11.4.12

A liberdade de expressão, um princípio de difícil (sem puns intended) aprendizagem

“Eu amo Fidel Castro” vale suspensão ao treinador dos Miami Marlins

Quando ir ao Parlamento significa prestar contas/assumir escolhas/clarificar/confrontar ideias. Sabe bem

A ex-ministra lembrou o "estado de degradação" em que as escolas secundárias se encontravam, indicou que, antes da Parque Escolar, o investimento disponível para obras nas 1400 escolas variou entre 50 e 140 milhões de euros por ano e que as intervenções que então foram feitas provaram que "o barato, por vezes, sai caro".

Confrontada com críticas dos deputados do PSD e do CDS, rejeitou também que se tivesse optado pelo "luxo" e não contestou, por exemplo, que numa das escolas requalificadas o projecto incluísse a compra de 12 candeeiros de Siza Vieira, com um preço unitário de 1700 euros. "Gostamos de ver candeeiros de Siza Vieira na Fundação de Serralves, mas não nas escolas? Considera-se luxo o que não é considerado como luxo noutros espaços?", questionou.

A ex-ministra insistiu também que os relatórios das auditorias da IGF e do TC são unânimes na constatação de que a Parque Escolar "é um exemplo de boa prática de gestão" e considerou que o facto de o Tribunal de Contas ter concluído pela existência de despesas e pagamentos ilegais, num montante superior a 500 milhões de euros, não configura um crime, mas sim "uma irregularidade". "Não foi gravíssimo", frisou.

Quanto ao facto de os projectos de arquitectura terem sido todos eles adjudicados por ajuste directo, um procedimento criticado pelo TC, lembrou que se trata de um mecanismo previsto na lei. "Nem sempre a transparência", garantida pela realização de concursos públicos, "é convergente com o interesse público", acrescentou.

Excertos da notícia do Público, edição impressa de hoje (e hoje é quarta-feira)

5.4.12

Final feliz

Não deixa de ser curioso pensar no desgaste que o anterior governo e o PS sofreram por estarem contra uma iniciativa legislativa que atentava contra a Constituição, contra a liberdade fundamental, a liberdade liberdade, dos cidadãos. Por resistirem ao clamor que se levantou um pouco por todo o lado (pelos partidos políticos, por muita comunicação social, por muitos cravinhos), que exigia esta criminalização, tornada panaceia da luta contra a corrupção instantânea. Não é, pois, de agora esta oposição. Desde 2006, quando o então deputado João Cravinho apresentou pela primeira vez esta iniciativa, foram várias as vezes que este tema esteve na agenda mediática e outras tantas submetido a votação na AR. Em todas estas ocasiões, o PS resistiu ao populismo e ao demagogismo (eu sei, eu sei; mas rima), colhendo com isso, tantas vezes, a insinuação (quando não a acusação) de estar a ser cúmplice dos corruptos. Um partido político, de governo, que reiteradamente não comprometeu ideais fundamentais em troca de popularidade fácil. Também acontece. Se calhar até mais vezes do que se pensa.

2.4.12

Sobre o que está em causa (revisão dos estatutos do PS) pouco conheço ou tenho a dizer...

mas não gosto disto: "O comunicado remata com uma garantia: "Independentemente das suas opções partidárias, os portugueses conhecem o Dr. António José Seguro e sabem que é um cidadão exemplar e um político honesto."

Poucas coisas me incomodam tanto em política (com em qualquer outra área ou ocasião; que me incomoda, ponto) como quando os próprios tentam vender de si a ideia de perfeição e de exemplaridade. Não é que me preocupe que isso seja ou não verdade. O que me inquieta é o lugar a partir do qual se colocam para olhar em redor. No pedestal da virtude, em torno do qual só pode medrar a imperfeição. É um exagero falar disto a propósito desta única declaração, eu sei. Mas as palavras importam. Tal como a pontuação. Embora isto não venha aqui ao caso.



24.2.12

Ainda sobre o carnaval

Em muitos lugares que gosto de frequentar, leio que a não tolerância de ponto foi um fiasco, pois a maior parte do país parece ter ignorado a diretiva governamental. Acho que discordo. Baseando-me nos casos que conheço (sempre um risco), quem não foi trabalhar estes dias teve de pôr férias. Dito de outro modo, com esta não tolerância o Governo ofereceu de mão beijada estes dias de trabalho aos empregadores (empresários e Administração e empresas do Estado). Mais um contributo para a progressiva diminuição dos custos do trabalho, essa panaceia da competitividade nacional. A mim parece-me bem atingido o objetivo do governo.

Vai para umas 72 horas que esta música toca, em agradável modo repeat, dentro da minha cabeça

Acho engraçado

Acho hilariante a forma como este blog me diverte, mesmo nos mais ínfimos detalhes, e passo a citar: "Bom artigo: Excelente artigo de Vítor Gaspar (...)". Acho interessante, isto é, fabuloso como ele faz isto. Quer dizer, é um post razoável, na medida em que o considero espetacular. Não nego que tenha sorrido ao lê-lo, que é como quem diz: atirei-me para o chão a rebolar de riso. Nunca falha, exceto às vezes.


22.2.12

Já isto é, infelizmente, muito sério

Eurocensura (Daniel Oliveira, sobre o afastamento, ainda que temporário, do jornalista da tvi que divulgou a conversa entre Gaspar e o ministro das Finanças alemão).

Os contornos desta sinistra história percebem-se melhor depois da leitura destes dois textos de Estrela Serrano. Este e este.

E sinistro, no sentido em que "causa dano", "ameaça desgraças" ou "indica pavor" ou mesmo que "tem mau aspeto", é o adjetivo adequado, pelas razões que o Daniel Oliveira melhor explica. Estranhando-se apenas a facilidade e o à-vontade com que tudo foi feito e assumido, espelhando uma desvalorização incompreensível pelo que está em causa.

Isto não pode ser sério

"Parlamento rejeita beber água da torneira porque sai 30 vezes mais cara"

21.2.12

Isto é, parece-me, filosoficamente evidente

Em bom rigor, dizer-se que “não se pode falar de interferência da tutela” autoriza - embora, jornalisticamente, não devesse - um “não descarta interferência”, pois este admite ainda a possibilidade de esta não ter existido. Já retirar o contrário, como fez a TSF, considerando descartada a interferência a partir da não possibilidade de esta poder ser afirmada é que não é admissível. Precisamente porque conclui algo de definitivo a partir de uma declaração que não o admite.

TSF é fixe mas título claramente abusivo ("descartar interferência da tutela" muito diferente de “não poder falar de interferência”)

Diria antes que a confirmação que o programa “Este Tempo” acabou por causa da crónica de Rosa Mendes não descarta enorme preocupação quanto ao futuro da nossa liberdade de imprensa/informação.


O ex-director adjunto de informação diz que não pode falar de interferência da tutela, mas revela que lhe foi dito que o programa "Este Tempo " acabava por causa da crónica de Rosa Mendes.

Ricardo Alexandre está a ser ouvido na Comissão de Ética.

«O ex-diretor de informação, João Barreiros, disse-me que tinha sido por causa da crónica do Pedro Rosa Mendes sobre Angola», disse hoje Ricardo Alexandre, na Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação, na Assmebleia da República, sobre a suspensão do programa "Este Tempo", emitido na Antena 1.

Na crónica em causa, o jornalista Pedro Rosa Mendes lançou fortes críticas ao programa da RTP 1 "Reencontro", emitido no dia 16 de janeiro a partir de Luanda, e que contou com a presença, entre outros, do ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, e do chefe da Casa Civil da Presidência angolana, Carlos Maria Feijó, para além de empresários de grandes empresas portuguesas.

19.2.12

Dar o baile

- Papá, não quero comer mais. Não gosto destas salchichas.
- Porque não as cortas aos bocadinhos e comes junto com a massa.
- Papá, eu quando estou a dormir sou diferente?
- Hã?
- Eu quando estou a dormir sou outra pessoa?
- Hã?
- Eu quando estou a dormir sou...
- Já ouvi o que disseste. Só não percebi o que querias dizer.
- Não sou uma pessoa diferente, pois não? É como as salsichas. Não vão ter um sabor diferente apenas por as ter cortado.

13.2.12

Muito provavelmente, a maior heresia que já admiti publicamente



Excelente testemunho. Pelo exemplo, coragem e dignidade. Pela inspiração e pela muita falta que isto faz na vida pública portuguesa. Pôr, no entanto, as coisas em perspetiva. Se é verdade a falta que este tipo de exemplos faz à vida pública, não me parece menos verdade que a normalidade democrática, com tudo o que tem de bom e maravilhoso, não é terreno propício a heroísmos. Paradoxos que a democracia encerra. Voltando ao ensaio de Mário Soares, é tudo aquilo (mesmo que todos já o soubéssemos) e lê-se de uma penada.

Ficar-me-ia por aqui, não fosse uma pessoa parva, extremamente parva, com inclinação para o ultra-acessório e para o insignificante. Aqui vai: Soares não sabe pôr vírgulas. Exagero: volta e meia, não sabe pôr vírgulas (tenho provas: as folhas dobradas). De uma estranha forma, sinto que isto de criticar um dos grandes, o maior deles todos, ainda por cima por causa de uma coisa tão parva, tem qualquer coisa de extremamente republicano (e porventura de doentio, também). Viva a liberdade. A igualdade. E, já agora, a outra também.

Pó dos Livros

No outro dia – é como quem diz –, dei conta aqui da dificuldade em encontrar este livro. Após longa espera, e duas tentativas frustradas de encomendá-lo, tive de recorrer a medidas extremas. Um mail. Para uma livraria. Sim, leram bem. Livraria. A manifestar o interesse na obra e que se a encontrassem (em primeira ou segunda mão), estaria, naturalmente, interessado. Após menos de 24 horas. Sim, leram bem, menos de 24 horas, responderam ao mail a dizer que… já o tinham. E vivemos felizes para sempre.

Nota do postador: qualquer semelhança entre a primeira pessoa e a minha própria é mera coincidência (exceto o estar mesmo há anos triste, triste por não ter este livro). Na realidade, quem diligenciou. Sim, leram bem. Diligenciou. Para que tudo acontecesse foi a minha terceira pessoa, a quem dedico, assim, um espetacular obrigado.


Para lá de Bagdade

Professor de Direito diz que novo Acordo Ortográfico é “inconstitucional”

10.2.12

Indignações seletivas

Volta e meia, uma parte da indignação comentativa dirige-se para desprezar os percursos profissionais daqueles que, como Passos Coelho, Sócrates ou António José Seguro, só terminaram tardiamente os seus cursos superiores, optando pelo caminho por preferir a atividade política.

Este é apenas mais um dos sintomas desta tragédia nacional (não hiperbolo) que é o preconceito, mais ou menos consciente, contra os que fazem política.

São muitas as atividades que são propensas a desviar as pessoas dos seus percursos universitários: na música, no jornalismo, no showbuiz (eheh), etc.. Nestas atividades, não raro as pessoas singram e são ajudadas mercê de contactos privilegiados no meio. Serão as barreiras da meritocracia num país tão pequeno. Não sei. O que sei é que nada distingue estas situações da dos políticos que atrasam os estudos, que conseguem lugares em empresas, fruto dos conhecimentos oriundos da política.

A política não serve para isto e deve haver um controlo sobre a promiscuidade que o exercício de cargos públicos pode propiciar.

Mas, a meu ver, a este propósito - e descontando esta última questão da promiscuidade -, não existe nada de específico na política que não ocorra em tantas outras atividades. O mais das vezes, o que emerge nestas denúncias é preconceito contra os políticos e uma dose indisfarçável de elitismo (os bons alunos tiram os seus bons cursos na altura certa).

Subserviência

Este artigo de Paulo Ferreira e o vídeo da conversa entre Gaspar e Schauble ilustram de forma cristalina o plano do Governo para nos tirar da crise.

A democracia dos preconceitos

"(...) Sarkozy propõe passar a fazer referendos sobre os benefícios dos desempregados e os direitos dos estrangeiros.

8.2.12

Uma imagem que vale mil imagens





"(...) quando nos lembramos do contexto em que estas pessoas foram parar ao poder, levando um governo a cair (sem apresentar qualquer alternativa) porque «já chega de sacrifícios» e fazendo toda uma campanha eleitoral desonesta reforçando que os sacrifícios exigidos aos portugueses eram excessivos, torna-se particularmente revoltante ver a forma como o país está a pagar a sua ganância, a sua sede de poder."




Texto e imagem de João Vasco, Esquerda Repúblicana

6.2.12

Damn! (Ben Gazzara - 1930-2012)





Por “maridos”, “A morte do apostador chinês” e pelo pai do Vincent Gallo em Buffalo 66. E, claro, pela grande pinta. Além de um bigode à Brassens, não posso jurar que nunca tenha desejado ter a voz rouca de Gazzara.

3.2.12

Onde andas tu, Bona?

É engraçado ler coisas sobre a relevância do eixo Paris-Bona dos anos 80, Bona para aqui e Bona para acolá, de tão importante e influente que era.

O polvo unido jamais será vencido

- Papá, papá, outra palavra que quer dizer duas coisas: polvo de comer e polvo de pessoas.
- Hã?
- Sim, polvo peixe e polvo de nós, das pessoas que estão lá fora, de toda a gente.
- Ahhhh.

Insultos com pinta (o piano é que esteve a beber. eu não)

"mental midget with the I.Q. of a fence post"

30.1.12

Reparações de guerra

É comum atribuir-se às pesadas condições que o Tratado de Versalhes submeteu a Alemanha uma das principais causas para a ascenção de Hitler e do nazismo. Pela humilhação e por ter criado condições para a hiperinflação dos anos 20. Keynes foi um dos porta-vozes desta visão, tendo-se oposto com firmeza às severas reparações de guerra que considerava estarem a ser impostas aos derrotados da I Guerra, nomeadamente à Alemanha. Há quem julgue, porém, que se devia ter ido mais longe, considerando que a Alemanha manteve, apesar de tudo, a sua capacidade tecnológica, industrial e educativa quase intacta, permitindo que se tornasse, em poucos anos, novamente na potência económica hegemónica da região (Europa Central, de Leste e Balcãs). Pergunto-me o que estes últimos historiadores pensariam ao ver as severas "reparações de guerra" agora impostas à Grécia e Portugal. Suprema ironia ou apenas o desejo que a Alemanha fosse pelo menos tão magnânime com os vencidos da guerra das dívidas soberanas quanto os vencedores da I Guerra foram consigo?

28.1.12

Se não acreditam em mim, oiçam este senhor, vocalista de uma respeitável banda de pós-punk rock, o que quer que isso seja

"He [Georges Brassens] is both a national outcast and hero in France, yet most of us don't know him on this side of the Channel. His lyrics were more subversive than Dylan or the Sex Pistols and he wrote better tunes than either."

Alex Kapranos, dos Franz Ferdinand.

27.1.12

Ainda sobre o escrutínio

Há muita gente que pega no incumprimento de promessas para denunciar a podridão do sistema (da democracia). Discordo. É naturalmente legítimo que se aspire a um governo que cumpra o máximo de compromissos eleitorais. Não é isso que está em causa. Mas muito mais preocupante seria não haver escrutínio sobre o que se está a fazer (o que ainda acontece em muitas áreas, por ignorância, opacidade ou puro desinteresse). Através deste controlo, os políticos são chamados a justificar as suas opções, até porque pode haver boas razões para o desvio das promessas. O controlo e o debate sobre o cumprimento dos compromissos eleitorais é uma das formas como a democracia se realiza. A democracia não se esgota no cumprimento cego desses compromissos.

Escrutinar as promessas eleitorais

Ontem, o candidato socialista à presidência francesa veio dizer, a propósito dos seus 60 compromissos eleitorais: "Não prometo aquilo que não sou capaz de cumprir. Tudo o que está dito será feito".

Não digo que não seja inspirador mas a crise de confiança que separa, crescentemente, eleitores dos seus eleitos, se calhar exigia um pouco mais do que as palavras do costume. Proporia algo do género, a ser entregue aos eleitores, que assim o poderiam usar para melhor escrutínio:


26.1.12

Desculpa

Parece que é mas não é

...assim tão difícil compreender o buraco negro em que nos estamos a afundar:

Finalmente, somos a Grécia

"A escassa informação até agora disponibilizada permite concluir que, em 2011, a despesa do Estado terá ficado 1.713 milhões de euros abaixo do orçamentado, um valor duplo do gerado pelo imposto extraordinário sobre o subsídio de Natal.

Caso para nos congratularmos? Bem pelo contrário. A consequência imediata deste sonho húmido de "ir para além da troika" foi uma brusca contração económica que resultou na rápida redução dos impostos cobrados no final do ano. Resultado (previsto por qualquer pessoa racional): não só não se reduziu o défice público como se precipitou o país numa nova recessão que, por sua vez, voltará a fazer baixar as receitas fiscais. o que justificará mais austeridade, e assim sucessivamente."

João Pinto e Castro, ...bl-g- -x-st-

Será mesmo assim?

"Petição sobre salários e prémios de gestores públicos sem consequências no Parlamento".

Bem, a petição deu entrada no Parlamento, que a disponibiliza no seu site.

Esta foi distribuída a um deputado.

O Parlamento solicitou ao Governo uma posição sobre a matéria.

O Governo respondeu.

Os peticionários foram ouvidos pela comissão parlamentar competente na matéria, a Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública.

O deputado relator elaborou um relatório, onde se ponderam os vários contributos sobre a pretensão dos peticionários (antes já havia sido aprovado um relatório intercalar).

O relatório foi apresentado, discutido e votado pela comissão.

A petição dos peticionários foi debatida no plenário parlamentar, momento mais solene dos trabalhos da Assembleia da República.

A petição foi objeto de cobertura noticiosa como a que nos diz que a petição não teve quaisquer consequências.

Teve-a, mas não aquela que intuitivamente relacionamos com este instrumento de participação política: o acolhimento da pretensão da petição.

O Parlamento foi chamado a exercer a sua função fiscalizadora. Obrigou o Governo a justificar-se e a trazer informação para o processo. Esta informação é disponibilizada a todos os cidadãos no site, aumentando a transparência da atividade política e permitindo que também seja exercida uma função de pedagogia política.

A democracia participativa também se realiza através destas formas menos definitivas.

23.1.12

Quem disse que não gostava de música nova?



Com um merci beaucoup ao Vicente

Sobre a mistificação das oportunidades da austeridade

"O Público tem um trabalho sobre como a crise nos obriga a “mudar de vida”. No fundo, a crise é vista como uma oportunidade para redescobrir os valores e as “coisas simples” ou lá o que é – “vamos” deixar de ter empregadas domésticas ou de ir de férias para o estrangeiro, de ser “consumistas” e tudo, “em 2012, vamos conhecer o vizinho, cuidar da horta e integrar uma associação”.

Não há mesmo pachorra para este romance da austeridade. Apontemos noutras direcções: vamos entrar em conflito com o vizinho, já que as disputas aumentam por falta de dinheiro nos condomínios, vamos ter de regressar à pluriactividade feita de todas as auto-explorações, vamos deixar de pagar quotas nas associações, vamos ter o tempo mais espartilhado e a vida mais condicionada pela subordinação crescente a patrões medíocres e pelos cada vez mais baixos salários, vamos entrar em insolvência, com o endividamento e o desemprego a aumentarem o stress e as depressões, o ensimesmamento e o rompimento dos laços sociais. Que tal assim?

Em 2012, a austeridade não é uma oportunidade para nada, mas sim um imenso desperdício de capacidades individuais e colectivas, um imenso golpe no processo da vida."


Excertos do texto que João Rodrigues escreve, muito pertinentemente, a desmontar a candura da reportagem do Público de ontem sobre as oportunidades da austeridade. Nos Ladrões de Bicicletas, claro.

O que Hollande quer para a França

Este post há-de ter link (no can do now) mas não deixa de ser um sinal de qualquer coisa que uma parte do que Hollande quer para a França de amanhã já tenha sido concretizado em Portugal nos últimos anos, como a paridade, o casamento gay ou a limitação de mandatos eletivos.

Mas também houve PR´s a fazer o contrário, a escudarem-se no veto político com fundamentos jurídicos, furtando-se ao escrutínio esclarecedor do TC




“Em Portugal, a determinada altura, os Presidentes deixaram de utilizar o veto político e, em vez disso, passaram a utilizar o mecanismo de fiscalização da constitucionalidade. Porque isso desdramatiza, do ponto de vista político, a decisão do Presidente relativamente à maioria política.”


Miguel Poiares Maduro, em entrevista ao Público de hoje

Excelente entrevista de Poiares Maduro ao público 3

"E essa leitura não deve ter limites?"

"Tem de ter limites sempre. Uma norma jurídica não pode permitir todo o tipo de interpretações, tem que ter sempre limites. Muitas vezes, o que acontece é que esses limites não estão definidos ex ante . Resultam do processo de interacção entre essa norma jurídica e a realidade económica e social. Nem tudo é permitido na interpretação constitucional, tal como nem tudo está previamente definido."

Excelente entrevista de Poiares Maduro ao público 2

"O exemplo que dá é uma evolução do sentido de alargar a protecção conferida pelo Direito. Neste momento, está a acontecer o inverso".

"Sim, mas a maior parte das questões de Direito Constitucional não são questões de soma zero em que o Direito protege mais ou protege menos. Muitas das questões constitucionais trata-se de conflitos entre direitos, em que ambos os direitos ou valores em causa estão reflectidos na constituição. É óbvio que uma situação económica conjuntural como a que estamos a viver pode exigir uma certa adaptação das normas constitucionais que limita o seu alcance garantístico nalguma matéria. Mas isso é feito porque há outros valores que estão reflectidos na Constituição e que têm, por exemplo, a ver com a sustentabilidade do Estado, que têm que ser garantidos. Se não tivermos um estado sustentável em termos financeiros, outros valores constitucionais que devem ser protegidos podem ser colocados em causa."

"Essa adaptação é sempre um produto da interacção desses valores constitucionais interpretados à luz do contexto actual."

Excelente entrevista de Poiares Maduro ao público

"O que isto [polémica em torno do corte dos salários e subsídios de férias e de Natal dos funcionários do Estado] nos ensina é que nem todas as questões que têm dimensão constitucional - e esta é uma questão com dimensão constitucional porque há uma questão de igualdade entre os cidadãos que está em causa - podem ser decididas pelo TC. Nem todo o discurso com relevância constitucional deve ser um discurso relativo à justiça constitucional. Acho que a questão ainda é sobretudo política."

20.1.12

Rezasse a história a dos fracos (sensu latu, muitu latu) e Cavaco teria um lugar insigne nela

Cavaco diz que as reformas dele não chegarão para pagar despesas

Tudo somado, o que irei receber do Fundo de Pensões do Banco de Portugal e da Caixa Geral de Aposentações quase de certeza que não vai chegar para pagar as minhas despesas porque como sabe eu também não recebo vencimento como Presidente da República”, disse Cavaco.

Para ser franco, se a esquerda chegasse agora ao poder e Graça Moura estivesse no CCB, haveria de querer que fosse substituído pelo Mega Ferreira



Fazer oposição é duro mas, em democracia, não há inquestionáveis. Não pode haver. É contra a sua essência

"Por mais respeito que Graça Moura possa merecer em todas as áreas a que se dedica, diz Canavilhas, não há como negar que Mega fez dois mandatos excelentes: “Não há absolutamente nada a apontar a Mega Ferreira, nem ao nível programático e artístico, nem ao nível da gestão. Foi exemplar.”

18.1.12

Stiglitz aplaude o acordo de concertação social. Tudo bem. Mas contaram-lhe tudo?

"E [Stiglitz] deixou um alerta: cortar salários - uma solução que chegou a ser posta em cima da mesa em Portugal - não é solução, porque deprimiria ainda mais a procura, afundando a economia. "Seria contraproducente", disse o Nobel de 2001."

Uma solução que chegou a ser posta em cima da mesa? Já não me vão tirar dois salários este ano e eu sem dar por nada?

Fogachos introspetivos da hora do almoço

1- O difícil papel de um sindicato que não se limite a rejeitar, a ser porta-voz do descontentamento, optando por tentar influenciar e deixar uma marca no enquadramento das relações laborais que vigorará nos próximos anos. Equilíbrio difícil, este. E esforço não isento de conduzir ao pecado contrário, como poderá ter acontecido com o apoio da UGT a este acordo da concertação social.

2 - A princesa da Bela e do Monstro é a única que tem alguma coisa na cabeça. As outras são umas tolas. Com a possível exceção da Jasmine.

Está tanto frio, tanto frio, que nunca estive tão perto de não lavar as mãos depois de ir à casa de banho

16.1.12

Posts sobre o Público de hoje: o nosso Chico

Miguel Esteves Cardoso deslinda um dos mistérios que me acompanha desde o início da idade adulta: como é que pessoas de direita podem gostar, como eu gosto, de Chico Buarque. MEC explica: Chico escreve sobre a humanidade e "não gostar de Chico é como não gostar de ninguém".

Posts sobre o Público de hoje: ainda sobre o caso Ferreira Leite e as declarações sobre hemodiálise

está certíssimo o provedor do jornal "Público", na edição de hoje. No que se refere à peça que saiu na edição online do Público, privilegiou-se o sensacionalismo em detrimento do rigor informativo, pois fez-se manchete de umas declarações confusas que a própria, a isso instada, viria a esclarecer momentos depois. Eu, que sobre este assunto apenas li manchetes nos dias seguintes, fui induzido em erro.

No entanto, o que o provedor não aborda (nem é suposto), é como é que é possível que uma carreira feita de gaffes sistemáticas, equívocos reiterados, numa profusão de mensagens confusas, coexista com uma carreira política de elevado perfil (ministra, líder do maior partido da oposição, putativa salvadora da pátria). Com relativa impunidade, detendo hoje ainda hoje palco nos órgãos de comunicação (ah, a ironia...) social .

Tony Judt, num dos textos do seu "chalet da memória", alarga-se a explicar sobre porque é que quem não sabe expressar-se ou comunicar com clareza, ou não tem nada para dizer ou tem intenções ocultas. Acho um exagero aplicado ao comum dos mortais (para minha defesa, aliás, sem quaisquer pedras para atirar). Mas de aplicação imperativa aos que competem pela gestão da res publica.

5.1.12

Liberdade, taxação, representação

Não acompanhando muito do que se tem escrito acerca do caso Jerónimo Martins, sempre gostaria de dizer o seguinte. Dá-me bastante satisfação pagar os meus impostos. Cá. Não gosto, portanto, de ler, como tenho lido, que aquilo que o sr. Soares dos Santos fez é aquilo que cada um de nós faria se tivesse oportunidade para tal. Não é. Gosto de pensar que, pela via fiscal, contribuo com a minha parte para que Portugal se torne um país melhor e mais justo. Será uma parte insignificante no bolo mas é a minha parte. Os EUA nasceram sob o lema de “no taxation without representation”, em português rimado: não há taxação sem representação. O inverso também é válido. Se nos furtarmos à taxação, fragilizamos os laços que nos ligam aos representantes e às escolhas da comunidade, quebrando o contrato social, por incumprimento de deveres. É também por isso que se torna particularmente chocante que esta espécie de elisão fiscal venha de quem tem tido intervenção pública e política, contribuindo para moldar as escolhas que nos afetam a todos nós. Sim, passei a escrever de acordo com o novo acordo ortográfico. É deveras estimulante.

Gillao

Pelas saudades que deixas. Mesmo com a distância que nos separava.

Pelo que me ensinaste sobre a amizade. Muito especialmente a que te unia ao meu pai.

Pelo que aprendi contigo sobre música, como não estarmos reféns das modas (não sei se não terei levado demasiado à letra este ensinamento. Naaahhh…).

Recordarei, sempre com um sorriso, as palavras que me repetiste muitas vezes (com o teu sotaque parisiense; voz quente e rouca) quando era adolescente: "Red Hot Chilly Peppers Merde".

2.1.12

Não é só em matéria de austeridade que andamos a fazer merda

Impiden a un indignado subir a bordo de un avión por llevar carteles anarquistas.*

A fazer lembrar um episódio recente das empresas que boicotaram o apoio dos seus clientes à wilikileaks (organização pela qual não nutro particular simpatia), atitude que mereceu o aplauso de muitos (mesmo dos melhores de entre nós).

* via Porfírio Silva, que, sobre isto e sobre o resto, deve ser lido.

26.12.11

Errata ao "ainda sobre preconceitos"

Esqueci-me dos escuteiros.

Ainda sobre os preconceitos

Por outro lado, sou um defensor incondicional dos preconceitos. Tenho-os para dar e vender. Betos, monárquicos, “tios” e “tias”, surfistas (bem, esta já está meio caduca, mas teve o seu tempo), caçadores, entre tantos outros. Os preconceitos são muito úteis. Ajudam-nos a organizar mentalmente o mundo. Encaro-os como uma espécie de tabuada mental. Exceto que é uma tabuada falível. (Afinal, esta imagem da tabuada não é lá grande coisa. Recomponho-me). E ter uma consciência aguda disso mesmo. Por exemplo, até tenho amigos betos.

Justos preconceitos

Assim a propósito de nada. Julgo que as pessoas mais justas (as minhas preferidas) serão as mais preconceituosas. Bem, não serão talvez as mais preconceituosas mas a justeza dependerá, agora sim, de conhecermos o melhor possível os nossos preconceitos - mais ou menos arreigados -, e tentarmos distanciarmo-nos deles. Quem acha que não os tem dificilmente poderá ser bom juiz.

13.10.11

Isto é absolutamente assustador

Bélgica: Quase um belga em cada dois estima que o nazismo tinha “ideias interessantes”

Duas formas de olhar para o mesmo acontecimento político:

- De um órgão de comunicação social: Martine Aubry passa à ofensiva nas primárias socialistas francesas

- De um blog: A França por vezes ilumina

Isto não implica um juízo sobre a qualidade dos dois textos. Queria apenas notar o contraste entre o texto jornalístico e a opinião registada num blog. É evidente que este contraste é tão natural quanto necessário, atendendo à natureza (um jornalístico, o outro opinativo) de cada um dos textos. O que estranho é que, apesar do relato factual da notícia, senti-me muito mais informado com a apreciação feita pelo Porfírio Silva. Se calhar tem a ver com o tipo de informação que procuro. Mas não excluo que reflicta também um certo jornalismo dominante, nomeadamente no jornalismo político, que enfatiza (e às vezes reduz) a tensão, desvalorizando as pontes, a unidade. Como ilustra na perfeição o título da peça do Público e que, a meu ver, não tem correspondência com o que vem no texto.

12.10.11

"Look at me! I am man! I am you!"

“O modo como Cavaco Silva é bajulado neste país é algo para o qual não encontro explicação. São tantas as incoerências e mentiras, conjugadas numa sonsice sem paralelo ao longo de tanto tempo, que o facto de ainda lhe restar o que quer que seja de credibilidade junto da opinião pública e comunicação social só pode reflectir o quão atrasados estamos em termos de escrutínio público.”

serras, no Serras.

Serras, o problema não é o facto de ele ainda ter credibilidade junto da opinião pública e da comunicação social. Há malucos para tudo. Além disso, isso reflecte as inevitáveis (e desejáveis) diferenças com que cada um de nós interpreta a vida em geral, e os factos e personagens políticos em particular. Algo que foi esquecido vezes demais nos últimos anos, em que não faltaram as vozes a reivindicarem uma unanimidade sobre o carácter de um homem e das suas políticas, ele por acaso primeiro-ministro, a encarnação do político por excelência, por acaso também alguém (ou um cargo) que deveria ser foco obrigatório de discórdia e do dissenso público.

O verdadeiro mistério é, como bem assinalas, a bajulação dedicada a esta personagem e, como notas também (no fundo, já disseste tudo; mas apeteceu-me escrever), a ausência de crítica e de escrutínio à sua persona e actividade política. No fundo, o ódio a Sócrates e a divinização de Cavaco são duas faces da mesma moeda, da mesma má moeda, uma forma de ver, e de exigir que todos vejam, a política e os políticos como unidimensionais. Mas como diria o George Costanza, eles são pessoas. Eles são nós (imaginem por favor vídeo a ilustrar a citação; só arranjei isto).

10.10.11

Fazer minhas as palavras dos outros


Primárias e primários


Socialistas franceses decidem candidatura presidencial com "primárias" abertas a não militantes.

«Pela primeira vez em França, a escolha de um candidato socialista à presidência poderá ser feita por qualquer eleitor que pague um euro e que assine um papel a dizer que partilha "os valores da esquerda e da República". A inovação valeu uma exposição mediática inédita dos candidatos, com audiências televisivas recordes para debates políticos entre candidatos da mesma família política.»

Por cá, foi pena que, na última campanha para a liderança socialista, esta possibilidade de maior osmose entre partidos e cidadãos tenha sido descartada com demasiada facilidade, ainda por cima atropelada por um apelo demagógico contra "a invasão do PS pelos estranhos". Neste ponto concreto, Seguro esteve mal, usando uma receita que não é nova no PS (matar debates para atalhar votações). Espero que um dia, mais cedo do que tarde, a actual liderança do PS faça a Assis a justiça de lhe repegar a proposta e colocá-la a debate, dessa vez com seriedade.

Palavras de Porfírio Silva, no sempre excelente Machina Speculatrix

"Não merecemos o medo com que nos querem obrigar a viver"

Daqui.

27.9.11

Formar uma opinião é bem mais difícil do que, genericamente, se crê (acho que esta última parte é português. Mas não devia)

Até recentemente, por dever (e prazer) de ofício, tentava acompanhar tudo o que, sobre determinados assuntos, frequentemente os chamados temas quentes da actualidade, se escrevia na imprensa, blogs e micro-blogs. Desta experiência, ficou-me a seguinte convicção: raramente a comunicação social consegue fazer o trabalho de passar os vários lados de uma questão, alimentando, no entanto, a ilusão de que o faz. O que me faz carregar a seguinte angústia: como lidar com o fardo de ter-me tornado um céptico agora que o meu consumo informativo é quase exclusivamente mediado pelo filtro da comunicação social (de um único jornal, aliás)? Como formar uma opinião com base em premissas que, sei-o (…say me), estão incompletas?

Sentido de humor

Apercebo-me, não sem alguma surpresa, que frequentemente revela mais sentido de humor quem se ri das piadas do que quem as conta. Além de que me parece ser uma das supremas formas de generosidade, esta disponibilidade para ouvir o outro, premiando-o com o riso. Era mesmo só isto que vinha aqui dizer.

Continuamos à procura de balas de prata

Programa do Governo ajuda mas não resolve, diz António Saraiva

29.8.11

Lunch break


Hora de almoço. Ir a casa. Estava bom, obrigado. Ligar a televisão. Campeonato do mundo de atletismo (e em directo). Final dos 100m feminina. Reconhecer, por incrível que pareça, uma ou outra cara. A vitória da norte-americana Carmelita Jeter mas isso pouco importa (nem foi uma prova particularmente notável, exceptuando o facto de esta já ter entrado nos 30, embora o que seja isso para quem é do tempo da fabulosa Marlene ottey...). Apanhar um lançamento do peso feminino. O lançamento do peso é uma prova chata. Desde que, claro, não se veja mais do que três minutos. Ao segundo lançamento, já é assim-assim. No terceiro, já sou um candidato a especialista na modalidade. E o terceiro foi mesmo um espectacular ensaio da neo-zelandesa. Depois veio a final dos 110m barreiras. Emocionante q.b. Mas uma pessoa não chega aos trinta e tal sem carregar consigo umas quantas memórias. E se há área em que estas memórias se manifestam é, como se sabe, nos 110m barreiras. O mesmo é dizer: Colin Jackson. Um dos meus atletas preferidos de todos os tempos. Fim da pausa para almoço.

22.8.11

Por outro lado, é tudo uma questão de expectativas

Uma questão com que tenho de lidar com alguma frequência é que, vezes demais, pareço mais esperto do que realmente sou. Não digo que seja esperto. Ou que pareça esperto. Apenas que pareço mais esperto do que, na verdade, julgo ser. Um bom exemplo do que estou a tentar dizer é o meu currículo. Apesar de tudo, dá uma imagem das minhas capacidades bastante lisonjeira. Este problema manifesta-se, naturalmente, tanto nas relações profissionais como nas pessoais. Assim como assim (clap, clap, acabo de me estrear nesta expressão. Acho que não vou repetir), prefiro lidar com as primeiras. Haverá quem lhe chame um complexo de inferioridade. Por mim, tudo bem. Ou melhor, com o tempo, uma pessoa vai-se habituando. E acontece que os complexos, e em especial o de inferioridade, têm um potencial cómico enorme, em particular na modalidade de auto-retrato. E isso é engraçado. Curiosamente, com o humor, acontece precisamente o inverso. Tenho muito mais graça do que, geralmente, consigo dar a entender.

26.7.11

Avant de plus

Antes de mais, importa ler aqueles com quem aprendemos, sempre. Mesmo que o parágrafo seja magro e a matéria aparentemente trivial. As aparências enganam. E aprender a trabalhar e brincar com as palavras não é coisa de somenos. Vem, aliás, antes de tudo o resto. Ou antes de mais.

Querido blog:

Acho que devíamos dar um tempo para ver o que realmente sentimos um pelo outro. Sim, eu sei, é precisamente isso que temos (tenho) feito ultimamente. Mas achei que te devia uma explicação.

Não procurarei outros. Ser-te-ei fiel, isso posso garantir-te. Sei que posso esperar o mesmo de ti (até porque sou o único detentor da password. mas sei que não é por isso).

Apenas para que fique claro, querido blog: o problema não és tu, sou eu.

29.6.11

Sem ser a parte do "ousadamente imaginativo", é como olhar para o espelho

"O seu cérebro funcionava a uma temperatura diferente. Demorava mais tempo a tomar uma decisão e, mal o fazia, apetecia-lhe mudar de ideias de novo. Mas, e talvez por esta mesma razão, acreditava que era o mais ousadamente imaginativo dos dois".

"A questão Finkler", Howard Jacobson, alguras nas primeiras páginas.

25.6.11

Um país de vips

Recebido por sms: "Depois de ter sido imediatamente atendida como cidadã comum, fui informada que era vip...fui então para a enorme fila de vips....".

15.6.11

Estado clínico deste blog




Ainda respira, embora apenas com a ajuda de aparelhos. Sinais vitais estáveis. Aguardam-se melhorias para breve.

8.6.11

Melhor do que o silêncio só João



A ver aqui a maravilhosa reportagem sobre joão gilberto (como se sabe, o outro melhor cantor do mundo), visionamento, porém, não isento de dor, chamando à memória aqueles dois bilhetes para um concerto de João Gilberto que já estiveram na minha mão, concerto malogradamente cancelado na véspera (doença, disseram, inconvincentemente). Talvez não saibam mas sei muitas letras do joão gilberto de cor.

2.6.11

Pirraça




Agora que saiu a Ler de Junho, já posso dizer-vos: a edição de Maio tem a melhor auto-entrevista - aquela do sofá - que já lá li (não, não me refiro ao cientista político). É de J. Rentes de Carvalho. E não sou só eu que o digo. Mais à frente, a própria Ler chama-lhe de antologia. Ides tentar comprar a edição do mês passado a ver se conseguem. Ahahah.

Nas nossas mãos

E se fizéssemos alguma coisa sobre o assunto, pergunta-se – e muito bem - aqui? De facto, também está nas nossa mãos tornar a vida pública um lugar melhor. Não depende apenas (e muitas vezes nem sobretudo) do Governo tornarmos o país num lugar melhor.

Também está nas nossas mãos contribuirmos para uma sociedade mais participativa e mais exigente; está nas nossas mãos (dos empresários, dos trabalhadores, dos consumidores) a dinamização da economia nacional, com os reflexos que isso pode ter no crescimento e na criação de emprego; está nas nossas mãos sermos menos complacentes para com a corrupção, a fraude e a elisão fiscal; está nas nossas mãos adoptar práticas mais amigas do ambiente e adquirir novos hábitos de consumo energéticos, como é o caso das energias alternativas (que, como se sabe, também tem reflexos económicos importantes, ao diminuir o nosso défice energético). Enfim, os exemplos são inúmeros. A realização do nosso sucesso enquanto país depende, em muita maior medida do que somos muitas vezes tentados a pensar, de nós, tendo o governo um papel muitas vezes residual.

Mas há assuntos que não estão nas nossas mãos. Cuja realização depende, em exclusivo, das escolhas do poder político. São os tais assuntos que deviam reunir um apoio particularmente alargado da comunidade e dos partidos mais representativos dos portugueses.

E é precisamente nessas áreas que o PSD pretende tudo alterar (e não é por acaso que as propostas liberais-radicais de Passos Coelho nunca foram tentadas antes pelo próprio PSD). É o caso do Serviço Nacional de Saúde, é o caso da Escola Pública (assim, com maiúsculas) e é o caso da Segurança Social Pública.

Se mexerem nisto, nada estará nas nossas mãos (nada poderemos fazer para evitar que a Saúde e o Ensino públicos se tornem, a pouco e pouco, serviços cada vez mais pobres, destinados aos mais pobres). E se isso acontecer, nada será como dantes. E depois será tarde demais para se voltar atrás.

1.6.11

Do esforço contínuo que, como dizia (acho que) Mark Twain, temos de fazer para ver aquilo que está mesmo à frente do nosso nariz

'O Governo do PS pôs em causa a normalidade democrática ao deixar o Estado sem dinheiro para assegurar as funções básicas'
Pedro Passos Coelho, no Twitter

O líder do PSD regressa ao tema do 'só havia dinheiro até ao final de Maio', que, para alguns, é prova de qualquer coisa terrível sobre este governo. Ora, o 'não haver dinheiro', anunciado por Teixeira dos Santos, resultou, apenas e só, de que, a partir do momento em que o PEC IV foi chumbado, Portugal ficou de fora dos mercados de divida. É só isto. Qualquer país que tenha necessidades de financiamento líquidas fica 'sem dinheiro para assegurar as funções básicas' se lhe acontecer o mesmo. Sem que isto nos permita fazer qualquer juízo (negativo ou positivo) sobre o comportamento desse mesmo governo.

Da desinformacão, João Galamba

28.5.11

Aceitem um conselho



Na estranha eventualidade de vos parecer engraçado, querido, ou até uma boa ideia, entregarem a vossa cabeça às mãos de uma criança de cinco anos (mesmo que quase seis) com uma máquina destas, deixem-me alertar-vos: não é. Digo-o do alto da minha recém-adquirida (mais ou menos oito horas) autoridade na matéria.

27.5.11

Este post não é sobre Cavaco

Porque razão é que os jornalistas perguntam se a campanha está a ser esclarecedora, "como pediu Cavaco Silva"? Porventura Cavaco tem a patente da ideia de que as campanhas servem (ou deviam servir) para esclarecer? Não é este o entendimento mínimo partilhado por todos? Se Cavaco disser que espera que os candidatos andem com os pés e escrevam com as mãos, os jornalistas também vão perguntar se os candidatos o estão a fazer como Cavaco desejou?

Palavras que me fascinam (ou o contrário, não sei bem)

Sancionar. É uma palavra no mínimo estranha. Não conheço outra na língua portuguesa que signifique uma coisa e o seu contrário. Tanto pode exprimir aprovação, concordância como castigo e punição.

Respeitar os cidadãos

“[Passos] Não defendeu a realização de um referendo, mas foi acusado de o fazer. (…) Defendeu que a Assembleia devia respeitar as petições de grupos de cidadãos e foi acusado de conservadorismo”, diz JMF.

De que falamos quando falamos de cidadãos proporem um referendo? Falamos da possibilidade que a lei oferece a grupos de cidadãos de iniciarem um processo legislativo, por norma reservado aos partidos representados na AR (ou ao governo), que poderá ou não culminar numa proposta de referendo dirigida ao Presidente da República (a quem cabe a decisão final).
Estes são os únicos direitos que assistem aos cidadãos que patrocinem uma iniciativa de referendo: iniciar um procedimento e que o Parlamento tome uma decisão sobre o assunto em causa.

Nunca mas nunca mas nunca têm o direito a que a AR aprove esse referendo. Permitir que 75 mil cidadãos (ou 80, 100, ou 200 mil, etc.) pudessem condicionar a vontade da maioria dos cidadãos, representados no parlamento pelos deputados, eleitos por milhões de pessoas, seria, pense-se um bocadinho, ofender a democracia e o princípio maioritário de forma chocante. Isso sim, seria um desrespeito pelos cidadãos.

Esta á, aliás, uma ideia que volta e meia surge no espaço público, por vezes pela voz de insuspeitos especialistas. Ainda no outro dia, o sociólogo Villaverde Cabral queixava-se na rádio da ineficácia das petições (propriamente ditas), dando como exemplo a petição assinada por mais de 100 mil cidadãos (entre os quais o próprio Villaverde Cabral) que reclamava a revogação do Acordo Ortográfico, cuja pretensão não tinha sido acolhida pela AR. Achar que uma pequena elite de cidadãos mais activos devia condicionar de forma definitiva o Parlamento é que seria uma ofensa grave ao princípio geral de que as escolhas numa democracia são tomadas pela maioria.

Sinto que vos maço.