11.7.14
eu, que não primo pela qualidade das minhas metáforas - e não é por falta de esforço - acho esta comparação simplesmente abjeta (que é uma outra forma de dizer nojo)
"O engenheiro Sócrates é muito responsabilizado, e não há ninguém que o responsabilize mais do que eu, mas eu vejo-o como aquele egípcio que tomou os comandos do Boeing que se precipitou sobre as Torres Gémeas", comparou Daniel Bessa.
Daniel Bessa disse que "já o Boeing ia a caminho das Torres Gémeas e ele [José Sócrates], no cumprimento de um guião qualquer, sentou-se ao comando, acelerou quanto pôde e, connosco lá dentro, enfiou-se contra as Tores Gémeas". "É um destino, não tem nada de mal, cada um cumpre a sua função na vida e portanto ficará para a história por isso"
Público de hoje.
10.7.14
Ver o mundo a cores (ou a preto e branco)
Filho de 5 anos, ao ver passar na TV os jogadores da Holanda:
- Bhec , não gosto deste preto. Odeio preto.
Pai horrorizado (seguido de incredulidade e de breve
paralisação):
- Blá, blá, blá (preleção...).
Filho de 5 anos (não particularmente impressionado):
- Não é isso, não gosto do equipamento do guarda-redes. É
preto. E eu odeio preto.
Pai um pouco menos horrorizado (mas ainda agitado):
- Ahh, pensei que... (blá, blá, blá, nova preleção...)
Filho de 5 anos:
- Nãããão, esse é castanho. E eu gosto de castanho.
Pai hesita, optando por avançar, desanimadamente, para novo discurso, mas não sem antes entrever pelo canto do olho o divertido gozo com que filha mais velha observa o desnorte do pai.
Pai hesita, optando por avançar, desanimadamente, para novo discurso, mas não sem antes entrever pelo canto do olho o divertido gozo com que filha mais velha observa o desnorte do pai.
9.7.14
Jornalismosaço
Ao ver as capas dos jornais e as reportagens na televisão após a derrota histórica do Brasil face à Alemanha, concluo isto: os jornalistas estão mais humilhados, destroçados, vexameados (e toda uma panóplia mais de adjetivos tonitruantes) do que a generalidade dos restantes mortais, incluindo os mortais brasileiros.
Este pequeno vídeo é qq coisa. É verdade que tem uma pessoa desajustadamente de gravata. Mas tem pedagogia. O valor da crítica (dos pares). E um sobressalto: aquelas meninas podiam estar assim vestidas numa escola francesa?
Políticos portugueses são dos que mais cumprem as suas promessas eleitorais,
A venerar o líder três vezes por dia
"On my block, a
lot of people walk their dogs and I always see them walking along with their
little poop bags.
This, to me, is the lowest activity in human life.
Following a dog with a little scooper. Waiting for him to go so you can walk
down the street with it in your bag.
If aliens are watching this through
telescopes, they're going to think the dogs are the leaders of the planet.
If
you see two life forms, one of them's making a poop, the other one's carrying
it for him, who would you assume is in charge?"
Seinfeld
5.7.14
Cavaco, um grão de areia no oceano
Não posso com Cavaco nem pintado às bolinhas. Mas dizer que toda a nossa desgraça começou com Cavaco é, por paradoxal que possa parecer, cair no engodo da narrativa da direita de que a crise em que estamos metidos tem origem interna.
Houve muita coisa mal feita nos governos que conduzem
Portugal desde o 25 de abril? Seguramente. Eu acho que o pior veio da direita
(uns governos piores do que outros). Outros acharão que veio da esquerda (uns piores
do que outros).
Mas entendamo-nos. Aquilo por que estamos a passar tem origem numa crise internacional e, depois, nas respostas políticas que Bruxelas
(leia-se, Berlim, em primeira instância) e, depois, Lisboa (leia-se, São
Bento), continuam a defender (leia-se, a austeridade). E tudo isto veio pôr a nu e exacerbar as fragilidades que pelos vistos a moeda única tinha (para as economias mais frágeis) mas que poucos estavam dispostos a reconhecer.
Meter Cavaco (exceto na medida da sua inépcia em desempenhar o
seu papel de árbitro nesta crise, que, entretanto, se convolou também, nalguma
medida, em crise política) e os seus governos nisto é ajudar a direita a atirar-nos
areia para os olhos. Que, como se sabe, é fácil lá ir parar mas tramado como tudo para nos
vermos livres dela. A areia.
4.7.14
Dilemas ecológicos na cidade
Apanhar o cocó do meu cão (há formas mais polidas de dizer
isto mas perdem em realismo) com saco de plástico? Sim.
Mas não devia evitar usar sacos de plástico, particularmente
nocivos para o ambiente? Sim.
Apanhar então o cocó do meu cão com panfleto publicitário de
papel (sempre à mão), material esse altamente biodegradável? Sim.
Mas não devia evitar que os cidadãos que vasculham diariamente
os caixotes da minha rua apanhem, inadvertidamente, com o cocó do meu cão, utilizando, para o
efeito, um saco de plástico? Sim.
Por enquanto, apanhar o cocó do meu cão (há formas mais polidas de dizer isto mas perdem em realismo) com saco de plástico? Sim.
3.7.14
O total desinteresse dos deputados europeus portugueses pela Comissão de Petições é uma coisa que me chateia
Perguntava no outro dia se nesta legislatura a Comissão de Petições do Parlamento Europeu contaria, contrariamente ao que aconteceu nos últimos anos, com algum deputado português.
Não quero sugerir que as petições europeias têm mais
importância do que realmente têm (quer dizer, na verdade estou). Mas ignorar pura
e simplesmente o seu papel, quando um dos grandes desafios com que a UE se
defronta é o seu afastamento em relação aos cidadãos europeus, é, no mínimo, um bocado parvo.
É que este é, para todos os efeitos, o único meio ao dispor dos
cidadãos europeus (o que ainda resta desse vínculo hoje em dia) para, fora dos
ciclos eleitorais, propor ou contestar diretamente uma iniciativa comunitária
ou nacional (com incidência nas competências da UE), tendo direito a que seja
elaborado um relatório sobre o pedido e até, nalgumas circunstâncias, ser
ouvido pelos deputados europeus (com custos pagos).
Ontem foram escolhidos os seus 53 membros (suponho que
suplentes e efetivos), voltando a não haver qualquer português, o que é
bastante triste. Há comissões mais importantes, claro que há. E temos poucos
deputados, claro que temos. Mas a verdade é que há muitos deputados de outros países
que investem nesta comissão. Como se pode ver no quadro abaixo* (ou aqui):
*Portugal tem 21 deputados no PE e zero deputados na Comissão de Petições. A Grécia, com o mesmo número de deputados, tem 4 membros na Comissão de Petições.
28.6.14
Por detrás da aparentemente anódina conversa dos spreads, dos juros da dívida, da credibilidade dos mercados, estes senhores têm uma pré-compreensão do mundo que não é nada anódina. Sobre a desigualdade
"Em segundo lugar, deverá a desigualdade, em si mesma, ser objecto da política económica? Será o diferencial de rendimento entre mim e o vizinho mais abastado do bairro (e o eventual ressentimento pessoal que a situação possa provocar) uma questão de interesse público? Não vejo como! O único aspecto relevante nesta matéria resume-se a saber se a desigualdade resulta de um processo de acumulação de riqueza legítimo ou ilegítimo (mesmo que legal). Haverá muito das duas qualidades."
José M. Brandão de Brito, Chief economist do millenniumbcp
José M. Brandão de Brito, Chief economist do millenniumbcp
27.6.14
26.6.14
A política é mesmo um lugar tramado
E isso confirma-se uma vez mais, aos meus olhos, quando assisto à ironia
de ver aqueles que denunciam fundadamente as canalhices dos outros a contribuírem,
involuntária e injustamente, para uma certa irrespirabilidade que estas permanentes
acusações também causam. Correndo o risco de se parecerem mais iguais do que ao
que são. Sempre repudiei as analogias entre política e contextos domésticos.
Mas todos teremos um pouco de Frei Tomás [também sempre repudiei analogias com recurso
a ditados populares. Mas, afinal, todos teremos um pouco de Frei Tomás...(!)]. Analogias
domésticas. Os meus filhos pequenos. À vigésima recriminação do outro,
desinteresso-me de saber quem tem ou não tem razão (mesmo que seja quase sempre o mesmo)
e quero é que não me cansem. Quanto mais a discussão política for feita com base nas
propostas e, porque não, nos diferentes estilos de fazer política, mais
evidente se tornará a melhor escolha.
25.6.14
Captain Blackadder, Private Baldrick, Lieutenant George e Captain Darling existiram mesmo e lutaram na I Grande Guerra / O ministro da Educação britânico só pode ser tolo
Blackadder and company really did fight in World War One, records show
"No início do ano, o ministro da Educação, Michael Gove, criticou a série por disseminar mitos sobre a I Guerra Mundial".
24.6.14
A urgência da urgência
Excelente artigo de José Vítor Malheiros que, de tão simples e certeiro que é, até dói. Claro que "acabar com a pobreza", "já", é um programa destinado a ser incumprido e, inevitavelmente, a criar insatisfação entre os seus apoiantes. Mas o combate à pobreza exige insatisfação e indignação, o verdadeiro motor de qualquer mudança neste sentido.
Calma, mas "acabar com a pobreza, e já", não é mera
retórica utópica, desligada dos constrangimentos políticos reais? Nada disso. Basta
pensar no que aconteceu com a Saúde e a Educação no Portugal democrático (não
por acaso áreas tangentes à questão da pobreza).
Claro que ainda existem
pessoas a quem faltam os adequados cuidados de saúde ou que não cumpriram a
escolaridade obrigatória. No entanto, foi a sua ambição universal, a ser
cumprido "já" (ambição que encontra tradução jurídica na força que a Constituição
lhes dá como direitos fundamentais), que permitiu o extraordinário avanço na
saúde e na educação dos portugueses desde o 25 de abril.
Universalizemos, pois, também a não pobreza. Sabendo que, na
saúde, na educação ou no combate à pobreza, nunca nos podemos dar por
satisfeitos. Ou nunca aqui teríamos chegado (e, mesmo apesar destes últimos
anos de austeridade demente, temos de admitir que já andámos muito se olharmos
para trás).
16.6.14
Estamos onde estamos também porque, a certa altura, nos esquecemos de explicar de onde vem e para onde vai o dinheiro. Plágio bom
O Guardian testa os conhecimentos dos seus eleitores acerca do sistema fiscal britânico. Vale a pena fazer o teste, nem que seja para concluir o que começa a ser, cada vez menos, uma surpresa: que, em vez de corrigir, o sistema agrava as desigualdades (ver texto do jornal britânico que se reproduz abaixo). E por cá, não há edições online de jornais com vontade de plagiar a ideia?
"Nearly seven in ten people – 68% – of the 1,036 adults polled by The Equality Trust and Ipsos MORI, dramatically underestimate what the poorest pay in tax and wrongly believe the richest face the biggest tax burden.
In reality, households in the lowest 10% income group pay 43% of their income in tax, while average households and those in the highest 10% both pay just 35% – 8 percentage points less than those in the lowest 10%. Since 1986, the bottom 10% of households have paid a greater proportion of their income in tax than the middle and the top 10%.
People's inaccurate understanding of the tax system can be attributed to people's tendency to disproportionately focus on income tax, finds the report from the Equality Trust. Yet income tax constitutes only a small portion of the tax the bottom 10% pay.
The largest tax that affects households in the bottom 10% is VAT. The bottom 10% of households pay 11.6% of their total income in VAT, almost double the proportion of the average household and almost three times that paid by the top 10%.
Council tax affects the bottom 10% substantially more than the top 10%. These households pay over twice as much of their income in council tax as the average household and more than four times as much as the top 10%.
When asked about how to make the tax system fairer, on average, people said the poorest 10% should be taxed just 15% of their income, or 28% percentage points less than they currently are. They believe the richest 10% should be taxed 39%, or 4 percentage points more than now."
"Nearly seven in ten people – 68% – of the 1,036 adults polled by The Equality Trust and Ipsos MORI, dramatically underestimate what the poorest pay in tax and wrongly believe the richest face the biggest tax burden.
In reality, households in the lowest 10% income group pay 43% of their income in tax, while average households and those in the highest 10% both pay just 35% – 8 percentage points less than those in the lowest 10%. Since 1986, the bottom 10% of households have paid a greater proportion of their income in tax than the middle and the top 10%.
People's inaccurate understanding of the tax system can be attributed to people's tendency to disproportionately focus on income tax, finds the report from the Equality Trust. Yet income tax constitutes only a small portion of the tax the bottom 10% pay.
The largest tax that affects households in the bottom 10% is VAT. The bottom 10% of households pay 11.6% of their total income in VAT, almost double the proportion of the average household and almost three times that paid by the top 10%.
Council tax affects the bottom 10% substantially more than the top 10%. These households pay over twice as much of their income in council tax as the average household and more than four times as much as the top 10%.
When asked about how to make the tax system fairer, on average, people said the poorest 10% should be taxed just 15% of their income, or 28% percentage points less than they currently are. They believe the richest 10% should be taxed 39%, or 4 percentage points more than now."
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