E isso confirma-se uma vez mais, aos meus olhos, quando assisto à ironia
de ver aqueles que denunciam fundadamente as canalhices dos outros a contribuírem,
involuntária e injustamente, para uma certa irrespirabilidade que estas permanentes
acusações também causam. Correndo o risco de se parecerem mais iguais do que ao
que são. Sempre repudiei as analogias entre política e contextos domésticos.
Mas todos teremos um pouco de Frei Tomás [também sempre repudiei analogias com recurso
a ditados populares. Mas, afinal, todos teremos um pouco de Frei Tomás...(!)]. Analogias
domésticas. Os meus filhos pequenos. À vigésima recriminação do outro,
desinteresso-me de saber quem tem ou não tem razão (mesmo que seja quase sempre o mesmo)
e quero é que não me cansem. Quanto mais a discussão política for feita com base nas
propostas e, porque não, nos diferentes estilos de fazer política, mais
evidente se tornará a melhor escolha.
26.6.14
25.6.14
Captain Blackadder, Private Baldrick, Lieutenant George e Captain Darling existiram mesmo e lutaram na I Grande Guerra / O ministro da Educação britânico só pode ser tolo
Blackadder and company really did fight in World War One, records show
"No início do ano, o ministro da Educação, Michael Gove, criticou a série por disseminar mitos sobre a I Guerra Mundial".
24.6.14
A urgência da urgência
Excelente artigo de José Vítor Malheiros que, de tão simples e certeiro que é, até dói. Claro que "acabar com a pobreza", "já", é um programa destinado a ser incumprido e, inevitavelmente, a criar insatisfação entre os seus apoiantes. Mas o combate à pobreza exige insatisfação e indignação, o verdadeiro motor de qualquer mudança neste sentido.
Calma, mas "acabar com a pobreza, e já", não é mera
retórica utópica, desligada dos constrangimentos políticos reais? Nada disso. Basta
pensar no que aconteceu com a Saúde e a Educação no Portugal democrático (não
por acaso áreas tangentes à questão da pobreza).
Claro que ainda existem
pessoas a quem faltam os adequados cuidados de saúde ou que não cumpriram a
escolaridade obrigatória. No entanto, foi a sua ambição universal, a ser
cumprido "já" (ambição que encontra tradução jurídica na força que a Constituição
lhes dá como direitos fundamentais), que permitiu o extraordinário avanço na
saúde e na educação dos portugueses desde o 25 de abril.
Universalizemos, pois, também a não pobreza. Sabendo que, na
saúde, na educação ou no combate à pobreza, nunca nos podemos dar por
satisfeitos. Ou nunca aqui teríamos chegado (e, mesmo apesar destes últimos
anos de austeridade demente, temos de admitir que já andámos muito se olharmos
para trás).
16.6.14
Estamos onde estamos também porque, a certa altura, nos esquecemos de explicar de onde vem e para onde vai o dinheiro. Plágio bom
O Guardian testa os conhecimentos dos seus eleitores acerca do sistema fiscal britânico. Vale a pena fazer o teste, nem que seja para concluir o que começa a ser, cada vez menos, uma surpresa: que, em vez de corrigir, o sistema agrava as desigualdades (ver texto do jornal britânico que se reproduz abaixo). E por cá, não há edições online de jornais com vontade de plagiar a ideia?
"Nearly seven in ten people – 68% – of the 1,036 adults polled by The Equality Trust and Ipsos MORI, dramatically underestimate what the poorest pay in tax and wrongly believe the richest face the biggest tax burden.
In reality, households in the lowest 10% income group pay 43% of their income in tax, while average households and those in the highest 10% both pay just 35% – 8 percentage points less than those in the lowest 10%. Since 1986, the bottom 10% of households have paid a greater proportion of their income in tax than the middle and the top 10%.
People's inaccurate understanding of the tax system can be attributed to people's tendency to disproportionately focus on income tax, finds the report from the Equality Trust. Yet income tax constitutes only a small portion of the tax the bottom 10% pay.
The largest tax that affects households in the bottom 10% is VAT. The bottom 10% of households pay 11.6% of their total income in VAT, almost double the proportion of the average household and almost three times that paid by the top 10%.
Council tax affects the bottom 10% substantially more than the top 10%. These households pay over twice as much of their income in council tax as the average household and more than four times as much as the top 10%.
When asked about how to make the tax system fairer, on average, people said the poorest 10% should be taxed just 15% of their income, or 28% percentage points less than they currently are. They believe the richest 10% should be taxed 39%, or 4 percentage points more than now."
"Nearly seven in ten people – 68% – of the 1,036 adults polled by The Equality Trust and Ipsos MORI, dramatically underestimate what the poorest pay in tax and wrongly believe the richest face the biggest tax burden.
In reality, households in the lowest 10% income group pay 43% of their income in tax, while average households and those in the highest 10% both pay just 35% – 8 percentage points less than those in the lowest 10%. Since 1986, the bottom 10% of households have paid a greater proportion of their income in tax than the middle and the top 10%.
People's inaccurate understanding of the tax system can be attributed to people's tendency to disproportionately focus on income tax, finds the report from the Equality Trust. Yet income tax constitutes only a small portion of the tax the bottom 10% pay.
The largest tax that affects households in the bottom 10% is VAT. The bottom 10% of households pay 11.6% of their total income in VAT, almost double the proportion of the average household and almost three times that paid by the top 10%.
Council tax affects the bottom 10% substantially more than the top 10%. These households pay over twice as much of their income in council tax as the average household and more than four times as much as the top 10%.
When asked about how to make the tax system fairer, on average, people said the poorest 10% should be taxed just 15% of their income, or 28% percentage points less than they currently are. They believe the richest 10% should be taxed 39%, or 4 percentage points more than now."
9.6.14
Mesmo não sendo camarada, tão pouco tenho vergonha...
... para além de muito do que aqui vem referido, da descriminalização do
consumo de drogas, da procriação medicamente assistida ou do casamento gay; tão pouco tenho vergonha do aprofundamento dos direitos das uniões-de-facto, do fim do divórcio litigioso ou da lei da paridade; muito menos tenho vergonha da legalização de milhares de cidadãos estrangeiros (por via de
uma nova lei da nacionalidade), do reforço dos direitos dos consumidores ou da limitação de mandatos.
Nem todas as medidas são motivo de orgulho. Algumas são generosas mas terão sido mal implementadas (ainda hoje tenho dúvidas se será o caso da avaliação de professores). Outras já nem as subscreveria (como os hospitais PPP nos moldes em que foram lançados) e outras ainda sempre me contrariaram. E, claro, tantas medidas ficaram por tomar, nomeadamente ao nível da regulamentação e tributação do setor financeiro.
Mas lacunas, omissões e erros encontraremos, inevitavelmente, em todos os governos. Na minha avaliação, poucos governos do Portugal democrático se podem orgulhar de ter concretizado uma agenda tão ambiciosa de modernização e combate às desigualdades como a que foi feita nos governos Sócrates.
Serei, naturalmente, sempre suspeito por ter colaborado, à minha insignificante escala, com este programa (sim, num tempo que cultiva a descrença nos políticos, é bom lembrar que muitas destas medidas decorreram de compromissos eleitorais). Quanto a isso, nada posso fazer. A não ser assumir que também disso não tenho vergonha. Muito pelo contrário.
5.6.14
Escrutínio constitucional
Desde 2007, os candidatos a juízes do Tribunal Constitucional são sujeitos à audição prévia do Parlamento. Ou seja, dos deputados da nação. De todos os partidos aí representados. Não conheço melhor - e mais democrático - escrutínio que este.
4.6.14
A maioria dos argumentos de josé manuel fernandes contra a nomeação de Juncker para presidente da comissão europeia é de pôr cabelos democráticos em pé; mas há uns que põem mais os cabelos em pé do que outros
"De resto, a meu ver, uma das coisas que mais desqualifica Jean-Claude Juncker é ele ser um federalista que vem de um micro-país cuja existência só faz sentido no coração da União Europeia"
José Manuel Fernandes, no "Observador"
3.6.14
O acórdão não presta para nada mas é o acórdão (hipótese académica). É como este Governo ( )
É absolutamente normal e saudável que as decisões do Tribunal Constitucional sejam criticadas. Não gosto do argumento que, face às críticas, atira com "mas o que o Tribunal Constitucional está a fazer é meramente a zelar pelo cumprimento da Constituição". Em si, este argumento mata qualquer possibilidade de discordância quanto ao mérito do acórdão.
Há várias maneiras de interpretar a Constituição, todas com estribo jurídico. E nem a quase unanimidade, quando exista, inibe a crítica. Mal seria. Concedo facilmente que o próprio Governo considere que as normas do orçamento eram conformes à Constituição, na interpretação que dela fazem. E não faltam constitucionalistas, no Governo e fora dele, a caucionar este entendimento, embora sejam, assim em jeito de golpe de vista, claramente minoritários.
A mim, nem me choca particularmente que este seja o vigésimo quarto (atiro ao ar) chumbo do TC a uma iniciativa legislativa deste Governo. Uma das maravilhas da democracia é dar-nos instrumentos para dirimir estes conflitos, que serão, numa sociedade pluralista (e o pluralismo existe igualmente na ciência jurídica), relativamente banais.
Dito isto, para que isto funcione (e isto é a democracia, com tudo o que comporta, como a separação de poderes e o estado direito), o que não se pode fazer, pois mina as regras do jogo, é um dos órgãos de soberania (e à cabeça o Governo) pôr em causa a legitimidade e o papel dos restantes órgãos de soberania. Isto é inaceitável, porque anti-democrático.
Perante isto, como era bom que tivéssemos um outro órgão de soberania (assim que funcionasse como uma espécie de árbitro), que, no cumprimento do seu papel constitucional, pudesse dizer alguma coisa sobre o assunto. Podia chamar-se assim tipo Presidente do País ou coisa do género. E também podia servir para receber os jogadores da seleção nacional antes de participarem em eventos desportivos, tipo mundial. Deviam pensar nisto.
Há várias maneiras de interpretar a Constituição, todas com estribo jurídico. E nem a quase unanimidade, quando exista, inibe a crítica. Mal seria. Concedo facilmente que o próprio Governo considere que as normas do orçamento eram conformes à Constituição, na interpretação que dela fazem. E não faltam constitucionalistas, no Governo e fora dele, a caucionar este entendimento, embora sejam, assim em jeito de golpe de vista, claramente minoritários.
A mim, nem me choca particularmente que este seja o vigésimo quarto (atiro ao ar) chumbo do TC a uma iniciativa legislativa deste Governo. Uma das maravilhas da democracia é dar-nos instrumentos para dirimir estes conflitos, que serão, numa sociedade pluralista (e o pluralismo existe igualmente na ciência jurídica), relativamente banais.
Dito isto, para que isto funcione (e isto é a democracia, com tudo o que comporta, como a separação de poderes e o estado direito), o que não se pode fazer, pois mina as regras do jogo, é um dos órgãos de soberania (e à cabeça o Governo) pôr em causa a legitimidade e o papel dos restantes órgãos de soberania. Isto é inaceitável, porque anti-democrático.
Perante isto, como era bom que tivéssemos um outro órgão de soberania (assim que funcionasse como uma espécie de árbitro), que, no cumprimento do seu papel constitucional, pudesse dizer alguma coisa sobre o assunto. Podia chamar-se assim tipo Presidente do País ou coisa do género. E também podia servir para receber os jogadores da seleção nacional antes de participarem em eventos desportivos, tipo mundial. Deviam pensar nisto.
Imagino que seja sobretudo uma questão de não estar para aí virado quando...
... tantos que gostam do mesmo que eu dizem que um filme ou um livro é espetacular e eu acho apenas medíocre. É justamente o que se passa com a crónica de Ferreira Fernandes de hoje, também para mim o mais entusiasmante cronista da imprensa portuguesa. Dizem que é genial. Pareceu-me sobretudo confusa, embora o final seja engraçado. Dias.
2.6.14
Fartura: mais uma boa notícia para o futuro da Europa
Potential consequences of lowering voting age to 16 have been discussed in recent scientific and public debates. This article examines turnout of young voters aged 16 to 17 in Austria, the first European country that lowered the general voting age to 16. For this purpose we use unique data taken from electoral lists of two recent Austrian regional elections. The results support the idea that the so-called “first-time voting boost” is even stronger among the youngest voters as turnout was (a) higher compared to 18- to 20-year-old first-time voters and (b) not substantially lower than the average turnout rate. We conclude that our findings are encouraging for the idea of lowering voting age as a means to establish higher turnout rates in the future.
EVA ZEGLOVITS & JULIAN AICHHOLZER
University of Vienna, Austria
Journal of Elections, Public Opinion and Parties, 2014
EVA ZEGLOVITS & JULIAN AICHHOLZER
University of Vienna, Austria
Journal of Elections, Public Opinion and Parties, 2014
Bugalho: "Lentilha que se introduz na fístula para excitar a supuração" (www.priberam.pt/dlpo)
Excelente mesmo, este artigo de Krugman, ainda sobre a desigualdade e Piketty. E muito instrutivo. Duas coisas que ainda não tinha percebido. Primeira: desde o corte fiscal para os mais ricos nos anos 70 (nos EUA), a desigualdade é ainda maior depois dos impostos (triste). Segunda: em inglês, comparar alhos com bugalhos diz-se "apples-to-oranges comparison". Ganha-se em clareza (ainda hoje não sei o que sejam bugalhos) mas perde-se em estilo.
28.5.14
Aprender a participar
Os desafios que enfrentamos nos próximos tempos são
propícios ao surgimento de messias. O
que é trágico, na medida em que não há messias que salve isto. Como, aliás,
costuma acontecer quando há problemas. Vai ser preciso muita perseverança,
temperança, determinança. E a colaboração de muitos para que algo mude (era,
por isso, espetacular que qualquer nova liderança partidária não começasse por
ostracizar, precisamente, os que lhe são mais próximos). A colaboração de
muitos e, já agora, dos cidadãos.
Acho (quer dizer, achamos todos) mais do que preocupante o
nível de alheamento que estes mostram relativamente às instituições políticas.
São chamados a votar de quando em vez e, depois, participam, quando muito, na
amostra de uma sondagem. Participar noutras instâncias da vida da comunidade
também (ou sobretudo) nos educa para a complexidade dos problemas - e
respetivas escolhas - com que se defrontam os poderes políticos.
Penso que um contributo valioso que os partidos - e muitos do
que têm palco para promover a pedagogia política - podiam dar era informar,
apelar e promover a participação política dos cidadãos para além do voto.
A participação em partidos políticos, em sindicatos, em
associações de defesa do património, do consumidor ou da mariquita azul. A
escrever uma petição à Assembleia da República, a iniciar uma proposta
legislativa com um grupo de eleitores. A propor um referendo. A apresentar uma
queixa ao Provedor de Justiça, a exigir o direito à informação à Administração
Pública, a recorrer à Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos se for
o caso (custa muito menos do que se pensa). A ir a manifestações. A escrever a
um político ou a um órgão de comunicação social. Etc.
Existem muitas formas de participação na vida pública. Umas
obrigam-nos a lidar com a angústia das escolhas, outras ensinam-nos o valor da
representação, outras pedem apenas que organizemos as nossas ideias, outras
ainda exigem respostas e explicações das instituições.
Campanhas a apelar à participação entre eleições faz tanto
sentido como os apelos para os cidadãos irem às urnas a que já nos habituámos,
contribuindo positivamente para a vida democrática do país. A apelar e a
ensinar como se faz, que isto de saber participar não nasce com as pessoas, tal
como a matemática ou a língua portuguesa.
Cidadãos que participam serão também menos suscetíveis aos
populismos que por aí medram. Parecendo que não, diria que isto tem muito a ver
com a crise que vivemos.
27.5.14
Apelo moderado à radicalização dos moderados
Os ponderados tenderão a não se entregar ao pessimismo,
confiando viver numa europa de cidadãos e governantes democratas, que saberão,
com inevitável naturalidade, reencontrar o caminho da esperança e da prosperidade
(não apenas económica, claro está). Recomendarão, pois, democrática calma face aos
apelos cada vez mais audíveis para a necessidade de se fazer algo. Antes que
seja tarde. Sob pena de. Os apelantes, denunciadores
dos perigos, passarão por loucos ou, no mínimo, por incorrerem em incauto
alarmismo. Tendo para a moderação desde que me conheço. Mesmo em mais jovem
- que, segundo alguns, é o tempo dos
radicalismos - estive sempre agrilhoado à moderação. Dois dramas. O primeiro é
que um moderado dificilmente percebe quando chega o momento que exige formas
mais enérgicas de ação política (o drama chamberlainesco). Não falo
evidentemente de qualquer espécie violência. Falo de ruturas necessárias (com
consensos internos - com os grandes empresários e os meios financeiros - ou semi-externos - a começar pelo tratado orçamental da UE) para procurar outros
consensos. O segundo drama é que, assim
sendo, um moderado de pouco servirá em momentos em que o perigo passe de um alerta amarelo para vermelho, dando obrigatoriamente espaço
a quem represente e reivindique estas angústias. Só concebo a política governativa
por via da moderação, pelo que me parece urgente a radicalização dos
nossos moderados.
22.5.14
Isto é genial, penso eu de que
O último livro do Roth é de génio. O último livro do Roth
não é o último. É de 1988 mas só agora foi traduzido na língua que me dá menos
trabalho ler. É uma autobiografia. Escrita quando tinha 55 anos (mais ou
menos). O livro lê-se com agrado por mais de 2/3 das páginas. E depois acontece
o resto. Não sei se é assim tão raro dizer que algo é brilhante mas, se
porventura o faço, não é com este sentido. Isto, sim, é brilhante (como acontece a Roth ser com mais frequência do que aos restantes mortais). Apenas a
lamentar a quantidade de "de ques" que afloram com irritante regularidade,
por vezes aos pares por página. Logo à noite, até penso fazer uma daquelas
fotos com muita pinta de uma das melhores páginas do livro, com o meu polegar bem
visível ao centro. Brinco, não penso fazer nada disso.
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