27.11.14
Um dia ainda hei de vir a saber quem é o david foster wallace, cujo nome irrompe, dia sim dia não, a propósito de tudo e de nada, à frente dos olhos. sei apenas que morreu novo e que escreveu aquele longo livro. mas justificará esta boa imprensa?
26.11.14
Cada um tem as coincidências paul austerianas que merece
Centenas de páginas para imprimir. Um número limitado de
folhas brancas em casa (para surpresa diária minha, tenho uma fonte inesgotável
de folhas de rascunho). A última folha a imprimir é a última folha
disponível. Felicidade.
Amizade
Lia com irreprimível inveja relatos magníficos de
amizade. Pessoas que dão tudo pelos amigos, e principalmente tempo, muito
tempo, o tempo que for preciso, talvez aquilo que de mais precioso se pode oferecer
a um amigo. Também os via nos filmes, os relatos, não sem sentir um certo desgosto. Não se
lembrava de alguma vez ter feito um gesto destes, de irrefutável amizade, que
persuadisse qualquer jurado americano beyond
reasonable doubt. Possivelmente, defender-se-ia alegando as circunstâncias,
ou a falta delas, as que proporcionariam as condições para o desejado gesto. Talvez
convencesse em juízo, mas a insidiosa dúvida subsistiria no tribunal da sua consciência.
25.11.14
Sócrates. Tentar arrumar as ideias (não é fácil, porém). Decálogo.
1 - Não sei se José Sócrates cometeu os crimes de que é
suspeito, indiciado, acusado no espaço público. Se os cometeu, é muito grave,
tanto mais se o fez enquanto estava em funções. É mais ou menos tudo quanto
tenho a dizer. Bem...
2 - Se José Sócrates não cometeu os crimes de que é
suspeito, indiciado, acusado no espaço público é ainda mais grave. Por ser
sempre mais grave um inocente passar por isto do que um culpado ficar impune,
como muitos já lembraram. E porque, nestes últimos anos, se foi avolumando,
inclusivamente no seio do poder judiciário, um sentimento justicialista anti-política
que legitima dúvidas sobre a possibilidade de contaminação de um processo desta
natureza.
3 - Sinceramente, não tenho uma opinião muito sustentada
quanto à eventual desproporção da detenção
e condições do posterior interrogatório. Não sei se foram ou não. Nem posso
sabê-lo.
4 - Já sei, embora seja tudo menos um fenómeno novo, que é
cada vez mais alarmante o impacto pernicioso na justiça que decorre da
promiscuidade entre alguns jornalistas e a órgãos judiciários. E assim deverá
continuar, atendendo a que, mesmo os que genuinamente a isto se opõem, pouco oferecem além de impotência e um túnel no fundo do túnel.
5 - Quanto à prisão preventiva, confesso igual incapacidade
para aferir da justeza da medida, embora me falte imaginação para ver
preenchidos os pressupostos que, nos bancos da faculdade, dizem poder
determinar esta medida de coação. E a ausência de qualquer justificação pública
desta medida por parte do juíz de instrução criminal obscurece, inquieta, em
vez de iluminar.
6 - Porque é fundamental que a justiça ilumine. Porque a
justiça deve uma obediência cega ao princípio da presunção de inocência,
tanto quanto é humanamente possível. Mas este postulado acaba na prática às
portas do edifício da justiça. Cá fora, ele de pouco vale. Para o bem e para o
mal. As convicções das pessoas formam-se libertas de quaisquer códigos. Razão
pela qual compreendo mal que o jornalismo seja frequentemente absolvido neste
papel a que se presta em nome do direito à informação. Como todos os outros
direitos, este não é absoluto, e a sua realização pode, muitas vezes, colidir
com outros de igual ou superior valor. Voltando ao travessão que encima este
ponto, daí a importância que a justiça ilimine, sempre que o possa fazer, pois
isso também concorre contra a presunção da culpabilidade que uma medida de
coação desta natureza inspira em muitos cidadãos.
7 - A justiça. Apesar de tudo (e muito cabe neste tudo),
confio nela e na generalidade dos seus agentes e que, embora tardando, acaba
por se fazer.
8 - A política. Não nutro qualquer confusão entre aquilo que
é o legado dos governos chefiados por Sócrates e as suspeições que impendem
sobre o ex-primeiro ministro. A política de educação, o complemento solidário
para idosos, o apoio à Ciência e à investigação, o casamento gay, etc., e aquilo
que representam para a comunidade não saem diminuídas por esta situação. Nem
podem ser por ela contaminada. Não vejo por isso qualquer embaraço em assumir com
orgulho estes (ou outros) legados políticos sem entrar em qualquer conflito (ético,
político ou outro).
9 - Isto não se confunde com qualquer "rouba mas faz",
ideia mobilizadora de campanhas amoralizadoras, como a de Isaltino em Oeiras. De
forma clara: qualquer pessoa que seja considerada culpada de crimes daquela
natureza fica inabilitada para exercer um mandato público. E talvez dissesse
acusada se não fosse ver a aparente facilidade com que às vezes uma pessoa pode
cair nas malhas acusatórias da justiça.
10 - O regime. Sobre isto, esbulho sem pudor as palavras de
Ricardo Paes Mamede em texto no Ladrões de Bicicletas. E defender e melhorar este regime
democrático, o melhor da nossa história e o que mais progresso trouxe aos seus
cidadãos, é uma tarefa que devia convocar-nos a todos.
PS: uma pessoa é bem
intencionada e quer o melhor para a comunidade mas vê os termos em que a associação Transparência e Integridade (TIAC) anuncia
a sua participação no Prós e Contras de ontem, "em nome de um país limpo",
e apetece ser corrupto.
21.11.14
Recordar os clássicos
Anabela Mota Ribeiro aproveita frequentemente o seu facebook para nos recordar (ou será recordar-nos?) entrevistas que fez e que só são antigas do ponto de vista cronológico. E ainda muito bem. Como esta, a Ruy Castro, que, entre outras coisas, escreveu uma biografia de Nelson Rodrigues. Anabela Mora Ribeiro também colocou há uns dias uma entrevista a Pedro Adão e Silva, que também vale muito a pena ler mas que para o caso apenas me interessa por citar Ortega Y Gasset, que diz qualquer coisa como o que separa os homens dos orangotangos é o facto de terem memória. E a memória que me assalta quando oiço falar do Ruy Castro é o monumental despique, nos primórdios da blogosfera, entre o gato fedorento Ricardo Araújo Pereira e os colunistas infames Pedro Mexia e Pedro Lomba a propósito daquela biografia de Nelson Rodrigues. Se um texto clássico é algo de intemporal, suponho que isto seja um clássico.
20.11.14
Ontem os Cavaliers jogaram contra os Spurs. Gravei o jogo. Não sei o resultado. Vou ver enquanto almoço. Fui há pouco ao twitter. Vi que uma das equipas ganhou por 2 pontos (2!). Mas continuo sem saber qual. Estou a ficar nervoso. Vou preservar-me neste estado e desligar todos os cabos que ligam o meu computador ao resto do mundo, vulgo Internet. Acho que vou almoçar (11h25)
Breve comentário aos textos do jovem dirigente socialista e do ex-dirigente de meia idade do mesmo partido
Tiago Barbosa Ribeiro escreveu um texto.
Francisco Assis respondeu-lhe com outro.
Alinho genericamente com o Tiago Barbosa Ribeiro quanto à questão de fundo. Discordo, no entanto, da forma como o fez (aí acho que Francisco Assis tem razão), criticando a veleidade de se exprimir uma posição contrária ao sentido da vitória de Costa. Discordo porque seria sempre legítimo vir a público debater esta (qualquer) ideia. Mesmo que ponham em causa teses que beneficiem da expressiva vitória de António Costa. Um partido plural é aceitar isto, sob pena de ser verbo de encher. Discordo ainda porque a questão das afinidades e alinhamentos político-partidários (e mesmo os ideológicos) não é, infelizmente, uma questão tão pacífica quanto Tiago Barbosa Ribeiro dá a entender. E o texto de Francisco Assis e as reações que mereceu (positivas e negativas) provam-no bem.
Franciso Assis confunde uma pessoa. Independentemente do seu posicionamento claramente à direita de onde é permitido ao PS situar-se, reconheço-lhe no passado recente momentos inspiradores em defesa dos valores fundamentais da nossa democracia. A tentativa de desqualificar o seu interlocutor neste debate, recusando nomeá-lo, é indigna e uma sinistra forma de entender como se deve fazer um debate no espaço público.
19.11.14
18.11.14
Queria não tropeçar nestas pedras. Resta saber se o problema é das pedras ou da sola dos meus sapatos (provavelmente a pior analogia que alguma vez fiz. E olhem que tenho um currículo assinalável neste domínio)
Tem tudo (vá, muito) para que simpatize com ele. A Convocatóriada Convenção para uma candidatura cidadã. Ideias com que, genericamente, me identifico, um diagnóstico certeiro da situação em que nos encontramos (social, economico-financeira e, não menos crucial, politicamente) e pessoas com um currículo partidário e de intervenção pública que admiro.
Dito isto (e por causa disto), não gostei particularmente do
texto da convocatória. Para ser franco, engulha-me a omissão em relação ao partido
Livre - sem o apoio do qual não é sequer possível formalizar candidaturas às
legislativas -, bem como às restantes formações políticas que estão na sua
origem, como o Fórum Manifesto. Claro que toda a gente sabe disso. Mas é fraca justificação. Também
sabemos muito do que lá está, da defesa do estado social, da promoção do
conhecimento à proteção do trabalho, passando pelo aprofundamento da
democracia, em Portugal e na Europa.
Reconheço que há aqui algum picuinhismo e amanhã talvez
tenha outra sensibilidade. Mas hoje acho o texto demasiado cidadania e sociedade
e pouco partido. Demasiada cidadania porque esta tem muitas vozes, parte das
quais apoiam outras ideias e alternativas políticas. Pouco partido porque gosto
dos partidos. E gosto deles porque, ao contrário da sociedade, sei quais são as
suas ideias.
Não quero menosprezar a louvável abertura (inédita, sim) deste
processo à sociedade, a todos os que não estão envolvidos na atividade partidária. Pelo contrário, acho esta
abertura ao envolvimento dos cidadãos crucial para uma relegitimação da
política e das escolhas que implica. Mas isto não deve ser feito à custa de uma desvalorização do papel dos partidos, igualmente fundamental. E o papel do partido Livre aqui não pode ser o
de mero veículo para abrir as portas a uma candidatura mas o de peça
fundamental para corporizar e dar coerência ao projeto que venha a sair dali.
E dizer isto é tanto mais estranho quanto as pessoas que
estão envolvidas mais ativamente nisto, do Rui Tavares ao Daniel Oliveira, contam-se
entre aqueles que mais têm feito pela pedagogia partidária no espaço público.
Infelizmente, gostava de ter visto isso refletido na convocatória. Mas pode ser apenas
miopia minha (sem ironia).
14.11.14
Esta é das notícias mais tristes que tenho lido. Cultivamos uma sociedade de cobardes. Numa escola pública perto de mim ensinam que as crianças se devem afastar quando são confrontadas por míudos rufias. Defender os seus direitos (e os dos outros) passa muito por aqui. E sei do que falo. Temo ser um frei tomás
Swedish 'social experiment' shows people ignoring domestic abuse in a lift
13.11.14
Aos seminaristas da língua
Informo que o dicionário contempla o plural de fórum, na inusitada forma de, no lugar do "m", se apor um "n" e um "s": exato, fóruns (!).
Podem, assim, os latinistas de serviço deitar fora os fora com que ainda insistem em nos baralhar.
Acrescente-se que, ainda que não se desse o caso deste acolhimento dicionarístico, compreendia-se mal que se usasse o latiníssimo fora para designar uma pluralidade de fóruns. É que a compreensibilidade e o ridículo também devem servir para parametrizar o uso de uma língua, nomeadamente na forma oral.
Agora, basta de aranzel, que vou dar o fora.
Sim, tive três anos escolares de latim e odiei cada minuto.
Podem, assim, os latinistas de serviço deitar fora os fora com que ainda insistem em nos baralhar.
Acrescente-se que, ainda que não se desse o caso deste acolhimento dicionarístico, compreendia-se mal que se usasse o latiníssimo fora para designar uma pluralidade de fóruns. É que a compreensibilidade e o ridículo também devem servir para parametrizar o uso de uma língua, nomeadamente na forma oral.
Agora, basta de aranzel, que vou dar o fora.
Sim, tive três anos escolares de latim e odiei cada minuto.
Governo chumba teste monty python
Neste brilhante skech dos monty python, há um grupo de
resistentes à ocupação romana da judeia que é obrigado
a reconhecer, apesar de tudo, os aspetos bons do governo dos romanos. É o momento
em que os críticos, não deixando de o ser, são forçados a reconhecer algum do
legado positivo deixado pelos seus adversários políticos (e alguma coisa mais
positiva haverá sempre, presume-se).
Por isso se impõe o teste: o que é que este governo alguma fez
por nós? Qual é o legado positivo deste governo?
12.11.14
Esquizofrenia do Bloco Central
Ele existe, claro, e não apenas na rádio. Mas não é tão amplo quanto se quer fazer crer. Sob risco de implosão. É que o chamado bloco central, e os partidos a ele associados, são acusados ao mesmo tempo de, por um lado, fazer tudo igual, indistinguindo-se, e, por outro, uma vez no poder, rasgar o trabalho do antecessor e fazer tudo diferente. O que, como diria o senhor francês que estava vivo antes de morrer, talvez sugira que nem tudo é igual nem tudo é rasgado e feito diferente. São pouco úteis estes grandes chapéus.
(Livros a ler; abrir nova pasta; os 5 melhores livros de ex-presidentes americanos)
De acordo com Ted Widmer, historiador na Brown University, estes são os cinco melhores livros de ex-presidentes americanos que, tal como o artigo do Politico, valem mesmo a pena ler.
- Thomas Jefferson, Notes on the State of Virginia (1785 Paris, 1787 London)
- Ulysses Grant, Personal Memoirs of U.S. Grant (1885)
- Herbert Hoover, Fishing for Fun and to Wash Your Soul (1963)
- Dwight D. Eisenhower, At Ease: Stories I Tell to Friends (1967)
- Jimmy Carter, An Hour Before Daylight: Memories of a Rural Boyhood (2001)
11.11.14
Aviso aos órgãos de comunicação social
Não leio (nem abro) notícias em que o que devia ser um
título não é mais do que um teaser.
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