16.1.12

Posts sobre o Público de hoje: o nosso Chico

Miguel Esteves Cardoso deslinda um dos mistérios que me acompanha desde o início da idade adulta: como é que pessoas de direita podem gostar, como eu gosto, de Chico Buarque. MEC explica: Chico escreve sobre a humanidade e "não gostar de Chico é como não gostar de ninguém".

Posts sobre o Público de hoje: ainda sobre o caso Ferreira Leite e as declarações sobre hemodiálise

está certíssimo o provedor do jornal "Público", na edição de hoje. No que se refere à peça que saiu na edição online do Público, privilegiou-se o sensacionalismo em detrimento do rigor informativo, pois fez-se manchete de umas declarações confusas que a própria, a isso instada, viria a esclarecer momentos depois. Eu, que sobre este assunto apenas li manchetes nos dias seguintes, fui induzido em erro.

No entanto, o que o provedor não aborda (nem é suposto), é como é que é possível que uma carreira feita de gaffes sistemáticas, equívocos reiterados, numa profusão de mensagens confusas, coexista com uma carreira política de elevado perfil (ministra, líder do maior partido da oposição, putativa salvadora da pátria). Com relativa impunidade, detendo hoje ainda hoje palco nos órgãos de comunicação (ah, a ironia...) social .

Tony Judt, num dos textos do seu "chalet da memória", alarga-se a explicar sobre porque é que quem não sabe expressar-se ou comunicar com clareza, ou não tem nada para dizer ou tem intenções ocultas. Acho um exagero aplicado ao comum dos mortais (para minha defesa, aliás, sem quaisquer pedras para atirar). Mas de aplicação imperativa aos que competem pela gestão da res publica.

5.1.12

Liberdade, taxação, representação

Não acompanhando muito do que se tem escrito acerca do caso Jerónimo Martins, sempre gostaria de dizer o seguinte. Dá-me bastante satisfação pagar os meus impostos. Cá. Não gosto, portanto, de ler, como tenho lido, que aquilo que o sr. Soares dos Santos fez é aquilo que cada um de nós faria se tivesse oportunidade para tal. Não é. Gosto de pensar que, pela via fiscal, contribuo com a minha parte para que Portugal se torne um país melhor e mais justo. Será uma parte insignificante no bolo mas é a minha parte. Os EUA nasceram sob o lema de “no taxation without representation”, em português rimado: não há taxação sem representação. O inverso também é válido. Se nos furtarmos à taxação, fragilizamos os laços que nos ligam aos representantes e às escolhas da comunidade, quebrando o contrato social, por incumprimento de deveres. É também por isso que se torna particularmente chocante que esta espécie de elisão fiscal venha de quem tem tido intervenção pública e política, contribuindo para moldar as escolhas que nos afetam a todos nós. Sim, passei a escrever de acordo com o novo acordo ortográfico. É deveras estimulante.

Gillao

Pelas saudades que deixas. Mesmo com a distância que nos separava.

Pelo que me ensinaste sobre a amizade. Muito especialmente a que te unia ao meu pai.

Pelo que aprendi contigo sobre música, como não estarmos reféns das modas (não sei se não terei levado demasiado à letra este ensinamento. Naaahhh…).

Recordarei, sempre com um sorriso, as palavras que me repetiste muitas vezes (com o teu sotaque parisiense; voz quente e rouca) quando era adolescente: "Red Hot Chilly Peppers Merde".

2.1.12

Não é só em matéria de austeridade que andamos a fazer merda

Impiden a un indignado subir a bordo de un avión por llevar carteles anarquistas.*

A fazer lembrar um episódio recente das empresas que boicotaram o apoio dos seus clientes à wilikileaks (organização pela qual não nutro particular simpatia), atitude que mereceu o aplauso de muitos (mesmo dos melhores de entre nós).

* via Porfírio Silva, que, sobre isto e sobre o resto, deve ser lido.

26.12.11

Errata ao "ainda sobre preconceitos"

Esqueci-me dos escuteiros.

Ainda sobre os preconceitos

Por outro lado, sou um defensor incondicional dos preconceitos. Tenho-os para dar e vender. Betos, monárquicos, “tios” e “tias”, surfistas (bem, esta já está meio caduca, mas teve o seu tempo), caçadores, entre tantos outros. Os preconceitos são muito úteis. Ajudam-nos a organizar mentalmente o mundo. Encaro-os como uma espécie de tabuada mental. Exceto que é uma tabuada falível. (Afinal, esta imagem da tabuada não é lá grande coisa. Recomponho-me). E ter uma consciência aguda disso mesmo. Por exemplo, até tenho amigos betos.

Justos preconceitos

Assim a propósito de nada. Julgo que as pessoas mais justas (as minhas preferidas) serão as mais preconceituosas. Bem, não serão talvez as mais preconceituosas mas a justeza dependerá, agora sim, de conhecermos o melhor possível os nossos preconceitos - mais ou menos arreigados -, e tentarmos distanciarmo-nos deles. Quem acha que não os tem dificilmente poderá ser bom juiz.

13.10.11

Isto é absolutamente assustador

Bélgica: Quase um belga em cada dois estima que o nazismo tinha “ideias interessantes”

Duas formas de olhar para o mesmo acontecimento político:

- De um órgão de comunicação social: Martine Aubry passa à ofensiva nas primárias socialistas francesas

- De um blog: A França por vezes ilumina

Isto não implica um juízo sobre a qualidade dos dois textos. Queria apenas notar o contraste entre o texto jornalístico e a opinião registada num blog. É evidente que este contraste é tão natural quanto necessário, atendendo à natureza (um jornalístico, o outro opinativo) de cada um dos textos. O que estranho é que, apesar do relato factual da notícia, senti-me muito mais informado com a apreciação feita pelo Porfírio Silva. Se calhar tem a ver com o tipo de informação que procuro. Mas não excluo que reflicta também um certo jornalismo dominante, nomeadamente no jornalismo político, que enfatiza (e às vezes reduz) a tensão, desvalorizando as pontes, a unidade. Como ilustra na perfeição o título da peça do Público e que, a meu ver, não tem correspondência com o que vem no texto.

12.10.11

"Look at me! I am man! I am you!"

“O modo como Cavaco Silva é bajulado neste país é algo para o qual não encontro explicação. São tantas as incoerências e mentiras, conjugadas numa sonsice sem paralelo ao longo de tanto tempo, que o facto de ainda lhe restar o que quer que seja de credibilidade junto da opinião pública e comunicação social só pode reflectir o quão atrasados estamos em termos de escrutínio público.”

serras, no Serras.

Serras, o problema não é o facto de ele ainda ter credibilidade junto da opinião pública e da comunicação social. Há malucos para tudo. Além disso, isso reflecte as inevitáveis (e desejáveis) diferenças com que cada um de nós interpreta a vida em geral, e os factos e personagens políticos em particular. Algo que foi esquecido vezes demais nos últimos anos, em que não faltaram as vozes a reivindicarem uma unanimidade sobre o carácter de um homem e das suas políticas, ele por acaso primeiro-ministro, a encarnação do político por excelência, por acaso também alguém (ou um cargo) que deveria ser foco obrigatório de discórdia e do dissenso público.

O verdadeiro mistério é, como bem assinalas, a bajulação dedicada a esta personagem e, como notas também (no fundo, já disseste tudo; mas apeteceu-me escrever), a ausência de crítica e de escrutínio à sua persona e actividade política. No fundo, o ódio a Sócrates e a divinização de Cavaco são duas faces da mesma moeda, da mesma má moeda, uma forma de ver, e de exigir que todos vejam, a política e os políticos como unidimensionais. Mas como diria o George Costanza, eles são pessoas. Eles são nós (imaginem por favor vídeo a ilustrar a citação; só arranjei isto).

10.10.11

Fazer minhas as palavras dos outros


Primárias e primários


Socialistas franceses decidem candidatura presidencial com "primárias" abertas a não militantes.

«Pela primeira vez em França, a escolha de um candidato socialista à presidência poderá ser feita por qualquer eleitor que pague um euro e que assine um papel a dizer que partilha "os valores da esquerda e da República". A inovação valeu uma exposição mediática inédita dos candidatos, com audiências televisivas recordes para debates políticos entre candidatos da mesma família política.»

Por cá, foi pena que, na última campanha para a liderança socialista, esta possibilidade de maior osmose entre partidos e cidadãos tenha sido descartada com demasiada facilidade, ainda por cima atropelada por um apelo demagógico contra "a invasão do PS pelos estranhos". Neste ponto concreto, Seguro esteve mal, usando uma receita que não é nova no PS (matar debates para atalhar votações). Espero que um dia, mais cedo do que tarde, a actual liderança do PS faça a Assis a justiça de lhe repegar a proposta e colocá-la a debate, dessa vez com seriedade.

Palavras de Porfírio Silva, no sempre excelente Machina Speculatrix

"Não merecemos o medo com que nos querem obrigar a viver"

Daqui.