antes alguém conseguiu, como ele, incomodar a paz podre da Justiça e da advocacia dos interesses e ser, nesta sociedade gravemente doente, uma voz livre, desalinhada, sem medo."

Miguel Sousa Tavares, "Expresso" de sábado passado (via Câmara Corporativa).