9.7.14

Jornalismosaço

Ao ver as capas dos jornais e as reportagens na televisão após a derrota histórica do Brasil face à Alemanha, concluo isto: os jornalistas estão mais humilhados, destroçados, vexameados (e toda uma panóplia mais de adjetivos tonitruantes) do que a generalidade dos restantes mortais, incluindo os mortais brasileiros.

Ainda a propósito do cumprimento das promessas eleitorais, recordo que um dia inventei uma app que permite o controlo do cumprimento destas promessas

Mas lá que dava uma bela app dava.

Este pequeno vídeo é qq coisa. É verdade que tem uma pessoa desajustadamente de gravata. Mas tem pedagogia. O valor da crítica (dos pares). E um sobressalto: aquelas meninas podiam estar assim vestidas numa escola francesa?


Austin's Butterfly: Building Excellence in Student Work - Models, Critique, and Descriptive Feedback from Expeditionary Learning on Vimeo.

Políticos portugueses são dos que mais cumprem as suas promessas eleitorais,

conclui um estudo internacional, como se pode ler aqui.

Ainda no outro dia recordava isso mesmo aqui



A venerar o líder três vezes por dia

"On my block, a lot of people walk their dogs and I always see them walking along with their little poop bags. 

This, to me, is the lowest activity in human life. Following a dog with a little scooper. Waiting for him to go so you can walk down the street with it in your bag. 

If aliens are watching this through telescopes, they're going to think the dogs are the leaders of the planet. 

If you see two life forms, one of them's making a poop, the other one's carrying it for him, who would you assume is in charge?"

Seinfeld

5.7.14

Cavaco, um grão de areia no oceano


Não posso com Cavaco nem pintado às bolinhas. Mas dizer que toda a nossa desgraça começou com Cavaco é, por paradoxal que possa parecer, cair no engodo da narrativa da direita de que a crise em que estamos metidos tem origem interna.

Houve muita coisa mal feita nos governos que conduzem Portugal desde o 25 de abril? Seguramente. Eu acho que o pior veio da direita (uns governos piores do que outros). Outros acharão que veio da esquerda (uns piores do que outros).

Mas entendamo-nos. Aquilo por que estamos a passar tem origem numa crise internacional e, depois, nas respostas políticas que Bruxelas (leia-se, Berlim, em primeira instância) e, depois, Lisboa (leia-se, São Bento), continuam a defender (leia-se, a austeridade). E tudo isto veio pôr a nu e exacerbar as fragilidades que pelos vistos a moeda única tinha (para as economias mais frágeis) mas que poucos estavam dispostos a reconhecer. 

Meter Cavaco (exceto na medida da sua inépcia em desempenhar o seu papel de árbitro nesta crise, que, entretanto, se convolou também, nalguma medida, em crise política) e os seus governos nisto é ajudar a direita a atirar-nos areia para os olhos. Que, como se sabe, é fácil lá ir parar mas tramado como tudo para nos vermos livres dela. A areia.

4.7.14

Dilemas ecológicos na cidade


Apanhar o cocó do meu cão (há formas mais polidas de dizer isto mas perdem em realismo) com saco de plástico? Sim.

Mas não devia evitar usar sacos de plástico, particularmente nocivos para o ambiente? Sim.

Apanhar então o cocó do meu cão com panfleto publicitário de papel (sempre à mão), material esse altamente biodegradável? Sim.

Mas não devia evitar que os cidadãos que vasculham diariamente os caixotes da minha rua apanhem, inadvertidamente, com o cocó do meu cão, utilizando, para o efeito, um saco de plástico? Sim.

Por enquanto, apanhar o cocó do meu cão (há formas mais polidas de dizer isto mas perdem em realismo) com saco de plástico? Sim.

3.7.14

O total desinteresse dos deputados europeus portugueses pela Comissão de Petições é uma coisa que me chateia


Perguntava no outro dia se nesta legislatura a Comissão de Petições do Parlamento Europeu contaria, contrariamente ao que aconteceu nos últimos anos, com algum deputado português.

Não quero sugerir que as petições europeias têm mais importância do que realmente têm (quer dizer, na verdade estou). Mas ignorar pura e simplesmente o seu papel, quando um dos grandes desafios com que a UE se defronta é o seu afastamento em relação aos cidadãos europeus, é, no mínimo, um bocado parvo.

É que este é, para todos os efeitos, o único meio ao dispor dos cidadãos europeus (o que ainda resta desse vínculo hoje em dia) para, fora dos ciclos eleitorais, propor ou contestar diretamente uma iniciativa comunitária ou nacional (com incidência nas competências da UE), tendo direito a que seja elaborado um relatório sobre o pedido e até, nalgumas circunstâncias, ser ouvido pelos deputados europeus (com custos pagos).

Ontem foram escolhidos os seus 53 membros (suponho que suplentes e efetivos), voltando a não haver qualquer português, o que é bastante triste. Há comissões mais importantes, claro que há. E temos poucos deputados, claro que temos. Mas a verdade é que há muitos deputados de outros países que investem nesta comissão. Como se pode ver no quadro abaixo* (ou aqui):


*Portugal tem 21 deputados no PE e zero deputados na Comissão de Petições. A Grécia, com o mesmo número de deputados, tem 4 membros na Comissão de Petições.

26.6.14

A melhor música de mundial de sempre

Infografia constitucional

New York Times

Fotos em alemão da I Grande Guerra


No Spiegel online.

A política é mesmo um lugar tramado

E isso confirma-se uma vez mais, aos meus olhos, quando assisto à ironia de ver aqueles que denunciam fundadamente as canalhices dos outros a contribuírem, involuntária e injustamente, para uma certa irrespirabilidade que estas permanentes acusações também causam. Correndo o risco de se parecerem mais iguais do que ao que são. Sempre repudiei as analogias entre política e contextos domésticos. Mas todos teremos um pouco de Frei Tomás [também sempre repudiei analogias com recurso a ditados populares. Mas, afinal, todos teremos um pouco de Frei Tomás...(!)]. Analogias domésticas. Os meus filhos pequenos. À vigésima recriminação do outro, desinteresso-me de saber quem tem ou não tem razão (mesmo que seja quase sempre o mesmo) e quero é que não me cansem. Quanto mais a discussão política for feita com base nas propostas e, porque não, nos diferentes estilos de fazer política, mais evidente se tornará a melhor escolha. 

24.6.14

A urgência da urgência


Excelente artigo de José Vítor Malheiros que, de tão simples e certeiro que é, até dói. Claro que "acabar com a pobreza", "já", é um programa destinado a ser incumprido e, inevitavelmente, a criar insatisfação entre os seus apoiantes. Mas o combate à pobreza exige insatisfação e indignação, o verdadeiro motor de qualquer mudança neste sentido.

Calma, mas "acabar com a pobreza, e já", não é mera retórica utópica, desligada dos constrangimentos políticos reais? Nada disso. Basta pensar no que aconteceu com a Saúde e a Educação no Portugal democrático (não por acaso áreas tangentes à questão da pobreza). 

Claro que ainda existem pessoas a quem faltam os adequados cuidados de saúde ou que não cumpriram a escolaridade obrigatória. No entanto, foi a sua ambição universal, a ser cumprido "já" (ambição que encontra tradução jurídica na força que a Constituição lhes dá como direitos fundamentais), que permitiu o extraordinário avanço na saúde e na educação dos portugueses desde o 25 de abril.


Universalizemos, pois, também a não pobreza. Sabendo que, na saúde, na educação ou no combate à pobreza, nunca nos podemos dar por satisfeitos. Ou nunca aqui teríamos chegado (e, mesmo apesar destes últimos anos de austeridade demente, temos de admitir que já andámos muito se olharmos para trás).

16.6.14

Estamos onde estamos também porque, a certa altura, nos esquecemos de explicar de onde vem e para onde vai o dinheiro. Plágio bom

O Guardian testa os conhecimentos dos seus eleitores acerca do sistema fiscal britânico. Vale a pena fazer o teste, nem que seja para concluir o que começa a ser, cada vez menos, uma surpresa: que, em vez de corrigir, o sistema agrava as desigualdades (ver texto do jornal britânico que se reproduz abaixo). E por cá, não há edições online de jornais com vontade de plagiar a ideia?

"Nearly seven in ten people – 68% – of the 1,036 adults polled by The Equality Trust and Ipsos MORI, dramatically underestimate what the poorest pay in tax and wrongly believe the richest face the biggest tax burden.

In reality, households in the lowest 10% income group pay 43% of their income in tax, while average households and those in the highest 10% both pay just 35% – 8 percentage points less than those in the lowest 10%. Since 1986, the bottom 10% of households have paid a greater proportion of their income in tax than the middle and the top 10%.

People's inaccurate understanding of the tax system can be attributed to people's tendency to disproportionately focus on income tax, finds the report from the Equality Trust. Yet income tax constitutes only a small portion of the tax the bottom 10% pay.

The largest tax that affects households in the bottom 10% is VAT. The bottom 10% of households pay 11.6% of their total income in VAT, almost double the proportion of the average household and almost three times that paid by the top 10%.

Council tax affects the bottom 10% substantially more than the top 10%. These households pay over twice as much of their income in council tax as the average household and more than four times as much as the top 10%.

When asked about how to make the tax system fairer, on average, people said the poorest 10% should be taxed just 15% of their income, or 28% percentage points less than they currently are. They believe the richest 10% should be taxed 39%, or 4 percentage points more than now."

9.6.14

A difícil aprendizagem da democracia (um comentário idiota é um comentário idiota. mesmo que do outro lado esteja um le pen)


Matt Stenglass é o correspondente da "The Economist" na Holanda.

Mesmo não sendo camarada, tão pouco tenho vergonha...

... para além de muito do que aqui vem referido, da descriminalização do consumo de drogas, da procriação medicamente assistida ou do casamento gay; tão pouco tenho vergonha do aprofundamento dos direitos das uniões-de-facto, do fim do divórcio litigioso ou da lei da paridade; muito menos tenho vergonha da legalização de milhares de cidadãos estrangeiros (por via de uma nova lei da nacionalidade), do reforço dos direitos dos consumidores ou da limitação de mandatos. 

Nem todas as medidas são motivo de orgulho. Algumas são generosas mas terão sido mal implementadas (ainda hoje tenho dúvidas se será o caso da avaliação de professores). Outras já nem as subscreveria (como os hospitais PPP nos moldes em que foram lançados) e outras ainda sempre me contrariaram. E, claro, tantas medidas ficaram por tomar, nomeadamente ao nível da regulamentação e tributação do setor financeiro. 

Mas lacunas, omissões e erros encontraremos, inevitavelmente, em todos os governos. Na minha avaliação, poucos governos do Portugal democrático se podem orgulhar de ter concretizado uma agenda tão ambiciosa de modernização e combate às desigualdades como a que foi feita nos governos Sócrates. 

Serei, naturalmente, sempre suspeito por ter colaborado, à minha insignificante escala, com este programa (sim, num tempo que cultiva a descrença nos políticos, é bom lembrar que muitas destas medidas decorreram de compromissos eleitorais). Quanto a isso, nada posso fazer. A não ser assumir que também disso não tenho vergonha. Muito pelo contrário.