9.3.15
8.3.15
Saltos altos
Compreendo a mensagem de os homens se porem na pele das
mulheres, de lhes calçarem os sapatos. Mas esta campanha de homens calçarem sapatos
altos por um dia parece-me bastante parva. Na exata medida em que me parece
bastante parvo as mulheres andarem com estes sapatos.
6.3.15
E ainda é mais chato do que parece, embora se descubra que alguns autores que pensávamos de um género são, afinal, de outro (e não consta que tenham mudado)
Um dia, quando estiverem à procura de ideias para trabalho
cívico, hei de propor: substituir as iniciais dos primeiros nomes pelo nome
completo em bibliografias académicas. Consoante a gravidade da falha: paper,
teses de mestrado e de doutoramento (aqui, fuga ao fisco ou à segurança social,
por exemplo)
5.3.15
O Público faz 25 anos
Alimento (quase que ia dizendo nutro) uma certa irritação
por aquelas pessoas que aproveitam a celebração de um qualquer acontecimento
para, olhando para o seu umbigo, falarem mais de si do que do outro. Morre
alguém e logo o facto se converte em pretexto para recordar aquela vez muito
especial em que o homenageante privou com o homenageado, insinuando-se,
embora involuntariamente, na sua importância. O sublinhar do sucesso de um ou
das qualidades humanas de outro mais parecem servir para fazer levitar, por
instantes, o estatuto do sublinhador.
Isto a propósito dos 25 anos do Público de hoje. Ora eu
estava lá. Comprei (compraram-me) o primeiro número. Dez anos mais tarde, foi
na versão eletrónica deste excelente jornal que eu, pelo breve instante de um
ano e quatro meses, tive o meu primeiro trabalho. E privei, claro, embora muito menos do que possa
parecer. E aprendi muito, mas mesmo muito, como aspirante a jornalista que
nunca cheguei verdadeiramente a ser. Principalmente a escrever. Não escrevia bem. Nem posso
dizer que o faça agora. Mas escrevo muito melhor do que antes de ter passado
por lá. Ficou-me o fascínio pela magia da frase editada, que ganha, numa lógica
inversamente proporcional, clareza à medida que vai perdendo palavras.
E já que estamos a falar dos 25 anos do Público, não posso
deixar de lembrar que trabalhei com pessoas que nunca se pouparam, em generosidade
e disponibilidade, a ajudar e ensinar alguém que vinha de outra escola (para
ser sincero, sempre tive a sorte de trabalhar com pessoas assim). Ajuda
preciosa, para quem tinha de enfrentar os altos padrões de exigência (assim o
recordo) de José Vítor Malheiros, diretor do PUBLICO.PT, uma espécie de (e
agora vou entrar num domínio que me é particularmente familiar: as más
analogias) J. K. Simmons no filme whiplash, embora nem nós
fôssemos génios nem ele recorresse a métodos eticamente questionáveis para
tirar o melhor de nós. Mas intimidava. Como, se calhar, toda a exigência.
Também tive desilusões. Vi uma profissão com o rei na
barriga, que exerce o enorme poder que tem com pouca humildade (a humildade que
impede formar certezas com pouco; humildade para o exercício da auto-crítica).
Mas, dizia eu, aposto que não vai faltar quem aproveite o pretexto dos 25 anos do Público para falar de si. Típico.
3.3.15
As prioridades do PS
Quero um PS que me mostre claramente "quais são as suas prioridades", na feliz expressão que José Vítor Malheiros utiliza na sua crónica de hoje. Porque é com estas prioridades que, em primeiro lugar, se constroem ou consolidam as afinidades. E não com as medidas concretas, que, no seu detalhe, servem sobretudo para distinguir o que é parecido. E neste momento é preciso lutar por algo de significativamente diferente. Mesmo que, no fim, o passo seja modesto.
Não gosto de ver que, quando o PS é confrontado com o facto de não se estar a perceber exatamente qual a sua posição, se limite a remeter-nos para programas, agendas para a década, entrevistas onde essas posições estarão transparentemente enunciadas. Se é o caso, cabe aos responsáveis socialistas conseguirem repetir, resumir, divulgar, explicar o que importa. E não reencaminhar a resposta ao que importa por via de uma nota de rodapé, como fazem aqueles velhos (eu sei, estou a ser benévolo) calhamaços de Direito. Não desvalorizo a relevância daqueles compromissos. Mas, por si só, são insuficientes.
Compreendo que os dirigentes do PS não se revejam neste retrato. Mas incomoda-me a acrimónia com que tenho visto, muitas vezes, reagirem a estas (e a outras) críticas.
E quem diz socialista diz, naturalmente, qualquer outro partido. Pela minha parte, falo do que me é próximo. Sou militante da social-democracia. Simpatizante do PS, principalmente por lhe reconhecer poder ser (e ter sido, muitas vezes) o principal agente político de uma mudança progressista e por me conformar que a provável alternativa a um governo liderado pelo PS é um governo liderado pelo PSD, o que normalmente prejudica, em graus diferentes (consoante o momento), o que desejo para o país. Mas também sou simpatizante de outros partidos. Já fui, ainda que pontual e momentaneamente, do BE. Hoje, também sou simpatizante do Livre / Tempo de Avançar. E, por injusto que às vezes possa parecer (nomeadamente porque o PS estará - por princípio e vocação - sempre mais sensível aos constrangimentos da realidade. Mas mesmo tendo isso em linha de conta), compreendo atualmente melhor a mensagem, as prioridades, destes do que as do PS. E preferia que assim não fosse.
Peço desculpa ao Expresso por plagiar assim a notícia mas queria guardar, para o futuro, um exemplo da tortuosa (sentido literal e figurado) argumentação deste primeiro-ministro
"Passos responsabiliza Segurança Social pelas contribuições que tinha em dívida
Primeiro-ministro admite que pagou dívidas já prescritas por pressão do "senhor jornalista". Para "acabar de vez com qualquer dúvida".
Ler mais: http://expresso.sapo.pt/passos-responsabiliza-seguranca-social-pelas-contribuicoes-que-tinha-em-divida=f913077#ixzz3TJmA5o1L
27.2.15
Por princípio, prefiro que não me tomem por parvo (reutilizar posts do facebook)
Costumo gostar muito de ler Augusto Santos Silva mas, para ser franco, acho este post bastante ofensivo (e eu ofendo-me pouco) para todos os que, como eu, acham justificado este escrutínio às declarações de antónio costa. Posso até concordar que as declarações se apropriavam às circunstâncias (não estou convencido) mas um político (e o partido) tem o dever de as explicar aos cidadãos. Sem má vontade e desatar a metralhar para todos os lados. Esta atingiu-me de raspão.
25.2.15
Não me choca (aliás, percebo) a ideia de um bar gay. Já me parece inaceitável um bar hetero. Este discrimina. O outro nem por isso.
Sobre a importância de não deixar o debate da discrminação entregue apenas aos juristas.
Porque interessa falar do caso da barbearia que não interessa ao menino jesus
A questão da barbearia que proíbe a entrada a mulheres desinteressa-me
profundamente. Já o mesmo não posso dizer acerca dos comentários que a este
respeito tenho lido (ilustrado nesta opinião do Observador).
Resumidamente (ou nem por isso):
1 - A comparação desta situação aos casos em que homens, crianças,
idosos, ou famílias, são igualmente discriminadas em estabelecimentos
comerciais (como ginásios ou hotéis) não procede. Pela simples razão de não
haver na sociedade um problema de discrinação destas populações. No entanto, existe em relação às
mulheres (que compara, para este efeito, com questões de raça, religião ou de orientação sexual).
2 - Existe em relação às mulheres. São muitos os exemplos. Uns
mais graves (a violência doméstica), outros também graves (discriminação no
trabalho: salarial, maternidade), outros não menos graves (desigualdade na repartição
das tarefas domésticas). Este caso da barbearia não é, evidentemente, grave. No
entanto, um dos equívocos que vejo nas reações a este caso (sim, também luto
contra o instinto de achar ridícula a importância dada a estes senhores), é
achar-se que a luta contra a discriminação deve ser feita apenas às situações mais
graves (que são as mais graves, todos concordamos). Ora, estas não são mais do
que o reflexo da cultura que partilhamos enquanto sociedade, que ainda é muito conivente
com esta discriminação, aceitando-a, replicando-a, mais ou menos conscientemente.
E isto só mudará quando se atacarem as discriminações do dia a dia. Porque todos
concordamos que os homens não devem bater nas mulheres (nem o inverso). Mas já estaremos
menos conscientes do quanto muitas das coisas que dizemos, fazemos e ouvimos todos
os dias (sim, muito e todos os dias) atingem, de forma desigual, as mulheres. E
que mudar isto é um passo decisivo para mudar aquilo. É por isso que a
discussão do piropo é importante.
3 - Eu até tinha um exemplo que ocorreu comigo no outro dia.
Uma rábula bastante engraçada que fazia (é o que eu acho) acerca do amuadinho do
marido da Birgitte Nyborg. Até que fui confrontado com o sexismo latente do meu
número. E, depois de franzir o sobrolho, desconfiando da justeza do remoque, enfiei
a viola no saco. Mas não vou desenvolver para não afetar a minha imagem (é o que eu penso) de pessoa bastante espetacular neste domínio.
4 - Era só isto.
24.2.15
I have a dream
Uma das coisas que gostava muito que mudasse na política era que os seus atores fossem os primeiros a reconhecer eventuais cedências, mitigações, propostas que tiveram de comprometer, ou seja, os contras das suas opções.
Focarem-se apenas nas partes boas será, a curto prazo, bom spinning. Mas mina a relação de confiança com quem está disposto a ouvir o que têm a dizer com um mínimo de espírito crítico (e esta relação está hoje pelas ruas da amargura). Toma as pessoas por incapazes de perceber a contrapartida, o lado menos favorável, deixando o exclusivo dessa interpretação aos opositores.
A forma como o último governo sócrates lidou com a crise é, quanto a isso, paradigmático, apresentando as primeiras medidas de austeridade pelo seu virtuosismo e não como algo a que foi constrangido a recorrer para evitar males maiores.
E vê-se isso hoje, quando se pretende (à esquerda e à direita) vender o braço de ferro entre a grécia e as instituições europeias como uma vitória ou uma derrota em toda a linha.
Mas isto é válido para a generalidade das escolhas que se podem fazer em política. Passe a simplicidade, todas elas têm prós e contras. Gostava de ver isso mais refletido no discurso político.
Eu tenho um sonho (desculpem, estou há semanas a pensar ir ver o selma...): ver um partido apresentar um programa eleitoral no qual se identifiquem, explicitamente, as vantagens e desvantagens de cada uma das propostas.
Vantagens: as pessoas têm o direito a esta informação; as pessoas saberem que os principais argumentos foram sopesados pelos responsáveis políticos; contrariar a ideia de falta de espírito crítico dos partidos; a longo prazo, atrair mais pessoas para a política ativa, nomeadamente as que têm a ideia que a militância implica abdicar de debater a política com todas as suas matizes; credibiliza.
Desvantagens (agora tem mesmo de ser...): enfraquece a mensagem; dá armas aos seus adversários políticos, reconhecendo os pontos fracos das respetivas propostas; dificuldade em passar nos media, que têm uma pulsão para o tudo ou nada e dicotomizar o debate em torno do preto ou branco, do ser bom ou mau,
Mas tudo ponderado, penso que valaria a pena. E é apenas um sonho. Abruptamente interrompido pela emergência da fome condizente com a hora (do almoço).
Focarem-se apenas nas partes boas será, a curto prazo, bom spinning. Mas mina a relação de confiança com quem está disposto a ouvir o que têm a dizer com um mínimo de espírito crítico (e esta relação está hoje pelas ruas da amargura). Toma as pessoas por incapazes de perceber a contrapartida, o lado menos favorável, deixando o exclusivo dessa interpretação aos opositores.
A forma como o último governo sócrates lidou com a crise é, quanto a isso, paradigmático, apresentando as primeiras medidas de austeridade pelo seu virtuosismo e não como algo a que foi constrangido a recorrer para evitar males maiores.
E vê-se isso hoje, quando se pretende (à esquerda e à direita) vender o braço de ferro entre a grécia e as instituições europeias como uma vitória ou uma derrota em toda a linha.
Mas isto é válido para a generalidade das escolhas que se podem fazer em política. Passe a simplicidade, todas elas têm prós e contras. Gostava de ver isso mais refletido no discurso político.
Eu tenho um sonho (desculpem, estou há semanas a pensar ir ver o selma...): ver um partido apresentar um programa eleitoral no qual se identifiquem, explicitamente, as vantagens e desvantagens de cada uma das propostas.
Vantagens: as pessoas têm o direito a esta informação; as pessoas saberem que os principais argumentos foram sopesados pelos responsáveis políticos; contrariar a ideia de falta de espírito crítico dos partidos; a longo prazo, atrair mais pessoas para a política ativa, nomeadamente as que têm a ideia que a militância implica abdicar de debater a política com todas as suas matizes; credibiliza.
Desvantagens (agora tem mesmo de ser...): enfraquece a mensagem; dá armas aos seus adversários políticos, reconhecendo os pontos fracos das respetivas propostas; dificuldade em passar nos media, que têm uma pulsão para o tudo ou nada e dicotomizar o debate em torno do preto ou branco, do ser bom ou mau,
Mas tudo ponderado, penso que valaria a pena. E é apenas um sonho. Abruptamente interrompido pela emergência da fome condizente com a hora (do almoço).
Ler editorial do Público de hoje e desalentar. Em 2015, continua-se a compreender mal as causas da crise. Não falando dos que a compreendem muito bem mas para quem a culpa é sempre do mordomo (do estado e dos seus desmandos)
Viver acima das possibilidades significa gastar aquilo que não se tem. E, quando se gasta aquilo que não se tem, tem de se ir pedir emprestado a quem tenha. Segundo muitos economistas, foi este comportamento que, levado ao extremo, levou o país quase à bancarrota em 2011. Como tal, a evolução dos empréstimos do Estado, das famílias e das empresas é um bom indicador do ajustamento que o país teve de fazer.
(...) Uma parte da escalada da dívida pública estará relacionada com fenómenos contabilísticos, como, por exemplo, a contabilização da dívida de empresas públicas que antes estavam fora do perímetro do Estado. A outra parte deve-se à ausência da reforma do Estado que faça diminuir os gastos públicos de forma permanente. E aqui ainda há muito por fazer.
(...) Uma parte da escalada da dívida pública estará relacionada com fenómenos contabilísticos, como, por exemplo, a contabilização da dívida de empresas públicas que antes estavam fora do perímetro do Estado. A outra parte deve-se à ausência da reforma do Estado que faça diminuir os gastos públicos de forma permanente. E aqui ainda há muito por fazer.
23.2.15
20.2.15
Pensamento do dia de ontem: terei sido, como qualquer pai, para a minha filha um certo tipo de super-herói. Até ao momento em que tentei explicar-lhe, com o entusiasmo que a minha imaginação permitiu, o que era ser jurista... (o olhar, que deixara de brilhar, escondia a interrogação: porque não biólogo, arqueólogo, botânico, agricultor, apicultor, veterinário, construtor, museólogo, ginasta, cientista, professor, ator, whatever?). Piedosamente, optou por dizer que não percebia muito bem o que lhe tentava explicar
Vou ao google translate e deprimo. Um sentimento de traição pelo que fazemos aos gregos. Um governo que vende em Berlim um Portugal banha da cobra, muito diferente do que o que ficou por cá. Houvesse também duas alemanhas. Infelizmente, e as últimas sondagens estão aí para no-lo lembrar, o Governo alemão representa fielmente a vontade dos seus cidadãos.
17.2.15
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