17.3.11

Redes sociais

Recebo um pedido para ser seguido no twitter. O pedido vem apenas identificado com o que parece ser um apelido, que não associo a ninguém. Espreito o perfil do utilizador, que remete para um blog, cujo autor é identificado pelo mesmo nome. Passeio-me durante uns poucos minutos pelo dito. Os minutos alargam-se. Não sei se é muito bom, bom ou mais ou menos. Nem é isso que interessa. Gostei muito de o ler. Senti que olhava para o mundo a partir do mesmo banco de jardim. Bem escrito. Fiquei com vontade de lá voltar. Volto ao princípio. Recebo um pedido para ser seguido no twitter por esta pessoa e não sabia quem ela era. Ao ler o blog, intuo, a dada altura, não sei bem porquê, quem é o seu autor, palpite que (Google) se revela certeiro. O que não deixa de ser curioso dado não saber praticamente nada sobre ele. Curioso não. É absolutamente extraordinário. Pode parecer parvo mas achei engraçado partilhar isto.

"O povo é sereno, os políticos não"

"Senão vejamos. Na quarta-feira passada, o Presidente da República fez o discurso que grande parte do seu eleitorado esperava, mas com alguns anos de atraso. Feito o diagnóstico negro do País, responsabilizou o Governo por isso. Muito bem, está no seu papel. Mas Cavaco iludiu os portugueses ao dizer que é preciso dizer basta à austeridade. Isso é pura demagogia, ainda para mais vindo de um economista. E nunca mencionou o contexto externo em que Portugal se encontra, nem os esforços que têm sido feitos pelo Governo para evitar a ajuda externa. É verdade que Sócrates em 2009 procurou usar a crise internacional como razão e como desculpa. Mas hoje essa acusação é simplesmente facciosa."

(...)

"A maioria dos economistas, da direita à esquerda - de Vítor Bento a Ferreira do Amaral - concordam que um empréstimo como o da Irlanda ou da Grécia seria péssimo para o País. Mas não é só do ponto de vista económico que o exemplo irlandês traz importantes lições para Portugal. Enda Kenny, o novo primeiro-ministro irlandês foi ao último Conselho de Ministros Europeu convencido de que iria renegociar os termos do empréstimo à Irlanda. Não só não conseguiu nada como ainda lhe foi dito que obrigatoriamente a Irlanda tem de subir a taxa de IRC baixíssima de que neste momento as empresas irlandesas beneficiam. Como é evidente, a austeridade agrava-se apesar dos irlandeses terem mudado de governo. "

Marina Costa Lobo, crónica do Jornal de Negócios.

Unwind



SONIA DELAUNAY, RHYTHM, 1938.

16.3.11

Algures no meio deste post está uma ideia que queria transmitir mas não é fácil econtrá-la

Porfírio Silva, em mais um excelente texto, desta feita sobre a entrevista de ontem de José Sócrates.

Concordo genericamente com tudo. Bem, quase tudo. No final, o Porfírio sublinha, e bem, o lugar central que a forma e os procedimentos têm em democracia. “Em democracia, a forma é uma garantia. Ferir a forma não deixa intocado o conteúdo”, escreve. Preciso de pensar um pouco melhor sobre o assunto (em quase todos os assuntos eu preciso de pensar um pouco melhor sobre o assunto… a verdade que eu tenho-me como um moderado mas aquilo que eu sou mesmo é um hesitante profissional) mas julgo que a minha renitência advém de se considerar que os procedimentos informais de relacionamento entre os agentes políticos (seja o Presidente da República, seja o principal partido da oposição) sejam equiparados às regras de forma escritas, normativamente impostas. São estas últimas que sustêm o edifício da democracia e constituem o seu garante. As outras, as tais regras informais (sublinho, regras de forma informais…) fazem parte de outra forma. São politicamente sindicáveis mas não beliscam a democracia.

Isto é tanto mais verdade quando estamos a falar no quadro das relações entre o Governo e um Presidente de um sistema semi-presidencial. Quase por definição, este é um sistema que deixa uma apreciável margem de indefinição nalguns dos poderes destes agentes. Não é por acaso que, contrariamente ao sistema parlamentar puro ou ao presidencial, só se compreendem os poderes dos presidentes nos sistemas semi-presidenciais - e muito em particular os que tangem com a sua relação com os governos - olhando mais para a prática do que para as leis. O Duverger tinha uma expressão sobre isto mas olvida-ma. Ou seja, é um sistema que, no âmbito daquelas relações, permeável à criação de certos hábitos, nomeadamente ao nível de procedimentos (há países com regras semelhantes às nossas que tornaram habitual que o governo auscultasse o Presidente antes escolher o nome de certos ministros, v.g, na Polónia do Presidente Lech Walesa).

Corte abrupto. Fome. Resuma-se: há regras de forma e regras de forma. No caso vertente (ahahah), falamos de regras de forma. Das outras, que espelharão porventura relações de força mas que se situam no campo de discricionariedade política. Que comprometem politicamente mas não juridicamente. Acho que o que queria dizer se resume a esta última frase. Agora, papinha.

15.3.11

Deve ser a isto que chamam escrever direito por linhas tortas



A complacência com que estas declarações (inaceitáveis) de Cavaco Silva estão a ser acolhidas fizeram-me logo lembrar estas palavras:

"É altura dos Portugueses despertarem da letargia"

"A nossa sociedade não pode continuar adormecida"

"É necessário que um sobressalto cívico faça despertar os Portugueses"

No mais, o que há a dizer sobre isto já foi dito neste post de Fernanda Câncio.

Desconstruir o Estado de direito (alerta: post com ligeira manipulação dos factos e de irritante pulsão declamatória)


Uma Conferência "Qualidade do Estado de Direito em Portugal 2005-2010", ICS. Repito, uma conferência sobre a qualidade do Estado de Direito. E não há um único representante da academia jurídica? Sobressaem os sociólogos (muitos), as "autoridades judiciárias" (algumas) e Eduardo Dâmaso, o director-adjunto do Correio da Manhã, esse arauto do respeito pelos direitos dos cidadãos. Claro que o estado de direito é de todos. Nem a visão jurídica que se ensina nas faculdades de direito esgota o tema. Longe disso. Mas a sua ausência não pode deixar de empobrecer qualquer discussão que se pretenda séria (bolas, há muitos anos tinha jurado a mim próprio nunca usar esta expressão, sucedânea das visões Verdadeiras da vida. Damn) sobre o assunto e, pior, parecendo menor, é reveladora de um certo entendimento de Estado de direito que se vai disseminando entre nós. E nem sequer falei da ausência de políticos, os representantes dos cidadãos a quem cabe fazer as escolhas (dentro dos inevitáveis constrangimentos) determinantes da nossa vida colectiva. Um estado de direito a preto e a branco, de virgens e corruptos, de bons e maus, de índios e cowboys. Mas temo que esta seja indignação que já cansa a paciência.

14.3.11

Sejamos mesmo razoáveis

«Un homme de gauche, ce n’est pas nier la réalité. Il faut savoir ce qu’on peut faire. Se donner une ambition un peu au-delà, disserte l’intéressé. Il faut dépasser le possible, mais pas promettre l’impossible

Dominique Strauss-Khan, num artigo que, em bom rigor, é uma boa boste.

Os europeus


Fonte: Guardian ICM poll of Britain, France, Germany, Spain and Poland

11.3.11

Quem põe o dedo no ar?

A propósito deste texto de Rui Herbon no Jugular, alguém devia lançar o seguinte repto (pelos vistos é o que estou a fazer) aos jovens que se revêem nas reivindicações da "geração à rasca" (bolas, por muito que não me identifique com eles, mereciam um epíteto com outra dignidade, vá, com mais estilo): quem teve uma vida mais difícil do que a dos seus pais ponha o dedo no ar. Intuo que sobrariam menos do que os necessários para encher um autocarro. Olho à minha volta e dificilmente encontro, de entre os meus conhecidos e amigos, quem tenha razões para desejar trocar percursos de vida com os seus pais. Claro que isto do meu universo de amigos e conhecidos vale o que vale e, em bom rigor, não deslegitima as suas reivindicações e aspirações. No entanto, retira-a do absurdo guarda-chuva do confronto geracional. Ideia perigosa.

9.3.11

Para mais tarde recordar

Discurso da tomada de posse na integra. Espero que a história faça justiça a este discurso de Cavaco Silva.

Faz mais ou menos dois anos que saí do armário

Calma... bloggicly speacking, claro. "Not that there's anything wrong with that".

Para arrumar as ideias

"Aquilo em Viseu foi um Horror...". Ferreira Fernandes, no Diário de Notícias.

Newsweek

Miguel Esteves Cardoso escreve hoje que a nova Newsweek está melhor do que nunca. Tina Brown explica aqui como já é a nova revista. A explorar quando houver tempo.

Tacticismos

"Podemos gostar mais ou menos da táctica que cada partido assume, considerar que a mesma se adequa mais ou menos ao que o país precisa. Não podemos é considerar que uns agem de forma táctica e outros de forma responsável.", escreve o João Ricardo Vasconcelos, no seu Activismo de Sofá.

Caro Ricardo, colocas bem a questão mas retiras, na minha opinião, a conclusão errada. O juízo de adequação da táctica às necessidades do país é, precisamente, uma das ferramentas fundamentais que temos para avaliar da (ir)responsabilidade da acção partidária. Claro que o que sejam as necessidades do país não será consensual entre os diferentes quadrantes partidários. Mas sempre haverá mínimos denominadores comuns entre todos (eu diria que neste momento a estabilidade governativa devia ser um desses mínimos). Entre as esquerdas, a indesejabilidade de a direita ir para o poder no actual contexto de austeridade, onde não perderia a oportunidade para pôr em prática as suas neosoluções neoliberais, devia ser outro desses mínimos. Se fores capaz de dizer que uma e outra (a estabilidade governativa ou a possibilidade de a direita ser governo nesta altura) te é indiferente, compreendo que não julgues irresponsável a moção de censura do BE. Caso contrário...

25.2.11

Duas ou três coisas vistas da América

Conheço-o apenas há uns poucos dias mas tenho gostado bastante do que tenho lido por aqui, o blog de uma exilada em Washington [mais um(a)]. Textos que acompanham a actualidade noticiosa, com ênfase para a americana, escritos em excelente jornalês. Ou não fosse a pessoa em causa em tempos uma das jornalistas políticas mas famosas do exágono, que abandonou a ribalta do jornalismo político (mas não a carreira) quando (e porque) o seu marido integrou o governo de Lionel Jospin como ministro das Finanças, esse mesmo: monsieur Strauss-Khan, hoje, vocês sabem. Anne Sinclair.

23.2.11

Histórias de coragem: uma das minhas preferidas

"Nataliya Dmytruk is a former sign language interpreter on the Ukrainian state-run channel UT1 news broadcasts. Dmytruk became famous for refusing to translate the official script during a live broadcast on November 24, 2004 that announced Viktor Yanukovych as the winner of the presidential election. Instead of signing the official script, Dmytruk instead signed to viewers "Our president is Victor Yushchenko. Do not trust the results of the central election committee. They are all lies".Dmytruk's act of defiance has been regarded as one of several catalysts for many Ukrainian journalists who subsequently rejected doctored news reports in favour of a more balanced reporting.

Wikipedia

Histórias de coragem

Líbia: Militares despenham 'caça' para não bombardear cidade

Foi há 30 anos. Aqui mesmo ao lado.





A não perder (para arrumar as ideias)

"as revoluções árabes, a diplomacia e a demagogia do parlamentarês "

""Luís Amado acusa Ana Gomes de distorcer as suas declarações sobre a Líbia": Parece inevitável que o debate político se esteja a transformar aceleradamente numa farsa. Uma farsa é uma situação em que uma variedade de planos, que coexistem na realidade-real, são rebatidos num único nível, como se a realidade tivesse uma única camada, como se todos falassem das mesmas coisas, tivessem os mesmos papéis a desempenhar e as mesmas responsabilidades. Uma farsa resulta de os actores falarem como se a realidade fosse assim plana, quando os que observam sabem e compreendem que as coisas não se passam assim."

Ler o resto, s.f.f.

À falta de interlocutores para um diálogo à esquerda, parece-me inevitável

Marques Mendes defende pacto de regime entre PS e PSD em algumas áreas estruturantes para o país.

22.2.11

Sem embargo

A editoria política da Antena 1 tem um novo blog, "Sem embargo". Posts curtos e pertinentes, diria destinados a ajudar na triagem da voragem informativa a que temos direito. Resiste, e ainda bem, à prolixidade tão característica dos canais com vocação informativa. E publicam pela manhã a agenda política do dia. So far so very good.

Descarreguei as fotos do telemóvel: o Outono em Lisboa foi assim





















20.2.11

Filmes que me educaram politicamente



"Missing is a 1982 American drama film directed by Costa Gavras, and starring Jack Lemmon, Sissy Spacek, Melanie Mayron, John Shea and Charles Cioffi. It is based on the true story of American journalist Charles Horman, who disappeared in the bloody aftermath of the US-backed Chilean coup of 1973 that deposed leftist President Salvador Allende."

"The film was banned in Chile during Pinochet's dictatorship, even though neither Chile nor Pinochet are specifically mentioned by name in the film (although the Chilean cities of Viña del Mar and Santiago are)."

"Both the film and Thomas Hauser's book The Execution of Charles Horman were removed from the market, following a lawsuit filed against Costa-Gavras and Universal Pictures's parent company MCA by former Ambassador Nathaniel Davis and two others. A lawsuit against Hauser himself was dismissed because the statute of limitations had passed. Davis and his compatriots lost the lawsuit. After the lawsuit, the film was again released by Universal in 2006"

Wikipedia


Adenda: Não conheço quase ninguém que tenha visto este filme. O que estavam, afinal, todos a fazer naquela tarde de sábado de 1986 em que este filme passou na RTP*?

* Bem sei que foi impressionante mas, como é evidente, ignoro se era sábado, de tarde, ou mesmo 1986. Mas tenho a certeza que era na RTP...

16.2.11

Olvido

"Era já inverno quando os quatro arguidos foram julgados por três juízes e absolvidos. A ausência de prova produzida na audiência foi manifesta. Não houve comunicados. Nem da polícia nem do tribunal. Talvez por ser inverno, a absolvição não foi notícia"

Creio que é também por casos como este que, em Espanha, se tem debatido vivamente a questão do direito ao esquecimento na Net e a tensão entre este e a liberdade de expressão e o direito à informação. A polémica foi reanimada com a decisão da Agência de Protecção de Dados, que se pronunciou favoravelmente a que o gigante Google fosse obrigado a omitir nas suas pesquisas a referência a determinados sites. Seria, porventura, o caso dos quatro cidadãos referidos na citação supra (supra, ahah), presumidamente tidos como autores de um violento incêndio, facto abundantemente noticiado, mas que no final foram absolvidos. Com a habitual discrição. Numa qualquer pesquisa sobre esses cidadãos o mais natural seria que os resultados sugerissem o seu envolvimento naqueles crimes. O que de facto aconteceu num determinado momento mas que conta apenas parte de uma história. E esta meia história pode revelar-se atentatória do bom nome, da imagem, da dignidade dessas pessoas. Vale a pena acompanhar o debate que está a acontecer por lá. Que é o mesmo que cá. E se cá nevasse fazia-se cá esqui.

15.2.11

Eu temo

“A minha concordância com a petição tem a ver com a necessidade de os órgãos políticos e outras entidades que superintendem os destinos deste País poderem surgir com a maior das transparências relativamente à opinião pública. É um pouco aquela ideia de que quem não deve não teme”, afirmou o juiz, referindo-se à petição do Correio da Manhã a favor da criminalização do enriquecimento ilícito.

“A ideia de quem não deve não teme” aplicada à justiça penal (ainda por cima vinda de um magistrado) é das ideias mais perturbadoras para quem tem uma certa ideia do Estado de direito. Um chavão que contém, em si mesmo, a negação de qualquer direito à reserva da vida privada; que nos desprotege da arbitrariedade do poder do Estado em entrar pela nossa porta adentro; que parece ignorar que os efeitos da justiça não se confinam às paredes do tribunal nem tão pouco aos termos da sentença judicial mas começam a produzir-se desde o início do inquérito (ou, talvez mais apropriadamente, desde a primeira notícia sobre o inquérito). “Quem não deve não teme” é próprio de um sistema que pretende realizar a justiça com base em presunções (aliás, “quem não deve não teme” é, ela mesma, uma presunção). Uma justiça assim, transforma o juíz numa espécie de contabilista. Eu temo. Temo, e se algum dia o Estado e a justiça pretenderem dizer que também devo, gostaria de saber que teriam de demonstrá-lo primeiro.

14.2.11

Só ontem vi este filme. Para mim é tão recente quanto o último do Woody Allen. Diálogos e monólogos fascinantes. Não sendo este sequer dos melhores

Já agora...

... um exemplo, um único exemplo de um país que tenha sido afectado pela crise e que esteja a fazer-lhe face com recurso a uma política de não austeridade? Ou significativamente diferente da que tem sido seguida por Portugal nos últimos meses? Hum?

Lá, como cá, como em todo o lado

"Os cortes orçamentais para efeitos da redução do défice público chegaram aos Estados Unidos. Até 2015, a administração promete fazer baixar o défice dos actuais 9,5 para três por cento do produto. Na América, como na maioria dos países europeus, a crise financeira de 2008 obrigou os estados a aumentar os gastos para aquecer a economia ou para mitigar danos sociais e chegou a hora de pagar a factura."

Editorial (link para assinantes) do Público de hoje.

Arriscar ângulos novos

E porque é que a integração profissional dos que têm um diploma universitário deveria ser muito mais fácil ou estável do que a dos que têm menos habilitações? Claro que o investimento que é feito nos estudos tem implícita uma expectativa de um retorno superior. Mas ele verifica-se. Mesmo no actual contexto de crise. Estudar compensa. Nisto, os números são inequívocos (ver references). Melhores salários e mais rápida inserção no mercado laboral. Disto isto, “having said that”, porque é que a estabilidade contratual deveria ser um privilégio dos diplomados. Estes estarão até mais bem equipados para reagir em caso de desemprego, como também o provam os dados sobre o tempo de espera dos licenciados, muito inferior aos restantes desempregados. Assim, arriscaria dizer que até é bastante de esquerda (e eu gosto de dizer coisas de esquerda) verificar que quem mais precisa é quem está contratualmente mais protegido da instabilidade laboral.

Ainda no outro dia estive uma boa parte do almoço a tentar explicar porque é que, apesar de achar a música feia para burro (aquele arraçado de fado…), considero que a letra espelha angústias importantes de parte desta (a minha também) geração. Não raro, sinto-me um autêntico Zelig.

References:

“Francisco Lima, que no ano o passado fez um estudo para o INE sobre a relação entre a qualificação e a rapidez com que se entra no mercado de trabalho, não tem dúvidas. Dois anos após terem terminado o ensino, mais de 40 por cento dos jovens com o básico ainda procuravam emprego e apenas 25 por cento dos licenciados permaneciam nessa situação.”

“O último relatório da OCDE Education at a Glance também é claro quando diz que Portugal é o segundo país da organização, a seguir ao Brasil, onde o prémio salarial dos licenciados que entram no mercado de trabalho é mais elevado. Quem faz uma licenciatura ou um grau mais elevado ganha duas vezes mais do que a média. E comparativamente aos que não foram além do secundário ou de um curso profissional, o ganho é 80 por cento superior."

WCCCB


Também amanhã, planeio demonstrar porque Javier Cercas é do caraças. Do prólogo da Anatomia de um Instante

Acho que amanhã vou escrever um post sobre esta coisa em torno da música dos Deolinda

11.2.11

Somos todos egípcios? Dúvidas

"Somos todos egípcios", lê-se um pouco por todo o lado. A minha pergunta é. Não deveríamos era ter sido egípcios nos últimos 30 anos, quando estavam a sofrer? A nobreza da expressão não reside, precisamente, em manifestar solidariedade para com essa condição ou, pelo menos, a sua iminência ou risco? Não foi essa a mensagem que Kennedy pretendeu transmitir quando disse que éramos todos berlinenses (embora não em português, mas em alemão). “Éramos” eram todos os povos livres, que se solidarizavam com a ameaça à liberdade que pendia sobre os berlinenses ocidentais. Ou estou a ver mal a coisa? E agora vou fazer uma coisa parva, que é lincar um post de Irene Pimentel, em que faz precisamente o que estou a questionar. E isto devia ser o suficiente para meter a viola no saco. Mas aqui estou eu...

Bons tempos para se estar vivo

Em toda a minha existência (cujo início remonta a meados dos anos 70), só assisti a transições para democracias. Nunca o contrário.

Le roi est mort, vive... vive qui?


Hosni Mubarak cede, finalmente, o poder. Mas sabiam que na Noruega os piores criminosos cumprem pena numa ilha-prisão: sem grades, muros ou guardas armados? Tudo, no Spiegel international, em língua inglesa.

10.2.11

Opiniões

"Na minha modesta opinião" é das formas menos modestas que conheço para exprimir uma opinião. Isto, claro, no meu humilde juízo.

9.2.11

Finger, Peter Bofinger


Parece que Axel Weber, o mais forte candidato à sucessão de Trichet à frente do BCE vai desistir da corrida. Não posso dizer que tenha muita pena. Já há alguns nomes a circular para substituto de Weber. Permito-me fazer a minha sugestão a Merkel, no mesmo espírito com que ainda no outro dia a chefe de Governo alemã sugeria uma alteração à Constituição portuguesa.
Peter Bofinger. Wikipedia: Peter Bofinger (born September 18, 1954) is a German economist and member of the German Council of Economic Experts. He is the only proponent of Keynesian economics in this council.

Por mim, não pensava mais no assunto.


Como é que se chama quando se ultrapassa o ultraliberalismo pela direita?

"Até mesmo para uma teoria muito liberal, estas [os défices crónicos das empresas de transporte colectivo) são perdas que têm de ser assumidas". Paulo Rangel, na tv.



Via Câmara Corporativa

As melhores e as piores notícias do dia

Weber desiste da corrida para a sucessão a Trichet no BCE

El Bundesbank confirma que Weber mantiene su candidatura a presidir el BCE.

À suivre

Sempre a aprender com os idosos. Com Roth, Larry David, ou com a velhinha de Northampton

"Ontem, a decadente Northampton aqueceu os corações dos noticiários mundiais. O assunto? O herói improvável. Sigamo-lo por uma câmara, numa esquina da velha Gold Street. De manhã e em dia de trabalho, três scooters e seis jovens investem contra uma joalharia. A loja está blindada, mas os jovens batem com marretas nas montras. Ninguém ousa fazer nada (a não ser o já instintivo filmar de telemóvel...). Mas eis que pela rua vem Ann Timson, septuagenária reformada, casaco vermelho de hussardo. Ela carregava porque não perguntou o que a sua rua podia fazer por ela - sabia que ela tinha de fazer pela sua rua. E até ia enganada: pensava que era altercação de jovens, um atacado por matilha. Em chegando, viu que era assalto. Não importa, era o mesmo, a rua a precisar dela. Ann levantou o saco das compras e espadeirou. Os bandidos tiveram o susto de ver coisa mais rara, hoje, que uma carga de brigada ligeira: um cidadão."

Ferreira Fernandes, claro, na sua coluna de opinião do DN.

O improvável (e maravilhoso) vídeo:

8.2.11

Porque se deve levar a sério a ameaça de moção de censura do PCP

É o que explica aqui, de forma cristalina, Paulo Pedroso. Os seis pontos deste texto são, aliás, uma síntese de quase tudo o que importa saber sobre o que faz correr o PCP. Em 2011. Tal como em 1975. And in between.

7.2.11

Já agora, o que é o Malaui?

Crime, dizem eles (não, não é no Malaui)

"Os professores estão a pensar avançar com uma queixa-crime contra o Estado devido aos cortes salariais."



Vantagens das ditaduras, dizem (entre muitos outros títulos possíveis)

Malaui quer criminalizar flatulência em público


«Chaponda (o ministro da Justiça e Assuntos Constitucionais) considerou que o mau hábito de libertar gases intestinais em público é uma consequência directa da democracia, sendo, em sua opinião, necessário que as pessoas aprendam a “controlar a natureza”.»


«Este hábito não existia nos tempos da ditadura porque os cidadãos temiam as consequências, mas desde que o país abraçou a democracia multipartidária há 16 anos as pessoas começaram a sentir que podem libertar gases em qualquer lado”, referiu o ministro da Justiça, que propôs a criminalização.»

4.2.11

Porque sim?

Porque não? Desculpa lá Domingos mas achei frouxo o argumento que apresentas a favor da redução do número de deputados.

Pelo contrário, vi bem sustentada a tese de que um maior envolvimento dos eleitores na escolha dos seus representantes por via do voto preferencial (com o que também concordo) poderia aproximá-los do processo democrático. A referência que fazes de que a AR funciona mais como um conjunto de grupos parlamentares do que de deputados não conduz necessariamente à bondade da redução de eleitos. Quando muito, remete para uma vaga ideia de eficácia dos trabalhos parlamentares. Mas, a ser verdade, julgo que isso confrontará mais os partidos com as suas práticas (e com a eventual necessidade de as mudar) do que com eventuais debilidades do sistema eleitoral.

E quando falamos de proporcionalidade convém sabermos exactamente do que falamos.

Proporcional à dimensão do país? Mas no que diz respeito ao rácio de número de deputados por habitante estamos abaixo da média europeia, nomeadamente em relação aos países com dimensões semelhante ao nosso (temos 1/43 mil hab, sendo a média de cerca de 1/38 mil; aliás, dos dez países com dimensões semelhantes à nossa, apenas dois têm um rácio mais elevado). Esta seria sempre comprimida com tal medida.

Proporcionalidade como garante de uma maior diversidade partidária no Parlamento, retratando mais fielmente a pluralidade de sensibilidades políticas e ideológicas no nosso país? Dificilmente essa não seria afectada. Pelo menos se não se mexesse significativamente na dimensão dos círculos. Mas aí, ao tornar maiores os círculos, estaríamos a contribuir para afastar os eleitos dos eleitores, ou não?

Proporcionalidade das várias regiões do país? Bem, não sei que dizer relativamente a estas mas intuo que também não seria beneficiada por esta mudança.

Assim, todas estas dimensões parecem-me mais ou menos intensamente afectadas pela redução do número de eleitos. E esta é feita exactamente em nome do quê? Da uma ideia de eficiência, cortando no número de representantes como se fossem membros de um qualquer conselho de administração.

Ora, parece-me que a diminuição do número de deputados sacrifica muito em nome de muito, muito pouco. E, ainda que seja um mero exercício de estilo, “porque não” é o oposto daquilo que seria necessário para fundamentar uma alteração destas. Agrada-me pensar que a inversão do ónus da prova ainda não chegou ao domínio constitucional.

A aquecer os motores para o NAO

Eu sei que há o Egipto, a crise das dívidas soberanas, o aumento do petróleo e das matérias-primas (primas de quem?). O défice, o desemprego, o crescimento. O Estado Social. Há isso e muito mais. Sempre haverá. E é por vos saber concentrados em tão importantes matérias que partilho convosco algo que, não estando no topo das prioridades mais prioritárias, vem fechar um longo e tormentoso percurso de dúvida de origem linguística. Que resumo. Guê ou gê? Guê, claro, respondo intuitivamente. Sem claudicar ou margem para hesitações. E assim seria, se não fosse a GNR... Sempre o raio da GêNR. Ora, parece que vários especialistas (entre os quais não me lembro) consideravam como possível a designação de gê ou guê para a letra G. Aliás, possibilidade análoga admitiam (???) para a letra F (fê ou efe) ou para a letra L (lê ou ele). Parece que era muito útil para as crianças aprenderem o alfabeto nos primeiros anos escolares. Concluamos. O maravilhoso novo acordo ortográfico não foge a esta questão e aceita a dupla designação para a letra G. Quem quiser dizer GuêNR, sinta-se, por isso, à vontade. Acaba, todavia, e para bem das gerações vindouras, com o fê e o lê, aceitando, unicamente, o efe e o ele. Para curtir mais, é só vir aqui.

Por outro lado...

O O' Reily podia estar a confundir Amsterdam com Hamstredam. Deve ser isso.

1.2.11

Meryl Streep

Com orelhas de burro, talvez deva confessar (mas porquê? que idiota!) que, contrariamente ao que dei a entender, me lembrava perfeitamente daquele filme dos ABBA que ela fez recentemente e que, arghhhh..., se inclui entre os filmes que, não obstante e verdadeiramente, se enquadram naqueles que não são excluídos a título de excepção da afirmação genérica de que, genericamente, gostei de todos os filmes da Meryl Streep.

Morte de John Barry...

... o compositor que criou, entre outras, a banda de "África Minha". Aproveito para dizer que nunca vi tal obra. Mas lamento-o. Acho eu. Gosto do Robert Redford. Menos da Meryl Streep (bule um poucocinho com o meu sistema nervoso, embora goste de quase todos os filmes que dela vi, como o "Kramer contra Kramer" e a "Escolha de Sofia", não me lembro de outros, além de que a confundo com alguma frequência com a Kathleen Turner). Também nunca vi o Titanic. Mas tenho grande orgulho nisso. E há outros.

Sem preconceitos




A crónica daquele que foi o director do Expresso durante tantos e tantos anos (bem sei que a pergunta é feita diariamente pelas mais diversas pessoas de bem mas: como foi isto possível?). Que eu desse conta, já foi, muito apropriadamente, evidenciada aqui e aqui. Destacando o parágrafo que, ainda assim, é insuficiente para sintetizar toda a parvoíce que se pode encontrar num único naco de prosa (odeio esta expressão; preguiça...). O destaque vai, muito merecidamente, para este excerto:

"O serviço militar obrigatório acabou sem qualquer debate público, como se fosse uma coisa sem importância nenhuma. Ora, para muita gente, era uma directriz. Havia jovens vindos da província que tomavam na tropa o primeiro banho! E às vezes aprendiam ofícios - como cozinhar ou conduzir - que lhes davam uma ferramenta para a vida, além de regras de disciplina que ficavam pelo tempo fora. Este jovem que estava em Nova Iorque com Carlos Castro - que terrível coincidência a proximidade entre as palavras Castro e castrado - noutra época estaria a cumprir o serviço militar e não teria dado cabo da vida."

Mas a minha parte favorita é esta pequena pérola:

"Observemos agora estes factores um por um, independentemente da opinião que tenhamos sobre eles."

Observemos...

"A família era a primeira rede caso um indivíduo caísse do trapézio. Ora, a família tradicional afundou-se. Repare-se que Renato pertence a uma família desagregada."

"Passemos à escola. Que, inegavelmente, perdeu autoridade. Perdeu autoridade como um todo e os professores perderam autoridade. A bagunça instalou-se"

"Olhando agora para as Forças Armadas, que eram uma reserva da nação , perderam toda a relevância. Por outro lado, o serviço militar obrigatório acabou sem qualquer debate público, como se fosse uma coisa sem importância nenhuma. Ora, para muita gente, era uma directriz"

"A Igreja Católica também contribuía decisivamente para a integração social das pessoas - e para uma certa igualdade. Perante Deus, todos são iguais: o pobre e o rico, o novo e o velho, o doente e o são. E a interiorização dos Dez Mandamentos fornecia um conjunto de princípios de convívio em sociedade: não matarás, não roubarás, não cobiçarás a mulher do próximo, etc."

"O Estado tinha uma imagem forte que foi perdendo (...), consequência da própria democracia, mas também de um abaixamento da qualidade dos políticos e dos governantes, que deixaram de ser pessoas respeitáveis e com qualidades reconhecidas pela sociedade para serem, muitas vezes, carreiristas."

E muito mais... Isto, claro, "independentemente da opinião que tenhamos sobre eles", como diz o ex-arquitecto (baralhei-me). É a"Política a sério", nome da coluna de opinião deste génio. Agora é imaginar como seria a brincar... (três reticências; no limbo.... bolas; ponto final).

26.1.11

Os novos tempos

O individualismo foi, nos dias de hoje, substituído pelo indivirtualismo.

Casamento entre pessoas do mesmo consulado

É sempre surpreendente verificar como é que o senso comum, ou o senso feito do saber comum, pode andar tão distante da verdade. Como tão bem prova este texto de Isabel Moreira. E de repente, o que antes parecia errado, passa a estar certo. E vice-versa. Viva o conhecimento.

Obamas's cunning plan

"By playing this rope-a-dope, Obama has positioned himself well to push back hard against the conservative agenda. Having refused to offer Republicans the cover they crave for “entitlement reform,” while offering his own modest, reasonable-sounding deficit reduction measures, he’s forcing the GOP to either go after Social Security and Medicare on their own—which is very perilous to a party whose base has become older voters—or demand unprecedented cuts for those popular public investments that were the centerpiece of his speech. Either way, in a reversal of positions from the last two years, Obama looks like he is focused on doing practical things to boost the economy, while it’s Republicans who are talking about everything else. Boring it may have been, but as a positioning device for the next two years, Obama’s speech was a masterpiece."

Aqui.

Como nasceu o mais conhecido festival de BD da Europa

A história contada aqui. Aos quadradinhos, evidentemente. Très cool.

Não ficará para a história mas esta é uma das razões por que gosto (cada vez mais) de Obama

"Several Democrats, speaking on condition of anonymity, expressed disappointment that Obama didn’t capitalize on the good will after his moving memorial speech in Tucson days after a gunman shot Rep. Gabrielle Giffords (D-Ariz.) and killed six bystanders. Obama acknowledged her empty chair but he quickly pivoted to maintaining America’s capacity to compete economically against other countries." (here)

25.1.11

Tenho muito para dizer sobre tanta coisa mas já tantos o disseram antes de mim. Links

Ando há tempos para dizer qualquer coisa sobre o novo Acordo Ortográfico. Qualquer coisa como esta.

Cidadania

A candidatura de Fernando Nobre foi, do meu ponto de vista, um desastre. Demagogia, populismo e arrogância. Julgo que, com isto, terá afastado mais eleitores do que atraído. Mesmo assim, teve 14,1% dos votos, representando quase 600 mil eleitores, que, imagino, procuram soluções políticas (Políticas) que não se esgotem nos partidos políticos. Do meu ponto de vista (ponto de vista 2, na minha opinião zero), a Presidência da República será o cargo electivo onde estas chamadas candidaturas cidadãs, ou independentes, podem fazer mais sentido. E eu até gosto muito de partidos políticos. Concluindo. Se uma candidatura como a de Nobre teve o resultado que teve, só posso imaginar como teria sido com uma candidatura com outra nobreza.

Pop



A prova de que a vida não precisa da música pop para nada está nos filmes do Woody Allen.

Pelo canto do olho

Ainda no outro dia fazia aqui um apelo à reedição da tradução de "Soldados de Salamina", do incrível Javier Cercas. Hoje, pelo canto do olho, pareceu-me ver na RTPN o escritor João Tordo a fazer-me pirraça com este mesmo livro de Cercas na mão. Tirei o mute e ainda fui a tempo de o ouvir dizer que considerava Javier Cercas o mais fascinante escritor espanhol contemporâneo e que "Soldados de Salamina" foi a obra que mais o marcou nos últimos cinco anos. Fui ao google e vi que João Tordo já falara de Cercas no seu blog, nestes termos. Não ando cá a fazer nada, é o que é.

24.1.11

Mais um insuportável post em que digo como é que acho que a democracia devia ser

Quem se indignou com o que o Governo de Cavaco Silva fez, em 1992, a José Saramago, não pode deixar de pensar o mesmo sobre o que o Governo francês fez a Céline, retirando-o da lista dos autores incluídos nas Celébrations nationales devido ao seu anti-semitismo. Não pretendo sugerir que ser ateu e anti-semita é equiparável. Quer dizer, até estou, se for para dizer que são posições irrelevantes para avaliarmos a arte, ou a ciência, dos opinantes. Ia para dizer que a democracia confronta-nos muitas vezes com dilemas complexos de superar. Mas nem é o caso (embora o seja naturalmente para muitas outras situações). A democracia obriga-nos é, com muita frequência, a fazer determinadas escolhas que, mais do que outra coisa, custam a engolir, moem no estômago, brigam com as nossas próprias convicções ou, até, com valores perfilhados pelo próprio Estado. Mas isto faz parte. Em nome de determinados valores e, à cabeça, da liberdade da opinião. Mas isto sou eu hoje. Ainda no outro dia acho que pensava algo vagamente diferente, como quando James Watson foi afastado do laboratório em que trabalhava por causa de declarações racistas. A coerência é algo tramado.

Parabéns ou talvez não

Caro Porfírio, para ti é o facto de Cavaco ter prolongado «a disputa eleitoral para dentro do estatuto presidencial, recusando objectivamente ser o presidente de todos os portugueses e escolhendo ser apenas o presidente "dos seus"». Para outros, o facto de Cavaco ter sido eleito com base numa imagem que não corresponde à realidade e, assim, num logro. Tal como eu vejo as coisas, felicitar o candidato ganhador é celebrar a democracia e o processo democrático. Nada tem que ver com a pessoa em causa. Não quero parecer um choninhas do género “ai, eu sou tão democrata” mas considero este simbolismo importante como manifestação de respeito por quem pensa de forma diferente da nossa, nomeadamente todos aqueles que, votando em Cavaco, não partilharão da tua opinião acerca da forma tão pouco democrática como Cavaco reagiu à sua vitória. Dito isto, having said that, subscrevo tudo o que dizes acerca de Cavaco em geral, e sobre a sua declaração de vitória em particular. Em bom rigor, e se estivéssemos numa mesa de café, era a altura para dizer, para que não restassem dúvidas: odeio o Cavaco e tudo o que ele representa. Acho que com isto já ninguém me chama choninhas….

Adenda: Discorda-se numas. Concorda-se noutras. Com ipsis e verbis.

Culturas distintas. Descubra as diferenças

Cavaco Silva

Jorge Sampaio

Dignidade. Antípodas

Este



e este

22.1.11

Infelizmente, sem link


A Ipsilon conta, na sua edição de ontem, a história de Romain Gary, o único autor a ter recebido por duas vezes (o dobro das permitidas pelo regulamento) o prémio Goncourt. Para isso inventou um pseudónimo, uma história de vida para este e até entrevistas de um primo que se fez passar pelo dito ao Le Monde. Uma maravilha.

Charada

O dia de reflexão e a reflexão acerca de um post sobre casamentos entre pessoas do mesmo sexo fez-me pensar numa grande piada. Mas não posso contar. Pois é dia de reflexão.

21.1.11

Democracia participativa


E a pergunta em que todos estão, provavelmente, a pensar é: como é possível que, estando prevista na lei desde 2003 (dois mil e três!), o Parlamento apenas tenha recebido uma (uma) iniciativa legislativa impulsionada por cidadãos? Iniciativa, aliás, coroada de êxito, tendo culminado na aprovação desta lei. Curioso número, não?

Gente como nós

Li-a apenas por insistência de um amigo. E ainda bem. Esta entrevista ao ex-inspector da Polícia Judiciária António Teixeira. Dele, apenas conheço o que aqui li mas creio que me reconforta pensar que temos pessoas assim na investigação criminal. Assim tão humanas, quero eu dizer.

"Nem gosto de usar a expressão "matar". Farto-me de dizer isto: o matar é um acto que acontece por força das circunstâncias. É um acto humano, quer queiramos, quer não. Todos somos capazes de matar em determinadas circunstâncias, quanto mais não seja para defender alguém ou a nós próprios. Se me disserem que para ser burlão é preciso ter jeito, admito que sim. Mas matar não é uma questão de jeito. A maior parte dos homicidas mata num momento de arrebatamento, não o premedita. Logo os outros nunca o poderiam prever. Estamos a falar do crime mais grave do nosso ordenamento jurídico mas, curiosamente, vamos às cadeias e estes homicidas são presos exemplares. Esgotaram tudo naquele acto.".

"Uma selva, pura e simples"

http://margensdeerro.blogspot.com/2011/01/uma-ideia-genial.html

20.1.11

Olha, estes não temem desviar as atenções do essencial

Irlanda terá eleições gerais em 11 de março

Última hora

Cavaco propõe alteração constitucional, de forma a acolher o princípio já por ele defendido, de que as eleições (presidenciais, legislativas, autárquicas) se devem realizar, em princípio, no final do mandato, se não houver assuntos candentes e mais urgentes a tratar. É o princípio do "não desvio das atenções daquilo que é essencial". A democracia não seria esquecida. Apenas viria em momento mais oportuno.

Talvez valha a pena esmiuçar aquele argumento de Cavaco

"Nós não podemos prolongar esta campanha por mais três semanas. Os custos seriam muito elevados para o país e seriam sentidos pelas empresas, pelas famílias, pelos trabalhadores, desde logo, pela via da contenção do crédito e pela subida das taxas de juro", declarou Cavaco Silva, durante um almoço de campanha em Felgueiras.

"Arrastar esta campanha mais três semanas, por desviar as atenções daquilo que é essencial, lançaria custos acrescidos sobre todos os cidadãos portugueses. E é por isso que tenho apelado aos portugueses para que não fiquem em casa", completou o candidato presidencial apoiado pelo PSD, CDS-PP e MEP.

Tudo, aqui.

Cada dia que passa, uma nova razão para não votar Cavaco

Cavaco: Segunda volta teria custos "pela via da contenção do crédito e subida das taxas de juro".

Democracias

Eu também fico decepcionado com a democracia portuguesa, quando vejo que produziu líderes de partidos políticos que ficam decepcionados com a democracia quando o processo democrático lhes é desfavorável. Não é lá muito democrático, quer-me parecer.

Sim, confundo deliberadamente cargos executivos e não executivos. Por maioria de razão.

«A Presidência da República precisa de ser ocupada por uma pessoa “com conhecimentos e experiência” que ajude Portugal a encontrar um rumo», defendeu, uma vez mais, Cavaco Silva.

A insistência de Cavaco Silva de que a experiência (governativa e no próprio cargo, presume-se) e os conhecimentos constituem uma quase condição para ocupar o lugar está muito longe de estar demonstrada.

Por economia de espaço, vamos até fingir que nem reparámos que a enorme experiência de Cavaco e os seus sólidos conhecimentos económico-financeiros de nada nos serviram nos últimos cinco anos.

A tese da experiência e dos conhecimentos, dizia eu… Se os eleitores americanos tivessem adoptado este critério através da história, Obama nunca teria sido eleito (e não foi por Hillary não se ter esforçado em atirar-lhe isso à cara). Nem Kennedy. Ou Roosevelt. Muito menos Reagan. Ou Clinton, que quando foi eleito não tinha sido mais do que governador de um pequeno estado como o Arkansas. Se os eleitores franceses tivessem adoptado esse critério, não teria havido Mitterrand. Se os eleitores britânicos tivessem seguido esse critério… bem, os britânicos despediram Churchill quando acharam que ele tinha experiência a mais. Se os portugueses se tivessem orientado por esse critério, o próprio Cavaco nunca teria sido eleito primeiro-ministro...

19.1.11

A Índia (ou o mundo) a vários tons

Gonçalo M. Tavares:


Na Índia, homens velhos que escutámos
durante horas e julgávamos já eternos,
levantam-se, subitamente, e começam a
urinar em plena rua, para cima do lixo
que cães, segundos antes, tentavam mastigar.
Respeito e nojo coincidem estranhamente
no mesmo homem: o mundo não
é claro e depois escuro, o mundo, cada pedaço dele,
é claro e escuro.
E quando um místico urina com displicência ao nosso lado
ensina-nos isso, e outras coisas.

Uma Viagem à Índia, Canto VII, estrofe 21

Furtado ao Porfírio Silva

Coisas simples

"face à la crise, la droite réagit très simplement : elle remet en question l'Etat-providence, réarme la guerre entre les ayants droit de cet Etat-providence et les autres salariés et, à la mondialisation et à ses peurs, répond par le langage de la peur et un discours sécuritaire." En somme, des réponses simples à des questions complexes, un exercice auquel la gauche ne peut, par essence, céder".

Daniel Cohen, presidente do "conseil d'orientation scientifique de la Fondation Jean-Jaurès", citado neste artigo sobre o impasse em que se encontra actualmente a social-democracia europeia.

18.1.11

Javier Cercas


Este livro já foi traduzido em português mas, por razões que desconheço, encontra-se esgotado há vários anos e sem perspectiva de reedição. Isto aborrece-me, pois "À velocidade da luz" e "O Inquilino" são dois livros muito bons. E castelhano é uma língua que me chateia, no sentido em que, se já sou lento a ler na língua materna, "peor, muy peor" é o cenário em língua estrangeira de Espanha. Um dia vi uma pessoa a ler este livro na esplanada do café do Parque da Serafina. E era a edição portuguesa. Mas tive vergonha.

Post sem final feliz

Muitos britânicos começam, finalmente, agora a compreender o legado dos doze anos de Partido Trabalhista, nomeadamente ao nível do Estado Social. Só agora, que o governo de direita se prepara para pôr em causa a generalidade dessas medidas.

É fácil antecipar que, um dia, o mesmo venha a acontecer por cá. Que só quando a direita chegar ao poder e começar a desfazer, tijolo a tijolo, o edifício do Estado Social, é que compreenderemos melhor o legado do actual governo (o tijolo do CSI, o tijolo da escola pública de qualidade para todos, o tijolo da Segurança Social pública, o tijolo do SNS, o tijolo da concertação social, etc.).

Aí tudo ficará mais claro. Mas também será tarde demais para voltar atrás.

14.1.11

Verdes anos

Pálidas ideias

Carlos Blanco de Morais, constitucionalista, membro da comissão de honra da candidatura de Cavaco Silva e seu consultor para os assuntos constitucionais em Belém, faz hoje nas páginas do Público uma prelecção sobre direito constitucional, nomeadamente sobre os poderes do chefe de Estado.

Dirige-a aos candidatos presidenciais adversários do actual chefe de Estado, que, reclama, “não fazem a mais pálida ideia sobre o que verdadeiramente é a função presidencial”.

Concretamente em relação a Manuel Alegre, critica-lhe o seguinte:

“Se, pelo contrário, estava a referir-se a leis ordinárias, deveria então também saber que, se as mesmas violassem direitos sociais previstos na Constituição, ele [Alegre] não poderia utilizar o veto político (que não é um instrumento de controlo de constitucionalidade), mas sim o sistema de fiscalização junto do Tribunal Constitucional.”

A inevitável pergunta que nos ocorre é, então, a seguinte: quão pálida é a leitura que Cavaco Silva faz dos poderes presidenciais, nomeadamente quando opta por vetar politicamente um diploma por razões de constitucionalidade, como aconteceu no estatuto político e administrativo dos Açores, algo que justificou (em entrevista ao Público) ter sido para manifestar a sua forte discordância “dando a cara e não através de terceiros*”?

* os terceiros, presume-se, são os juízes do Tribunal Constitucional

13.1.11

Círculo vicioso (ou será ciclo vicioso?)

Foi o cigarro do Lucky Luke. O charuto do Churchill. Do Sartre. Do Malraux. O cachimbo do Tati. Em todos os casos, achar-se que a ignorância é a melhor forma de nos protegermos de influências consideradas (e mesmo que sejam) perniciosas. Agora, este caso, relatado aqui, em que a obra de Mark Twain aparece higienizada, sem "niggers" mas com expressões menos ofensivas, como "slave". Parece que assim se contorna o boicote que à obra é movido em muitas escolas americanas e professores (e também os pais) são dispensados de explicar às crianças a complexidade da vida e da história. Um dia, saberemos tão pouco que nem conseguiremos dizer se o que nos foi ocultado é bom ou mau. E aí recomeçará tudo outra vez, suponho.

Para memória futura

No espaço de uma semana, duas excelentes entrevistas a dois dos nossos melhores. Pedro Magalhães e Rui Tavares, esta num registo sobretudo biográfico.

12.1.11

Accountability

Li, com espanto, que Francisco José Viegas apoia petição do Correio da Manhã a favor da criminalização do enriquecimento ilícito. Pelo menos, assim informava um tweet do Correio da Manhã (é um amigo meu que o segue...). Com espanto, pois, há cerca de um ano e sobre o mesmo tema, FJV escrevia isto:

"O pacote sobre enriquecimento ilícito é muito popular e corre o risco de ser aplaudido, de quatro, pela multidão — uma vez que se inclui a excrescência «ilícito», a que em breve bastará cair o «i» inicial para se entrar na paranóia aguardada."

E isto:

"Com o ataque ao enriquecimento ilícito, um justíssimo combate, vêm a inversão ao ónus da prova, a desconfiança permanente transformada em motor da investigação e a quebra dos sigilos profissionais."

E também isto:

"Com a inversão do ónus da prova, essa grande conquista da democracia (é o povo que a pede, suponho), entraremos num admirável mundo cheio de pessoas honestas ou tendencialmente purificadas, em que não haverá mais financiamento obscuro das campanhas partidárias (prometem?), não haverá mais nomeações sem escrutínio e sabatina (prometem?), não haverá mais empresas favorecidas — politicamente — em concursos (prometem?), não haverá mais «vírgulas» nem contaminações de investigações por suspeitas políticas. Seremos exemplares."

10.1.11

E porque anteontem foi sábado...

...foi dia de crónica de Pacheco Pereira no Público. Um excelente texto, sobre "a ascenção da demagogia" nos tempos de hoje, ilustrada por três exemplos políticos da actualidade: Francisco Louçã, a petição do Correio da Manhã a favor da criminalização do eriquecimento ilícito e, finalmente, a sede de poder político dos juízes. A não perder.

Livro de reclamações(inhas)


Se calhar é assim mesmo que estas coisas funcionam mas pergunto-me se faz sentido que a revista Ler deste mês pré-publique um excerto do que foi considerado por muitos como o livro do ano , o "Liberdade", de Jonathan Franzen, e se abstenha de informar os seus leitores desse facto na capa.

5.1.11

Cada país tem o escândalo Lewinsky que merece


"O que não se entende é o lamentável comunicado da PR de 23 de Novembro de 2008 onde Cavaco nega peremptoriamente qualquer relação com o BPN... sabendo ele, tão bem como nós, que as acções que tinha eram da SLN, sociedade que controlava o BPN. Esse é o pecado de Cavaco em todo este processo."

Nicolau Santos, no Expresso, citado aqui (via acolá).

Resumindo, Cavaco não teve qualquer relação com o BPN, assim como Clinton não teve "qualquer relação sexual com aquela mulher". Sendo assim, a SLN é..., precisamente.

Malangatana (1936-2011)


A citação é apenas para fazer um ponto político mas a entrevista vale pelo que nos ajuda a pensar a crise (alerta: sintaxe desta frase desconhecida)

"(...) a verdade é que as linhas gerais de contenção eram inevitáveis, porque temos um compromisso comunitário e seria impensável não o cumprir. O que é criticável não é o Orçamento apontar para o défice que aponta, mas sim que a UE tenha mudado de repente a sua política económica de uma forma que nunca foi completamente explicada. Parece uma austeridade sem grande justificação."

A Europa estava centrada no investimento público.

"E de repente passou para uma coisa completamente diferente. E isso não se pode fazer. Em política económica não se podem fazer essas mudanças sem uma justificação muito grande. Pode dizer-se que a Europa foi apanhada de surpresa pelas crises da dívida soberana. Talvez. Mas isso não deveria implicar fazer o que fez. "

João Ferreira do Amaral, em entrevista ao "i".

4.1.11

Notícias sem informação

“Governo insiste na nomeação de vice-procuradores jubilados”, escreve o Público. À primeira vista, compreende-se a chamada de atenção. O estatuto dos magistrados que o Governo apresentou ao Parlamento volta a propor que os procuradores-gerais adjuntos jubilados possam ser nomeados a "título excepcional". E esta proposta tinha sido rejeitada pela Assembleia da República há uns meses. Acontece que, conforme explica a notícia, na altura a polémica prendia-se com o facto de esta norma permitir a continuação em funções de Mário Gomes Dias como braço-direito de Pinto Monteiro (o actual procurador-geral), que já tinha atingido a idade limite para a reforma. Havendo já uma nova vice-procuradora, esta polémica já não se coloca, pelo que seria de esperar alguma informação na notícia sobre o objectivo pretendido com esta proposta, que até serve de título ao artigo. Mas sobre isto, nada. Total ignorância. Nossa e deles, suponho. Por acaso, até já estou esclarecido, pois acabo de ouvir as explicações que o PGR e a vice-procuradora acabam de dar à primeira comissão do Parlamento. Mas não sou jornalista.

28.12.10

Ontem fui ("fui", palavra estranha para português, não é?) ver este filme. Gostei

Quem não quer ser monge não lhe veste o hábito

"Esta semana, até ao início do ano, será particularmente activa em movimentações jurídicas. Sindicatos da Função Pública, entre eles Professores, Magistrados e Juízes estão a ultimar pareceres contra a redução salarial imposta pelo Governo."

Notícia daqui.