16.1.12

Posts sobre o Público de hoje: o nosso Chico

Miguel Esteves Cardoso deslinda um dos mistérios que me acompanha desde o início da idade adulta: como é que pessoas de direita podem gostar, como eu gosto, de Chico Buarque. MEC explica: Chico escreve sobre a humanidade e "não gostar de Chico é como não gostar de ninguém".

Posts sobre o Público de hoje: ainda sobre o caso Ferreira Leite e as declarações sobre hemodiálise

está certíssimo o provedor do jornal "Público", na edição de hoje. No que se refere à peça que saiu na edição online do Público, privilegiou-se o sensacionalismo em detrimento do rigor informativo, pois fez-se manchete de umas declarações confusas que a própria, a isso instada, viria a esclarecer momentos depois. Eu, que sobre este assunto apenas li manchetes nos dias seguintes, fui induzido em erro.

No entanto, o que o provedor não aborda (nem é suposto), é como é que é possível que uma carreira feita de gaffes sistemáticas, equívocos reiterados, numa profusão de mensagens confusas, coexista com uma carreira política de elevado perfil (ministra, líder do maior partido da oposição, putativa salvadora da pátria). Com relativa impunidade, detendo hoje ainda hoje palco nos órgãos de comunicação (ah, a ironia...) social .

Tony Judt, num dos textos do seu "chalet da memória", alarga-se a explicar sobre porque é que quem não sabe expressar-se ou comunicar com clareza, ou não tem nada para dizer ou tem intenções ocultas. Acho um exagero aplicado ao comum dos mortais (para minha defesa, aliás, sem quaisquer pedras para atirar). Mas de aplicação imperativa aos que competem pela gestão da res publica.

5.1.12

Liberdade, taxação, representação

Não acompanhando muito do que se tem escrito acerca do caso Jerónimo Martins, sempre gostaria de dizer o seguinte. Dá-me bastante satisfação pagar os meus impostos. Cá. Não gosto, portanto, de ler, como tenho lido, que aquilo que o sr. Soares dos Santos fez é aquilo que cada um de nós faria se tivesse oportunidade para tal. Não é. Gosto de pensar que, pela via fiscal, contribuo com a minha parte para que Portugal se torne um país melhor e mais justo. Será uma parte insignificante no bolo mas é a minha parte. Os EUA nasceram sob o lema de “no taxation without representation”, em português rimado: não há taxação sem representação. O inverso também é válido. Se nos furtarmos à taxação, fragilizamos os laços que nos ligam aos representantes e às escolhas da comunidade, quebrando o contrato social, por incumprimento de deveres. É também por isso que se torna particularmente chocante que esta espécie de elisão fiscal venha de quem tem tido intervenção pública e política, contribuindo para moldar as escolhas que nos afetam a todos nós. Sim, passei a escrever de acordo com o novo acordo ortográfico. É deveras estimulante.

Gillao

Pelas saudades que deixas. Mesmo com a distância que nos separava.

Pelo que me ensinaste sobre a amizade. Muito especialmente a que te unia ao meu pai.

Pelo que aprendi contigo sobre música, como não estarmos reféns das modas (não sei se não terei levado demasiado à letra este ensinamento. Naaahhh…).

Recordarei, sempre com um sorriso, as palavras que me repetiste muitas vezes (com o teu sotaque parisiense; voz quente e rouca) quando era adolescente: "Red Hot Chilly Peppers Merde".

2.1.12

Não é só em matéria de austeridade que andamos a fazer merda

Impiden a un indignado subir a bordo de un avión por llevar carteles anarquistas.*

A fazer lembrar um episódio recente das empresas que boicotaram o apoio dos seus clientes à wilikileaks (organização pela qual não nutro particular simpatia), atitude que mereceu o aplauso de muitos (mesmo dos melhores de entre nós).

* via Porfírio Silva, que, sobre isto e sobre o resto, deve ser lido.

26.12.11

Errata ao "ainda sobre preconceitos"

Esqueci-me dos escuteiros.

Ainda sobre os preconceitos

Por outro lado, sou um defensor incondicional dos preconceitos. Tenho-os para dar e vender. Betos, monárquicos, “tios” e “tias”, surfistas (bem, esta já está meio caduca, mas teve o seu tempo), caçadores, entre tantos outros. Os preconceitos são muito úteis. Ajudam-nos a organizar mentalmente o mundo. Encaro-os como uma espécie de tabuada mental. Exceto que é uma tabuada falível. (Afinal, esta imagem da tabuada não é lá grande coisa. Recomponho-me). E ter uma consciência aguda disso mesmo. Por exemplo, até tenho amigos betos.

Justos preconceitos

Assim a propósito de nada. Julgo que as pessoas mais justas (as minhas preferidas) serão as mais preconceituosas. Bem, não serão talvez as mais preconceituosas mas a justeza dependerá, agora sim, de conhecermos o melhor possível os nossos preconceitos - mais ou menos arreigados -, e tentarmos distanciarmo-nos deles. Quem acha que não os tem dificilmente poderá ser bom juiz.

13.10.11

Isto é absolutamente assustador

Bélgica: Quase um belga em cada dois estima que o nazismo tinha “ideias interessantes”

Duas formas de olhar para o mesmo acontecimento político:

- De um órgão de comunicação social: Martine Aubry passa à ofensiva nas primárias socialistas francesas

- De um blog: A França por vezes ilumina

Isto não implica um juízo sobre a qualidade dos dois textos. Queria apenas notar o contraste entre o texto jornalístico e a opinião registada num blog. É evidente que este contraste é tão natural quanto necessário, atendendo à natureza (um jornalístico, o outro opinativo) de cada um dos textos. O que estranho é que, apesar do relato factual da notícia, senti-me muito mais informado com a apreciação feita pelo Porfírio Silva. Se calhar tem a ver com o tipo de informação que procuro. Mas não excluo que reflicta também um certo jornalismo dominante, nomeadamente no jornalismo político, que enfatiza (e às vezes reduz) a tensão, desvalorizando as pontes, a unidade. Como ilustra na perfeição o título da peça do Público e que, a meu ver, não tem correspondência com o que vem no texto.

12.10.11

"Look at me! I am man! I am you!"

“O modo como Cavaco Silva é bajulado neste país é algo para o qual não encontro explicação. São tantas as incoerências e mentiras, conjugadas numa sonsice sem paralelo ao longo de tanto tempo, que o facto de ainda lhe restar o que quer que seja de credibilidade junto da opinião pública e comunicação social só pode reflectir o quão atrasados estamos em termos de escrutínio público.”

serras, no Serras.

Serras, o problema não é o facto de ele ainda ter credibilidade junto da opinião pública e da comunicação social. Há malucos para tudo. Além disso, isso reflecte as inevitáveis (e desejáveis) diferenças com que cada um de nós interpreta a vida em geral, e os factos e personagens políticos em particular. Algo que foi esquecido vezes demais nos últimos anos, em que não faltaram as vozes a reivindicarem uma unanimidade sobre o carácter de um homem e das suas políticas, ele por acaso primeiro-ministro, a encarnação do político por excelência, por acaso também alguém (ou um cargo) que deveria ser foco obrigatório de discórdia e do dissenso público.

O verdadeiro mistério é, como bem assinalas, a bajulação dedicada a esta personagem e, como notas também (no fundo, já disseste tudo; mas apeteceu-me escrever), a ausência de crítica e de escrutínio à sua persona e actividade política. No fundo, o ódio a Sócrates e a divinização de Cavaco são duas faces da mesma moeda, da mesma má moeda, uma forma de ver, e de exigir que todos vejam, a política e os políticos como unidimensionais. Mas como diria o George Costanza, eles são pessoas. Eles são nós (imaginem por favor vídeo a ilustrar a citação; só arranjei isto).

10.10.11

Fazer minhas as palavras dos outros


Primárias e primários


Socialistas franceses decidem candidatura presidencial com "primárias" abertas a não militantes.

«Pela primeira vez em França, a escolha de um candidato socialista à presidência poderá ser feita por qualquer eleitor que pague um euro e que assine um papel a dizer que partilha "os valores da esquerda e da República". A inovação valeu uma exposição mediática inédita dos candidatos, com audiências televisivas recordes para debates políticos entre candidatos da mesma família política.»

Por cá, foi pena que, na última campanha para a liderança socialista, esta possibilidade de maior osmose entre partidos e cidadãos tenha sido descartada com demasiada facilidade, ainda por cima atropelada por um apelo demagógico contra "a invasão do PS pelos estranhos". Neste ponto concreto, Seguro esteve mal, usando uma receita que não é nova no PS (matar debates para atalhar votações). Espero que um dia, mais cedo do que tarde, a actual liderança do PS faça a Assis a justiça de lhe repegar a proposta e colocá-la a debate, dessa vez com seriedade.

Palavras de Porfírio Silva, no sempre excelente Machina Speculatrix

"Não merecemos o medo com que nos querem obrigar a viver"

Daqui.

27.9.11

Formar uma opinião é bem mais difícil do que, genericamente, se crê (acho que esta última parte é português. Mas não devia)

Até recentemente, por dever (e prazer) de ofício, tentava acompanhar tudo o que, sobre determinados assuntos, frequentemente os chamados temas quentes da actualidade, se escrevia na imprensa, blogs e micro-blogs. Desta experiência, ficou-me a seguinte convicção: raramente a comunicação social consegue fazer o trabalho de passar os vários lados de uma questão, alimentando, no entanto, a ilusão de que o faz. O que me faz carregar a seguinte angústia: como lidar com o fardo de ter-me tornado um céptico agora que o meu consumo informativo é quase exclusivamente mediado pelo filtro da comunicação social (de um único jornal, aliás)? Como formar uma opinião com base em premissas que, sei-o (…say me), estão incompletas?

Sentido de humor

Apercebo-me, não sem alguma surpresa, que frequentemente revela mais sentido de humor quem se ri das piadas do que quem as conta. Além de que me parece ser uma das supremas formas de generosidade, esta disponibilidade para ouvir o outro, premiando-o com o riso. Era mesmo só isto que vinha aqui dizer.

Continuamos à procura de balas de prata

Programa do Governo ajuda mas não resolve, diz António Saraiva

29.8.11

Lunch break


Hora de almoço. Ir a casa. Estava bom, obrigado. Ligar a televisão. Campeonato do mundo de atletismo (e em directo). Final dos 100m feminina. Reconhecer, por incrível que pareça, uma ou outra cara. A vitória da norte-americana Carmelita Jeter mas isso pouco importa (nem foi uma prova particularmente notável, exceptuando o facto de esta já ter entrado nos 30, embora o que seja isso para quem é do tempo da fabulosa Marlene ottey...). Apanhar um lançamento do peso feminino. O lançamento do peso é uma prova chata. Desde que, claro, não se veja mais do que três minutos. Ao segundo lançamento, já é assim-assim. No terceiro, já sou um candidato a especialista na modalidade. E o terceiro foi mesmo um espectacular ensaio da neo-zelandesa. Depois veio a final dos 110m barreiras. Emocionante q.b. Mas uma pessoa não chega aos trinta e tal sem carregar consigo umas quantas memórias. E se há área em que estas memórias se manifestam é, como se sabe, nos 110m barreiras. O mesmo é dizer: Colin Jackson. Um dos meus atletas preferidos de todos os tempos. Fim da pausa para almoço.

22.8.11

Por outro lado, é tudo uma questão de expectativas

Uma questão com que tenho de lidar com alguma frequência é que, vezes demais, pareço mais esperto do que realmente sou. Não digo que seja esperto. Ou que pareça esperto. Apenas que pareço mais esperto do que, na verdade, julgo ser. Um bom exemplo do que estou a tentar dizer é o meu currículo. Apesar de tudo, dá uma imagem das minhas capacidades bastante lisonjeira. Este problema manifesta-se, naturalmente, tanto nas relações profissionais como nas pessoais. Assim como assim (clap, clap, acabo de me estrear nesta expressão. Acho que não vou repetir), prefiro lidar com as primeiras. Haverá quem lhe chame um complexo de inferioridade. Por mim, tudo bem. Ou melhor, com o tempo, uma pessoa vai-se habituando. E acontece que os complexos, e em especial o de inferioridade, têm um potencial cómico enorme, em particular na modalidade de auto-retrato. E isso é engraçado. Curiosamente, com o humor, acontece precisamente o inverso. Tenho muito mais graça do que, geralmente, consigo dar a entender.

26.7.11

Avant de plus

Antes de mais, importa ler aqueles com quem aprendemos, sempre. Mesmo que o parágrafo seja magro e a matéria aparentemente trivial. As aparências enganam. E aprender a trabalhar e brincar com as palavras não é coisa de somenos. Vem, aliás, antes de tudo o resto. Ou antes de mais.

Querido blog:

Acho que devíamos dar um tempo para ver o que realmente sentimos um pelo outro. Sim, eu sei, é precisamente isso que temos (tenho) feito ultimamente. Mas achei que te devia uma explicação.

Não procurarei outros. Ser-te-ei fiel, isso posso garantir-te. Sei que posso esperar o mesmo de ti (até porque sou o único detentor da password. mas sei que não é por isso).

Apenas para que fique claro, querido blog: o problema não és tu, sou eu.

29.6.11

Sem ser a parte do "ousadamente imaginativo", é como olhar para o espelho

"O seu cérebro funcionava a uma temperatura diferente. Demorava mais tempo a tomar uma decisão e, mal o fazia, apetecia-lhe mudar de ideias de novo. Mas, e talvez por esta mesma razão, acreditava que era o mais ousadamente imaginativo dos dois".

"A questão Finkler", Howard Jacobson, alguras nas primeiras páginas.

25.6.11

Um país de vips

Recebido por sms: "Depois de ter sido imediatamente atendida como cidadã comum, fui informada que era vip...fui então para a enorme fila de vips....".

15.6.11

Estado clínico deste blog




Ainda respira, embora apenas com a ajuda de aparelhos. Sinais vitais estáveis. Aguardam-se melhorias para breve.

8.6.11

Melhor do que o silêncio só João



A ver aqui a maravilhosa reportagem sobre joão gilberto (como se sabe, o outro melhor cantor do mundo), visionamento, porém, não isento de dor, chamando à memória aqueles dois bilhetes para um concerto de João Gilberto que já estiveram na minha mão, concerto malogradamente cancelado na véspera (doença, disseram, inconvincentemente). Talvez não saibam mas sei muitas letras do joão gilberto de cor.

2.6.11

Pirraça




Agora que saiu a Ler de Junho, já posso dizer-vos: a edição de Maio tem a melhor auto-entrevista - aquela do sofá - que já lá li (não, não me refiro ao cientista político). É de J. Rentes de Carvalho. E não sou só eu que o digo. Mais à frente, a própria Ler chama-lhe de antologia. Ides tentar comprar a edição do mês passado a ver se conseguem. Ahahah.

Nas nossas mãos

E se fizéssemos alguma coisa sobre o assunto, pergunta-se – e muito bem - aqui? De facto, também está nas nossa mãos tornar a vida pública um lugar melhor. Não depende apenas (e muitas vezes nem sobretudo) do Governo tornarmos o país num lugar melhor.

Também está nas nossas mãos contribuirmos para uma sociedade mais participativa e mais exigente; está nas nossas mãos (dos empresários, dos trabalhadores, dos consumidores) a dinamização da economia nacional, com os reflexos que isso pode ter no crescimento e na criação de emprego; está nas nossas mãos sermos menos complacentes para com a corrupção, a fraude e a elisão fiscal; está nas nossas mãos adoptar práticas mais amigas do ambiente e adquirir novos hábitos de consumo energéticos, como é o caso das energias alternativas (que, como se sabe, também tem reflexos económicos importantes, ao diminuir o nosso défice energético). Enfim, os exemplos são inúmeros. A realização do nosso sucesso enquanto país depende, em muita maior medida do que somos muitas vezes tentados a pensar, de nós, tendo o governo um papel muitas vezes residual.

Mas há assuntos que não estão nas nossas mãos. Cuja realização depende, em exclusivo, das escolhas do poder político. São os tais assuntos que deviam reunir um apoio particularmente alargado da comunidade e dos partidos mais representativos dos portugueses.

E é precisamente nessas áreas que o PSD pretende tudo alterar (e não é por acaso que as propostas liberais-radicais de Passos Coelho nunca foram tentadas antes pelo próprio PSD). É o caso do Serviço Nacional de Saúde, é o caso da Escola Pública (assim, com maiúsculas) e é o caso da Segurança Social Pública.

Se mexerem nisto, nada estará nas nossas mãos (nada poderemos fazer para evitar que a Saúde e o Ensino públicos se tornem, a pouco e pouco, serviços cada vez mais pobres, destinados aos mais pobres). E se isso acontecer, nada será como dantes. E depois será tarde demais para se voltar atrás.

1.6.11

Do esforço contínuo que, como dizia (acho que) Mark Twain, temos de fazer para ver aquilo que está mesmo à frente do nosso nariz

'O Governo do PS pôs em causa a normalidade democrática ao deixar o Estado sem dinheiro para assegurar as funções básicas'
Pedro Passos Coelho, no Twitter

O líder do PSD regressa ao tema do 'só havia dinheiro até ao final de Maio', que, para alguns, é prova de qualquer coisa terrível sobre este governo. Ora, o 'não haver dinheiro', anunciado por Teixeira dos Santos, resultou, apenas e só, de que, a partir do momento em que o PEC IV foi chumbado, Portugal ficou de fora dos mercados de divida. É só isto. Qualquer país que tenha necessidades de financiamento líquidas fica 'sem dinheiro para assegurar as funções básicas' se lhe acontecer o mesmo. Sem que isto nos permita fazer qualquer juízo (negativo ou positivo) sobre o comportamento desse mesmo governo.

Da desinformacão, João Galamba

28.5.11

Aceitem um conselho



Na estranha eventualidade de vos parecer engraçado, querido, ou até uma boa ideia, entregarem a vossa cabeça às mãos de uma criança de cinco anos (mesmo que quase seis) com uma máquina destas, deixem-me alertar-vos: não é. Digo-o do alto da minha recém-adquirida (mais ou menos oito horas) autoridade na matéria.

27.5.11

Este post não é sobre Cavaco

Porque razão é que os jornalistas perguntam se a campanha está a ser esclarecedora, "como pediu Cavaco Silva"? Porventura Cavaco tem a patente da ideia de que as campanhas servem (ou deviam servir) para esclarecer? Não é este o entendimento mínimo partilhado por todos? Se Cavaco disser que espera que os candidatos andem com os pés e escrevam com as mãos, os jornalistas também vão perguntar se os candidatos o estão a fazer como Cavaco desejou?

Palavras que me fascinam (ou o contrário, não sei bem)

Sancionar. É uma palavra no mínimo estranha. Não conheço outra na língua portuguesa que signifique uma coisa e o seu contrário. Tanto pode exprimir aprovação, concordância como castigo e punição.

Respeitar os cidadãos

“[Passos] Não defendeu a realização de um referendo, mas foi acusado de o fazer. (…) Defendeu que a Assembleia devia respeitar as petições de grupos de cidadãos e foi acusado de conservadorismo”, diz JMF.

De que falamos quando falamos de cidadãos proporem um referendo? Falamos da possibilidade que a lei oferece a grupos de cidadãos de iniciarem um processo legislativo, por norma reservado aos partidos representados na AR (ou ao governo), que poderá ou não culminar numa proposta de referendo dirigida ao Presidente da República (a quem cabe a decisão final).
Estes são os únicos direitos que assistem aos cidadãos que patrocinem uma iniciativa de referendo: iniciar um procedimento e que o Parlamento tome uma decisão sobre o assunto em causa.

Nunca mas nunca mas nunca têm o direito a que a AR aprove esse referendo. Permitir que 75 mil cidadãos (ou 80, 100, ou 200 mil, etc.) pudessem condicionar a vontade da maioria dos cidadãos, representados no parlamento pelos deputados, eleitos por milhões de pessoas, seria, pense-se um bocadinho, ofender a democracia e o princípio maioritário de forma chocante. Isso sim, seria um desrespeito pelos cidadãos.

Esta á, aliás, uma ideia que volta e meia surge no espaço público, por vezes pela voz de insuspeitos especialistas. Ainda no outro dia, o sociólogo Villaverde Cabral queixava-se na rádio da ineficácia das petições (propriamente ditas), dando como exemplo a petição assinada por mais de 100 mil cidadãos (entre os quais o próprio Villaverde Cabral) que reclamava a revogação do Acordo Ortográfico, cuja pretensão não tinha sido acolhida pela AR. Achar que uma pequena elite de cidadãos mais activos devia condicionar de forma definitiva o Parlamento é que seria uma ofensa grave ao princípio geral de que as escolhas numa democracia são tomadas pela maioria.

Sinto que vos maço.

Um texto sincero e honesto (este, o meu)

Este texto de José Manuel Fernandes (JMF) reflecte vários problemas. Por ordem decrescente de importância, apontaria:

i) O costumeiro ódio por José Sócrates e pelo PS, que cega o autor no momento de sustentar posições, estendendo-o inclusive a todos os que tenham o azar de (ainda que circunstancialmente) estarem do outro lado da sua razão;

ii) A ideia - já tantas vezes repetida por pessoas como JMF que começo a acreditar que acreditam mesmo nela – de que certas declarações de Passos Coelho (sobre a
lei do aborto; sobre Educação) não podem ser objecto de crítica porque são fruto da sua sinceridade e honestidade. Mesmo admitindo que são sinceras e honestas (a mim, pareceu-me mais oportunismo político, mudando uma posição de sempre numa tentativa de flirtar com o eleitorado de direita), desde quando é que isto inviabiliza o escrutínio destas ideias? Já pelo menos desde o projecto de revisão constitucional apresentado pelo PSD que isto sucede. Confrontados com as críticas, furtam-se à discussão da substância invocando um argumento moral (a honestidade; sinceridade; verdade). Ora, correndo o risco de desbaratar caracteres a dizer o óbvio, podem dizer-se muitos disparates de forma autêntica. Isso não faz, evidentemente, com que uma ideia estúpida se transforme numa boa ideia.

Repare-se que esta tese está, aliás, subentendida na defesa feita pelo próprio Passos Coelho, que se insurgiu contra as críticas dizendo que “não há tabus”. Pois não. É precisamente por isso que as ideias que Passos colocou em cima da mesma podem ser discutidas e criticadas;

iii) “[Passos] Não defendeu a realização de um referendo, mas foi acusado de o fazer. (…) Defendeu que a Assembleia devia respeitar as petições de grupos de cidadãos e foi acusado de conservadorismo”, diz JMF. Ora, isto toca num assunto que me é particularmente caro, as petições, ainda que não em sentido próprio (as minhas preferidas). Dedico-lhe o próximo post.

26.5.11

Do (des)interesse pela política

"De qualquer forma, como sublinha o Pedro Magalhães, temo que isto já não vá lá com ideias, propostas, ou programas. Os interessados são uma imensa minoria – 85% dos inquiridos pela Católica afirma não ter lido sequer uma parte dos programas eleitorais de qualquer partido." (Paulo Tavares, no excelente escrita Política, da TSF)

A minha dúvida é a seguinte: os 85% dos inquiridos que afirmam não ter lido sequer uma parte dos programas eleitorais de qualquer partido, referidos aqui pelo Pedro Magalhães, quer mesmo dizer que não se interessam pelos programas e pelas ideias de cada partido? É que é evidente que existem outras formas de tomar conhecimento das propostas eleitorais dos partidos, nomeadamente através da intermediação jornalística.

Pensando no meu caso pessoal, acho que só muito recentemente é que li um programa eleitoral de um partido político, tendo votado em quase todas as eleições com base na informação veiculada pelos media. E julgo que votei de forma esclarecida, pelo menos relativamente às questões que considerava fundamentais. Presumo que assim acontecerá com uma parte significativa das pessoas.

Annecy

Festival de animação de Annecy 2011 começa a 6 de Junho. Um festival de animação é desculpa suficiente para ir a qualquer lado. Festival de Annecy é dos melhores do mundo. Ficar-me-ia por aqui há um ano atrás. 2010 em vez de 2011. Mas conheci Annecy entretanto. Não compreendo como é que chego a esta idade sem que alguém alguma vez me tenha falado de Annecy. Tipo, Annecy é dos lugares mais bonitos para se visitar e, provavelmente, viver deste planeta. Foi preciso ver o Joelho de Claire (claro que podia - e devia - ter visto o filme há mais tempo. Mas caramba). Vale a pena ver a página do festival no Youtube.

Gostar de coisas simples (Dave Brubeck Quartet)

25.5.11

Não fosse não ser obviamente o caso, diria que sou um valente mariquinhas

Muitos se chocam por alguém ser capaz de filmar o espancamento de uma pessoa (neste caso uma rapariga adolescente) sem intervir. A mim choca-me que se consiga simplesmente assistir àquele ataque. Sentimento que, pelo que me é dado a perceber pela quantidade de vezes que as televisões passam as imagens, não é partilhado pela generalidade dos telespectadores.

A embriaguez da Metamorfose





«Vai ser uma bebedeira de sondagens», diz Paulo Portas. Ao ouvir o líder do antigo Centro Democrático Social, depois Partido Popular, e actual CDS - Partido Popular, cada vez menos popular e mais do centro, lembrei-me deste livro de Stefen Zweig.

Já vos disse que gosto muuuuito de Brassens?

Como é bela a liberdade (não sei se já disse aqui que gosto muito do bigode deste senhor. o que canta. sim, já disse)

A política da marcescência


Qualidade, conhecida na botânica por marcescência, que impede a queda da folha caduca enquanto não brota na árvore uma nova promessa de folha. Como a folha que murcha, o governo acusará o desgaste de liderar o país numa conjuntura complexa, de grave crise nacional e, sobretudo, internacional. Mas resistirá à queda enquanto não houver uma alternativa equivalente que o possa substituir.

20.5.11

Dúvidas 2.0

Ahahah, eheheh e hihihi equivalem-se e são para usar indistintamente? Ou cada um é como cada qual?

Coisas

Há coisas que me dão um certo gozo. Como chegar tarde a certas coisas. Modas, tendências, ou apenas coisas. Coisas novas, recomendadas por quem partilha afinidades e gostos. Que ficam guardadas para desfrute futuro. Um certo prazer em não ir a correr atrás destas coisas (coisas e cenas são das palavras mais úteis da língua portuguesa). Por vezes, acabam por cair no esquecimento, para voltar a tropeçar em muitas delas anos mais tarde. E aí renasce o prazer, um outro prazer, de saboreio da promessa de outrora. Por exemplo. Só no outro dia conheci a livraria Pó dos Livros. E o respectivo blogue. Finalmente.

ps: esta história é absolutamente deliciosa.

Um escândalo descobrir isto sozinho

Novo blog. escrita Política. TSF. Pedro Adão e Silva. Paulo Baldaia. Paulo Tavares. Contributos. Pedro Magalhães. Francisco Van Zeller. Muito bom.

17.5.11

É uma coisa que me chateia, imputarem-me motivações

"Para além de serem grandes comunicadores e de possuirem um instinto de sobrevivência impressionante, Sócrates e Portas têm em comum a facilidade com que alteram de perfil, como se adaptam às situações e meios que os envolvem, como mudam de discurso e de prioridades. É o conjunto destas habilidades impares que lhes confere o estatuto de animais políticos.

Mas se estas características até podem ser aplaudidas pelos apreciadores do marketing e da comunicação política, estranho é quando são encaradas como qualidades pelo eleitorado. Fará sentido depositar o voto em alguém com uma incrível capacidade de mudar de perfil, de discurso, com uma habilidade grande para se adaptar, para dar a volta e até ludibriar aqueles que o rodeiam? O voto assumido em animais políticos é, a meu ver, um dos fenómenos mais intrigantes do estudo dos comportamentos eleitorais. Se calhar chegámos a uma variante do mítico slogan político brasileiro: “aldraba, mas faz!”" (João Ricardo Vasconcelos, Activismo de Sofá)

Caro Ricardo*, se eu voto assumidamente num animal político, tu votas (presumo, claro) num enorme demagogo, que vende ilusões mas demite-se de apresentar qualquer solução viável no mundo real, ou, melhor dizendo, cujas consequências das suas propostas (se aplicadas) seriam um descalabro sem nome; que reclama uma pretensa superioridade de esquerda, que se diz coerente, mas que não hesitou em aliar-se à direita e à sua agenda, na desafectação de recursos para a escola pública em benefício do ensino privado, apenas pelo calculismo político de pretender cavalgar uma derrota do PS (quando estavam era a derrotar uma certa ideia de escola pública para o país); que, em nome da pureza ideológica, não hesita em correr o risco de entregar o país a um governo de direita (o mais à direita que este país já conheceu em democracia), o que, particularmente nesta conjuntura de crise/austeridade/fmi, pode ser trágico para o nosso modelo de estado social. Trágico e irreversível. Mas que importa isso, quando mantemos a pureza das nossas ideias, marimbando-nos, se for esse o preço a pagar, para o que venha a acontecer à realidade? Imagino que não vejas assim o teu voto nem seja isto que te mobiliza. Compreendo bem. No teu lugar, ficaria no mínimo irritado se alguém descrevesse nestes termos a minha motivação para votar. Agradecia que fizesses o mesmo relativamente a quem pensa de forma diferente de ti.

* Ricardo, reincido nesta espécie de picardia contigo. Mas é por puro gosto pelo debate, como tenho a certeza que sabes. Just in case...

13.5.11

Frases que não me saem da cabeça (repost)

"I don’t expect the details in any final agreement to look exactly like the approach I laid out today. This is a democracy; that’s not how things work.”

Barack Obama

Via as coisas que ele tem andado a ler

Blogger/Editar mensagens/Rascunhos II:(repost)




O Sidney Lumet morreu ontem (resc, resc, resc. há um mês). Pouco conhecia dele. Depois de ler isto (Shyznogud) e isto (Ferreira Fernandes), fiquei com pena de não conhecer mais, nomeadamente "12 homens em fúria". Logo eu, que quase sempre tenho dúvidas e frequentemente me engano. Mas afinal, conhecia pelo menos um filme. Running on Empty/Fuga Sem Fim (1988). João Lopes fala dele aqui. Eu, já lhe tinha feito aqui uma alusão. Provavelmente, o filme mais depurado da obra de Lumet. Brinco. Esta frase é do João Lopes. Um fabuloso ensaio sobre o combate entre a revolução política e a conservação familiar. Brinco outra vez, esta frase é do Pedro Mexia. Um dos filmes que mais me marcaram durante a adolescência. Só para o caso de terem dúvidas, esta aqui não é do João Lopes nem do Pedro Mexia.


Não sei se já o disse aqui mas fala-se pouco de filmes (bons filmes) para adolescentes.

Blogger/Editar mensagens/Rascunhos: (repost)

Gostar de música é... agarrar-me a qualquer pretexto para continuar na cozinha (até mesmo lavar a loiça. LAVAR A LOIÇA!) apenas para continuar a ouvir as cordas deste senhor, de nome Bruno Cocset.

12.5.11

Frases que não me saem da cabeça

"I don’t expect the details in any final agreement to look exactly like the approach I laid out today. This is a democracy; that’s not how things work.”

Barack Obama

Via as coisas que ele tem andado a ler

9.5.11

Repelências

Ferro Rodrigues, bem como outros membros do Partido Socialista, considera o programa do PSD "radical". Considera que o programa do PSD atenta "fortemente contra os pilares do Estado Social". Considera “anti-democrática” a forma como o líder do PSD tenta condicionar os eleitores, ao excluir o PS e José Sócrates de qualquer possibilidade de entendimento. Considera que se trata de "um programa de uma direita radical como nunca houve em Portugal". Toma, enfim, posição sobre um conjunto de medidas propostas pelo PSD, reagindo ainda a declarações com consequências decisivas para o funcionamento da governação. Posição, opinião, interpretação, versão, etc. É isto que se espera da política pluripartidária, que ofereça visões alternativas dos problemas e das soluções para o país. Pelo que leio aqui, ainda há quem ache que divergir é o mesmo que mentir. Inominável mentiroso. Daí a “figura absolutamente repelente da vida política portuguesa”, vai um passo. Já dado.

"Ferro Rodrigues, uma figura absolutamente repelente da vida política portuguesa, acha, tal como Sócrates, que os portugueses são cobardes (eles lá sabem porquê). Por isso tentam ganhar votos gritando aos quatro ventos mentiras inomináveis sobre o programa eleitoral do PSD. Mas, enfim, as coisas são como são." Fernando Martins, Cachimbo de Magritte.

Bússula eleitoral

"Des études montrent que les personnes qui ne reprennent pas d'emploi pour des raisons financières sont extrêmement minoritaires. Le vrai cancer, c'est le chômage. L'«assistanat» est un repoussoir commode.

Rien n'atteste que les personnes qui touchent le RSA soient passives. Au contraire, elles font preuve d'une grande énergie pour surmonter la perte de confiance, éventuellement la honte de cette situation. Effectivement, les discours politiques ont créé une image très négative de personnes qui, dans leur très grande majorité, connaissent des difficultés sociales de différents ordres: manque de ressources, problème de transport, de santé, parfois isolement." Travailler pour «mériter» son RSA: «Une mesure incantatoire», Libération.

"Tributo solidário, através do qual se assegura que os beneficiários de algumas prestações sociais, nomeadamente do Rendimento Social de Inserção, prestam uma “actividade socialmente útil, em entidades públicas ou do sector social”, garantindo assim a manutenção de hábitos de trabalho" Programa do PSD (págs 89-90)

5.5.11

29.4.11

Debater o plafonamento da segurança social num parágrafo. Uau

O discurso político tem frequentemente de lidar com questões importantes mas que são muito complexas para o comum dos mortais. Frequentemente, opta-se por ultrapassar esta dificuldade reduzindo o tema a um soundbite* ou um slogan. Outras vezes, o debate deixa-se enredar na sua complexidade, tornando-o apenas acessível a especialistas, desistindo os políticos, vezes demais, de um dos seus principais papéis: explicar e descodificar a realidade. Um exemplo: o debate em torno do plafonamento da segurança social. Por conseguir escapar a tudo isto, este texto do João Galamba é tão bom. Queria acrescentar que temos (vá, o Partido Socialista) muita sorte em ter políticos como João Galamba. Mas o pudor deteve-me. Que se dane o pudor.

(...) "Na semana passada foi o plafonamento da segurança social, que o líder do PSD resolveu apresentar como uma medida que visa acabar com as pensões milionárias. Ora, não só já existe uma limitação das pensões (12 IAS), como o plafonamento não é uma medida que visa limitar as pensões. Em bom rigor, o plafonamento pretende retirar do sistema salários acima de x, isto é, limita o valor das pensões, no futuro, e o das contribuições, no futuro e no presente. Independentemente dos juízos sobre a justiça desta proposta, ela tem custos de transição elevadíssimos, pondo em risco a solvabilidade do sistema. Mas o problema não é só que no longo prazo estamos todos mortos, é também o efeito redistributivo desta medida - no curto, no médio e no longo prazo. Dizer que salários a partir de x deixam de contribuir para o sistema de segurança social, implica um enfraquecimento da sua dimensão redistributiva, enfraquecendo a dimensão de solidariedade colectiva, intra e inter geracional, do actual sistema de segurança social. Eu sei que o PSD (e outros) tende a esquecer isto, mas as instituições do Estado Social não são apenas seguros e formas sofisticadas e eficientes de mutualizar riscos. São, acima de tudo, instituições que operacionalizam e dão densidade ao conceito de cidadania, algo que nenhuma análise de cash flows ou cálculo actuarial poderá alguma vez entender. O PS fez uma importantíssima reforma da segurança social. Foi uma reforma elogiada por todas as instiuições financeiras. E Portugal é um dos países onde a questão da solvabilidade da segurança social menos se coloca. Perante tudo isto, o que justifica o plafonamento? Tirando uma preferência ideológica pelo sector privado, nada." (...)

Então o TC declarou inconstitucional "uma escolha política clara do Parlamento"?

Afinal, a suspensão da avaliação dos professores, além de um gesto imensamente populista (recordo que foi aprovado já o governo estava demissionário e o próprio Parlamento em vias de ser dissolvido), com o triste patrocínio de todos (TODOS) os partidos da oposição, também é inconstitucional.

Apesar de a inconstitucionalidade ser ofensa mais grave prevista no nosso ordenamento jurídico para uma norma, o mais chocante foi mesmo o oportunismo político desta tentativa de última hora de agrado aos eleitores professores. Porque relativamente ao respeito à Constituição, é absolutamente normal que haja divergências acerca do que pode e não pode o Parlamento fazer.

Porém, o que já não é normal é dizer-se que suscitar dúvidas de constitucionalidade põe em causa a escolha feita pela Assembleia da República. Como se toda o espírito da fiscalização da constitucionalidade não decorresse precisamente da admissão de que o legislador pode aprovar leis que ferem a Constituição. Não é normal mas foi o que aconteceu. Sou forçado a recordar as recentes declarações de Pedro Duarte, competentemente registadas por mim próprio aqui há coisa de umas semanas.

Pedro Duarte, o ministro-sombra do PSD para a área da Educação, acaba de dizer na RTPN que a suspensão da avaliação dos professores (hoje aprovada pela oposição na Assembleia da República) "é uma questão política" e que, por isso, estranha que "o PS venha invocar eventuais ilegalidades e inconstitucionalidades" para pôr em causa "uma escolha política clara do Parlamento".

É também desta incultura democrática que é feito este PSD. Mas reconheço que ao pé das declarações de Miguel Relvas, Pedro Duarte até parece um senador da república.

O armário do PSD

A entrevista do porta-voz do PSD e O comentário.

26.4.11

Viva, viva




Saio pouco de casa, nomeadamente para fazer o que de melhor há para fazer extra-muros: ir ao cinema. Isso poderá explicar em parte que tenha achado Jane Eyre um filme tão bom. A história é belissimamente contada, os diálogos inteligentes e as interpretações excelentes. Mais adjectivos fulgurantes para a fotografia e para a música. Vendo as coisas pelo lado positivo, nestas alturas quase que parece valer a pena ter a vida social de um idoso.

Viva!



20.4.11

O dia em que espetámos os cornos no destino

A propósito de uma justa e necessária réplica às recentes declarações de Otelo, Daniel Oliveira refere, num simples parágrafo, o que construímos desde o 25 de Abril:

"isto não acabou assim. No meio, erguemos um serviço nacional de saúde, que com todos os seus defeitos, até está entre os melhores do mundo; alfabetizámos, construímos a escola pública, democratizamos o ensino superior; garantimos uma segurança social universal; acabámos com a censura; deixámos de ter presos políticos; abrimos Portugal ao Mundo; e, para o mal ou para o bem, defendemos sempre a nossa democracia, com liberdade e pluralismo."

Das conquistas mais simbólicas, acrescentaria apenas a diminuição drástica da pobreza. [Longo parêntesis: hoje temos outra pobreza, felizmente muito, muito diferente daquela, visível em praticamente todos os cantos deste país. A miséria é, aliás, das imagens mais impressivas que me ficaram da infância. Da que via pela janela do carro (os bairros de lata), na escola (menos) ou nas muitas histórias que ouvia contar (de pais que poucos anos antes andavam quilómetros para ir à escola, descalços). Estas eram histórias banais na infância lisboeta de alguém que nasceu já depois do 25 de Abril].

E outra vez a liberdade. E outra. Liberdade. Podia ter sido o único ponto do programa do MFA e já teria valido a pena.

Às vezes perguntam-me porque desço a avenida no dia 25 de Abril. É por isto. E para agradecer a todos os que o fizeram (sim, também a ti, Otelo). Antes daquele dia. Naquele dia. Nos dias que se seguiram. E nos que se seguirão. Suponho que cada um tenha o seu 25 de Abril.

19.4.11

O mesmo problema. Duas formas de o enfrentar

- "Passos admite que programa do PSD será igual ao do FMI"

- "A nossa margem de autonomia é muito estreita. Mas é por essa margem que os socialistas, mesmo com o FMI, devem afirmar a sua diferença. E a diferença passa por reformas capazes de relançar o investimento e o emprego, mas sobretudo pela capacidade de preservar, defender e valorizar o Estado Social. ". Manuel Alegre, discurso no Congresso do PS em Matosinhos.

16.4.11

Ainda a propósito da igualdade de género

O caminho para a igualdade de género não se resume a uma redução do número de desigualdades. A igualdade alcança-se também por haver cada vez mais igualdade nas situações de desigualdade. Não é apenas haver cada vez mais homens e mulheres a partilhar o trabalho doméstico. É as situações em que essa partilha é desigual não penalizarem sempre o mesmo.

14.4.11

Divagação com ponto de interrogação. Algures

Por vezes dou por mim a divagar sobre isto: e se a generalidade dos poderes, das actividades e dos profissionais fossem objecto de um escrutínio tão intenso como a política e os políticos? Se cada decisão fosse ampliada pela lupa da fiscalização, do contraditório público, mas também alvo da insinuação sobre os verdadeiros motivos, da descontextualização. Se tivéssemos de responder pelo que fizeram amigos e familiares. Caricaturados e objecto do gozo diário. De responder pelo passado. As nossas mentiras. Tudo explicar. Tudo justificar na praça pública. Quantos resistiriam incólumes no final do dia? A extensão deste exame à vida privada e profissional remete-nos, em parte, para o pesadelo totalitário. Mas convém ter a noção que também é isto, que nunca aceitaríamos (e bem; espero bem) para nós, para as nossas vidas privadas e profissionais, que exigimos - ou, nalguns casos, toleramos - aos políticos. Escrutinamo-los porque nos representam, gerem a coisa pública em nome do povo. Justifica-se. Mas é bom saber o preço que lhes pedimos.

Elogio do elogio do confronto

Concordo tanto contigo. Mas depois reconforto-me no facto de haver uma escola, num cantinho desta cidade, onde as crianças resolvem desde os três anos os seus problemas por meio de críticas e da discussão gerada a partir desta. A crítica como momento nobre (blherc!), solene, que pode intimidar um pouco mas que convida à reflexão e à superação. Valorizar o papel da crítica, conferindo-lhe dignidade. Agora tenho um pouco de vergonha mas acho que foi mais ou menos isto que, de forma inconsciente, pensei que estavam a fazer. E foi isto que pensei, porque sou parvo. Reunião de pais há coisa de duas semanas. Só aí percebi (quer dizer, quase que foi explicado) que a crítica era um momento banal da convivência entre aquelas pessoas (crianças e professores). Fundamental mas normal. No big deal. Uma pedagogia da crítica e do debate. Uma pedagogia do confronto. Pedagogia, enfim, da convivência democrática. É isso que a minha filha está a aprender na escola, a aprender a democracia.

O vício da dúvida

Que regras de trânsito valem dentro dos parques de estacionamento? Posso ser multado por incumprimento dessas regras? Dava-me jeito um jurista.

A dúvida do vício

Ciclo vicioso? Ou círculo vicioso? Ou tanto uma como outra?

E eu que gostava tanto desta música dos Monty Python



Segundo estas sondagens, os finlandeses entendem que a ajuda a Portugal não faz sentido, dado que esta apenas atrasa a inevitabilidade de uma bancarrota, devendo Portugal abandonar a Zona Euro.

A propósito da renegociação da dívida portuguesa, na Finlândia, reina também a ideia de que se alguém der a mão a Portugal, os portugueses agarrarão logo o braço com o objectivo de não pagar o que estão a dever.

13.4.11

As mentiras da democracia

Uma das trágicas consequências da política dos últimos anos foi a diluição do significado de mentira. O erro, a previsão não confirmada, a escolha do melhor ângulo, a mudança de posição, ou a mera divergência na interpretação dos factos, tudo isto foi degradado à simplificação abjecta da mentira. Trágico, porque o erro ou a previsão falhada são contingências da vida pública. Da vida. Trágico, porque a divergência é o coração da democracia. Trágico porque, desviado do seu significado original, vulgarizado o cuspo em que se tornou ultimamente, não é difícil sentir uma certa vergonha por denunciar uma mentira, mesmo quando ela se nos apresenta de forma inequívoca. Medo de sermos confundidos com quem quer reduzir a política a um encontro de bons e maus, de verdades e de mentiras. E o que é uma verdade inequívoca? Sinceramente, não sei dizê-lo. Apenas intuí-lo. Mas se tivesse de dar um exemplo, podia ser este:

Ideologia e pragmatismo

"It is first important to realise that ideology is not a pejorative word — it does not need to be attached to fundamentalism, propaganda or totalitarian utopias. An ideology can be seen as simply a set of political ideas organised under an overarching and forward-looking understanding of where we are and where we want to go. Pragmatic governing, being mature and doing deals, is not anathema to a liberal vision, for example; it just means realising it in a measured way."

The Economist

12.4.11

Escrutinar os media

"Na edição online do Jornal de Negócios está um artigo cujo título é Portugal é o terceiro país da OCDE com desemprego mais elevado. Depois uma pessoa vai ler o texto, faz as contas, e percebe que, segundo o próprio texto do Negócios, Portugal é o quinto - e não o terceiro - país com desemprego mais elevado. Mas a coisa piora ainda mais quando se lê a publicação da próprio OCDE, onde se constata que Portugal afinal não é o terceiro, não é o quinto - é o sétimo país da OCDE com a taxa de desemprego mais elevada. À sua frente estão Estónia (14.3%), Grécia (14.1%), Hungria (12%), Irlanda (14,9%), Eslováquia (14%) e Espanha (20%). Não pretendo desvalorizar o problema, que, como é óbvio, é muito grave, mas convinha que quem é pago para fazer estes coisas tivesse um pouco mais de cuidado com o que escreve."

João Galamba, Jugular.

Infelizmente, confirmo. Lá em casa (e eu sou quase espectacular) ou à minha volta. Causas que têm de contrariar a ilusão do seu sucesso

Estudo da OCDE: Portugal é dos países onde as mulheres mais trabalham em casa

8.4.11

A partir do meu caso concreto, arrisco uma teoria

Tentar adormecer uma criança que resiste mais ao sono do que Sócrates ao FMI tem pelo menos uma vantagem colateral: reflectir sobre coisas realmente interessantes. Como em electrodomésticos. E notar - não sem surpresa - que os despertadores devem, com muita probabilidade, ser os melhores e mais duradoiros electrodomésticos que existem. Usados diariamente, dispensam qualquer manutenção. A nossa vida depende deles mas nunca falham. Confiáveis. O meu acompanha-me há coisa de 20 anos e auguro-lhe ainda uma longa vida. Estou bastante satisfeito com esta minha descoberta. E vejo aqui um excelente desbloqueador de conversa. Shiu... já adormeceu, finalmente.

7.4.11

Culpas

Leio, aqui e ali, muitas pessoas a apelar a que o debate eleitoral não se faça com base nas culpas dos partidos e dos seus responsáveis. O que importa agora é olhar para o futuro, alegam. Lamento mas não partilho. Naquilo a que genericamente chamamos "culpa" inclui-se a responsabilidade. Poder-se-á chegar à conclusão de que esta existiu ou não. Se foi grosseira ou mitigada. Mas o momento de apuramento de responsabilidades é um momento nuclear do escrutínio, da prestação de contas, a que nenhum político se pode eximir. Do governo ou da oposição. As eleições servem para isso mesmo. Para caucionar um projecto para o futuro. Mas também para avaliar os actos dos nossos representantes. E as suas consequências.

Especial Informação

O Especial informação de ontem da tvi24 honrou o nome do programa, pois - pasmem - foi especial e teve mesmo informação. Coisa incomum, nos dias que correm. Pedro Lains, João Confraria e António Nogueira Leite. Vale mesmo a pena ver. Aqui.

via Câmara Corporativa

A trágica ironia

Considerando que:

- a actual crise política foi detonada com a rejeição do PEC no Parlamento;

- a crise política é a causa directa do dramático agravamento da crise financeira das últimas semanas;

- a crise política e económica tornaram inevitável este pedido de ajuda externa;

- o recurso ao fundo poderia, muito provavelmente, ter sido evitado com a aprovação do PEC;


- contrariamente à esquerda, a direita, e muito em particular o PSD, sempre desejou este desfecho, que concretiza, assim, a vinda da sua agenda pela mão de terceiros;


Considerando tudo isto, não deixa de ser tragicamente irónico que a esquerda tenha contribuído decisivamente para a rejeição deste PEC e, assim, para a consumação da vinda do FEEF/FMI, que condicionará de modo indelével o país e as políticas públicas dos próximos (demasiados) anos.

A rejeição do PEC por parte da esquerda é uma escolha coerente, se atendermos exclusivamente ao plano das ideias. Contudo, as escolhas políticas têm consequências reais, por vezes contraproducentes, contrárias aos objectivos pretendidos. No lugar da austeridade rejeitada, terão (teremos todos) austeridade XXL. Vezes 2. E as consequências eram por demais conhecidas por todos. Se isto não é uma ironia...

6.4.11

XI legislatura - balanços



Último dia da XI legislatura. Pelo PSD, discursa Mota Amaral, numa intervenção nos antípodas das minhas afinidades. Como tantas outras intervenções do mesmo, aliás. Mas isso não me deve impedir de reconhecer o notável contributo de Mota Amaral para a respirabilidade da democracia portuguesa. Faz agora mais ou menos um ano.

Coisas que me intrigam

Passamos a vida a denunciar o excesso de leis que existe no país, que os problemas do país não se resolvem por via legislativa, que se devia legislar menos e melhor. Mas isso não nos impede de olhar com admiração a produção legislativa dos partidos e dos deputados, sumariamente avaliados com base no número de iniciativas apresentadas. Somos estranhos.

O que é preciso é reestruturar a dívida externa

O maravilhoso príncipe de Trofimova (pare ver de ouvidos bem abertos)



"Le trop petit prince", Zoia Trofimova, Folimage.

4.4.11

A política não é para meninas

Last week's idea, that of installing the new party leader as economics minister -- a position currently occupied by FDP member Rainer Brüderle -- would appear to have been jettisoned. Brüderle indicated late last week that he would not willingly give up the position, saying: "If they want to get rid of me, it will be bloody."

Spiegel online, num texto sobre s sucessão no FDP (parceiro do governo de Merkel), depois do anúncio da saída de Guido Westerwelle

2.4.11

Debater a Constituição

Embora denuncie um predomínio de autores alinhados à direita (a excepção mais óbvia será Andre Freire), valerá a pena explorar esta Constituição Revista, o e-book lançado hoje pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Embora valha a pena explorá-la, valerá a pena reflectir sobre a ausência de um maior equilíbrio ideológico dos autores, sobretudo quando estamos a falar de um texto como a Constituição da República Portuguesa, o documento político mais importante da nossa comunidade.

A linguagem política é dura. Cá, como lá

PM says alternative vote is unBritish and likely to favour extremists as Tory chairwoman is accused of 'Goebbels-like' lies

1.4.11

A matter of trust

“A confiança não se institui por decreto, nem basta proclamá-la. A confiança custa a ganhar e perde-se num ápice. Agora que vamos a eleições, há um pacto de confiança que se esperaria de quem se propõe governar este país. Não se pode um dia dizer uma coisa e no seguinte outra, não se pode fingir que não se previa dias antes o que todos sabíamos que iria acontecer a seguir, não se pode dizer uma coisa e fazer o seu contrário. Não se pode faltar à verdade. E não pode faltar a coragem de a dizer.”

André Barata, Dez notas – não me atrevo a chamar-lhes “teses” – sobre o Problema Português (via Pedro Lains)

31.3.11

O homem invisível

Menos direitos sociais e laborais, salários muito mais baixos, habitações mais precárias, etc. Vivem entre nós, são mesmo os mais vulneráveis à pobreza e à crise, mas a sua situação está totalmente ausente do debate político. Em Espanha. Ou noutro lugar qualquer.