
6.11.14
Vozinhas
Ver este vídeo de Pires de Lima no Parlamento é deveras constrangedor, o que acaba por ter graça. E por isso digno de partilha, pois é giro rirmo-nos dos outros (e de nós próprios, claro), sobretudo quando é inofensivo. Mas é só isso. Não há quaisquer ilações políticas a tirar.
Já o jornalismo chamar a este exercício uma ironia (cfr. site da sic e num outro que agora me escapa) é que me escandaliza. Ironia vem no dicionário e não é isto. Mesmo dito com aquela vozinha.
Em matéria de vozinhas, voz ao Porta dos Fundos
5.11.14
Sob o véu da independência, este discurso é profundamente anti-democrático, por recusar o que está no centro da democracia: que o poder resulta de escolhas, legitimadas pela maioria dos cidadãos. Governos de filósofos (mesmo que pós-graduados em contabilidade), únicos detentores da razão, ofendem a democracia. E por se insinuar como o contrário, é preciso denunciá-lo (eu sei, há senhores que ocupam certos órgãos de soberania que também se acham detentores da verdade; esses não ofendem menos)
"Se aparecer um projeto independente, com pessoas credíveis do ponto de vista técnico, e com vontade de governar olhando ao interesse do país e não olhando a ideologias e se me disserem 'precisamos de ti', no futuro poderei pensar duas vezes e dizer 'sim, senhor'. Mas nunca nesta conjuntura político-partidária e nunca em algum dos partidos atuais".
Sem papas na língua, José Gomes Ferreira admite, em entrevista ao jornal "i" desta quarta-feira, poder vir a participar num projeto político independente, mesmo garantindo estar sobretudo interessado em continuar a ser jornalista e escrever livros.
(...)
(...)
Mais em José Gomes Ferreira admite entrar na vida política
Enquanto não temos um "Podemos" temos um "Precisamos" (de ti, josé gomes ferreira)
"Se aparecer um projeto independente, com pessoas credíveis do ponto de vista técnico, e com vontade de governar olhando ao interesse do país e não olhando a ideologias e se me disserem 'precisamos de ti', no futuro poderei pensar duas vezes e dizer 'sim, senhor'. Mas nunca nesta conjuntura político-partidária e nunca em algum dos partidos atuais".
Sem papas na língua, José Gomes Ferreira admite, em entrevista ao jornal "i" desta quarta-feira, poder vir a participar num projeto político independente, mesmo garantindo estar sobretudo interessado em continuar a ser jornalista e escrever livros.
(...)
(...)
Mais em José Gomes Ferreira admite entrar na vida política
O que dava para que fosse em frente, ganhasse eleições, governasse quatro anos, convivesse com a democracia e com o escrutínio público. E depois, pudéssemos fazer rewind.
"Se aparecer um projeto independente, com pessoas credíveis do ponto de vista técnico, e com vontade de governar olhando ao interesse do país e não olhando a ideologias e se me disserem 'precisamos de ti', no futuro poderei pensar duas vezes e dizer 'sim, senhor'. Mas nunca nesta conjuntura político-partidária e nunca em algum dos partidos atuais".
Sem papas na língua, José Gomes Ferreira admite, em entrevista ao jornal "i" desta quarta-feira, poder vir a participar num projeto político independente, mesmo garantindo estar sobretudo interessado em continuar a ser jornalista e escrever livros.
(...)
(...)
Mais em José Gomes Ferreira admite entrar na vida política
3.11.14
A pensar nas gerações futuras
Ao confirmar o brilho nos olhos com que as crianças ouvem e
replicam um palavrão (não importa verdadeiramente qual), alimentando-lhes a
imaginação e a vontade de participar, imagino um sistema de ensino que
apostasse na transmissão de conhecimentos (na matemática, na língua portuguesa,
etc) através do uso abundante de palavrões. E antecipo as vantagens, aliás
evidentes: 1) despertar um interesse inaudito por estas matérias; 2) possivelmente,
desmistificar o recurso às palavras proibidas, consabidamente as mais
apetecidas, esvaziando grande parte do seu interesse (a médio prazo, este
efeito teria um impacto negativo sobre o primeiro, altura em que teria de se
repensar o presente modelo); 3) evitar o embaraço académico por decisões motivadas,
na melhor das hipóteses, pelo pudor causado por um palavrão.
Escrutinar o escrutinador
Esta (esta) crónica do Pedro Adão e Silva, no último Expresso, sobre o escrutínio aos media, merecia uma sequela (várias, aliás). Fica ainda demasiado por dizer.
A palavra chave daqui é "bloqueio". Mas qual bloqueio?
"Tem-se falado muito na necessidade de revisão do sistema eleitoral. Não é um bloqueio?
O que é que funciona mal no nosso sistema eleitoral? Ele permite a representação de todos os partidos políticos, mesmo os mais pequenos; não bloqueia a entrada no Parlamento de novos partidos, faz uma representação de todas as correntes, tem permitido a alternância democrática, tem permitido a formação de governos maioritários. O que é funciona mal?"
O que é que funciona mal no nosso sistema eleitoral? Ele permite a representação de todos os partidos políticos, mesmo os mais pequenos; não bloqueia a entrada no Parlamento de novos partidos, faz uma representação de todas as correntes, tem permitido a alternância democrática, tem permitido a formação de governos maioritários. O que é funciona mal?"
Entrevista a Jorge Reis Novais, no Público de hoje
La chute
Fui informado de viva voz,
sem apelo nem agravo. Estou proibido de escolher filmes para ver em casa nos
próximos tempos (presumo que só vigore nos tempos mais próximos...).
Isto magoa uma pessoa. Não
porque tenha a pretensão de ter olho para bons filmes. Não tenho. Mas porque em
tempos fui considerado (por mim próprio, é certo, mas ainda assim) um
especialista na área dos "grandes filmes de merda", normalmente
comédias, que vão desde o divertido Shangai
Noon (dobrado em francês, de preferência), do grande jackie chang, até outros
filmes (mas não todos) do grande jackie chang, passando pelos filmes mais
antigos do dennis quaid (como o micro-herói) ou algumas comédias do nick nolte
(aquele dos fugitivos, não por acaso também com o martin short).
A causa mais próxima desta
pesada sentença foram dois filmes: um com o Mark Ruffalo e a Keira knightley e
outro com o zach braff. Ambos inclementes xaropadas. Mas houve outros.
Com o orgulho ferido,
parece que só vou ver filmes decentes nos próximos tempos. Não me conformo.
31.10.14
Dia das bruxas verdadeiramente assustador
Máscaras de
isildas pegados, césares das neves e josés antónios saraivas por toda a parte.
"Fuck Chicago" ou um filme sobre o que realmente importa
Acontece-me com frequência. Filmes, ou livros, relativamente aos quais
a leitura que deles faço resulta clara e pouco ambígua.
Há bons filmes nesta categoria. E muitos maus. Depois há outros, que fazem
lembrar aquelas caricaturas que vistas de uma forma são uma coisa mas de pernas
para o ar outra completamente diferente. É o caso de Locke, filme recomendado
com entusiasmo por amigos, armadilha sempre perigosa por elevar as expetativas
e, assim, a possível desilusão. Mas não foi o caso. Uma das leituras que fiz do
filme:
Locke é um filme banal. Quer dizer, não é nada banal, é até
muito bom, mas debruça-se sobre a banalidade da vida. Não que a vida seja banal
no sentido de desinteressante. Antes pelo contrário. Porque uma vida banal é
feita de imbanalidades. Como de erros banais, como uma infidelidade (confirmo-o
nos livros, nos filmes, nas telenovelas). "Foi apenas desta vez", confessa
Locke - o personagem principal - à mulher.
Locke, que dito em voz alta remete-nos para a ideia de
prisão, de ficarmos presos aos nossos erros, às nossas ações, circunstância do
homem moral. E que há uma forma moral de enfrentar os erros. É o que Locke
pretende fazer, ao estar presente no nascimento do filho fruto daquela
infidelidade. Para que não faça como o seu pai, que, em circunstâncias
semelhantes, apenas se deu a conhecer quando Locke tinha 22 anos. Porque não se
estará também sempre a tempo de corrigir os erros. "Mais valia que nunca
tivesses aparecido", diz, a certa altura, Locke em voz alta, imaginando o
pai sentado no banco detrás do carro, onde, aliás, toda a ação decorre (no
carro, não especificamente no banco de trás; não é desses filmes). Presos aos
nossos erros mas também aos dos nossos pais, que, de alguma forma, carregamos
connosco.
Qualquer desvio à moral é tramado e pode ter consequências
potencialmente devastadoras. Por mais pequeno que seja. Ou melhor, Locke sabe
que não há desvios pequenos. Como lhe devolve a certa altura a mulher, a
diferença entre não fazer (nunca) e fazer uma só vez é toda a diferença do
mundo. Veja-se como Locke insiste, quase patologicamente, em cumprir o limite
de velocidade na estrada, apesar de o seu mundo estar a desabar e estar
atrasado para o nascimento do filho. No entanto, esta intransigência moral coexiste
com uma enorme humanidade, aquela que permite um olhar compreensivo sobre os
erros dos outros, desde que, no final de contas, o lastro deixado seja
positivo. Uma espécie de tolerância devida aos bons.
O filme passa-se todo no carro, numa viagem de quase uma
hora e meia (a mesma duração do filme), em que ficamos a conhecer, através dos
telefonemas, da linguagem corporal de Locke e dos seus monologos, o drama em
que este se encontra. Isto suscita uma reação curiosa por parte de quem fala do
filme, apressando-se a explicar o feito, aparentemente surpreendente, de podermos
ficar presos a um filme em tão monótono cenário. Mas, na verdade, isso tem
pouco de extraordinário. O turbilhão que é a vida (isso: a morte, o amor, a
família, as escolhas que fazemos, tudo o resto) acontece por regra nos mais entediantes
cenários ou, pelo menos, os do nosso quotidiano, como uma banal viagem de carro.
Não esperam, por norma, por uma visita a Paris ou Buenos Aires.
É, enfim, um filme sobre as coisas que importam na vida, cuja síntese pode ser encontrada na resposta que Locke dá ao ex-patrão: "fuck Chicago".
30.10.14
Divertimento e horror
Noto com divertimento que alguns dos que me acusam de não ser recetivo à música que se faz hoje (ou nas últimas décadas) e de só ouvir música antiga, são os mesmos que se gabam de só ler autores clássicos, cultivando serena impermeabilidade às influências dos vivos.
Também noto com horror a facilidade com que consigo notar com divertimento algo apenas poucos segundos depois de falar do Holocausto.
8.10.14
Voto que é útil
"A única forma de um novo sujeito político à esquerda não ser prejudicado pelo voto útil é mostrando que está genuinamente disponível para governar – sob condição, claro – e que por isso o voto em si nunca será desperdiçado."
Pedro Nuno Santos, no I
Pedro Nuno Santos, no I
3.10.14
Dioptrias ideológicas
A Economist é uma revista assumidamente alinhada com a direita neoliberal. O que não impede que seja também uma boa revista. O que não impede, por sua vez, que, por vezes, sacrifique esta última em nome da primeira. Como neste texto surreal. De cegueira ideológica.
France
The last Valls
Manuel Valls heads the most reformist government France has seen for many years. But might the beneficiaries be Nicolas Sarkozy and Marine Le Pen?

30.9.14
Plano Nacional de Leitura
Ainda a propósito, estou convencido que esta obra devia constar de qualquer plano de estímulo à leitura (vá, dos adolescentes).
24.9.14
23.9.14
Não percebi quase nada do artigo mas parece altamente promissor (salvar o planeta. E de borla).
Errors and Emissions
Could Fighting Global Warming Be Cheap and Free?
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This just in: Saving the planet would be cheap; it might even be free. But will anyone believe the good news?
I’ve just been reading two new reports on the economics of fighting climate change: a big study by a blue-ribbon international group, the New Climate Economy Project, and a working paper from the International Monetary Fund. Both claim that strong measures to limit carbon emissions would have hardly any negative effect on economic growth, and might actually lead to faster growth. This may sound too good to be true, but it isn’t. These are serious, careful analyses.
But you know that such assessments will be met with claims that it’s impossible to break the link between economic growth and ever-rising emissions of greenhouse gases, a position I think of as “climate despair.” The most dangerous proponents of climate despair are on the anti-environmentalist right. But they receive aid and comfort from other groups, including some on the left, who have their own reasons for getting it wrong.
Where is the new optimism about climate change and growth coming from? It has long been clear that a well-thought-out strategy of emissions control, in particular one that puts a price on carbon via either an emissions tax or a cap-and-trade scheme, would cost much less than the usual suspects want you to think. But the economics of climate protection look even better now than they did a few years ago.
On one side, there has been dramatic progress in renewable energy technology, with the costs of solar power, in particular, plunging, down by half just since 2010. Renewables have their limitations — basically, the sun doesn’t always shine, and the wind doesn’t always blow — but if you think that an economy getting a lot of its power from wind farms and solar panels is a hippie fantasy, you’re the one out of touch with reality.
On the other side, it turns out that putting a price on carbon would have large “co-benefits” — positive effects over and above the reduction in climate risks — and that these benefits would come fairly quickly. The most important of these co-benefits, according to the I.M.F. paper, would involve public health: burning coal causes many respiratory ailments, which drive up medical costs and reduce productivity.
And thanks to these co-benefits, the paper argues, one argument often made against carbon pricing — that it’s not worth doing unless we can get a global agreement — is wrong. Even without an international agreement, there are ample reasons to take action against the climate threat.
But back to the main point: It’s easier to slash emissions than seemed possible even a few years ago, and reduced emissions would produce large benefits in the short-to-medium run. So saving the planet would be cheap and maybe even come free.
Enter the prophets of climate despair, who wave away all this analysis and declare that the only way to limit carbon emissions is to bring an end to economic growth.
You mostly hear this from people on the right, who normally say that free-market economies are endlessly flexible and creative. But when you propose putting a price on carbon, suddenly they insist that industry will be completely incapable of adapting to changed incentives. Why, it’s almost as if they’re looking for excuses to avoid confronting climate change, and, in particular, to avoid anything that hurts fossil-fuel interests, no matter how beneficial to everyone else.
But climate despair produces some odd bedfellows: Koch-fueled insistence that emission limits would kill economic growth is echoed by some who see this as an argument not against climate action, but against growth. You can find this attitude in the mostly European “degrowth” movement, or in American groups like the Post Carbon Institute; I’ve encountered claims that saving the planet requires an end to growth at left-leaning meetings on “rethinking economics.” To be fair, anti-growth environmentalism is a marginal position even on the left, but it’s widespread enough to call out nonetheless.
And you sometimes see hard scientists making arguments along the same lines, largely (I think) because they don’t understand what economic growth means. They think of it as a crude, physical thing, a matter simply of producing more stuff, and don’t take into account the many choices — about what to consume, about which technologies to use — that go into producing a dollar’s worth of G.D.P.
So here’s what you need to know: Climate despair is all wrong. The idea that economic growth and climate action are incompatible may sound hardheaded and realistic, but it’s actually a fuzzy-minded misconception. If we ever get past the special interests and ideology that have blocked action to save the planet, we’ll find that it’s cheaper and easier than almost anyone imagines.
19.9.14
11.7.14
Andando a ver filmes
Ontem "fui" ver este filme ("Tal pai, tal filho"), há meses à espera de uma oportunidade. É tudo o que o Porfírio Silva escreveu sobre ele, que descaradamente reproduzo aqui em baixo (não vos vá faltar forças para carregar no link). Só não escreveria talvez a parte em que me diria conhecedor dos atuais problemas da sociedade japonesa. Até podia dizer, mas estaria a mentir. Ao contrário do Porfírio. Mas estou a entaramelar. Queria ainda acrescentar duas coisas. Não sei se foi intencional mas a escolha da primeira variação das Variações de Goldberg, triste e contemplativa mas um prenúncio de exultação, deixa entrever um futuro otimista para aquelas famílias e, conhecendo como conheço os atuais debates na sociedade japonesa, do futuro das famílias japonesas. A outra coisa é o que este filme me fez lembrar aquele outro, do mesmo realizador japonês (já com uns anos), Andando, também sobre a família - oriental, ocidental, e tal. E que tem este cartaz maravilhoso.
"Fomos ver "Tal pai, tal filho", do realizador japonês Hirokazu Koreeda. O filme é apresentado como o desenvolvimento dramático de uma troca de bebés à nascença, só esclarecida por volta dos seis anos de idade das crianças envolvidas. Toda a dialéctica entre natureza e cultura está envolvida nas duras opções entre sangue e amor que esta situação coloca em jogo. Já por esse lado o filme valeria a pena, sendo que tudo é tratado com fina sensibilidade, sempre rodeada pelos perigos da delicadeza japonesa (espécime que pode tornar-se cortante facilmente).
"Fomos ver "Tal pai, tal filho", do realizador japonês Hirokazu Koreeda. O filme é apresentado como o desenvolvimento dramático de uma troca de bebés à nascença, só esclarecida por volta dos seis anos de idade das crianças envolvidas. Toda a dialéctica entre natureza e cultura está envolvida nas duras opções entre sangue e amor que esta situação coloca em jogo. Já por esse lado o filme valeria a pena, sendo que tudo é tratado com fina sensibilidade, sempre rodeada pelos perigos da delicadeza japonesa (espécime que pode tornar-se cortante facilmente).
Contudo, conhecendo um pouco dos actuais debates e dilemas da sociedade japonesa, nota-se que o verdadeiro tema do filme é outro: o desequilíbrio das relações familiares, com os homens a tornarem-se estranhos às suas famílias, especialmente aos seus filhos, em nome da carreira e do sucesso. Apesar de uma certa "preocupação burocrática" não desarmar, dando a ideia de que os pais continuam a ser (bons) pais mesmo assim. O filme é, para o Japão do momento, um verdadeiro filme de intervenção: um grito pela humanidade da família, "pais, precisam-se". Desse ponto de vista, o episódio narrado não é uma curiosidade, é antes uma questão para todos. Também por cá.
O único enviesamento grave do filme é fazer de conta que esta dificuldade só conta para os homens, quando ela é cada vez mais um factor decisivo no estatuto social da mulher e nas relações entre homens e mulheres no país do sol nascente.
Um filme a ver. Com olhos de ver, não com olhos de crítico apressado."
Porfírio Silva, aqui.
eu, que não primo pela qualidade das minhas metáforas - e não é por falta de esforço - acho esta comparação simplesmente abjeta (que é uma outra forma de dizer nojo)
"O engenheiro Sócrates é muito responsabilizado, e não há ninguém que o responsabilize mais do que eu, mas eu vejo-o como aquele egípcio que tomou os comandos do Boeing que se precipitou sobre as Torres Gémeas", comparou Daniel Bessa.
Daniel Bessa disse que "já o Boeing ia a caminho das Torres Gémeas e ele [José Sócrates], no cumprimento de um guião qualquer, sentou-se ao comando, acelerou quanto pôde e, connosco lá dentro, enfiou-se contra as Tores Gémeas". "É um destino, não tem nada de mal, cada um cumpre a sua função na vida e portanto ficará para a história por isso"
Público de hoje.
10.7.14
Ver o mundo a cores (ou a preto e branco)
Filho de 5 anos, ao ver passar na TV os jogadores da Holanda:
- Bhec , não gosto deste preto. Odeio preto.
Pai horrorizado (seguido de incredulidade e de breve
paralisação):
- Blá, blá, blá (preleção...).
Filho de 5 anos (não particularmente impressionado):
- Não é isso, não gosto do equipamento do guarda-redes. É
preto. E eu odeio preto.
Pai um pouco menos horrorizado (mas ainda agitado):
- Ahh, pensei que... (blá, blá, blá, nova preleção...)
Filho de 5 anos:
- Nãããão, esse é castanho. E eu gosto de castanho.
Pai hesita, optando por avançar, desanimadamente, para novo discurso, mas não sem antes entrever pelo canto do olho o divertido gozo com que filha mais velha observa o desnorte do pai.
Pai hesita, optando por avançar, desanimadamente, para novo discurso, mas não sem antes entrever pelo canto do olho o divertido gozo com que filha mais velha observa o desnorte do pai.
9.7.14
Jornalismosaço
Ao ver as capas dos jornais e as reportagens na televisão após a derrota histórica do Brasil face à Alemanha, concluo isto: os jornalistas estão mais humilhados, destroçados, vexameados (e toda uma panóplia mais de adjetivos tonitruantes) do que a generalidade dos restantes mortais, incluindo os mortais brasileiros.
Este pequeno vídeo é qq coisa. É verdade que tem uma pessoa desajustadamente de gravata. Mas tem pedagogia. O valor da crítica (dos pares). E um sobressalto: aquelas meninas podiam estar assim vestidas numa escola francesa?
Políticos portugueses são dos que mais cumprem as suas promessas eleitorais,
A venerar o líder três vezes por dia
"On my block, a
lot of people walk their dogs and I always see them walking along with their
little poop bags.
This, to me, is the lowest activity in human life.
Following a dog with a little scooper. Waiting for him to go so you can walk
down the street with it in your bag.
If aliens are watching this through
telescopes, they're going to think the dogs are the leaders of the planet.
If
you see two life forms, one of them's making a poop, the other one's carrying
it for him, who would you assume is in charge?"
Seinfeld
5.7.14
Cavaco, um grão de areia no oceano
Não posso com Cavaco nem pintado às bolinhas. Mas dizer que toda a nossa desgraça começou com Cavaco é, por paradoxal que possa parecer, cair no engodo da narrativa da direita de que a crise em que estamos metidos tem origem interna.
Houve muita coisa mal feita nos governos que conduzem
Portugal desde o 25 de abril? Seguramente. Eu acho que o pior veio da direita
(uns governos piores do que outros). Outros acharão que veio da esquerda (uns piores
do que outros).
Mas entendamo-nos. Aquilo por que estamos a passar tem origem numa crise internacional e, depois, nas respostas políticas que Bruxelas
(leia-se, Berlim, em primeira instância) e, depois, Lisboa (leia-se, São
Bento), continuam a defender (leia-se, a austeridade). E tudo isto veio pôr a nu e exacerbar as fragilidades que pelos vistos a moeda única tinha (para as economias mais frágeis) mas que poucos estavam dispostos a reconhecer.
Meter Cavaco (exceto na medida da sua inépcia em desempenhar o
seu papel de árbitro nesta crise, que, entretanto, se convolou também, nalguma
medida, em crise política) e os seus governos nisto é ajudar a direita a atirar-nos
areia para os olhos. Que, como se sabe, é fácil lá ir parar mas tramado como tudo para nos
vermos livres dela. A areia.
4.7.14
Dilemas ecológicos na cidade
Apanhar o cocó do meu cão (há formas mais polidas de dizer
isto mas perdem em realismo) com saco de plástico? Sim.
Mas não devia evitar usar sacos de plástico, particularmente
nocivos para o ambiente? Sim.
Apanhar então o cocó do meu cão com panfleto publicitário de
papel (sempre à mão), material esse altamente biodegradável? Sim.
Mas não devia evitar que os cidadãos que vasculham diariamente
os caixotes da minha rua apanhem, inadvertidamente, com o cocó do meu cão, utilizando, para o
efeito, um saco de plástico? Sim.
Por enquanto, apanhar o cocó do meu cão (há formas mais polidas de dizer isto mas perdem em realismo) com saco de plástico? Sim.
3.7.14
O total desinteresse dos deputados europeus portugueses pela Comissão de Petições é uma coisa que me chateia
Perguntava no outro dia se nesta legislatura a Comissão de Petições do Parlamento Europeu contaria, contrariamente ao que aconteceu nos últimos anos, com algum deputado português.
Não quero sugerir que as petições europeias têm mais
importância do que realmente têm (quer dizer, na verdade estou). Mas ignorar pura
e simplesmente o seu papel, quando um dos grandes desafios com que a UE se
defronta é o seu afastamento em relação aos cidadãos europeus, é, no mínimo, um bocado parvo.
É que este é, para todos os efeitos, o único meio ao dispor dos
cidadãos europeus (o que ainda resta desse vínculo hoje em dia) para, fora dos
ciclos eleitorais, propor ou contestar diretamente uma iniciativa comunitária
ou nacional (com incidência nas competências da UE), tendo direito a que seja
elaborado um relatório sobre o pedido e até, nalgumas circunstâncias, ser
ouvido pelos deputados europeus (com custos pagos).
Ontem foram escolhidos os seus 53 membros (suponho que
suplentes e efetivos), voltando a não haver qualquer português, o que é
bastante triste. Há comissões mais importantes, claro que há. E temos poucos
deputados, claro que temos. Mas a verdade é que há muitos deputados de outros países
que investem nesta comissão. Como se pode ver no quadro abaixo* (ou aqui):
*Portugal tem 21 deputados no PE e zero deputados na Comissão de Petições. A Grécia, com o mesmo número de deputados, tem 4 membros na Comissão de Petições.
28.6.14
Por detrás da aparentemente anódina conversa dos spreads, dos juros da dívida, da credibilidade dos mercados, estes senhores têm uma pré-compreensão do mundo que não é nada anódina. Sobre a desigualdade
"Em segundo lugar, deverá a desigualdade, em si mesma, ser objecto da política económica? Será o diferencial de rendimento entre mim e o vizinho mais abastado do bairro (e o eventual ressentimento pessoal que a situação possa provocar) uma questão de interesse público? Não vejo como! O único aspecto relevante nesta matéria resume-se a saber se a desigualdade resulta de um processo de acumulação de riqueza legítimo ou ilegítimo (mesmo que legal). Haverá muito das duas qualidades."
José M. Brandão de Brito, Chief economist do millenniumbcp
José M. Brandão de Brito, Chief economist do millenniumbcp
27.6.14
26.6.14
A política é mesmo um lugar tramado
E isso confirma-se uma vez mais, aos meus olhos, quando assisto à ironia
de ver aqueles que denunciam fundadamente as canalhices dos outros a contribuírem,
involuntária e injustamente, para uma certa irrespirabilidade que estas permanentes
acusações também causam. Correndo o risco de se parecerem mais iguais do que ao
que são. Sempre repudiei as analogias entre política e contextos domésticos.
Mas todos teremos um pouco de Frei Tomás [também sempre repudiei analogias com recurso
a ditados populares. Mas, afinal, todos teremos um pouco de Frei Tomás...(!)]. Analogias
domésticas. Os meus filhos pequenos. À vigésima recriminação do outro,
desinteresso-me de saber quem tem ou não tem razão (mesmo que seja quase sempre o mesmo)
e quero é que não me cansem. Quanto mais a discussão política for feita com base nas
propostas e, porque não, nos diferentes estilos de fazer política, mais
evidente se tornará a melhor escolha.
25.6.14
Captain Blackadder, Private Baldrick, Lieutenant George e Captain Darling existiram mesmo e lutaram na I Grande Guerra / O ministro da Educação britânico só pode ser tolo
Blackadder and company really did fight in World War One, records show
"No início do ano, o ministro da Educação, Michael Gove, criticou a série por disseminar mitos sobre a I Guerra Mundial".
24.6.14
A urgência da urgência
Excelente artigo de José Vítor Malheiros que, de tão simples e certeiro que é, até dói. Claro que "acabar com a pobreza", "já", é um programa destinado a ser incumprido e, inevitavelmente, a criar insatisfação entre os seus apoiantes. Mas o combate à pobreza exige insatisfação e indignação, o verdadeiro motor de qualquer mudança neste sentido.
Calma, mas "acabar com a pobreza, e já", não é mera
retórica utópica, desligada dos constrangimentos políticos reais? Nada disso. Basta
pensar no que aconteceu com a Saúde e a Educação no Portugal democrático (não
por acaso áreas tangentes à questão da pobreza).
Claro que ainda existem
pessoas a quem faltam os adequados cuidados de saúde ou que não cumpriram a
escolaridade obrigatória. No entanto, foi a sua ambição universal, a ser
cumprido "já" (ambição que encontra tradução jurídica na força que a Constituição
lhes dá como direitos fundamentais), que permitiu o extraordinário avanço na
saúde e na educação dos portugueses desde o 25 de abril.
Universalizemos, pois, também a não pobreza. Sabendo que, na
saúde, na educação ou no combate à pobreza, nunca nos podemos dar por
satisfeitos. Ou nunca aqui teríamos chegado (e, mesmo apesar destes últimos
anos de austeridade demente, temos de admitir que já andámos muito se olharmos
para trás).
16.6.14
Estamos onde estamos também porque, a certa altura, nos esquecemos de explicar de onde vem e para onde vai o dinheiro. Plágio bom
O Guardian testa os conhecimentos dos seus eleitores acerca do sistema fiscal britânico. Vale a pena fazer o teste, nem que seja para concluir o que começa a ser, cada vez menos, uma surpresa: que, em vez de corrigir, o sistema agrava as desigualdades (ver texto do jornal britânico que se reproduz abaixo). E por cá, não há edições online de jornais com vontade de plagiar a ideia?
"Nearly seven in ten people – 68% – of the 1,036 adults polled by The Equality Trust and Ipsos MORI, dramatically underestimate what the poorest pay in tax and wrongly believe the richest face the biggest tax burden.
In reality, households in the lowest 10% income group pay 43% of their income in tax, while average households and those in the highest 10% both pay just 35% – 8 percentage points less than those in the lowest 10%. Since 1986, the bottom 10% of households have paid a greater proportion of their income in tax than the middle and the top 10%.
People's inaccurate understanding of the tax system can be attributed to people's tendency to disproportionately focus on income tax, finds the report from the Equality Trust. Yet income tax constitutes only a small portion of the tax the bottom 10% pay.
The largest tax that affects households in the bottom 10% is VAT. The bottom 10% of households pay 11.6% of their total income in VAT, almost double the proportion of the average household and almost three times that paid by the top 10%.
Council tax affects the bottom 10% substantially more than the top 10%. These households pay over twice as much of their income in council tax as the average household and more than four times as much as the top 10%.
When asked about how to make the tax system fairer, on average, people said the poorest 10% should be taxed just 15% of their income, or 28% percentage points less than they currently are. They believe the richest 10% should be taxed 39%, or 4 percentage points more than now."
"Nearly seven in ten people – 68% – of the 1,036 adults polled by The Equality Trust and Ipsos MORI, dramatically underestimate what the poorest pay in tax and wrongly believe the richest face the biggest tax burden.
In reality, households in the lowest 10% income group pay 43% of their income in tax, while average households and those in the highest 10% both pay just 35% – 8 percentage points less than those in the lowest 10%. Since 1986, the bottom 10% of households have paid a greater proportion of their income in tax than the middle and the top 10%.
People's inaccurate understanding of the tax system can be attributed to people's tendency to disproportionately focus on income tax, finds the report from the Equality Trust. Yet income tax constitutes only a small portion of the tax the bottom 10% pay.
The largest tax that affects households in the bottom 10% is VAT. The bottom 10% of households pay 11.6% of their total income in VAT, almost double the proportion of the average household and almost three times that paid by the top 10%.
Council tax affects the bottom 10% substantially more than the top 10%. These households pay over twice as much of their income in council tax as the average household and more than four times as much as the top 10%.
When asked about how to make the tax system fairer, on average, people said the poorest 10% should be taxed just 15% of their income, or 28% percentage points less than they currently are. They believe the richest 10% should be taxed 39%, or 4 percentage points more than now."
9.6.14
Mesmo não sendo camarada, tão pouco tenho vergonha...
... para além de muito do que aqui vem referido, da descriminalização do
consumo de drogas, da procriação medicamente assistida ou do casamento gay; tão pouco tenho vergonha do aprofundamento dos direitos das uniões-de-facto, do fim do divórcio litigioso ou da lei da paridade; muito menos tenho vergonha da legalização de milhares de cidadãos estrangeiros (por via de
uma nova lei da nacionalidade), do reforço dos direitos dos consumidores ou da limitação de mandatos.
Nem todas as medidas são motivo de orgulho. Algumas são generosas mas terão sido mal implementadas (ainda hoje tenho dúvidas se será o caso da avaliação de professores). Outras já nem as subscreveria (como os hospitais PPP nos moldes em que foram lançados) e outras ainda sempre me contrariaram. E, claro, tantas medidas ficaram por tomar, nomeadamente ao nível da regulamentação e tributação do setor financeiro.
Mas lacunas, omissões e erros encontraremos, inevitavelmente, em todos os governos. Na minha avaliação, poucos governos do Portugal democrático se podem orgulhar de ter concretizado uma agenda tão ambiciosa de modernização e combate às desigualdades como a que foi feita nos governos Sócrates.
Serei, naturalmente, sempre suspeito por ter colaborado, à minha insignificante escala, com este programa (sim, num tempo que cultiva a descrença nos políticos, é bom lembrar que muitas destas medidas decorreram de compromissos eleitorais). Quanto a isso, nada posso fazer. A não ser assumir que também disso não tenho vergonha. Muito pelo contrário.
5.6.14
Escrutínio constitucional
Desde 2007, os candidatos a juízes do Tribunal Constitucional são sujeitos à audição prévia do Parlamento. Ou seja, dos deputados da nação. De todos os partidos aí representados. Não conheço melhor - e mais democrático - escrutínio que este.
4.6.14
A maioria dos argumentos de josé manuel fernandes contra a nomeação de Juncker para presidente da comissão europeia é de pôr cabelos democráticos em pé; mas há uns que põem mais os cabelos em pé do que outros
"De resto, a meu ver, uma das coisas que mais desqualifica Jean-Claude Juncker é ele ser um federalista que vem de um micro-país cuja existência só faz sentido no coração da União Europeia"
José Manuel Fernandes, no "Observador"
3.6.14
O acórdão não presta para nada mas é o acórdão (hipótese académica). É como este Governo ( )
É absolutamente normal e saudável que as decisões do Tribunal Constitucional sejam criticadas. Não gosto do argumento que, face às críticas, atira com "mas o que o Tribunal Constitucional está a fazer é meramente a zelar pelo cumprimento da Constituição". Em si, este argumento mata qualquer possibilidade de discordância quanto ao mérito do acórdão.
Há várias maneiras de interpretar a Constituição, todas com estribo jurídico. E nem a quase unanimidade, quando exista, inibe a crítica. Mal seria. Concedo facilmente que o próprio Governo considere que as normas do orçamento eram conformes à Constituição, na interpretação que dela fazem. E não faltam constitucionalistas, no Governo e fora dele, a caucionar este entendimento, embora sejam, assim em jeito de golpe de vista, claramente minoritários.
A mim, nem me choca particularmente que este seja o vigésimo quarto (atiro ao ar) chumbo do TC a uma iniciativa legislativa deste Governo. Uma das maravilhas da democracia é dar-nos instrumentos para dirimir estes conflitos, que serão, numa sociedade pluralista (e o pluralismo existe igualmente na ciência jurídica), relativamente banais.
Dito isto, para que isto funcione (e isto é a democracia, com tudo o que comporta, como a separação de poderes e o estado direito), o que não se pode fazer, pois mina as regras do jogo, é um dos órgãos de soberania (e à cabeça o Governo) pôr em causa a legitimidade e o papel dos restantes órgãos de soberania. Isto é inaceitável, porque anti-democrático.
Perante isto, como era bom que tivéssemos um outro órgão de soberania (assim que funcionasse como uma espécie de árbitro), que, no cumprimento do seu papel constitucional, pudesse dizer alguma coisa sobre o assunto. Podia chamar-se assim tipo Presidente do País ou coisa do género. E também podia servir para receber os jogadores da seleção nacional antes de participarem em eventos desportivos, tipo mundial. Deviam pensar nisto.
Há várias maneiras de interpretar a Constituição, todas com estribo jurídico. E nem a quase unanimidade, quando exista, inibe a crítica. Mal seria. Concedo facilmente que o próprio Governo considere que as normas do orçamento eram conformes à Constituição, na interpretação que dela fazem. E não faltam constitucionalistas, no Governo e fora dele, a caucionar este entendimento, embora sejam, assim em jeito de golpe de vista, claramente minoritários.
A mim, nem me choca particularmente que este seja o vigésimo quarto (atiro ao ar) chumbo do TC a uma iniciativa legislativa deste Governo. Uma das maravilhas da democracia é dar-nos instrumentos para dirimir estes conflitos, que serão, numa sociedade pluralista (e o pluralismo existe igualmente na ciência jurídica), relativamente banais.
Dito isto, para que isto funcione (e isto é a democracia, com tudo o que comporta, como a separação de poderes e o estado direito), o que não se pode fazer, pois mina as regras do jogo, é um dos órgãos de soberania (e à cabeça o Governo) pôr em causa a legitimidade e o papel dos restantes órgãos de soberania. Isto é inaceitável, porque anti-democrático.
Perante isto, como era bom que tivéssemos um outro órgão de soberania (assim que funcionasse como uma espécie de árbitro), que, no cumprimento do seu papel constitucional, pudesse dizer alguma coisa sobre o assunto. Podia chamar-se assim tipo Presidente do País ou coisa do género. E também podia servir para receber os jogadores da seleção nacional antes de participarem em eventos desportivos, tipo mundial. Deviam pensar nisto.
Imagino que seja sobretudo uma questão de não estar para aí virado quando...
... tantos que gostam do mesmo que eu dizem que um filme ou um livro é espetacular e eu acho apenas medíocre. É justamente o que se passa com a crónica de Ferreira Fernandes de hoje, também para mim o mais entusiasmante cronista da imprensa portuguesa. Dizem que é genial. Pareceu-me sobretudo confusa, embora o final seja engraçado. Dias.
2.6.14
Fartura: mais uma boa notícia para o futuro da Europa
Potential consequences of lowering voting age to 16 have been discussed in recent scientific and public debates. This article examines turnout of young voters aged 16 to 17 in Austria, the first European country that lowered the general voting age to 16. For this purpose we use unique data taken from electoral lists of two recent Austrian regional elections. The results support the idea that the so-called “first-time voting boost” is even stronger among the youngest voters as turnout was (a) higher compared to 18- to 20-year-old first-time voters and (b) not substantially lower than the average turnout rate. We conclude that our findings are encouraging for the idea of lowering voting age as a means to establish higher turnout rates in the future.
EVA ZEGLOVITS & JULIAN AICHHOLZER
University of Vienna, Austria
Journal of Elections, Public Opinion and Parties, 2014
EVA ZEGLOVITS & JULIAN AICHHOLZER
University of Vienna, Austria
Journal of Elections, Public Opinion and Parties, 2014
Bugalho: "Lentilha que se introduz na fístula para excitar a supuração" (www.priberam.pt/dlpo)
Excelente mesmo, este artigo de Krugman, ainda sobre a desigualdade e Piketty. E muito instrutivo. Duas coisas que ainda não tinha percebido. Primeira: desde o corte fiscal para os mais ricos nos anos 70 (nos EUA), a desigualdade é ainda maior depois dos impostos (triste). Segunda: em inglês, comparar alhos com bugalhos diz-se "apples-to-oranges comparison". Ganha-se em clareza (ainda hoje não sei o que sejam bugalhos) mas perde-se em estilo.
28.5.14
Aprender a participar
Os desafios que enfrentamos nos próximos tempos são
propícios ao surgimento de messias. O
que é trágico, na medida em que não há messias que salve isto. Como, aliás,
costuma acontecer quando há problemas. Vai ser preciso muita perseverança,
temperança, determinança. E a colaboração de muitos para que algo mude (era,
por isso, espetacular que qualquer nova liderança partidária não começasse por
ostracizar, precisamente, os que lhe são mais próximos). A colaboração de
muitos e, já agora, dos cidadãos.
Acho (quer dizer, achamos todos) mais do que preocupante o
nível de alheamento que estes mostram relativamente às instituições políticas.
São chamados a votar de quando em vez e, depois, participam, quando muito, na
amostra de uma sondagem. Participar noutras instâncias da vida da comunidade
também (ou sobretudo) nos educa para a complexidade dos problemas - e
respetivas escolhas - com que se defrontam os poderes políticos.
Penso que um contributo valioso que os partidos - e muitos do
que têm palco para promover a pedagogia política - podiam dar era informar,
apelar e promover a participação política dos cidadãos para além do voto.
A participação em partidos políticos, em sindicatos, em
associações de defesa do património, do consumidor ou da mariquita azul. A
escrever uma petição à Assembleia da República, a iniciar uma proposta
legislativa com um grupo de eleitores. A propor um referendo. A apresentar uma
queixa ao Provedor de Justiça, a exigir o direito à informação à Administração
Pública, a recorrer à Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos se for
o caso (custa muito menos do que se pensa). A ir a manifestações. A escrever a
um político ou a um órgão de comunicação social. Etc.
Existem muitas formas de participação na vida pública. Umas
obrigam-nos a lidar com a angústia das escolhas, outras ensinam-nos o valor da
representação, outras pedem apenas que organizemos as nossas ideias, outras
ainda exigem respostas e explicações das instituições.
Campanhas a apelar à participação entre eleições faz tanto
sentido como os apelos para os cidadãos irem às urnas a que já nos habituámos,
contribuindo positivamente para a vida democrática do país. A apelar e a
ensinar como se faz, que isto de saber participar não nasce com as pessoas, tal
como a matemática ou a língua portuguesa.
Cidadãos que participam serão também menos suscetíveis aos
populismos que por aí medram. Parecendo que não, diria que isto tem muito a ver
com a crise que vivemos.
27.5.14
Apelo moderado à radicalização dos moderados
Os ponderados tenderão a não se entregar ao pessimismo,
confiando viver numa europa de cidadãos e governantes democratas, que saberão,
com inevitável naturalidade, reencontrar o caminho da esperança e da prosperidade
(não apenas económica, claro está). Recomendarão, pois, democrática calma face aos
apelos cada vez mais audíveis para a necessidade de se fazer algo. Antes que
seja tarde. Sob pena de. Os apelantes, denunciadores
dos perigos, passarão por loucos ou, no mínimo, por incorrerem em incauto
alarmismo. Tendo para a moderação desde que me conheço. Mesmo em mais jovem
- que, segundo alguns, é o tempo dos
radicalismos - estive sempre agrilhoado à moderação. Dois dramas. O primeiro é
que um moderado dificilmente percebe quando chega o momento que exige formas
mais enérgicas de ação política (o drama chamberlainesco). Não falo
evidentemente de qualquer espécie violência. Falo de ruturas necessárias (com
consensos internos - com os grandes empresários e os meios financeiros - ou semi-externos - a começar pelo tratado orçamental da UE) para procurar outros
consensos. O segundo drama é que, assim
sendo, um moderado de pouco servirá em momentos em que o perigo passe de um alerta amarelo para vermelho, dando obrigatoriamente espaço
a quem represente e reivindique estas angústias. Só concebo a política governativa
por via da moderação, pelo que me parece urgente a radicalização dos
nossos moderados.
22.5.14
Isto é genial, penso eu de que
O último livro do Roth é de génio. O último livro do Roth
não é o último. É de 1988 mas só agora foi traduzido na língua que me dá menos
trabalho ler. É uma autobiografia. Escrita quando tinha 55 anos (mais ou
menos). O livro lê-se com agrado por mais de 2/3 das páginas. E depois acontece
o resto. Não sei se é assim tão raro dizer que algo é brilhante mas, se
porventura o faço, não é com este sentido. Isto, sim, é brilhante (como acontece a Roth ser com mais frequência do que aos restantes mortais). Apenas a
lamentar a quantidade de "de ques" que afloram com irritante regularidade,
por vezes aos pares por página. Logo à noite, até penso fazer uma daquelas
fotos com muita pinta de uma das melhores páginas do livro, com o meu polegar bem
visível ao centro. Brinco, não penso fazer nada disso.
28.4.14
24.4.14
23.4.14
Sonhar (ou nem isso) acordado
Ver todos aqueles que se revêm no modelo de sociedade inspirado no 25 de Abril e na Constituição de 76 dar as mãos e descer a Avenida da Liberdade no dia em que se comemoram os 40 anos da Revolução. Juntos, em defesa deste autêntico mínimo denominador comum político-social que vigorou até 2011. Juntos, contra esta política insana que vem minando todos os fundamentos de uma sociedade mais justa e desenvolvida. Juntos, para mudar mesmo alguma coisa.
10.4.14
A justa remuneração dos anjos
Que a lei deve prever regras que salvaguardem a separação de poderes e a independência dos juízes, parece-me pacífico.
Que para justificar este princípio incontroverso os juízes precisem de construir de si uma imagem de escol, roçando por vezes a messianização do seu papel, parece-me ridículo.
Que achem justificável eximirem-se desta austeridade, invocando este seu estatuto, parece-me apenas grosseiro.
Que a austeridade é insana, creio-o evidente.
Que esta seja levada a cabo de forma iníqua, atingindo sistematicamente os mais desfavorecidos, torna-a ainda mais repugnável.
Isto a propósito deste texto: Os salários dos juízes, de Nuno Coelho.
A política, essa coisa blherc
Peticionários assumem que manifesto dos 74 “tem significado político”
Que título mais parvo. Então uma petição dirigida ao Parlamento, solicitando uma recomendação ao Governo, sobre um assunto que diz respeito a todos nós (os que estão e os que hão de vir) e ao modelo de sociedade que queremos, que depende de opções políticas, havia de ter um significado quê? Parece-me que o que foi admitido é que a petição não tem significado partidário, o que é muito diferente. A denegrição (figas para que exista) da política passa muito por isto.
4.4.14
3.4.14
"Quando a voz do dinheiro se faz ouvir tão alto, a dos cidadãos torna-se inaudível"
Mais uma francofilia, desta vez sobre os Estados Unidos e a deliberação do Supremo Tribunal de acabar com quaisquer limites às doações que os particulares podem fazer para as campanhas eleitorais. A supra cena é do juiz Stephen Breyer (que votou contra, naturalmente).
À lire: http://rue89.nouvelobs.com/2014/04/03/quand-cour-supreme-americaine-mine-democratie-251203
To read: http://www.huffingtonpost.com/2014/04/02/mccutcheon-v-fec_n_5076518.html
À lire: http://rue89.nouvelobs.com/2014/04/03/quand-cour-supreme-americaine-mine-democratie-251203
To read: http://www.huffingtonpost.com/2014/04/02/mccutcheon-v-fec_n_5076518.html
Fonte: palmada daqui
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