16.3.15

Palavrões

A páginas tantas, Adília Lopes escreve sobre palavrões. Sobre como a sua mãe em criança não conhecia palavrões e que uma vez, zangada, inventou: chichi cócó pum pum.

Numa outra parte do livro, conta que alguém, também criança, não podendo dizer a palavra de cinco letras, desabafava: arroz.

É nisto que penso quando leio na imprensa, portuguesa ou de outras paragens: "sh*t", "m***a", ou outros asteriscos. 

Gatos

Gosto da Adília Lopes. Não lia nada dela desde que deixei de ler... (não me lembro em que revista ela escrevia). Mas gostava do que escrevia. No outro dia, comprei o seu novo livro, "Manhã". Dou conta agora: nada vi sobre gatos.

15.3.15

Ir ao chinês

Imaginar-me com uma loja num país distante e os habitantes locais a dizerem: "vamos ao português?", "o português isto" e o "português aquilo". Da próxima vez, pergunto qual o nome da loja.

13.3.15

Corrupção e crise. Passo atrás. Perspetiva

Se, por milagre, pudéssemos acabar hoje com toda a corrupção do país (do mundo, se preferirem), havíamos de perceber que continuaria a haver crise, políticas que mais não fazem do agravá-la, uma iníqua repartição dos sacrifícios ou um modelo institucional europeu que não está a conseguir acudir às diferentes necessidades de economias tão díspares como a alemã e a grega ou a portuguesa.

Parece que o Kyrie Irving ganhou ontem, sozinho, aos Spurs. Boa

12.3.15

A arte da fuga


Gosto de pensar a democracia como metáfora. Uma vez, coloquei aqui um pequeno vídeo em que a antiga juíza do Supremo Tribunal dos EUA Sandra O'Connor conversava com o  músico Winton Marsalis. Em 2,21 minutos, os dois explicam como é que o funcionamento de uma boa democracia, nomeadamente dos seus poderes chave, se assemelha ao funcionamento de uma boa banda de jazz.


É aqui que eu entro, propondo um upgrade metafórico. O debate político parece frequentemente perturbar o ritmo do funcionamento das instituições democráticas. Embora partindo de um tema comum, logo surge uma polifonia de vozes, que entram sucessivamente no debate, entrelaçando-se umas nas outras. Parece que não fazem parte da mesma banda. Equívoco. As instituições de uma democracia são a banda de Marsalis. Mas a democracia, compreendendo o debate democrático, é mais uma fuga, como esta, de Glenn Gold, que aqui se republica.

10.3.15

Elogio do Prós e Contras


Não costumo ver. Mas já vi muitas vezes. E, apesar de todos os seus defeitos, acho que o Prós e Contras é dos melhores programas de debate político da televisão portuguesa. Consegue acompanhar as principais questões da atualidade nacional, tentando, pontualmente, refletir sobre aspetos mais perenes da sociedade portuesa. É relativamente plural, tanto nos convidados principais como nos que são chamados a comentar da plateia. Esforça-se por falar para as massas. Passa na televisão generalista, o que, em si mesmo, é um feito. A apresentadora tem momentos maus (abundantemente glosados nas redes sociais) mas faz perguntas, mesmo as que são parvas, que se colocam a muitos espectadores (presumo, claro) e isto, nem sempre parecendo, pode ajudar a esclarecer. Desejavelmente, o debate democrático não deve ficar confinado aos especialistas e aos especialistas que ouvem os especialistas.

8.3.15

Saltos altos

Compreendo a mensagem de os homens se porem na pele das mulheres, de lhes calçarem os sapatos. Mas esta campanha de homens calçarem sapatos altos por um dia parece-me bastante parva. Na exata medida em que me parece bastante parvo as mulheres andarem com estes sapatos.

6.3.15

E ainda é mais chato do que parece, embora se descubra que alguns autores que pensávamos de um género são, afinal, de outro (e não consta que tenham mudado)

Um dia, quando estiverem à procura de ideias para trabalho cívico, hei de propor: substituir as iniciais dos primeiros nomes pelo nome completo em bibliografias académicas. Consoante a gravidade da falha: paper, teses de mestrado e de doutoramento (aqui, fuga ao fisco ou à segurança social, por exemplo)

"Olha, pai: o dupont e o dupont"


5.3.15

O Público faz 25 anos


Alimento (quase que ia dizendo nutro) uma certa irritação por aquelas pessoas que aproveitam a celebração de um qualquer acontecimento para, olhando para o seu umbigo, falarem mais de si do que do outro. Morre alguém e logo o facto se converte em pretexto para recordar aquela vez muito especial em que o homenageante privou com o homenageado, insinuando-se, embora  involuntariamente, na sua  importância. O sublinhar do sucesso de um ou das qualidades humanas de outro mais parecem servir para fazer levitar, por instantes, o estatuto do sublinhador.

Isto a propósito dos 25 anos do Público de hoje. Ora eu estava lá. Comprei (compraram-me) o primeiro número. Dez anos mais tarde, foi na versão eletrónica deste excelente jornal que eu, pelo breve instante de um ano e quatro meses, tive o meu primeiro trabalho. E privei, claro, embora muito menos do que possa parecer. E aprendi muito, mas mesmo muito, como aspirante a jornalista que nunca cheguei verdadeiramente a ser. Principalmente a escrever. Não escrevia bem. Nem posso dizer que o faça agora. Mas escrevo muito melhor do que antes de ter passado por lá. Ficou-me o fascínio pela magia da frase editada, que ganha, numa lógica inversamente proporcional, clareza à medida que vai perdendo palavras.

E já que estamos a falar dos 25 anos do Público, não posso deixar de lembrar que trabalhei com pessoas que nunca se pouparam, em generosidade e disponibilidade, a ajudar e ensinar alguém que vinha de outra escola (para ser sincero, sempre tive a sorte de trabalhar com pessoas assim). Ajuda preciosa, para quem tinha de enfrentar os altos padrões de exigência (assim o recordo) de José Vítor Malheiros, diretor do PUBLICO.PT, uma espécie de (e agora vou entrar num domínio que me é particularmente familiar: as más analogias) J. K. Simmons no filme whiplash, embora nem nós fôssemos génios nem ele recorresse a métodos eticamente questionáveis para tirar o melhor de nós. Mas intimidava. Como, se calhar, toda a exigência.

Também tive desilusões. Vi uma profissão com o rei na barriga, que exerce o enorme poder que tem com pouca humildade (a humildade que impede formar certezas com pouco; humildade para o exercício da auto-crítica).  

Mas, dizia eu, aposto que não vai faltar quem aproveite o pretexto dos 25 anos do Público para falar de si. Típico.

3.3.15

(Saí de casa) Fui à apresentação de uma espécie de memórias de Jorge Miranda. Pedro Magalhães lembrou alguns episódios do seu percurso cívico, político e académico. No final, uma convicção: mutatis mutandis, Jorge Miranda é o que temos de mais parecido com um Lincoln


As prioridades do PS

Quero um PS que me mostre claramente "quais são as suas prioridades", na feliz expressão que José Vítor Malheiros utiliza na sua crónica de hoje. Porque é com estas prioridades que, em primeiro lugar, se constroem ou consolidam as afinidades. E não com as medidas concretas, que, no seu detalhe, servem sobretudo para distinguir o que é parecido. E neste momento é preciso lutar por algo de significativamente diferente. Mesmo que, no fim, o passo seja modesto.

Não gosto de ver que, quando o PS é confrontado com o facto de não se estar a perceber exatamente qual a sua posição, se limite a remeter-nos para programas, agendas para a década, entrevistas onde essas posições estarão transparentemente enunciadas. Se é o caso, cabe aos responsáveis socialistas conseguirem repetir, resumir, divulgar, explicar o que importa. E não reencaminhar a resposta ao que importa por via de uma nota de rodapé, como fazem aqueles velhos (eu sei, estou a ser benévolo) calhamaços de Direito. Não desvalorizo a relevância daqueles compromissos. Mas, por si só, são insuficientes.

Compreendo que os dirigentes do PS não se revejam neste retrato. Mas incomoda-me a acrimónia com que tenho visto, muitas vezes, reagirem a estas (e a outras) críticas. 

E quem diz socialista diz, naturalmente, qualquer outro partido. Pela minha parte, falo do que me é próximo. Sou militante da social-democracia. Simpatizante do PS, principalmente por lhe reconhecer poder ser (e ter sido, muitas vezes) o principal agente político de uma mudança progressista e por me conformar que a provável alternativa a um governo liderado pelo PS é um governo liderado pelo PSD, o que normalmente prejudica, em graus diferentes (consoante o momento), o que desejo para o país. Mas também sou simpatizante de outros partidos. Já fui, ainda que pontual e momentaneamente, do BE. Hoje, também sou simpatizante do Livre / Tempo de Avançar. E, por injusto que às vezes possa parecer (nomeadamente porque o PS estará - por princípio e vocação - sempre mais sensível aos constrangimentos da realidade. Mas mesmo tendo isso em linha de conta), compreendo atualmente melhor a mensagem, as prioridades, destes do que as do PS. E preferia que assim não fosse. 

Peço desculpa ao Expresso por plagiar assim a notícia mas queria guardar, para o futuro, um exemplo da tortuosa (sentido literal e figurado) argumentação deste primeiro-ministro


"Passos responsabiliza Segurança Social pelas contribuições que tinha em dívida

Primeiro-ministro admite que pagou dívidas já prescritas por pressão do "senhor jornalista". Para "acabar de vez com qualquer dúvida".





Ler mais: http://expresso.sapo.pt/passos-responsabiliza-seguranca-social-pelas-contribuicoes-que-tinha-em-divida=f913077#ixzz3TJmA5o1L

27.2.15

Por princípio, prefiro que não me tomem por parvo (reutilizar posts do facebook)



Costumo gostar muito de ler Augusto Santos Silva​ mas, para ser franco, acho este post bastante ofensivo (e eu ofendo-me pouco) para todos os que, como eu, acham justificado este escrutínio às declarações de antónio costa. Posso até concordar que as declarações se apropriavam às circunstâncias (não estou convencido) mas um político (e o partido) tem o dever de as explicar aos cidadãos. Sem má vontade e desatar a metralhar para todos os lados. Esta atingiu-me de raspão.