18.11.15

É como as alfaces. Quanto mais frescas, melhores. (eu não escrevi isto).

Que o Presidente da República representa um contraponto de legitimidade democrática à igualmente democrática legitmidade do parlamento é indisputável. Um e outro recebem diretamente dos cidadãos a confiança para o exercício de funções. Que estas legitimidades podem chocar é da natureza do sistema semi-presidencial. Que não é indiferente o momento em que se recebeu essa confiança é algo que parece ser confirmado pelo bom senso (não resisti), pela prática dos sistemas análogos e, diria, pela própria Constituição (quando, por exemplo, retira ao Presidente o poder de dissolução do parlamento no último semestre do seu mandato). 

Que o Presidente da República se considere autorizado para, a escassos meses do fim do seu mandato, disputar um braço de ferro desta magnitude com a recém legitimada maioria parlamentar como se tivesse sido eleito ontem é também um sinal de dessintonia deste presidente. Com os portugueses e com o seu papel no sistema político.

Digo-o sem falsas modéstias. Acredito ser das pessoas – senão mesmo a pessoa – com mais bom senso que conheço. É, pois, raro não reconhecer esta qualidade nas minha opiniões.

Penso também que isto diz tudo acerca da pertinência de chamar o bom senso para o debate público.

14.11.15

Aux larmes, citoyens

Manter a cabeça erguida. Não dobrar. Nem ceder perante a chantagem do medo. Nem comprometer as nossas liberdades em nome desta luta. Mas, antes de tudo o mais, chorar. Pelas vítimas deste massacre. Nossos concidadãos. Aux larmes, citoyens. E depois o resto.

Sem palavras

Nenhuma palavra, nenhuma frase, parece capaz de traduzir fielmente o que vai cá dentro. Nem as palavras dos outros. Nem estas, por mais que sejam as minhas. Porque nem sempre as palavras o conseguem fazer. Mas, sobretudo (acho que é sobretudo), não sendo a primeira vez que o horror acontece, lamentá-lo nos mesmos termos em que o fizemos da última vez tem o estranho sabor da banalização. Somos todos parisiences, franceses, humanos. Mas sinto que devíamos ser mais, muito mais, embora, provavelmente, não haja mais nada para ser. E isto também dói.

11.11.15

O argumento excecional


Fazer paralelismos com o tempo da outra senhora é sempre um exercício arriscado e, interpretado à letra, muitas vezes injusto e de mau gosto Mas sem opinião de risco isto dos blogues e do facebook não tinha qualquer interesse. E, feita a ressalva, só interpreta à letra quem quer. Então é assim. A leitura que muita direita está a fazer do que deveria ser o bom funcionamento da democracia representativa (com contributos, ainda que raros, de alguma esquerda), baseada em tradições peculiares e muito nossas, pede meças ao “orgulhosamente sós” de má memória. É que a democracia representativa existe lá fora e, em sistemas análogos ao nosso, tem corolários que se aplicam em todas as latitudes parlamentares (pelo menos nas democracias mais democráticas). Um deles é que o governo retira a sua legitimidade do parlamento, que lhe pode negar e retirar a confiança. Não existe, a este respeito, qualquer excecionalidade lusa. Apesar de ter visto, nestas últimas semanas, (re)interpretações da nossa democracia excecionalmente engraçadas.

Explicar, para surpresa do filho com meia dúzia de anos, que os muçulmanos não celebram o natal. Olhar de incredulidade, antes de retorquir: "mas festejam, pelo menos, o halloween!?"

À tarde, no carro, ouvindo em direto pela rádio a votação da rejeição do programa de governo, celebrei, com os meus filhos, a queda deste governo. O mesmo filho citado em título desabafou: "espero que o Passos Coelho não vá agora para o Livre!". (não perguntem).

São assim grande parte dos meus dias.

9.11.15

Desafio: encontrar uma única democracia parlamentar em que, havendo uma maioria parlamentar de apoio a um governo, se indigite/mantenha um executivo apoiado por uma minoria de deputados.

09-11-1989. Já alguém terá notado mas celebrar um acordo à esquerda praticamente no dia em que se comemoram (1,2,3...) 26 anos da queda do muro de berlim é bonito, sim senhor.


E pensar que António Barreto, com uma coluna de opinião com este mesmo título ("Sem emenda"), era bem capaz de ser, há mais de 20 anos, o meu colunista preferido na imprensa portuguesa.

Mete, de facto, dó. Tanto reacionarismo.

"A situação actual da Assembleia da República não é totalmente inédita e não data apenas deste último mês. Na verdade, é ponto de chegada de um processo gradual de subalternização e decadência de que há numerosos indícios. Vários foram os sinais dados. Aluga-se o hemiciclo para festas e filmes! Nos Passos Perdidos fazem-se exposições! No rés-do-chão canta-se o fado! Nos claustros, come-se sardinha e bebe-se jeropiga! De vez em quando, crianças das escolas brincam aos deputados! Este Parlamento mete dó!"

António Barreto, DN, 8 de novembro de 2015

Estranhar, entranhar; normalidade

Não me agrada mas não me preocupa sobremaneira o ambiente extremado que se vive perante a perspetiva de um governo com o apoio da esquerda. Daqui a um, dois, três, quatro anos, o que é hoje inesperado será encarado com mais naturalidade. E o que é desconhecido, e que alimenta as acusações de uns e a esperança de outros, estará aí para que possamos julgar. E aí, teremos um país mais normal. 


5.11.15

Mudanças radicais e moderadas

Num inquérito sobre os partidos portugueses, perguntam-me qual a predisposição de cada um para apoiar o sistema e o modelo político e social vigente ou, pelo contrário, propor alterações políticas e institucionais a esse mesmo sistema.

Com um certo sentido de revelação, noto que os partidos radicais de esquerda destacam-se pela defesa do sistema, ao passo que (que bela expressão!) os partidos da direita dita moderada e conservadora têm-se destacado por quererem mudá-lo.

Outra tradição que se perdeu.

O meu problema com "o meu problema com a esquerda" de João Miguel Tavares

João Miguel Tavares tem alguma razão em identificar como um problema a falta de uma graduação comum nas lentes com que a esquerda e a direita vêem a realidade. E que sem esse denominador comum é difícil acordar qualquer resposta à crise. Só claudica num pequeno pormenor. Parecer achar que o problema não é simétrico. À esquerda e à direita. Um exemplo óbvio: a recorrente omissão da direita em relação aos fatores externos na crise portuguesa (do impacto do início da crise financeira ao papel do bce). Outro exemplo óbvio: este artigo do João Miguel Tavares. Ao achar que só a direita enxerga a objetividade dos factos que devem preceder qualquer discussão. Ou seja, o problema da esquerda seria não ver que a direita é que tem razão. Parecendo diferente, isto não anda longe das teses sobre consensos que habitualmente vêm de Belém.