16.3.15

Palavrões

A páginas tantas, Adília Lopes escreve sobre palavrões. Sobre como a sua mãe em criança não conhecia palavrões e que uma vez, zangada, inventou: chichi cócó pum pum.

Numa outra parte do livro, conta que alguém, também criança, não podendo dizer a palavra de cinco letras, desabafava: arroz.

É nisto que penso quando leio na imprensa, portuguesa ou de outras paragens: "sh*t", "m***a", ou outros asteriscos. 

Gatos

Gosto da Adília Lopes. Não lia nada dela desde que deixei de ler... (não me lembro em que revista ela escrevia). Mas gostava do que escrevia. No outro dia, comprei o seu novo livro, "Manhã". Dou conta agora: nada vi sobre gatos.

15.3.15

Ir ao chinês

Imaginar-me com uma loja num país distante e os habitantes locais a dizerem: "vamos ao português?", "o português isto" e o "português aquilo". Da próxima vez, pergunto qual o nome da loja.

13.3.15

Corrupção e crise. Passo atrás. Perspetiva

Se, por milagre, pudéssemos acabar hoje com toda a corrupção do país (do mundo, se preferirem), havíamos de perceber que continuaria a haver crise, políticas que mais não fazem do agravá-la, uma iníqua repartição dos sacrifícios ou um modelo institucional europeu que não está a conseguir acudir às diferentes necessidades de economias tão díspares como a alemã e a grega ou a portuguesa.

Parece que o Kyrie Irving ganhou ontem, sozinho, aos Spurs. Boa

12.3.15

A arte da fuga


Gosto de pensar a democracia como metáfora. Uma vez, coloquei aqui um pequeno vídeo em que a antiga juíza do Supremo Tribunal dos EUA Sandra O'Connor conversava com o  músico Winton Marsalis. Em 2,21 minutos, os dois explicam como é que o funcionamento de uma boa democracia, nomeadamente dos seus poderes chave, se assemelha ao funcionamento de uma boa banda de jazz.


É aqui que eu entro, propondo um upgrade metafórico. O debate político parece frequentemente perturbar o ritmo do funcionamento das instituições democráticas. Embora partindo de um tema comum, logo surge uma polifonia de vozes, que entram sucessivamente no debate, entrelaçando-se umas nas outras. Parece que não fazem parte da mesma banda. Equívoco. As instituições de uma democracia são a banda de Marsalis. Mas a democracia, compreendendo o debate democrático, é mais uma fuga, como esta, de Glenn Gold, que aqui se republica.

10.3.15

Elogio do Prós e Contras


Não costumo ver. Mas já vi muitas vezes. E, apesar de todos os seus defeitos, acho que o Prós e Contras é dos melhores programas de debate político da televisão portuguesa. Consegue acompanhar as principais questões da atualidade nacional, tentando, pontualmente, refletir sobre aspetos mais perenes da sociedade portuesa. É relativamente plural, tanto nos convidados principais como nos que são chamados a comentar da plateia. Esforça-se por falar para as massas. Passa na televisão generalista, o que, em si mesmo, é um feito. A apresentadora tem momentos maus (abundantemente glosados nas redes sociais) mas faz perguntas, mesmo as que são parvas, que se colocam a muitos espectadores (presumo, claro) e isto, nem sempre parecendo, pode ajudar a esclarecer. Desejavelmente, o debate democrático não deve ficar confinado aos especialistas e aos especialistas que ouvem os especialistas.

8.3.15

Saltos altos

Compreendo a mensagem de os homens se porem na pele das mulheres, de lhes calçarem os sapatos. Mas esta campanha de homens calçarem sapatos altos por um dia parece-me bastante parva. Na exata medida em que me parece bastante parvo as mulheres andarem com estes sapatos.

6.3.15

E ainda é mais chato do que parece, embora se descubra que alguns autores que pensávamos de um género são, afinal, de outro (e não consta que tenham mudado)

Um dia, quando estiverem à procura de ideias para trabalho cívico, hei de propor: substituir as iniciais dos primeiros nomes pelo nome completo em bibliografias académicas. Consoante a gravidade da falha: paper, teses de mestrado e de doutoramento (aqui, fuga ao fisco ou à segurança social, por exemplo)

"Olha, pai: o dupont e o dupont"


5.3.15

O Público faz 25 anos


Alimento (quase que ia dizendo nutro) uma certa irritação por aquelas pessoas que aproveitam a celebração de um qualquer acontecimento para, olhando para o seu umbigo, falarem mais de si do que do outro. Morre alguém e logo o facto se converte em pretexto para recordar aquela vez muito especial em que o homenageante privou com o homenageado, insinuando-se, embora  involuntariamente, na sua  importância. O sublinhar do sucesso de um ou das qualidades humanas de outro mais parecem servir para fazer levitar, por instantes, o estatuto do sublinhador.

Isto a propósito dos 25 anos do Público de hoje. Ora eu estava lá. Comprei (compraram-me) o primeiro número. Dez anos mais tarde, foi na versão eletrónica deste excelente jornal que eu, pelo breve instante de um ano e quatro meses, tive o meu primeiro trabalho. E privei, claro, embora muito menos do que possa parecer. E aprendi muito, mas mesmo muito, como aspirante a jornalista que nunca cheguei verdadeiramente a ser. Principalmente a escrever. Não escrevia bem. Nem posso dizer que o faça agora. Mas escrevo muito melhor do que antes de ter passado por lá. Ficou-me o fascínio pela magia da frase editada, que ganha, numa lógica inversamente proporcional, clareza à medida que vai perdendo palavras.

E já que estamos a falar dos 25 anos do Público, não posso deixar de lembrar que trabalhei com pessoas que nunca se pouparam, em generosidade e disponibilidade, a ajudar e ensinar alguém que vinha de outra escola (para ser sincero, sempre tive a sorte de trabalhar com pessoas assim). Ajuda preciosa, para quem tinha de enfrentar os altos padrões de exigência (assim o recordo) de José Vítor Malheiros, diretor do PUBLICO.PT, uma espécie de (e agora vou entrar num domínio que me é particularmente familiar: as más analogias) J. K. Simmons no filme whiplash, embora nem nós fôssemos génios nem ele recorresse a métodos eticamente questionáveis para tirar o melhor de nós. Mas intimidava. Como, se calhar, toda a exigência.

Também tive desilusões. Vi uma profissão com o rei na barriga, que exerce o enorme poder que tem com pouca humildade (a humildade que impede formar certezas com pouco; humildade para o exercício da auto-crítica).  

Mas, dizia eu, aposto que não vai faltar quem aproveite o pretexto dos 25 anos do Público para falar de si. Típico.

3.3.15

(Saí de casa) Fui à apresentação de uma espécie de memórias de Jorge Miranda. Pedro Magalhães lembrou alguns episódios do seu percurso cívico, político e académico. No final, uma convicção: mutatis mutandis, Jorge Miranda é o que temos de mais parecido com um Lincoln


As prioridades do PS

Quero um PS que me mostre claramente "quais são as suas prioridades", na feliz expressão que José Vítor Malheiros utiliza na sua crónica de hoje. Porque é com estas prioridades que, em primeiro lugar, se constroem ou consolidam as afinidades. E não com as medidas concretas, que, no seu detalhe, servem sobretudo para distinguir o que é parecido. E neste momento é preciso lutar por algo de significativamente diferente. Mesmo que, no fim, o passo seja modesto.

Não gosto de ver que, quando o PS é confrontado com o facto de não se estar a perceber exatamente qual a sua posição, se limite a remeter-nos para programas, agendas para a década, entrevistas onde essas posições estarão transparentemente enunciadas. Se é o caso, cabe aos responsáveis socialistas conseguirem repetir, resumir, divulgar, explicar o que importa. E não reencaminhar a resposta ao que importa por via de uma nota de rodapé, como fazem aqueles velhos (eu sei, estou a ser benévolo) calhamaços de Direito. Não desvalorizo a relevância daqueles compromissos. Mas, por si só, são insuficientes.

Compreendo que os dirigentes do PS não se revejam neste retrato. Mas incomoda-me a acrimónia com que tenho visto, muitas vezes, reagirem a estas (e a outras) críticas. 

E quem diz socialista diz, naturalmente, qualquer outro partido. Pela minha parte, falo do que me é próximo. Sou militante da social-democracia. Simpatizante do PS, principalmente por lhe reconhecer poder ser (e ter sido, muitas vezes) o principal agente político de uma mudança progressista e por me conformar que a provável alternativa a um governo liderado pelo PS é um governo liderado pelo PSD, o que normalmente prejudica, em graus diferentes (consoante o momento), o que desejo para o país. Mas também sou simpatizante de outros partidos. Já fui, ainda que pontual e momentaneamente, do BE. Hoje, também sou simpatizante do Livre / Tempo de Avançar. E, por injusto que às vezes possa parecer (nomeadamente porque o PS estará - por princípio e vocação - sempre mais sensível aos constrangimentos da realidade. Mas mesmo tendo isso em linha de conta), compreendo atualmente melhor a mensagem, as prioridades, destes do que as do PS. E preferia que assim não fosse. 

Peço desculpa ao Expresso por plagiar assim a notícia mas queria guardar, para o futuro, um exemplo da tortuosa (sentido literal e figurado) argumentação deste primeiro-ministro


"Passos responsabiliza Segurança Social pelas contribuições que tinha em dívida

Primeiro-ministro admite que pagou dívidas já prescritas por pressão do "senhor jornalista". Para "acabar de vez com qualquer dúvida".





Ler mais: http://expresso.sapo.pt/passos-responsabiliza-seguranca-social-pelas-contribuicoes-que-tinha-em-divida=f913077#ixzz3TJmA5o1L

27.2.15

Por princípio, prefiro que não me tomem por parvo (reutilizar posts do facebook)



Costumo gostar muito de ler Augusto Santos Silva​ mas, para ser franco, acho este post bastante ofensivo (e eu ofendo-me pouco) para todos os que, como eu, acham justificado este escrutínio às declarações de antónio costa. Posso até concordar que as declarações se apropriavam às circunstâncias (não estou convencido) mas um político (e o partido) tem o dever de as explicar aos cidadãos. Sem má vontade e desatar a metralhar para todos os lados. Esta atingiu-me de raspão.

25.2.15

Outra coisa (barbearia). O facto de poder ser eventualmente legal e reconduzível a uma questão de opinião não inibe o direito à denúncia e à indignação (seria, aliás, contraditório se assim fosse)

Não me choca (aliás, percebo) a ideia de um bar gay. Já me parece inaceitável um bar hetero. Este discrimina. O outro nem por isso.

Sobre a importância de não deixar o debate da discrminação entregue apenas aos juristas.

Porque interessa falar do caso da barbearia que não interessa ao menino jesus


A questão da barbearia que proíbe a entrada a mulheres desinteressa-me profundamente. Já o mesmo não posso dizer acerca dos comentários que a este respeito tenho lido (ilustrado nesta opinião do Observador).

Resumidamente (ou nem por isso):

1 - A comparação desta situação aos casos em que homens, crianças, idosos, ou famílias, são igualmente discriminadas em estabelecimentos comerciais (como ginásios ou hotéis) não procede. Pela simples razão de não haver na sociedade um problema de discrinação destas populações. No entanto, existe em relação às mulheres (que compara, para este efeito, com questões de raça, religião ou de orientação sexual).

2 - Existe em relação às mulheres. São muitos os exemplos. Uns mais graves (a violência doméstica), outros também graves (discriminação no trabalho: salarial, maternidade), outros não menos graves (desigualdade na repartição das tarefas domésticas). Este caso da barbearia não é, evidentemente, grave. No entanto, um dos equívocos que vejo nas reações a este caso (sim, também luto contra o instinto de achar ridícula a importância dada a estes senhores), é achar-se que a luta contra a discriminação deve ser feita apenas às situações mais graves (que são as mais graves, todos concordamos). Ora, estas não são mais do que o reflexo da cultura que partilhamos enquanto sociedade, que ainda é muito conivente com esta discriminação, aceitando-a, replicando-a, mais ou menos conscientemente. E isto só mudará quando se atacarem as discriminações do dia a dia. Porque todos concordamos que os homens não devem bater nas mulheres (nem o inverso). Mas já estaremos menos conscientes do quanto muitas das coisas que dizemos, fazemos e ouvimos todos os dias (sim, muito e todos os dias) atingem, de forma desigual, as mulheres. E que mudar isto é um passo decisivo para mudar aquilo. É por isso que a discussão do piropo é importante.

3 - Eu até tinha um exemplo que ocorreu comigo no outro dia. Uma rábula bastante engraçada que fazia (é o que eu acho) acerca do amuadinho do marido da Birgitte Nyborg. Até que fui confrontado com o sexismo latente do meu número. E, depois de franzir o sobrolho, desconfiando da justeza do remoque, enfiei a viola no saco. Mas não vou desenvolver para não afetar a minha imagem (é o que eu penso) de pessoa bastante espetacular neste domínio.

4 - Era só isto.

24.2.15

I have a dream

Uma das coisas que gostava muito que mudasse na política era que os seus atores fossem os primeiros a reconhecer eventuais cedências, mitigações, propostas que tiveram de comprometer, ou seja, os contras das suas opções.

Focarem-se apenas nas partes boas será, a curto prazo, bom spinning. Mas mina a relação de confiança com quem está disposto a ouvir o que têm a dizer com um mínimo de espírito crítico (e esta relação está hoje pelas ruas da amargura). Toma as pessoas por incapazes de perceber a contrapartida, o lado menos favorável, deixando o exclusivo dessa interpretação aos opositores.

A forma como o último governo sócrates lidou com a crise é, quanto a isso, paradigmático, apresentando as primeiras medidas de austeridade pelo seu virtuosismo e não como algo a que foi constrangido a recorrer para evitar males maiores.

E vê-se isso hoje, quando se pretende (à esquerda e à direita) vender o braço de ferro entre a grécia e as instituições europeias como uma vitória ou uma derrota em toda a linha.

Mas isto é válido para a generalidade das escolhas que se podem fazer em política. Passe a simplicidade, todas elas têm prós e contras. Gostava de ver isso mais refletido no discurso político.

Eu tenho um sonho (desculpem, estou há semanas a pensar ir ver o selma...): ver um partido apresentar um programa eleitoral no qual se identifiquem, explicitamente, as vantagens e desvantagens de cada uma das propostas.

Vantagens: as pessoas têm o direito a esta informação; as pessoas saberem que os principais argumentos foram sopesados pelos responsáveis políticos; contrariar a ideia de falta de espírito crítico dos partidos; a longo prazo, atrair mais pessoas para a política ativa, nomeadamente as que têm a ideia que a militância implica abdicar de debater a política com todas as suas matizes; credibiliza.

Desvantagens (agora tem mesmo de ser...): enfraquece a mensagem; dá armas aos seus adversários políticos, reconhecendo os pontos fracos das respetivas propostas; dificuldade em passar nos media, que têm uma pulsão para o tudo ou nada e dicotomizar o debate em torno do preto ou branco, do ser bom ou mau,

Mas tudo ponderado, penso que valaria a pena. E é apenas um sonho. Abruptamente interrompido pela emergência da fome condizente com a hora (do almoço).

Ler editorial do Público de hoje e desalentar. Em 2015, continua-se a compreender mal as causas da crise. Não falando dos que a compreendem muito bem mas para quem a culpa é sempre do mordomo (do estado e dos seus desmandos)

Viver acima das possibilidades significa gastar aquilo que não se tem. E, quando se gasta aquilo que não se tem, tem de se ir pedir emprestado a quem tenha. Segundo muitos economistas, foi este comportamento que, levado ao extremo, levou o país quase à bancarrota em 2011. Como tal, a evolução dos empréstimos do Estado, das famílias e das empresas é um bom indicador do ajustamento que o país teve de fazer.

(...) Uma parte da escalada da dívida pública estará relacionada com fenómenos contabilísticos, como, por exemplo, a contabilização da dívida de empresas públicas que antes estavam fora do perímetro do Estado. A outra parte deve-se à ausência da reforma do Estado que faça diminuir os gastos públicos de forma permanente. E aqui ainda há muito por fazer.

20.2.15

Pensamento do dia de ontem: terei sido, como qualquer pai, para a minha filha um certo tipo de super-herói. Até ao momento em que tentei explicar-lhe, com o entusiasmo que a minha imaginação permitiu, o que era ser jurista... (o olhar, que deixara de brilhar, escondia a interrogação: porque não biólogo, arqueólogo, botânico, agricultor, apicultor, veterinário, construtor, museólogo, ginasta, cientista, professor, ator, whatever?). Piedosamente, optou por dizer que não percebia muito bem o que lhe tentava explicar

Pensamento do dia: os meus filhos (que são uns cotomiços) estão a menos anos de entrarem na universidade do que aqueles que passaram desde que eu lá entrei

Vou ao google translate e deprimo. Um sentimento de traição pelo que fazemos aos gregos. Um governo que vende em Berlim um Portugal banha da cobra, muito diferente do que o que ficou por cá. Houvesse também duas alemanhas. Infelizmente, e as últimas sondagens estão aí para no-lo lembrar, o Governo alemão representa fielmente a vontade dos seus cidadãos.


12.2.15

Não é por ter sido eu a escrevê-lo mas este post é muito bom

Formas alternativas de dizer que um post, um artigo, uma determinada situação ou acontecimento, é muito bom. Nomeadamente:  

Baril
Fixolas
Altamente
Bué fixe
Curtido
Interessante
Espirituoso
Boníssimo
Engraçado
Divertido
Perspicaz
Entusiasmante
Porreiro
Maningue nice
Empolgante
Ótimo
Maravilhoso
Delicioso
Sagaz
Inteligente
Excelente


Agora a sério, isto é uma reportagem do caraças. Vidas viradas do avesso por causa de um post infeliz.

How One Stupid Tweet Ruined Justine Sacco’s Life

9.2.15

Krugman IV (etc.) - Nesta altura do campeonato, quem não percebeu é porque, provavelmente, não quer. Mas a recente mudança de opinião de Vítor Bento mostra que não é bem assim e que ainda há esperança.


First, the facts: Last week, the McKinsey Global Institute issued a report titled “Debt and (Not Much) Deleveraging,” which found, basically, that no nation has reduced its ratio of total debt to G.D.P. Household debt is down in some countries, especially in the United States. But it’s up in others, and even where there has been significant private deleveraging, government debt has risen by more than private debt has fallen.

You might think our failure to reduce debt ratios shows that we aren’t trying hard enough — that families and governments haven’t been making a serious effort to tighten their belts, and that what the world needs is, yes, more austerity. But we have, in fact, had unprecedented austerity. As the International Monetary Fund has pointed out, real government spending excluding interest has fallen across wealthy nations — there have been deep cuts by the troubled debtors of Southern Europe, but there have also been cuts in countries, like Germany and the United States, that can borrow at some of the lowest interest rates in history.

All this austerity has, however, only made things worse — and predictably so, because demands that everyone tighten their belts were based on a misunderstanding of the role debt plays in the economy.

You can see that misunderstanding at work every time someone rails against deficits with slogans like “Stop stealing from our kids.” It sounds right, if you don’t think about it: Families who run up debts make themselves poorer, so isn’t that true when we look at overall national debt?

No, it isn’t. An indebted family owes money to other people; the world economy as a whole owes money to itself. And while it’s true that countries can borrow from other countries, America has actually been borrowing less from abroad since 2008 than it did before, and Europe is a net lender to the rest of the world.

Because debt is money we owe to ourselves, it does not directly make the economy poorer (and paying it off doesn’t make us richer). True, debt can pose a threat to financial stability — but the situation is not improved if efforts to reduce debt end up pushing the economy into deflation and depression.

Which brings us to current events, for there is a direct connection between the overall failure to deleverage and the emerging political crisis in Europe.
European leaders completely bought into the notion that the economic crisis was brought on by too much spending, by nations living beyond their means. The way forward, Chancellor Angela Merkel of Germany insisted, was a return to frugality. Europe, she declared, should emulate the famously thrifty Swabian housewife.

This was a prescription for slow-motion disaster. European debtors did, in fact, need to tighten their belts — but the austerity they were actually forced to impose was incredibly savage. Meanwhile, Germany and other core economies — which needed to spend more, to offset belt-tightening in the periphery — also tried to spend less. The result was to create an environment in which reducing debt ratios was impossible: Real growth slowed to a crawl, inflation fell to almost nothing and outright deflation has taken hold in the worst-hit nations.

Suffering voters put up with this policy disaster for a remarkably long time, believing in the promises of the elite that they would soon see their sacrifices rewarded. But as the pain went on and on, with no visible progress, radicalization was inevitable. Anyone surprised by the left’s victory in Greece, or the surge of anti-establishment forces in Spain, hasn’t been paying attention.

Nobody knows what happens next, although bookmakers are now giving better than even odds that Greece will exit the euro. Maybe the damage would stop there, but I don’t believe it — a Greek exit is all too likely to threaten the whole currency project. And if the euro does fail, here’s what should be written on its tombstone: “Died of a bad analogy.”

Paul Krugman,Nobody Understands Debt, hoje.

Krugman III - Nesta altura do campeonato, quem não percebeu é porque, provavelmente, não quer. Mas a recente mudança de opinião de Vítor Bento mostra que não é bem assim e que ainda há esperança.

So how much progress have we made in returning the economy to that “normal state”? None at all. You see, policy makers have been basing their actions on a false view of what debt is all about, and their attempts to reduce the problem have actually made it worse.

Paul Krugman, Nobody Understands Debt, hoje.

Krugman II - Nesta altura do campeonato, quem não percebeu é porque, provavelmente, não quer. Mas a recente mudança de opinião de Vítor Bento mostra que não é bem assim e que ainda há esperança.


"Or as Ms. Yellen put it in 2009, “Precautions that may be smart for individuals and firms — and indeed essential to return the economy to a normal state — nevertheless magnify the distress of the economy as a whole.”


Paul Krugman, Nobody Understands Debt, hoje.

Krugman I - Nesta altura do campeonato, quem não percebeu é porque, provavelmente, não quer. Mas a recente mudança de opinião de Vítor Bento mostra que não é bem assim e que ainda há esperança.


"Many economists, including Janet Yellen, view global economic troubles since 2008 largely as a story about “deleveraging” — a simultaneous attempt by debtors almost everywhere to reduce their liabilities. Why is deleveraging a problem? Because my spending is your income, and your spending is my income, so if everyone slashes spending at the same time, incomes go down around the world."


Paul Krugman, Nobody Understands Debt, hoje.

5.2.15

A magia da NBA ou a construção de afinidades numa criança


- Pai, quero ver um jogo da NBA contigo este fim de semana.

- Excelente! (foi para casos destes que se  inventaram os pontos de exclamação). Que equipa preferes ver?

- Humm... como é que se chama aquele jogador com nome parecido à equipa do Harry Potter, os Griffindor?

- ... o Blake Griffin?

- Sim, de que equipa é ele?

- Dos LA Clippers - Youtube - É este?

- Sim, ainda por cima jogam de branco, a minha cor favorita. É essa a minha equipa. Podemos ver um jogo dos LA Clippers?

13.1.15

Diz-me com quem andas, dir-te-ei se sabes fazer consensos (viva a hipocrisia)

Consensos com quem nos é próximo ou tem as mesmas ideias que nós é fácil. O difícil é saber quando dar as mãos a quem nos é estranho ou mesmo a quem defende ideias que nos repugnam. Vir denunciar que, entre quem deu as mãos, há quem as tenha sujas, é esquecer que a paz e tantos avanços pelos direitos humanos foram conseguidos com apertos de mão a que muitos chamariam hipócritas.

Liberdade

Segundo o Guardian, muitos jornais publicaram nos respetivos sites a capa de hoje do Charlie Hebdo. Na Europa, fizeram-no o Libération, o Le Monde, o Frankfurter Allgemeine. O Guardian publicou-o, com o aviso de que continha imagens que podiam ser consideradas ofensivas por algumas pessoas. Nos Estados Unidos, foi publicado pelo Washington Post, USA Today, LA Times e Wall Street Journal. O New York Times optou por não o fazer.

8.1.15

Somos mesmo hoje charlies e não há nisso qualquer problema. Antes pelo contrário

Mesmo no plano individual, dá que pensar a forma como reagimos ao que se passou com o charlie hebdo. Vejo que há quem pense (e pensar é bom) que é fácil pretendermos ser hoje todos charlie, quando não o fomos no passado, quando criticámos os cartoons, quando não se achou graça ao humor da revista, quando se aconselhou moderação (ver este texto no open democracy). Não faço parte deste grupo. Achei muitas vezes graça. Não me choquei nem sugeri contenção. Mas isso é absolutamente indiferente. Somos todos charlie (e penso que todos somos mesmo uma esmagadora maioria). Por defendermos que as diferenças de opinião se resolvem ou pela democrática tolerância (o que não impede naturalmente a crítica), ou pelos não menos democráticos tribunais, quando se considere ter havido violação da lei. Não há terceiras vias. As que instigam no outro o medo (de falar, de pensar), caminho que mostramos recusar com este gesto. É isso que faz de nós, hoje, charlies. Não precisamos de ter sido no passado. É, aliás, mesmo essa a ideia.

adenda: faltou acrescentar aqui a vidÊncia sublinhada por badinter: "Ces journalistes-là sont morts pour nous, pour nos libertés qu’ils ont toujours défendues. Sachons nous en souvenir."



6.1.15

O congresso, a igreja dos representantes americanos

O papel da religão na política americana nem sempre é fácil de entender para um europeu (não falo, bem entendido, dessa nova religião, o austeritarismo). Sabemo-lo. Mas nem por isso este quadro deixa de impressionar.

Existem 20% de adultos que não se revêm em nenhuma religião. Mas apenas 0,2% dos membros do congresso. Apenas um membro, a demomcrata Kyrsten Sinema, D-Ariz.

E, nas últimas cinco décadas, apenas um membro do congresso declarou ser ateu, ou seja, que não acreditava em deus ou num ser superior, o democrata Pete Stark, D-Calif.

Meu deus!

Mais sobre o estudo aqui.




5.1.15

Arte da fotografia

Sou quotidianamente surpreendido pelo irritante número de pessoas com talento para a fotografia. Bonitos enquadramentos, de paisagens, de lugares e de pessoas. Sou um desastre neste domínio. Ângulos errados, enquadramentos desastrosos, luz coiso e não raro a sombra de um dedo. Em geral, faltam-me todos os atributos que fazem da esmagadora maioria das pessoas que me rodeia fotógrafos, no mínimo, bastante competentes. Começo a achar.que tenho um raro talento. O de conseguir, mesmo nos momentos menos prováveis, tirar a má fotografia. Não vejo porque não possa ser considerado uma arte.

"Olha, papá, cornetas", sussurrou ele, antes de avisar, com urgência, que "o padeiro" acabara de entrar (para realizar a cerimónia, subentendia-se)


Parece um dilema mas não é

O Pingo Doce voltou a aceitar pagamentos por multibanco abaixo dos 20 euros, informam alguns órgãos de comunicação social. Informam? "Informam". Publicitam. Tal como poderiam fazer em relação aos saldos do ikea, à política de cheques visados da zara ou às vantagens do cartão cliente da fnac. Não deixa de ser interessante ver que órgãos de comunicação social dão a "notícia".

17.12.14

Desigualdade de género

Sabe-se que as mulheres têm de trabalhar muito mais dos que os homens para conseguir o mesmo resultado (salário, progressão). Não deixo de estranhar. Nos lugares onde trabalhei, tive frequentemente de trabalhar o dobro das mulheres para conseguir o mesmo rendimento. E em casa é igual (nunca mais chego a chefe).

12.12.14

Ich bin ein diretor da sony

- Resisto por princípio a ler notícias em consequência de violações da privacidade;
- Às vezes, traio os meus princípios;
- Acabei por ler este texto do I, a propósito das violações de correspondência na Sony.
- Duas notas:

- Em matéria de divulgação de segredos, os media têm frequentemente o dom de fazer as coisas parecerem piores do que são (estava preparado para muito pior).

- (em vez da indignação) As vítimas vieram pedir desculpas pelo conteúdo das mensagens (privadas, privadíssimas), o que é compreensível. Provavelmente, faria o mesmo. Mas isto só ajuda a que o buraco da fechadura fique cada vez maior. E estamos todos do outro lado da porta. Só que uns mais perto das fechadura do que outros. Citar Kennedy também devia servir para estas ocasiões. Podem ser racistas mas também neste caso devíamos ser todos diretores da Sony.

Cavaco, onde estavas tu quando nos chamaram de porcos?


Realmente, quem poderia adivinhar que o acrónimo PIIGS teria um impacto negativo... Mas mais chocante do que o acrónimo ser revelador do preconceito mais ou menos latente em relação aos países do Sul da Europa foi ver enfiarmos a carapuça até ao pescoço (com o elevado patrocínio do jornalismo e comentarismo nacional). Isto tudo, é imperativo lembrá-lo, fora pertinentemente lamentado, em tempo real, por este magnífico observador. Aqui. É caso para perguntar: Cavaco, onde estavas tu quando nos chamaram de porcos?

ps: texto do blog da LSE aqui.

10.12.14

Conservadorismo utilitário constitucional



Um facto largamente desvalorizado por todos os que clamam (e mesmo por muitos dos que não clamam) por uma revisão da constituição: poder usar a mesma edição da Constituição da República Portuguesa há quase dez anos. Sem post its, fotocópias reduzidas mal amanhadas ou astericos que o tempo dificulta a interpretação. Venham mais dez.

6.12.14

"Ó pai, não me desconcentres"

Tentar trabalhar no mesmo espaço que uma criança de seis anos, que, se estiverem curiosos, basicamente atira papéis ao ar. Insisto, desta vez em tom definitivo (não me queiram ver com um ar definitivo), que preciso concentrar-me. Aquiesce e não a oiço durante breves minutos (na realidade, segundos), o tempo que aguento sem levantar os olhos do computador para ver o que está a fazer. Quando o faço, devolve-me a resposta em título. Um dia, quando me  perguntar porque não temos uma casa de campo ou um carro maior, vou reencaminhá-la para este post. 

5.12.14

Narcisismo parental

Dos nossos pais, penso que temos sempre uma imagem distorcida. Pela experiência da infância, claro, que impede que conheçamos a verdadeira dimensão de uma sala de aula. E pela proximidade, que também deforma. Lembro-me, como me acontece com frequência, daquele conto do Javier Marias. E, com um misto de curiosidade e de suave inquietação,  deixo-me levar pela interrogação: que marca distorcida deixarei nos meus filhos? Serão justos comigo?

3.12.14

Ao estilo do Observador


Ria-se com Paul Ewen*

São poucos os livros cómicos, satíricos e hilariantes sobre escritores contemporâneos que se lêem numa tarde. Lost for Words do excelente Edward St Aubyn não é um deles. São tão poucos que só conheço um, também de 2014: How To Be A Public Author, de Francis Plug.

É uma reportagem ficcionada de Paul Ewen. A parte imaginada tem menos graça do que a reportada, mas há momentos de confluência das duas partes que são magníficos e que provam um talento enorme, gloriosamente desgovernado, irresponsável e imaginoso. Acho que é o primeiro livro que ele publica.

Depois de muitas rejeições foi, mais uma vez, a Galley Beggar Press (que estreou a obra-prima Beckettiana A Girl is a Half-formed Thing da electrificante Eimear McBride) a editora que percebeu o jeito original de Paul Ewen.

Vá ao site da editora onde poderá comprar, para além do livro de Paul Ewen (que é, diabos me grelhem, mais barato como fantasma no Kindle), a edição paperback da Faber de A Girl is a Half-formed Thing por apenas 7 libras.

Paul Ewen – um escritor neozelandês disfarçado de humorista – é também um jornalista de primeira apanha, atento a cada pormenor.

O melhor do livro dele são os encontros vedadeiros com os escritores que ganharam o prémio Booker. São observações de um leitor leal que desconfia, com razão, das manobras de promoção.

O mundo ideal dele é moralista e moralmente perfeito: os escritores escrevem e os leitores lêem.


Ele é o contra-ataque. E ganha.

Tiago Tibúrcio

* Tem a impressão de já ter lido isto em qualquer lado? Impressiona-se bem. É a crónica de Miguel Esteves Cardoso no Público de hoje. "Escrita" aqui por mim ao estilo do Observador, que não tem pejo em copiar textos de terceiros (neste caso, o de David Crisóstomo) e apresentando-os, indecorosamente, como seus (via facebook de Maria João Pires)

Alguém que pegue na crónica de hoje do Rui Tavares e a converta numa petição ao Parlamento Europeu. Obrigado.



1.12.14

Desperdiçamento ilícito

Já tive oportunidade de explanar neste blog, com acutilância e pertinência (confiem em mim), o que penso sobre a questão do enriquecimento ilícito. Mas uma coisa leva a outra e assalta-me uma questão. Não é tanto imaginar-me a ter de justificar onde gastei o meu dinheiro no último mês, no último ano, no último.... Não saberia fazê-lo mas, em última instância, arriscaria dizer que grande parte vai para cajus, o que não andaria longe da verdade. Já se me obrigassem a justificar o que faço com o meu tempo, a inversão do ónus da prova tramar-me-ia na certa. Na ausência de uma explicação, presumir-se-ia que tinha andado a fazer malvadezas. Não raro, passo o dia em casa e trabalhar e no final tenho pouco ou nada para mostrar. "Que estiveste a fazer o dia todo?", perguntam-me, não sem razão. Não sei explicá-lo e, nas distopias que nos propõem, estaria certamente a caminho do xilindró. Por desperdiçamento ilícito. 

28.11.14

Informação Alsa

Que diacho, todos os órgãos de comunicação social a fazer, numa questão de segundos, publicidade ao novo star wars. Estou curioso como muitos mas há qualquer coisa que não bate certo quando a fronteira entre publicidade e informação parece feita de gelatina.

Citando Daniel Oliveira a propósito do caso Sócrates (tudo é reconduzível a isto): "Se o jornalismo se limita a publicar acriticamente informações de investigações que não são suas e a fazer esperas a pessoas à entrada de prisões, o jornalista está algures entre o estafeta e o porteiro.". Neste caso parece coisa mais próxima do jornalismo estafeta.

Agora, trailer do Star Wars 7 (que não tenho carteira de jornalista)


Ódios de destruição massiva (que querem, sou uma pessoa sensível)


Todos teremos os nossos ódios de estimação. Uns mais do que outros (há quem os colecione). Outros mais inflamados do que outros. Uns mantemo-los em privado. Outros, partilhamos em  público. Nada de muito mal. Mais ou menos fundamentados, estes ódios fazem parte das nossas idiossincrasias, e também iluminam o debate público.

Mas mal há quando se cultiva este ódio público por arrasto. Quando se considera que quem defende os nossos ódios de estimação merece idêntico tratamento. Já não é só o Sócrates mas os que defendem o Sócrates e os que defendem os que defendem o Sócrates. Já não é só quem considera o Sócrates o diabo na terra. Mas todos quanto admitem a sua culpabilidade. E até mesmo quem manifeste confiança no funcionamento das instituições pode ser considerado merecedor de "ficar um dia à mercê da má-fé de alguém e de uma câmara de televisão ou de um jornal".

Este ódio de destruição massiva está a contaminar de podre o ar que respiramos. Tanto afiamos facas para dirigir aos nossos inimigos, como a quem se atravesse no caminho. Ou esteja simplesmente a passear. Não, não gostei da crónica de ontem do João Miguel Tavares. E tampouco da de hoje do Ferreira Fernandes.

 

Dizem que o poder corrompe; mas também modera

Podemos abandons most radical proposals in economic program

A importância dos implicitos


Dois dias, uma noite, o último filme de Jean-Pierre Dardenne e de Luc Dardenne, mostra-nos, ensina-nos muitas coisas. Uma delas é a imprescindibilidade dos sindicatos. 

27.11.14

Natal

"Papá, no canal disney dizem que, no natal, os sonhos vão-se realizar", diz o filho, visivelmente entusiasmado com a informação (ele acha que é informação) recém-adquirida. Pai esboça sorriso, seguido de preocupação, e refere vagamente dificuldades financeiras do pai natal. Depois - e sem surpresa - faz uma palhaçada qualquer com o intuito de mudar de assunto. 

Palhaçada

Uma pessoa lê, com agrado, o supra infra referido livro do Nuno Costa Santos. A páginas tantas (quer dizer, na página 145), e em função de uma tipologia de classificação de pais proposta pelo autor, uma pessoa (a mesma que leu o livro) é chamada de palhaço. De pai palhaço. Tudo bem.

Um dia ainda hei de vir a saber quem é o david foster wallace, cujo nome irrompe, dia sim dia não, a propósito de tudo e de nada, à frente dos olhos. sei apenas que morreu novo e que escreveu aquele longo livro. mas justificará esta boa imprensa?

26.11.14

Cada um tem as coincidências paul austerianas que merece

Centenas de páginas para imprimir. Um número limitado de folhas brancas em casa (para surpresa diária minha, tenho uma fonte inesgotável de folhas de rascunho). A última folha a imprimir é a última folha disponível. Felicidade.  

Amizade

Lia com irreprimível inveja relatos magníficos de amizade. Pessoas que dão tudo pelos amigos, e principalmente tempo, muito tempo, o tempo que for preciso, talvez aquilo que de mais precioso se pode oferecer a um amigo. Também os via nos filmes, os relatos, não sem sentir um certo desgosto. Não se lembrava de alguma vez ter feito um gesto destes, de irrefutável amizade, que persuadisse qualquer jurado americano beyond reasonable doubt. Possivelmente, defender-se-ia alegando as circunstâncias, ou a falta delas, as que proporcionariam as condições para o desejado gesto. Talvez convencesse em juízo, mas a insidiosa dúvida subsistiria no tribunal da sua consciência.

25.11.14

Sócrates. Tentar arrumar as ideias (não é fácil, porém). Decálogo.

1 - Não sei se José Sócrates cometeu os crimes de que é suspeito, indiciado, acusado no espaço público. Se os cometeu, é muito grave, tanto mais se o fez enquanto estava em funções. É mais ou menos tudo quanto tenho a dizer. Bem...

2 - Se José Sócrates não cometeu os crimes de que é suspeito, indiciado, acusado no espaço público é ainda mais grave. Por ser sempre mais grave um inocente passar por isto do que um culpado ficar impune, como muitos já lembraram. E porque, nestes últimos anos, se foi avolumando, inclusivamente no seio do poder judiciário, um sentimento justicialista anti-política que legitima dúvidas sobre a possibilidade de contaminação de um processo desta natureza.

3 - Sinceramente, não tenho uma opinião muito sustentada quanto à eventual desproporção da  detenção e condições do posterior interrogatório. Não sei se foram ou não. Nem posso sabê-lo.

4 - Já sei, embora seja tudo menos um fenómeno novo, que é cada vez mais alarmante o impacto pernicioso na justiça que decorre da promiscuidade entre alguns jornalistas e a órgãos judiciários. E assim deverá continuar, atendendo a que, mesmo os que genuinamente a isto se opõem, pouco oferecem além de impotência e um túnel no fundo do túnel.

5 - Quanto à prisão preventiva, confesso igual incapacidade para aferir da justeza da medida, embora me falte imaginação para ver preenchidos os pressupostos que, nos bancos da faculdade, dizem poder determinar esta medida de coação. E a ausência de qualquer justificação pública desta medida por parte do juíz de instrução criminal obscurece, inquieta, em vez de iluminar.

6 - Porque é fundamental que a justiça ilumine. Porque a justiça deve uma obediência cega ao princípio da presunção de inocência, tanto quanto é humanamente possível. Mas este postulado acaba na prática às portas do edifício da justiça. Cá fora, ele de pouco vale. Para o bem e para o mal. As convicções das pessoas formam-se libertas de quaisquer códigos. Razão pela qual compreendo mal que o jornalismo seja frequentemente absolvido neste papel a que se presta em nome do direito à informação. Como todos os outros direitos, este não é absoluto, e a sua realização pode, muitas vezes, colidir com outros de igual ou superior valor. Voltando ao travessão que encima este ponto, daí a importância que a justiça ilimine, sempre que o possa fazer, pois isso também concorre contra a presunção da culpabilidade que uma medida de coação desta natureza inspira em muitos cidadãos.

7 - A justiça. Apesar de tudo (e muito cabe neste tudo), confio nela e na generalidade dos seus agentes e que, embora tardando, acaba por se fazer.

8 - A política. Não nutro qualquer confusão entre aquilo que é o legado dos governos chefiados por Sócrates e as suspeições que impendem sobre o ex-primeiro ministro. A política de educação, o complemento solidário para idosos, o apoio à Ciência e à investigação, o casamento gay, etc., e aquilo que representam para a comunidade não saem diminuídas por esta situação. Nem podem ser por ela contaminada. Não vejo por isso qualquer embaraço em assumir com orgulho estes (ou outros) legados políticos sem entrar em qualquer conflito (ético, político ou outro).

9 - Isto não se confunde com qualquer "rouba mas faz", ideia mobilizadora de campanhas amoralizadoras, como a de Isaltino em Oeiras. De forma clara: qualquer pessoa que seja considerada culpada de crimes daquela natureza fica inabilitada para exercer um mandato público. E talvez dissesse acusada se não fosse ver a aparente facilidade com que às vezes uma pessoa pode cair nas malhas acusatórias da justiça.

10 - O regime. Sobre isto, esbulho sem pudor as palavras de Ricardo Paes Mamede em texto no Ladrões de Bicicletas. E defender e melhorar este regime democrático, o melhor da nossa história e o que mais progresso trouxe aos seus cidadãos, é uma tarefa que devia convocar-nos a todos.

PS: uma pessoa é bem intencionada e quer o melhor para a comunidade mas vê os termos em que a associação Transparência e Integridade (TIAC) anuncia a sua participação no Prós e Contras de ontem, "em nome de um país limpo", e apetece ser corrupto. 

21.11.14

Vale a pena emigrar por instantes para o país de Nuno Costa Santos. É assim um livro que aproxima. E que dá vontade de ir bater à porta do vizinho a perguntar se precisa de alguma coisa


Recordar os clássicos


Anabela Mota Ribeiro aproveita frequentemente o seu facebook para nos recordar (ou será recordar-nos?) entrevistas que fez e que só são antigas do ponto de vista cronológico. E ainda muito bem. Como esta, a Ruy Castro, que, entre outras coisas, escreveu uma biografia de Nelson Rodrigues. Anabela Mora Ribeiro também colocou há uns dias uma entrevista a Pedro Adão e Silva, que também vale muito a pena ler mas que para o caso apenas me interessa por citar Ortega Y Gasset, que diz qualquer coisa como o que separa os homens dos orangotangos é o facto de terem memória. E a memória que me assalta quando oiço falar do Ruy Castro é o monumental despique, nos primórdios da blogosfera, entre o gato fedorento Ricardo Araújo Pereira e os colunistas infames Pedro Mexia e Pedro Lomba a propósito daquela biografia de Nelson Rodrigues. Se um texto clássico é algo de intemporal, suponho que isto seja um clássico.

Têm a certeza, senhores jornalistas (um pouco por todo o lado) que esta coisa dos calendários pirelli e das estrelas michelin é matéria noticiosa que justifique esta ampla difusão? Ou mesmo matéria noticiosa? É o lóby dos pneus?


20.11.14

Ontem os Cavaliers jogaram contra os Spurs. Gravei o jogo. Não sei o resultado. Vou ver enquanto almoço. Fui há pouco ao twitter. Vi que uma das equipas ganhou por 2 pontos (2!). Mas continuo sem saber qual. Estou a ficar nervoso. Vou preservar-me neste estado e desligar todos os cabos que ligam o meu computador ao resto do mundo, vulgo Internet. Acho que vou almoçar (11h25)

Breve comentário aos textos do jovem dirigente socialista e do ex-dirigente de meia idade do mesmo partido


Tiago Barbosa Ribeiro escreveu um texto.

Francisco Assis respondeu-lhe com outro.

Alinho genericamente com o Tiago Barbosa Ribeiro quanto à questão de fundo. Discordo, no entanto, da forma como o fez (aí acho que Francisco Assis tem razão), criticando a veleidade de se exprimir uma posição contrária ao sentido da vitória de Costa. Discordo porque seria sempre legítimo vir a público debater esta (qualquer) ideia. Mesmo que ponham em causa teses que beneficiem da expressiva vitória de António Costa. Um partido plural é aceitar isto, sob pena de ser verbo de encher. Discordo ainda porque a questão das afinidades e alinhamentos político-partidários (e mesmo os ideológicos) não é, infelizmente, uma questão tão pacífica quanto Tiago Barbosa Ribeiro dá a entender. E o texto de Francisco Assis e as reações que mereceu (positivas e negativas) provam-no bem.

Franciso Assis confunde uma pessoa. Independentemente do seu posicionamento claramente à direita de onde é permitido ao PS situar-se, reconheço-lhe no passado recente momentos inspiradores em defesa dos valores fundamentais da nossa democracia. A tentativa de desqualificar o seu interlocutor neste debate, recusando nomeá-lo, é indigna e uma sinistra forma de entender como se deve fazer um debate no espaço público.

18.11.14

Estou enduvidado quanto a querer ler o livro de Rentes de Carvalho sobre o 25 de abril. Gosto tanto do resto da sua obra...

A contar os dias para acabar a maldição de um mês de sport tv à borla


Queria não tropeçar nestas pedras. Resta saber se o problema é das pedras ou da sola dos meus sapatos (provavelmente a pior analogia que alguma vez fiz. E olhem que tenho um currículo assinalável neste domínio)


Tem tudo (vá, muito) para que simpatize com ele. A Convocatóriada Convenção para uma candidatura cidadã. Ideias com que, genericamente, me identifico, um diagnóstico certeiro da situação em que nos encontramos (social, economico-financeira e, não menos crucial, politicamente) e pessoas com um currículo partidário e de intervenção pública que admiro.

Dito isto (e por causa disto), não gostei particularmente do texto da convocatória. Para ser franco, engulha-me a omissão em relação ao partido Livre - sem o apoio do qual não é sequer possível formalizar candidaturas às legislativas -, bem como às restantes formações políticas que estão na sua origem, como o Fórum Manifesto. Claro que toda a gente sabe disso. Mas é fraca justificação. Também sabemos muito do que lá está, da defesa do estado social, da promoção do conhecimento à proteção do trabalho, passando pelo aprofundamento da democracia, em Portugal e na Europa.
Reconheço que há aqui algum picuinhismo e amanhã talvez tenha outra sensibilidade. Mas hoje acho o texto demasiado cidadania e sociedade e pouco partido. Demasiada cidadania porque esta tem muitas vozes, parte das quais apoiam outras ideias e alternativas políticas. Pouco partido porque gosto dos partidos. E gosto deles porque, ao contrário da sociedade, sei quais são as suas ideias.
Não quero menosprezar a louvável abertura (inédita, sim) deste processo à sociedade, a todos os que não estão envolvidos na atividade partidária. Pelo contrário, acho esta abertura ao envolvimento dos cidadãos crucial para uma relegitimação da política e das escolhas que implica. Mas isto não deve ser feito à custa de uma desvalorização do papel dos partidos, igualmente fundamental. E o papel do partido Livre aqui não pode ser o de mero veículo para abrir as portas a uma candidatura mas o de peça fundamental para corporizar e dar coerência ao projeto que venha a sair dali.
E dizer isto é tanto mais estranho quanto as pessoas que estão envolvidas mais ativamente nisto, do Rui Tavares ao Daniel Oliveira, contam-se entre aqueles que mais têm feito pela pedagogia partidária no espaço público. Infelizmente, gostava de ter visto isso refletido na convocatória. Mas pode ser apenas miopia minha (sem ironia).

13.11.14

Aos seminaristas da língua

Informo que o dicionário contempla o plural de fórum, na inusitada forma de, no lugar do "m", se apor um "n" e um "s": exato, fóruns (!).

Podem, assim, os latinistas de serviço deitar fora os fora com que ainda insistem em nos baralhar.

Acrescente-se que, ainda que não se desse o caso deste acolhimento dicionarístico, compreendia-se mal que se usasse o latiníssimo fora para designar uma pluralidade de fóruns. É que a compreensibilidade e o ridículo também devem servir para parametrizar o uso de uma língua, nomeadamente na forma oral.

Agora, basta de aranzel, que vou dar o fora.

Sim, tive três anos escolares de latim e odiei cada minuto.

Governo chumba teste monty python

Neste brilhante skech dos monty python, há um grupo de resistentes à ocupação romana da judeia  que é obrigado a reconhecer, apesar de tudo, os aspetos bons do governo dos romanos. É o momento em que os críticos, não deixando de o ser, são forçados a reconhecer algum do legado positivo deixado pelos seus adversários políticos (e alguma coisa mais positiva haverá sempre, presume-se).

Por isso se impõe o teste: o que é que este governo alguma fez por nós? Qual é o legado positivo deste governo?

12.11.14

Esquizofrenia do Bloco Central

Ele existe, claro, e não apenas na rádio. Mas não é tão amplo quanto se quer fazer crer. Sob risco de implosão. É que o chamado bloco central, e os partidos a ele associados, são acusados ao mesmo tempo de, por um lado, fazer tudo igual, indistinguindo-se, e, por outro, uma vez no poder, rasgar o trabalho do antecessor e fazer tudo diferente. O que, como diria o senhor francês que estava vivo antes de morrer, talvez sugira que nem tudo é igual nem tudo é rasgado e feito diferente. São pouco úteis estes grandes chapéus.

(Livros a ler; abrir nova pasta; os 5 melhores livros de ex-presidentes americanos)


De acordo com Ted Widmer, historiador na Brown University, estes são os cinco melhores livros de ex-presidentes americanos que, tal como o artigo do Politico, valem mesmo a pena ler.

- Thomas Jefferson, Notes on the State of Virginia (1785 Paris, 1787 London)

- Ulysses Grant, Personal Memoirs of U.S. Grant (1885)

- Herbert HooverFishing for Fun and to Wash Your Soul (1963)

- Dwight D. Eisenhower, At Ease: Stories I Tell to Friends (1967)

- Jimmy Carter, An Hour Before Daylight: Memories of a Rural Boyhood (2001)


11.11.14

10.11.14

Lembrar o presente


O Muro de Berlim caiu há 25 anos. Gosto de efemérides que ainda nos são próximas, e desta em particular. São um bom pretexto para recordarmos o que não devia estar tão esquecido ao longo do ano. Ou dos anos. Mas é precisamente aqui que isto se torna um pouco bizarro. É pouco, muito pouco, estas evocações de números redondos. Que nos recordam, por exemplo, por breves instantes a relação problemática que o PCP tem com a liberdade. Para logo de seguida se amnesiar. Precisamos treinar mais a memória do presente.