Politicamente, interessam-me especialmente as histórias das pessoas que não têm as oportunidades para melhorar a sua vida e a dos seus filhos. Nos filmes e nos livros, entretêm-me as histórias dos que, não tendo à partida oportunidades, conseguem criá-las, quase do nada, reescrevendo o final do guião que lhes estava destinado. Mas, também (era até mesmo capaz de usar aqui um sobretudo), as histórias daqueles que, tendo oportunidades, criando essas oportunidades, não conseguiram aproveitá-las inteiramente. A sua tragédia (a haver alguma) é a de colocarem sucessivamente a fasquia alta de mais, de alimentarem a ilusão de conseguirem fazer mais do que realmente são capazes. Uma espécie de coiotes do road runner, em que o beep beep é a vida que gostariam de ter.
23.3.15
O homem é o lobo do homem. Ou pode ser apenas o seu coiote.
Politicamente, interessam-me especialmente as histórias das pessoas que não têm as oportunidades para melhorar a sua vida e a dos seus filhos. Nos filmes e nos livros, entretêm-me as histórias dos que, não tendo à partida oportunidades, conseguem criá-las, quase do nada, reescrevendo o final do guião que lhes estava destinado. Mas, também (era até mesmo capaz de usar aqui um sobretudo), as histórias daqueles que, tendo oportunidades, criando essas oportunidades, não conseguiram aproveitá-las inteiramente. A sua tragédia (a haver alguma) é a de colocarem sucessivamente a fasquia alta de mais, de alimentarem a ilusão de conseguirem fazer mais do que realmente são capazes. Uma espécie de coiotes do road runner, em que o beep beep é a vida que gostariam de ter.
Não costumo fazer estas coisas mas como sei que este é um assunto que sobressalta muitos de vós, partilho-o aqui:
A inquitação
Porque raio se diz que "cair que nem sopa no mel" (um nojo, sob todos os pontos de vista por que se olhe) é uma coisa boa?
A desinquietação
"Reinaldo Pimenta dá a seguinte explicação no seu livro A Casa da Mãe Joana – Curiosidades nas Origens das Palavras, Frases e Marcas (Editora Campus, Rio de Janeiro):
«Sopa no mel. É alguma coisa que vem a calhar, que é muito conveniente. Mas quando é que a sopa no mel deixa de ser uma grande e repugnante lambança e vira algo apropriado?
A palavra sopa vem do germânico "suppa", pedaço de pão embebido num líquido, sentido, pouco usual, com que existe também em português. Daí o verbo ensopar, embeber em líquido. (Quando uma pessoa volta de uma caminhada sob um temporal e diz que está ensopada, todo o mundo entende que ela está muito molhada. Ninguém pensa que ela escapou de morrer afogada numa tigela de sopa.)
Depois é que a palavra sopa passou a designar o caldo em que se punham pedaços de pão e outros ingredientes. O sentido se ampliou para qualquer caldo de carne, massa, legumes ou outras substâncias, muito raramente com os pedaçosde pão que apareciam nas primeiras sopas.
Na expressão sopa no mel, sopa é o pedaço de pão embebido em água fervida com carnes e legumes. Mergulhado no mel, ele ganharia ainda mais sabor e teor nutritivo.»
Retirado do magnífico Ciberdúvidas
19.3.15
18.3.15
16.3.15
Palavrões
A páginas tantas, Adília Lopes escreve sobre palavrões. Sobre como a sua mãe em criança não conhecia palavrões e que uma vez, zangada, inventou: chichi cócó pum pum.
Numa outra parte do livro, conta que alguém, também criança, não podendo dizer a palavra de cinco letras, desabafava: arroz.
É nisto que penso quando leio na imprensa, portuguesa ou de outras paragens: "sh*t", "m***a", ou outros asteriscos.
Numa outra parte do livro, conta que alguém, também criança, não podendo dizer a palavra de cinco letras, desabafava: arroz.
É nisto que penso quando leio na imprensa, portuguesa ou de outras paragens: "sh*t", "m***a", ou outros asteriscos.
Gatos
Gosto da Adília Lopes. Não lia nada dela desde que deixei de
ler... (não me lembro em que revista ela escrevia). Mas gostava do que escrevia.
No outro dia, comprei o seu novo livro, "Manhã". Dou conta agora: nada
vi sobre gatos.
15.3.15
Ir ao chinês
Imaginar-me com uma loja num país distante e os habitantes locais a dizerem: "vamos ao português?", "o português isto" e o "português aquilo". Da próxima vez, pergunto qual o nome da loja.
13.3.15
Corrupção e crise. Passo atrás. Perspetiva
Se, por milagre, pudéssemos acabar hoje com toda a corrupção do país (do mundo, se preferirem), havíamos de perceber que continuaria a haver crise, políticas que mais não fazem do agravá-la, uma iníqua repartição dos sacrifícios ou um modelo institucional europeu que não está a conseguir acudir às diferentes necessidades de economias tão díspares como a alemã e a grega ou a portuguesa.
12.3.15
A arte da fuga
Gosto de pensar a democracia como metáfora. Uma vez, coloquei aqui um pequeno vídeo em que a antiga juíza do Supremo Tribunal dos EUA Sandra O'Connor conversava com o músico Winton Marsalis. Em 2,21 minutos, os dois explicam como é que o funcionamento de uma boa democracia, nomeadamente dos seus poderes chave, se assemelha ao funcionamento de uma boa banda de jazz.
É aqui que eu entro, propondo um upgrade metafórico. O debate político parece frequentemente
perturbar o ritmo do funcionamento das instituições democráticas. Embora
partindo de um tema comum, logo surge uma polifonia de vozes, que entram
sucessivamente no debate, entrelaçando-se umas nas outras. Parece que não fazem
parte da mesma banda. Equívoco. As instituições de uma democracia são a banda
de Marsalis. Mas a democracia, compreendendo o debate democrático, é mais uma fuga, como esta, de Glenn Gold, que aqui se republica.
11.3.15
Há dois anos, fiz, com a minha filha, um trabalho para ela apresentar na escola (ainda a primária ia no adro). Aprendi muito. Ela aprendeu mais (é assim). Ficámos muito orgulhosos. Tropecei hoje neste trabalho, destinado a perder-se no caos de ficheiros que é o meu computador. Guardo-o aqui para que os meus filhos nunca se esqueçam dos pais maravilhosos que têm.
10.3.15
Elogio do Prós e Contras
Não costumo ver. Mas já vi muitas vezes. E, apesar de todos os seus defeitos, acho que o Prós e Contras é dos melhores programas de debate político da televisão portuguesa. Consegue acompanhar as principais questões da atualidade nacional, tentando, pontualmente, refletir sobre aspetos mais perenes da sociedade portuesa. É relativamente plural, tanto nos convidados principais como nos que são chamados a comentar da plateia. Esforça-se por falar para as massas. Passa na televisão generalista, o que, em si mesmo, é um feito. A apresentadora tem momentos maus (abundantemente glosados nas redes sociais) mas faz perguntas, mesmo as que são parvas, que se colocam a muitos espectadores (presumo, claro) e isto, nem sempre parecendo, pode ajudar a esclarecer. Desejavelmente, o debate democrático não deve ficar confinado aos especialistas e aos especialistas que ouvem os especialistas.
9.3.15
8.3.15
Saltos altos
Compreendo a mensagem de os homens se porem na pele das
mulheres, de lhes calçarem os sapatos. Mas esta campanha de homens calçarem sapatos
altos por um dia parece-me bastante parva. Na exata medida em que me parece
bastante parvo as mulheres andarem com estes sapatos.
6.3.15
E ainda é mais chato do que parece, embora se descubra que alguns autores que pensávamos de um género são, afinal, de outro (e não consta que tenham mudado)
Um dia, quando estiverem à procura de ideias para trabalho
cívico, hei de propor: substituir as iniciais dos primeiros nomes pelo nome
completo em bibliografias académicas. Consoante a gravidade da falha: paper,
teses de mestrado e de doutoramento (aqui, fuga ao fisco ou à segurança social,
por exemplo)
5.3.15
O Público faz 25 anos
Alimento (quase que ia dizendo nutro) uma certa irritação
por aquelas pessoas que aproveitam a celebração de um qualquer acontecimento
para, olhando para o seu umbigo, falarem mais de si do que do outro. Morre
alguém e logo o facto se converte em pretexto para recordar aquela vez muito
especial em que o homenageante privou com o homenageado, insinuando-se,
embora involuntariamente, na sua importância. O sublinhar do sucesso de um ou
das qualidades humanas de outro mais parecem servir para fazer levitar, por
instantes, o estatuto do sublinhador.
Isto a propósito dos 25 anos do Público de hoje. Ora eu
estava lá. Comprei (compraram-me) o primeiro número. Dez anos mais tarde, foi
na versão eletrónica deste excelente jornal que eu, pelo breve instante de um
ano e quatro meses, tive o meu primeiro trabalho. E privei, claro, embora muito menos do que possa
parecer. E aprendi muito, mas mesmo muito, como aspirante a jornalista que
nunca cheguei verdadeiramente a ser. Principalmente a escrever. Não escrevia bem. Nem posso
dizer que o faça agora. Mas escrevo muito melhor do que antes de ter passado
por lá. Ficou-me o fascínio pela magia da frase editada, que ganha, numa lógica
inversamente proporcional, clareza à medida que vai perdendo palavras.
E já que estamos a falar dos 25 anos do Público, não posso
deixar de lembrar que trabalhei com pessoas que nunca se pouparam, em generosidade
e disponibilidade, a ajudar e ensinar alguém que vinha de outra escola (para
ser sincero, sempre tive a sorte de trabalhar com pessoas assim). Ajuda
preciosa, para quem tinha de enfrentar os altos padrões de exigência (assim o
recordo) de José Vítor Malheiros, diretor do PUBLICO.PT, uma espécie de (e
agora vou entrar num domínio que me é particularmente familiar: as más
analogias) J. K. Simmons no filme whiplash, embora nem nós
fôssemos génios nem ele recorresse a métodos eticamente questionáveis para
tirar o melhor de nós. Mas intimidava. Como, se calhar, toda a exigência.
Também tive desilusões. Vi uma profissão com o rei na
barriga, que exerce o enorme poder que tem com pouca humildade (a humildade que
impede formar certezas com pouco; humildade para o exercício da auto-crítica).
Mas, dizia eu, aposto que não vai faltar quem aproveite o pretexto dos 25 anos do Público para falar de si. Típico.
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