11.4.12

Quando ir ao Parlamento significa prestar contas/assumir escolhas/clarificar/confrontar ideias. Sabe bem

A ex-ministra lembrou o "estado de degradação" em que as escolas secundárias se encontravam, indicou que, antes da Parque Escolar, o investimento disponível para obras nas 1400 escolas variou entre 50 e 140 milhões de euros por ano e que as intervenções que então foram feitas provaram que "o barato, por vezes, sai caro".

Confrontada com críticas dos deputados do PSD e do CDS, rejeitou também que se tivesse optado pelo "luxo" e não contestou, por exemplo, que numa das escolas requalificadas o projecto incluísse a compra de 12 candeeiros de Siza Vieira, com um preço unitário de 1700 euros. "Gostamos de ver candeeiros de Siza Vieira na Fundação de Serralves, mas não nas escolas? Considera-se luxo o que não é considerado como luxo noutros espaços?", questionou.

A ex-ministra insistiu também que os relatórios das auditorias da IGF e do TC são unânimes na constatação de que a Parque Escolar "é um exemplo de boa prática de gestão" e considerou que o facto de o Tribunal de Contas ter concluído pela existência de despesas e pagamentos ilegais, num montante superior a 500 milhões de euros, não configura um crime, mas sim "uma irregularidade". "Não foi gravíssimo", frisou.

Quanto ao facto de os projectos de arquitectura terem sido todos eles adjudicados por ajuste directo, um procedimento criticado pelo TC, lembrou que se trata de um mecanismo previsto na lei. "Nem sempre a transparência", garantida pela realização de concursos públicos, "é convergente com o interesse público", acrescentou.

Excertos da notícia do Público, edição impressa de hoje (e hoje é quarta-feira)

5.4.12

Final feliz

Não deixa de ser curioso pensar no desgaste que o anterior governo e o PS sofreram por estarem contra uma iniciativa legislativa que atentava contra a Constituição, contra a liberdade fundamental, a liberdade liberdade, dos cidadãos. Por resistirem ao clamor que se levantou um pouco por todo o lado (pelos partidos políticos, por muita comunicação social, por muitos cravinhos), que exigia esta criminalização, tornada panaceia da luta contra a corrupção instantânea. Não é, pois, de agora esta oposição. Desde 2006, quando o então deputado João Cravinho apresentou pela primeira vez esta iniciativa, foram várias as vezes que este tema esteve na agenda mediática e outras tantas submetido a votação na AR. Em todas estas ocasiões, o PS resistiu ao populismo e ao demagogismo (eu sei, eu sei; mas rima), colhendo com isso, tantas vezes, a insinuação (quando não a acusação) de estar a ser cúmplice dos corruptos. Um partido político, de governo, que reiteradamente não comprometeu ideais fundamentais em troca de popularidade fácil. Também acontece. Se calhar até mais vezes do que se pensa.

2.4.12

Sobre o que está em causa (revisão dos estatutos do PS) pouco conheço ou tenho a dizer...

mas não gosto disto: "O comunicado remata com uma garantia: "Independentemente das suas opções partidárias, os portugueses conhecem o Dr. António José Seguro e sabem que é um cidadão exemplar e um político honesto."

Poucas coisas me incomodam tanto em política (com em qualquer outra área ou ocasião; que me incomoda, ponto) como quando os próprios tentam vender de si a ideia de perfeição e de exemplaridade. Não é que me preocupe que isso seja ou não verdade. O que me inquieta é o lugar a partir do qual se colocam para olhar em redor. No pedestal da virtude, em torno do qual só pode medrar a imperfeição. É um exagero falar disto a propósito desta única declaração, eu sei. Mas as palavras importam. Tal como a pontuação. Embora isto não venha aqui ao caso.



24.2.12

Ainda sobre o carnaval

Em muitos lugares que gosto de frequentar, leio que a não tolerância de ponto foi um fiasco, pois a maior parte do país parece ter ignorado a diretiva governamental. Acho que discordo. Baseando-me nos casos que conheço (sempre um risco), quem não foi trabalhar estes dias teve de pôr férias. Dito de outro modo, com esta não tolerância o Governo ofereceu de mão beijada estes dias de trabalho aos empregadores (empresários e Administração e empresas do Estado). Mais um contributo para a progressiva diminuição dos custos do trabalho, essa panaceia da competitividade nacional. A mim parece-me bem atingido o objetivo do governo.

Vai para umas 72 horas que esta música toca, em agradável modo repeat, dentro da minha cabeça

Acho engraçado

Acho hilariante a forma como este blog me diverte, mesmo nos mais ínfimos detalhes, e passo a citar: "Bom artigo: Excelente artigo de Vítor Gaspar (...)". Acho interessante, isto é, fabuloso como ele faz isto. Quer dizer, é um post razoável, na medida em que o considero espetacular. Não nego que tenha sorrido ao lê-lo, que é como quem diz: atirei-me para o chão a rebolar de riso. Nunca falha, exceto às vezes.


22.2.12

Já isto é, infelizmente, muito sério

Eurocensura (Daniel Oliveira, sobre o afastamento, ainda que temporário, do jornalista da tvi que divulgou a conversa entre Gaspar e o ministro das Finanças alemão).

Os contornos desta sinistra história percebem-se melhor depois da leitura destes dois textos de Estrela Serrano. Este e este.

E sinistro, no sentido em que "causa dano", "ameaça desgraças" ou "indica pavor" ou mesmo que "tem mau aspeto", é o adjetivo adequado, pelas razões que o Daniel Oliveira melhor explica. Estranhando-se apenas a facilidade e o à-vontade com que tudo foi feito e assumido, espelhando uma desvalorização incompreensível pelo que está em causa.

Isto não pode ser sério

"Parlamento rejeita beber água da torneira porque sai 30 vezes mais cara"

21.2.12

Isto é, parece-me, filosoficamente evidente

Em bom rigor, dizer-se que “não se pode falar de interferência da tutela” autoriza - embora, jornalisticamente, não devesse - um “não descarta interferência”, pois este admite ainda a possibilidade de esta não ter existido. Já retirar o contrário, como fez a TSF, considerando descartada a interferência a partir da não possibilidade de esta poder ser afirmada é que não é admissível. Precisamente porque conclui algo de definitivo a partir de uma declaração que não o admite.

TSF é fixe mas título claramente abusivo ("descartar interferência da tutela" muito diferente de “não poder falar de interferência”)

Diria antes que a confirmação que o programa “Este Tempo” acabou por causa da crónica de Rosa Mendes não descarta enorme preocupação quanto ao futuro da nossa liberdade de imprensa/informação.


O ex-director adjunto de informação diz que não pode falar de interferência da tutela, mas revela que lhe foi dito que o programa "Este Tempo " acabava por causa da crónica de Rosa Mendes.

Ricardo Alexandre está a ser ouvido na Comissão de Ética.

«O ex-diretor de informação, João Barreiros, disse-me que tinha sido por causa da crónica do Pedro Rosa Mendes sobre Angola», disse hoje Ricardo Alexandre, na Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação, na Assmebleia da República, sobre a suspensão do programa "Este Tempo", emitido na Antena 1.

Na crónica em causa, o jornalista Pedro Rosa Mendes lançou fortes críticas ao programa da RTP 1 "Reencontro", emitido no dia 16 de janeiro a partir de Luanda, e que contou com a presença, entre outros, do ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, e do chefe da Casa Civil da Presidência angolana, Carlos Maria Feijó, para além de empresários de grandes empresas portuguesas.

19.2.12

Dar o baile

- Papá, não quero comer mais. Não gosto destas salchichas.
- Porque não as cortas aos bocadinhos e comes junto com a massa.
- Papá, eu quando estou a dormir sou diferente?
- Hã?
- Eu quando estou a dormir sou outra pessoa?
- Hã?
- Eu quando estou a dormir sou...
- Já ouvi o que disseste. Só não percebi o que querias dizer.
- Não sou uma pessoa diferente, pois não? É como as salsichas. Não vão ter um sabor diferente apenas por as ter cortado.

13.2.12

Muito provavelmente, a maior heresia que já admiti publicamente



Excelente testemunho. Pelo exemplo, coragem e dignidade. Pela inspiração e pela muita falta que isto faz na vida pública portuguesa. Pôr, no entanto, as coisas em perspetiva. Se é verdade a falta que este tipo de exemplos faz à vida pública, não me parece menos verdade que a normalidade democrática, com tudo o que tem de bom e maravilhoso, não é terreno propício a heroísmos. Paradoxos que a democracia encerra. Voltando ao ensaio de Mário Soares, é tudo aquilo (mesmo que todos já o soubéssemos) e lê-se de uma penada.

Ficar-me-ia por aqui, não fosse uma pessoa parva, extremamente parva, com inclinação para o ultra-acessório e para o insignificante. Aqui vai: Soares não sabe pôr vírgulas. Exagero: volta e meia, não sabe pôr vírgulas (tenho provas: as folhas dobradas). De uma estranha forma, sinto que isto de criticar um dos grandes, o maior deles todos, ainda por cima por causa de uma coisa tão parva, tem qualquer coisa de extremamente republicano (e porventura de doentio, também). Viva a liberdade. A igualdade. E, já agora, a outra também.

Pó dos Livros

No outro dia – é como quem diz –, dei conta aqui da dificuldade em encontrar este livro. Após longa espera, e duas tentativas frustradas de encomendá-lo, tive de recorrer a medidas extremas. Um mail. Para uma livraria. Sim, leram bem. Livraria. A manifestar o interesse na obra e que se a encontrassem (em primeira ou segunda mão), estaria, naturalmente, interessado. Após menos de 24 horas. Sim, leram bem, menos de 24 horas, responderam ao mail a dizer que… já o tinham. E vivemos felizes para sempre.

Nota do postador: qualquer semelhança entre a primeira pessoa e a minha própria é mera coincidência (exceto o estar mesmo há anos triste, triste por não ter este livro). Na realidade, quem diligenciou. Sim, leram bem. Diligenciou. Para que tudo acontecesse foi a minha terceira pessoa, a quem dedico, assim, um espetacular obrigado.


Para lá de Bagdade

Professor de Direito diz que novo Acordo Ortográfico é “inconstitucional”

10.2.12

Indignações seletivas

Volta e meia, uma parte da indignação comentativa dirige-se para desprezar os percursos profissionais daqueles que, como Passos Coelho, Sócrates ou António José Seguro, só terminaram tardiamente os seus cursos superiores, optando pelo caminho por preferir a atividade política.

Este é apenas mais um dos sintomas desta tragédia nacional (não hiperbolo) que é o preconceito, mais ou menos consciente, contra os que fazem política.

São muitas as atividades que são propensas a desviar as pessoas dos seus percursos universitários: na música, no jornalismo, no showbuiz (eheh), etc.. Nestas atividades, não raro as pessoas singram e são ajudadas mercê de contactos privilegiados no meio. Serão as barreiras da meritocracia num país tão pequeno. Não sei. O que sei é que nada distingue estas situações da dos políticos que atrasam os estudos, que conseguem lugares em empresas, fruto dos conhecimentos oriundos da política.

A política não serve para isto e deve haver um controlo sobre a promiscuidade que o exercício de cargos públicos pode propiciar.

Mas, a meu ver, a este propósito - e descontando esta última questão da promiscuidade -, não existe nada de específico na política que não ocorra em tantas outras atividades. O mais das vezes, o que emerge nestas denúncias é preconceito contra os políticos e uma dose indisfarçável de elitismo (os bons alunos tiram os seus bons cursos na altura certa).