26.11.14

Cada um tem as coincidências paul austerianas que merece

Centenas de páginas para imprimir. Um número limitado de folhas brancas em casa (para surpresa diária minha, tenho uma fonte inesgotável de folhas de rascunho). A última folha a imprimir é a última folha disponível. Felicidade.  

Amizade

Lia com irreprimível inveja relatos magníficos de amizade. Pessoas que dão tudo pelos amigos, e principalmente tempo, muito tempo, o tempo que for preciso, talvez aquilo que de mais precioso se pode oferecer a um amigo. Também os via nos filmes, os relatos, não sem sentir um certo desgosto. Não se lembrava de alguma vez ter feito um gesto destes, de irrefutável amizade, que persuadisse qualquer jurado americano beyond reasonable doubt. Possivelmente, defender-se-ia alegando as circunstâncias, ou a falta delas, as que proporcionariam as condições para o desejado gesto. Talvez convencesse em juízo, mas a insidiosa dúvida subsistiria no tribunal da sua consciência.

25.11.14

Sócrates. Tentar arrumar as ideias (não é fácil, porém). Decálogo.

1 - Não sei se José Sócrates cometeu os crimes de que é suspeito, indiciado, acusado no espaço público. Se os cometeu, é muito grave, tanto mais se o fez enquanto estava em funções. É mais ou menos tudo quanto tenho a dizer. Bem...

2 - Se José Sócrates não cometeu os crimes de que é suspeito, indiciado, acusado no espaço público é ainda mais grave. Por ser sempre mais grave um inocente passar por isto do que um culpado ficar impune, como muitos já lembraram. E porque, nestes últimos anos, se foi avolumando, inclusivamente no seio do poder judiciário, um sentimento justicialista anti-política que legitima dúvidas sobre a possibilidade de contaminação de um processo desta natureza.

3 - Sinceramente, não tenho uma opinião muito sustentada quanto à eventual desproporção da  detenção e condições do posterior interrogatório. Não sei se foram ou não. Nem posso sabê-lo.

4 - Já sei, embora seja tudo menos um fenómeno novo, que é cada vez mais alarmante o impacto pernicioso na justiça que decorre da promiscuidade entre alguns jornalistas e a órgãos judiciários. E assim deverá continuar, atendendo a que, mesmo os que genuinamente a isto se opõem, pouco oferecem além de impotência e um túnel no fundo do túnel.

5 - Quanto à prisão preventiva, confesso igual incapacidade para aferir da justeza da medida, embora me falte imaginação para ver preenchidos os pressupostos que, nos bancos da faculdade, dizem poder determinar esta medida de coação. E a ausência de qualquer justificação pública desta medida por parte do juíz de instrução criminal obscurece, inquieta, em vez de iluminar.

6 - Porque é fundamental que a justiça ilumine. Porque a justiça deve uma obediência cega ao princípio da presunção de inocência, tanto quanto é humanamente possível. Mas este postulado acaba na prática às portas do edifício da justiça. Cá fora, ele de pouco vale. Para o bem e para o mal. As convicções das pessoas formam-se libertas de quaisquer códigos. Razão pela qual compreendo mal que o jornalismo seja frequentemente absolvido neste papel a que se presta em nome do direito à informação. Como todos os outros direitos, este não é absoluto, e a sua realização pode, muitas vezes, colidir com outros de igual ou superior valor. Voltando ao travessão que encima este ponto, daí a importância que a justiça ilimine, sempre que o possa fazer, pois isso também concorre contra a presunção da culpabilidade que uma medida de coação desta natureza inspira em muitos cidadãos.

7 - A justiça. Apesar de tudo (e muito cabe neste tudo), confio nela e na generalidade dos seus agentes e que, embora tardando, acaba por se fazer.

8 - A política. Não nutro qualquer confusão entre aquilo que é o legado dos governos chefiados por Sócrates e as suspeições que impendem sobre o ex-primeiro ministro. A política de educação, o complemento solidário para idosos, o apoio à Ciência e à investigação, o casamento gay, etc., e aquilo que representam para a comunidade não saem diminuídas por esta situação. Nem podem ser por ela contaminada. Não vejo por isso qualquer embaraço em assumir com orgulho estes (ou outros) legados políticos sem entrar em qualquer conflito (ético, político ou outro).

9 - Isto não se confunde com qualquer "rouba mas faz", ideia mobilizadora de campanhas amoralizadoras, como a de Isaltino em Oeiras. De forma clara: qualquer pessoa que seja considerada culpada de crimes daquela natureza fica inabilitada para exercer um mandato público. E talvez dissesse acusada se não fosse ver a aparente facilidade com que às vezes uma pessoa pode cair nas malhas acusatórias da justiça.

10 - O regime. Sobre isto, esbulho sem pudor as palavras de Ricardo Paes Mamede em texto no Ladrões de Bicicletas. E defender e melhorar este regime democrático, o melhor da nossa história e o que mais progresso trouxe aos seus cidadãos, é uma tarefa que devia convocar-nos a todos.

PS: uma pessoa é bem intencionada e quer o melhor para a comunidade mas vê os termos em que a associação Transparência e Integridade (TIAC) anuncia a sua participação no Prós e Contras de ontem, "em nome de um país limpo", e apetece ser corrupto. 

21.11.14

Vale a pena emigrar por instantes para o país de Nuno Costa Santos. É assim um livro que aproxima. E que dá vontade de ir bater à porta do vizinho a perguntar se precisa de alguma coisa


Recordar os clássicos


Anabela Mota Ribeiro aproveita frequentemente o seu facebook para nos recordar (ou será recordar-nos?) entrevistas que fez e que só são antigas do ponto de vista cronológico. E ainda muito bem. Como esta, a Ruy Castro, que, entre outras coisas, escreveu uma biografia de Nelson Rodrigues. Anabela Mora Ribeiro também colocou há uns dias uma entrevista a Pedro Adão e Silva, que também vale muito a pena ler mas que para o caso apenas me interessa por citar Ortega Y Gasset, que diz qualquer coisa como o que separa os homens dos orangotangos é o facto de terem memória. E a memória que me assalta quando oiço falar do Ruy Castro é o monumental despique, nos primórdios da blogosfera, entre o gato fedorento Ricardo Araújo Pereira e os colunistas infames Pedro Mexia e Pedro Lomba a propósito daquela biografia de Nelson Rodrigues. Se um texto clássico é algo de intemporal, suponho que isto seja um clássico.

Têm a certeza, senhores jornalistas (um pouco por todo o lado) que esta coisa dos calendários pirelli e das estrelas michelin é matéria noticiosa que justifique esta ampla difusão? Ou mesmo matéria noticiosa? É o lóby dos pneus?


20.11.14

Ontem os Cavaliers jogaram contra os Spurs. Gravei o jogo. Não sei o resultado. Vou ver enquanto almoço. Fui há pouco ao twitter. Vi que uma das equipas ganhou por 2 pontos (2!). Mas continuo sem saber qual. Estou a ficar nervoso. Vou preservar-me neste estado e desligar todos os cabos que ligam o meu computador ao resto do mundo, vulgo Internet. Acho que vou almoçar (11h25)

Breve comentário aos textos do jovem dirigente socialista e do ex-dirigente de meia idade do mesmo partido


Tiago Barbosa Ribeiro escreveu um texto.

Francisco Assis respondeu-lhe com outro.

Alinho genericamente com o Tiago Barbosa Ribeiro quanto à questão de fundo. Discordo, no entanto, da forma como o fez (aí acho que Francisco Assis tem razão), criticando a veleidade de se exprimir uma posição contrária ao sentido da vitória de Costa. Discordo porque seria sempre legítimo vir a público debater esta (qualquer) ideia. Mesmo que ponham em causa teses que beneficiem da expressiva vitória de António Costa. Um partido plural é aceitar isto, sob pena de ser verbo de encher. Discordo ainda porque a questão das afinidades e alinhamentos político-partidários (e mesmo os ideológicos) não é, infelizmente, uma questão tão pacífica quanto Tiago Barbosa Ribeiro dá a entender. E o texto de Francisco Assis e as reações que mereceu (positivas e negativas) provam-no bem.

Franciso Assis confunde uma pessoa. Independentemente do seu posicionamento claramente à direita de onde é permitido ao PS situar-se, reconheço-lhe no passado recente momentos inspiradores em defesa dos valores fundamentais da nossa democracia. A tentativa de desqualificar o seu interlocutor neste debate, recusando nomeá-lo, é indigna e uma sinistra forma de entender como se deve fazer um debate no espaço público.

18.11.14

Estou enduvidado quanto a querer ler o livro de Rentes de Carvalho sobre o 25 de abril. Gosto tanto do resto da sua obra...

A contar os dias para acabar a maldição de um mês de sport tv à borla


Queria não tropeçar nestas pedras. Resta saber se o problema é das pedras ou da sola dos meus sapatos (provavelmente a pior analogia que alguma vez fiz. E olhem que tenho um currículo assinalável neste domínio)


Tem tudo (vá, muito) para que simpatize com ele. A Convocatóriada Convenção para uma candidatura cidadã. Ideias com que, genericamente, me identifico, um diagnóstico certeiro da situação em que nos encontramos (social, economico-financeira e, não menos crucial, politicamente) e pessoas com um currículo partidário e de intervenção pública que admiro.

Dito isto (e por causa disto), não gostei particularmente do texto da convocatória. Para ser franco, engulha-me a omissão em relação ao partido Livre - sem o apoio do qual não é sequer possível formalizar candidaturas às legislativas -, bem como às restantes formações políticas que estão na sua origem, como o Fórum Manifesto. Claro que toda a gente sabe disso. Mas é fraca justificação. Também sabemos muito do que lá está, da defesa do estado social, da promoção do conhecimento à proteção do trabalho, passando pelo aprofundamento da democracia, em Portugal e na Europa.
Reconheço que há aqui algum picuinhismo e amanhã talvez tenha outra sensibilidade. Mas hoje acho o texto demasiado cidadania e sociedade e pouco partido. Demasiada cidadania porque esta tem muitas vozes, parte das quais apoiam outras ideias e alternativas políticas. Pouco partido porque gosto dos partidos. E gosto deles porque, ao contrário da sociedade, sei quais são as suas ideias.
Não quero menosprezar a louvável abertura (inédita, sim) deste processo à sociedade, a todos os que não estão envolvidos na atividade partidária. Pelo contrário, acho esta abertura ao envolvimento dos cidadãos crucial para uma relegitimação da política e das escolhas que implica. Mas isto não deve ser feito à custa de uma desvalorização do papel dos partidos, igualmente fundamental. E o papel do partido Livre aqui não pode ser o de mero veículo para abrir as portas a uma candidatura mas o de peça fundamental para corporizar e dar coerência ao projeto que venha a sair dali.
E dizer isto é tanto mais estranho quanto as pessoas que estão envolvidas mais ativamente nisto, do Rui Tavares ao Daniel Oliveira, contam-se entre aqueles que mais têm feito pela pedagogia partidária no espaço público. Infelizmente, gostava de ter visto isso refletido na convocatória. Mas pode ser apenas miopia minha (sem ironia).

13.11.14

Aos seminaristas da língua

Informo que o dicionário contempla o plural de fórum, na inusitada forma de, no lugar do "m", se apor um "n" e um "s": exato, fóruns (!).

Podem, assim, os latinistas de serviço deitar fora os fora com que ainda insistem em nos baralhar.

Acrescente-se que, ainda que não se desse o caso deste acolhimento dicionarístico, compreendia-se mal que se usasse o latiníssimo fora para designar uma pluralidade de fóruns. É que a compreensibilidade e o ridículo também devem servir para parametrizar o uso de uma língua, nomeadamente na forma oral.

Agora, basta de aranzel, que vou dar o fora.

Sim, tive três anos escolares de latim e odiei cada minuto.

Governo chumba teste monty python

Neste brilhante skech dos monty python, há um grupo de resistentes à ocupação romana da judeia  que é obrigado a reconhecer, apesar de tudo, os aspetos bons do governo dos romanos. É o momento em que os críticos, não deixando de o ser, são forçados a reconhecer algum do legado positivo deixado pelos seus adversários políticos (e alguma coisa mais positiva haverá sempre, presume-se).

Por isso se impõe o teste: o que é que este governo alguma fez por nós? Qual é o legado positivo deste governo?

12.11.14

Esquizofrenia do Bloco Central

Ele existe, claro, e não apenas na rádio. Mas não é tão amplo quanto se quer fazer crer. Sob risco de implosão. É que o chamado bloco central, e os partidos a ele associados, são acusados ao mesmo tempo de, por um lado, fazer tudo igual, indistinguindo-se, e, por outro, uma vez no poder, rasgar o trabalho do antecessor e fazer tudo diferente. O que, como diria o senhor francês que estava vivo antes de morrer, talvez sugira que nem tudo é igual nem tudo é rasgado e feito diferente. São pouco úteis estes grandes chapéus.

(Livros a ler; abrir nova pasta; os 5 melhores livros de ex-presidentes americanos)


De acordo com Ted Widmer, historiador na Brown University, estes são os cinco melhores livros de ex-presidentes americanos que, tal como o artigo do Politico, valem mesmo a pena ler.

- Thomas Jefferson, Notes on the State of Virginia (1785 Paris, 1787 London)

- Ulysses Grant, Personal Memoirs of U.S. Grant (1885)

- Herbert Hoover, Fishing for Fun and to Wash Your Soul (1963)

- Dwight D. Eisenhower, At Ease: Stories I Tell to Friends (1967)

- Jimmy Carter, An Hour Before Daylight: Memories of a Rural Boyhood (2001)


11.11.14

Aviso aos órgãos de comunicação social

Não leio (nem abro) notícias em que o que devia ser um título não é mais do que um teaser.