7.12.15
Hein Semke
Descobri este fim de semana no CAM Hein Semke. Um artista alemão (pintor, escultor, ilustrador e outras dores) que se radicou em Portugal nos anos 30 e que veio a morrer aqui em 1995. Nada tem de especial eu nunca ter ouvido falar dele. Outros tantos muitos haverá de quem nunca ouvi falar. Mas uma pessoa não deixa de se interpelar quando descobre algo de que gosta muito e que sempre esteve aí. É isso, gostei muito. Íssimo. Tem duas telas intituladas "Parlamento" (também por aqui, é certo) e pelo menos uma chamada "Debate". As minhas preferidas, talvez. Pensei em fotografar mas depois desisti, lembrando que o google tem tudo e tira sempre melhores fotografias do que eu. Fui lá hoje. E, sobre estas obras, nada. Ou quase nada. Aparentemente, o google anda quase tão distraído como eu.
Caro Scorcese... esquece, não ligues.
Em matéria de filmes, saliento-me pelo saber, não direi enciclopédico (estaria a exagerar), mas aprofundado sobre aqueles que poderíamos chamar, sem desprimor para com os canônes da crítica cinematográfica, de filmes da treta dos anos 80 e 90. Uns bons (filmes da treta) outros bem mauzinhos. Mas todos eles cumprindo com competência o seu fim último: entretem (como diria, e a meu ver bem, o amigo do meu filho mais novo). Para infelicidade dos meus filhos, decidi(mos) partilhar algum deste saber com eles. Eles parecem apreciar. Da trilogia do Regresso ao Futuro, passando pelo Sozinho em Casa ou o Dennis, o Pimentinha. Se tudo correr como previsto, este estágio servirá para criar as bases para, um dia, lhes apresentar o maior dos filmes do género. Refiro-me, como já terão adivinhado, ao grande Jackie Chan. Can't wait.
4.12.15
(agora com adenda) Houve muito alarido a propósito da geometria variável de tratamento do atentado de Paris em comparação com outros. E bem. Espicaça-nos. Já vejo menos reflexão sobre o tratamento diferenciado que a imprensa está a dar ao despedimento de muitos jornalistas dos jornais da Newshold (“i” e “Sol”). Não condeno a forma como tem sido tratado. Antes pelo contrário. Mas não deixa de se notar o efeito da proximidade. Provavelmente, era assim que todos os despedimentos deviam ser tratados. Por vezes, o distanciamento parece servir menos o jornalismo do que a proximidade. Dá que pensar.
Adenda: sempre atenta às parvoíces que se escrevem um pouco por todo o mundo (uma espécie de NSA das redes sociais, mas tudo legal e público - suponho), a Maria João Pires / Shyznogud fez o seguinte reparo:
" hum, olha q se reparares n houve grande tratamento jornalístico dos despedimentos do i e do sol. houve muitos comentários em parcelas de redes sociais a q pertences, o q é diferente"
Fui confirmar, pois não levo lições sobre bocas de ninguém (sempre quis dizer isto).
Excepto neste caso, ao que parece.
Informo que o último mês foi o meu sexto mais produtivo de sempre
...
Há muitos meses que não escrevia tantos posts.
Há muitos meses que não escrevia tantos posts.
E porque este é um blogue para mostrar, daqui a uns anos, quão totós eram os meus filhos:
- Sabes quem mandou construir isto (o Aqueduto das Águas Livres)?
- Sei, foi o D. João Pinto.
- Sei, foi o D. João Pinto.
3.12.15
Os cobradores de promessas
Gosto de ler as crónicas de João Miguel Tavares. Por duas razões. Porque têm alguma graça. E porque conseguem a divertida proeza de enunciar um argumento que, frequentemente, é desmentido pelo próprio texto, ou de fabricar carapuças que, no fim, também a ele lhe servem. Hoje não é um desses casos. Mas anda lá perto. Ao explicar-nos que o grande mal deste governo, aquilo que deixa João Miguel Tavares “tão incomodado e tão incapaz de aceitar pacatamente o que aconteceu ao país”, é o messianismo de Costa e a fé nele depositada para mudar o estado das coisas.
É natural que JMT não se reveja no caminho proposto pela
esquerda. Mas o facto de não se rever, de achar que “é coisa nenhuma”, não quer
dizer que não exista. Até porque se não existisse, se fosse simplesmente mais
do mesmo, não se compreenderiam as acusações de radicalismo das escolhas (lá
está) deste governo ou as antevisões da desgraça para breve (no défice, no
crescimento, no pib, etc.).
Mas mais relevante é a forma como descarta qualquer
esperança neste governo com o labéu do messianismo. É o supremo cololário da
TINA. Não temos direito a políticas alternativas à austeridade. Nem mesmo à esperança
de que isso aconteça. Nem mesmo na hora zero de um novo governo. Se um governo
em início de mandato, com o objetivo de inverter uma política que contou ao
longo destes anos com a oposição de muitos partidos e setores da sociedade, não
deve ser um catalisador de esperança, não sei muito bem quando deva ser.
Citando o sketch infra embutido dos Gato Fedorento, o
messianismo “está mal!”. Mas JMT limita-se a um messianismo de sinal contrário, que
é o cinismo político. Não vale a pena. Nada vai mudar. E isto não só "está mal!", como “está errado!”.
Felizmente, a democracia é um caminho e não se esgota com as eleições. Feitas as promessas de que JMT se queixa, são elas que vão servir de bitola para avaliarmos o desempenho do governo (a promessa de algo é, pois, fundamental). Aqui estaremos para isso. No momento próprio. E que começa.... hoje.
Felizmente, a democracia é um caminho e não se esgota com as eleições. Feitas as promessas de que JMT se queixa, são elas que vão servir de bitola para avaliarmos o desempenho do governo (a promessa de algo é, pois, fundamental). Aqui estaremos para isso. No momento próprio. E que começa.... hoje.
2.12.15
E de tempos a tempos, o inevitável post sobre Sorkin
Uma belíssima crítica de Rui Zink de um filme que não vi mas com a qual concordo inteiramente (sim, é possível). Relativamente à parte inicial, e trazendo à liça as grandes séries televisivas, diria que Aaron Sorkin (Homens do Presidente) está para Spielberg como David Simon (The Wire) está para Coppola. E como esta observação foi tão boa, retiro-me por hoje. Até amanhã.
Mostrar o que se vale dois
O seu currículo era excelente e foi sempre um trunfo valioso para conseguir um bom emprego. Os problemas começavam quando tinha de trabalhar.
Mostrar o que se vale
Há muito, muito tempo atrás, amigos convidaram-me para escrever num blogue coletivo. Foi pura simpatia e um voto de confiança, visto que tinha escrito muito pouco que se visse. Raras vezes contribui e acabei despedido por inatividade (com justíssima causa). Algum tempo depois, começei a escrever aqui. Umas vezes mais, outras menos, outras muito menos. Mas mostrei, finalmente, o que valia.
Nunca mais fui convidado para escrever num blogue.
Nunca mais fui convidado para escrever num blogue.
Escolhos de algumas escolhas
Eu sei que sou eu mas tenho alguma dificuldade em compreender o sentido num editorial do Público de considerações como "E nem se percebe como pode ter havido quaisquer dúvidas sobre o assunto [relativamente à apresentação de uma moção de rejeição do programa de governo pela oposição]". Quanto à interpretação da rejeição, também discordo do entendimento do Público. Mas isso é interpretação dos factos políticos e ainda bem que as há. O que percebo mal são as escolhas políticas vendidas pela imprensa como inevitáveis. Quando não são mais do que estratégias. Boas ou más, mais ou menos eficazes. Mas há sempre uma escolha. Como, aliás, no-lo recordam em geral os filmes, bons ou maus. É porque é assim mesmo. E agora atentem. Maxime, em política.
1.12.15
O fim de outras praxes
Assisti "no outro dia" a uma prova de
doutoramento da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Nunca tinha
visto nada assim. Ou tão assim, pelo menos. Desta faculdade, que também é a
minha. Um júri visivelmente satisfeito com a qualidade do trabalho do candidato.
Uma arguição que suscitou interrogações, dúvidas, problemas, esclarecimentos,
como lhe competia, mas sem nunca cair, como vi suficientes vezes, na humilhação
- pela rasteira, pela desconsideração – gratuita do candidato. Uma academia que
celebra aquele que se coloca nos ombros do gigante de Newton (sendo o gigante o
conhecimento produzido pelos outros e, assim, o lugar que permite ver mais
longe), questionando-o sobre a solidez do seu esteio. Mas já não a academia que
adota a canelada como método para ver se o candidato cai do gigante. Claro que
são duas formas de testar a robustez do candidato. É fácil imaginar qual seja a
preferida dos duxes veteranorum. Parabéns a todos, portanto.
27.11.15
26.11.15
É provável que esteja a ser injusto. Até porque há muita imprensa que me passa ao lado. Mas não vi ainda nenhum bom enquadramento político sobre o papel que o parlamento deverá ter nesta conjuntura. Será, com certeza, reforçado, o que tem sido abundantemente notado. Em particular sendo o governo sustentado por dois partidos que não estão no Executivo, tornando o Parlamento o principal palco da negociação política. Já vi menos destacar-se o previsível aumento do poder das comissões parlamentares, onde se decide, e aprovam, os detalhes legislativos. Que é, como se sabe, onde está o diabo. E, lá está, o reforço do poder e do papel das comissões constitui um ótimo indicador de um parlamento mais forte e democrático. Como acontece, em geral, nas democracias mais maduras.
Contexto. A pouco e pouco, de acordo com a generalidade dos critérios que a literatura sugere, o parlamento português está a ficar mais crescido, mais forte, mais democrático. Enfim, mais consolidado. Futurologando um pouco, diria que a atual conjuntura política reforçará significativamente este quadro.
Não tenho acesso a informações privilegiadas nem de corredor. Mesmo assim, conheço bem (eu e muita gente) o percurso profissional de alguns membros deste governo. Não deixo por isso de me impressionar com o pouco que os media parecem saber sobre eles. E ainda o tanto que sabem sobre coisas que pouco ou nada interessam. E isto inquieta-me.
23.11.15
Memórias da FIS
A Maria João Pires recorda no facebook o tempo em que a FIS amedrontava
muita gente. Particularmente em França (isto na Europa). Datam de meados (início
de meados) dos anos 90 alguns dos seus atentados em Paris. Uma cidade onde, nessa
altura, era bem visível o patrulhamento policial (na minha memória, eram também militares,
mas não sei…). Também associo a esse tempo o fim dos caixotes do lixo em muitas
ruas de Paris. Claro que pode não ter nada a ver. O que tem a ver é a seguinte
história, para a qual não ganhei para o susto. Meados dos anos 90. Paris
patrulhada por militares (pelo menos na minha cabeça), impossível encontrar um
caixote do lixo sem estar fechado, recordando, pelo menos a quem tem
frequentemente lixo para pôr em caixotes (um guardanapo de um crepe com chocolate,
por exemplo), que o medo de atentados está bem presente. Eu adolescente a ir ao
cinema. Eu com ar de magrebino na proporção inversa do número de vezes que vou
ao barbeiro cortar o cabelo. O filme interrompido subitamente passados poucos
minutos do seu início. Polícias (talvez fosse só um mais o segurança) que
entram na sala à procura de algo. Eu a temer, por instinto medroso, ser
confundido com esse algo. Eu a ser, naturalmente, confundido com esse algo. Pedirem-me,
com modos assertivos, se tenho o meu billet. Eu não querendo ser confundido com
um terrorista, lançando o meu billet
de identidade para as mãos do polícia. Ele a corrigir o óbvio: quer o meu billet do cinema e não a minha carte d’identité. Eu, toldado pelo medo
(não sei se já dei a entender que fiquei com algum receio…), demoro a perceber,
Eu finalmente a corresponder ao que me é pedido. Ele a observar o meu billet por
um segundo, devolvendo-mo de seguida, perante o olhar (desconfiado,
prescrutador, interrogativo, etc., olhar) dos restantes espetadores. Eles a
irem-se embora. As luzes a voltarem a apagar-se. O filme a recomeçar. Não me
recordar de mais nada. Exceto eu ainda a tremer ao sair do cinema e consciente
de ter ganho uma história do caraças para contar aos meus amigos. Eu sei que é de umbigo e comezinho mas esta é a primeira coisa de que me lembro quando oiço falar na FIS.
Dilema: se a esquerda oferecer a Cavaco o acordo que ele exigiu, este ver-se-á obrigado a dar posse a um governo que, manifestamente, não quer. Contudo, confirmará assim o entendimento abusivo do PR de que pode condicionar desta maneira um programa de governo, ao arrepio das escolhas da maioria parlamentar.
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