Há os que traem as mulheres, trocando-as por outras, mais novas. Também já a tive, a crise. E traí. Vai para cerca de 10 anos. Quando comecei a trocar o Chico, o João e o Vinicius, por Bach, Haydn e Schubert. Dias há em que sou assaltado pelo remorso e pela nostalgia mas, de um modo geral, corre tudo bem.
Se a hipocrisia em política é proclamar ideias generosas em público contraditórias com as que se pregam em privado. Se é envidar esforços para executar políticas contra as quais se batem no seu íntimo. Se é ter uma dualidade de critérios consoante esteja em causa a sua esfera privada e o espaço de intervenção público. Se é defender a paz em público e a guerra em privado. Se é contribuir para acabar com as discriminações quando o próprio é feito de preconceito (racial, étnico, homofóbico). Se é ser incoerente com algumas das suas piores convições, nestes casos, diria: ainda bem. ps: vem isto a propósito das revelações mais recentes sobre o ex-Presidente norte-americano Woodrow Wilson (sim, o pai da sociedade das nações), que parece não ter sido, afinal, pessoa que se recomendasse em matéria de tolerância.
Descobri este fim de semana no CAM Hein Semke. Um artista alemão (pintor, escultor, ilustrador e outras dores) que se radicou em Portugal nos anos 30 e que veio a morrer aqui em 1995. Nada tem de especial eu nunca ter ouvido falar dele. Outros tantos muitos haverá de quem nunca ouvi falar. Mas uma pessoa não deixa de se interpelar quando descobre algo de que gosta muito e que sempre esteve aí. É isso, gostei muito. Íssimo. Tem duas telas intituladas "Parlamento" (também por aqui, é certo) e pelo menos uma chamada "Debate". As minhas preferidas, talvez. Pensei em fotografar mas depois desisti, lembrando que o google tem tudo e tira sempre melhores fotografias do que eu. Fui lá hoje. E, sobre estas obras, nada. Ou quase nada. Aparentemente, o google anda quase tão distraído como eu.
Em matéria de filmes, saliento-me pelo saber, não direi enciclopédico (estaria a exagerar), mas aprofundado sobre aqueles que poderíamos chamar, sem desprimor para com os canônes da crítica cinematográfica, de filmes da treta dos anos 80 e 90. Uns bons (filmes da treta) outros bem mauzinhos. Mas todos eles cumprindo com competência o seu fim último: entretem (como diria, e a meu ver bem, o amigo do meu filho mais novo). Para infelicidade dos meus filhos, decidi(mos) partilhar algum deste saber com eles. Eles parecem apreciar. Da trilogia do Regresso ao Futuro, passando pelo Sozinho em Casa ou o Dennis, o Pimentinha. Se tudo correr como previsto, este estágio servirá para criar as bases para, um dia, lhes apresentar o maior dos filmes do género. Refiro-me, como já terão adivinhado, ao grande Jackie Chan. Can't wait.
Adenda: sempre atenta às parvoíces que se escrevem um pouco por todo o mundo (uma espécie de NSA das redes sociais, mas tudo legal e público - suponho), a Maria João Pires / Shyznogud fez o seguinte reparo:
"hum, olha q se reparares n houve grande tratamento jornalístico dos despedimentos do i e do sol. houve muitos comentários em parcelas de redes sociais a q pertences, o q é diferente" Fui confirmar, pois não levo lições sobre bocas de ninguém (sempre quis dizer isto). Excepto neste caso, ao que parece.
Gosto de ler as crónicas de João Miguel Tavares. Por duas
razões. Porque têm alguma graça. E porque conseguem a divertida proeza de
enunciar um argumento que, frequentemente, é desmentido pelo próprio texto, ou
de fabricar carapuças que, no fim, também a ele lhe servem. Hoje não é um
desses casos. Mas anda lá perto. Ao explicar-nos que o grande mal deste
governo, aquilo que deixa João Miguel Tavares “tão incomodado e tão incapaz de
aceitar pacatamente o que aconteceu ao país”, é o messianismo de Costa e a fé
nele depositada para mudar o estado das coisas.
É natural que JMT não se reveja no caminho proposto pela
esquerda. Mas o facto de não se rever, de achar que “é coisa nenhuma”, não quer
dizer que não exista. Até porque se não existisse, se fosse simplesmente mais
do mesmo, não se compreenderiam as acusações de radicalismo das escolhas (lá
está) deste governo ou as antevisões da desgraça para breve (no défice, no
crescimento, no pib, etc.).
Mas mais relevante é a forma como descarta qualquer
esperança neste governo com o labéu do messianismo. É o supremo cololário da
TINA. Não temos direito a políticas alternativas à austeridade. Nem mesmo à esperança
de que isso aconteça. Nem mesmo na hora zero de um novo governo. Se um governo
em início de mandato, com o objetivo de inverter uma política que contou ao
longo destes anos com a oposição de muitos partidos e setores da sociedade, não
deve ser um catalisador de esperança, não sei muito bem quando deva ser.
Citando o sketch infra embutido dos Gato Fedorento, o
messianismo “está mal!”. Mas JMT limita-se a um messianismo de sinal contrário, que
é o cinismo político. Não vale a pena. Nada vai mudar. E isto não só "está mal!", como “está errado!”. Felizmente, a democracia é um caminho e não se esgota com as eleições. Feitas as promessas de que JMT se queixa, são elas que vão servir de bitola para avaliarmos o desempenho do governo (a promessa de algo é, pois, fundamental). Aqui estaremos para isso. No momento próprio. E que começa.... hoje.
Uma belíssima crítica de Rui Zink de um filme que não vi mas com a qual concordo inteiramente (sim, é possível). Relativamente à parte inicial, e trazendo à liça as grandes séries televisivas, diria que Aaron Sorkin (Homens do Presidente) está para Spielberg como David Simon (The Wire) está para Coppola. E como esta observação foi tão boa, retiro-me por hoje. Até amanhã.