30.6.10

Ano novo, vida nova

Numa reunião no Eliseu com os deputados da maioria, o Presidente Sarkozy confidenciou-lhes que irá proceder a uma reorganização do Governo em Outubro. A informação passou para os jornais via twitter de um dos deputados. É sempre giro ver o semi-presidencialismo menos semi do mundo em funcionamento.

Perguntas giras

Muito interessantes os primeiros 7 minutos da entrevista da subdirectora de informação da Renascença (Raquel Abecassis) ao líder do PSD. Alguns exemplos*:

“Começava por perguntar a pergunta que toda a gente faz na rua: toda a gente sabe que o senhor vai ser primeiro-ministro, só ninguém sabe ainda é quando”

“Não seria mais útil que estivesse no Governo uma liderança e um partido que reúne o consenso do país em vez de um governo que as pessoas todas já pressentem que já é mais passado do que futuro?”

“Aquilo que fica na ideia das pessoas é que é mais o senhor que manda do que o primeiro-ministro”

“Mas a verdade é que aquilo que o senhor pensa ou diz acaba por quase ter mais peso do que o que diz o Governo”

Foram giras estas primeiras perguntas, não foram?

*a estrutura frásica é fiel ao original

Títulos

"Processos contra jornais estão a aumentar e a classe política é a principal queixosa", noticia o "Público". Vale, no entanto, a pena ler a notícia toda, para se compreender exactamente do que se está a falar. Um excerto:

"O que pode explicar este aumento dos processos contra os jornais? A partir das entrevistas realizadas aos advogados que representam os vários grupos de media, Cláudia Araújo enumera várias razões: a forte concorrência entre jornais, tornando o jornalismo mais agressivo; a mediatização da justiça; e o aparecimento em toda a imprensa generalista de revistas/cadernos tipo cor-de-rosa. ".

O título parece ser rigoroso relativamente aos dados apresentados na peça. Mas desta escolha pode resultar uma mensagem enviesada da realidade. O título sugere uma leitura ao nível da retaliação e da perseguição dos políticos em relação aos media, o que não parece coincidir minimamente com o conteúdo da notícia. Seria diferente se o título incluísse (como diz o texto) que "os jornais ditos tablóides são os que contabilizam maior número de processos" ou que, no que diz respeito aos acusadores, "a classe política, os empresários e as personalidades públicas são aqueles que instauram mais processos à imprensa".

Infelizmente, não é difícil imaginar como é que o oportunismo político e populista irá usar este título no futuro.

Para melhor compreender o mundo

João Lopes, João Lopes, e assim sucessivamente.

29.6.10

O gosto dos outros

Acho graça a esta coisa de concordar, sem reserva e, até, com entusiasmo, com textos de pessoas de quem me habituei a discordar, por vezes visceralmente. Acontece hoje com este bom texto de Gabriel Silva, no Blasfémias. Anteanteanteontem com o de Paulo Pinto de Albuquerque. Noutros dias, outros textos. Enquanto isto continuar a acontecer, está tudo bem.

28.6.10

O importante está a bold (espero)

"Many in Germany have long been skeptical of immigration. Now, a conservative Berlin politician has proposed requiring immigrants to take an intelligence test before being allowed in. His idea has not been well received. "

Retirado do Spiegel online.

abespinhar

Era capaz de jurar que as vozes que se abespinham com esta medida são as mesmas que, até há bem pouco tempo, diziam bem alto para todos ouvirmos que "quem não deve não teme".

23.6.10

Impossível não gostar


Há demasiado tempo orfão de uma boa série para ver à noite no meu televisor LDC (Lá De Casa), eis que mão mais que amiga tem a bondade de me oferecer este balão de oxigénio, em forma de thriller político (1990). De acordo com a Wikipedia, "House of Cards is a political thriller novel written by Michael Dobbs, a former Chief of Staff at Conservative Party headquarters, which was set after the end of Margaret Thatcher's tenure as Prime Minister of the United Kingdom. (...) The antihero of House of Cards is a fictional Conservative Chief Whip, Francis Urquhart [played by Ian Richardson]. The plot follows his amoral and manipulative scheme to become leader of the governing party and Prime Minister.". Impossível não gostar.

Uma das músicas mais bonitas do sistema solar

É a ler jornais que a gente aprende

Desenganem-se todos os que acham que Cavaco não teve uma única justificação para não ir ao funeral de Saramago. Parece que teve dezassete.

17.6.10

20 mil contos, caramba

Ouvi, mais ou menos em estado de choque, na rádio, o comentário de um responsável da associação de famílias numerosas, que considerava a exclusão de quem tenha poupanças superiores a 100 mil euros do universo de beneficiários de uma série de prestações sociais uma “medida idiota” e um desincentivo à poupança.

Chego ao meu local de trabalho e deparo-me, com alguma incredulidade, com a mesma tese defendida por Porfírio Silva. A coisa de ver opiniões que achávamos insustentáveis defendidas por pessoas cujas ideias respeitamos e com quem costumamos aprender é que nos interpela, obriga-nos a questionarmo-nos sobre os fundamentos da nossa posição.

Ora, no contexto que vivemos tenho por certo o seguinte. É a própria importância que as prestações sociais têm num momento de crise e o insubstituível papel que desempenham na mitigação da pobreza, que exige que se reforcem os mecanismos de controlo destas prestações, no sentido de garantir que não falharão a quem mais precisa. Isso implica critérios. Critérios que ajudem a determinar a quem, para este efeito, não é admissível que falte uma prestação deste género, e quem se poderá considerar que está, apesar de tudo, melhor capacitado para fazer frente a uma situação de maior dificuldade.

Numa situação em que o Estado tem, inevitavelmente, de fazer escolhas acerca da forma como se distribuem os recursos, não me parece desrazoável considerar que quem disponha de uma poupança de 100 mil euros (repito, cem mil euros; 20 mil contos - assim parece-me sempre mais) está mais apto e em melhores condições para ultrapassar as dificuldades da crise.

Dizer que isto constitui um desincentivo à poupança e que assim mais vale gastar tudo "em caviar" para poder beneficiar das prestações parece-me uma variante da argumento contra o RSI “se eu posso receber aquilo sem fazer nada porque é que hei-de esfalfar-me a trabalhar para receber o salário mínimo?”. Estar integrado no mercado de trabalho – tal como possuir uma poupança considerável – habilita-nos a, aos mais variados níveis – materiais, psicológicos, etc. – a enfrentar com maior sucesso as vicissitudes de crise. E, infelizmente, o Estado não deverá ser, na actual conjuntura, indiferente a isto.

Vida

15.6.10

Sempre em cima da actualidade


Os óscares deste ano homenagearam (postumamente) John Hughes, que se notabilizou pelos filmes ditos para adolescentes. Tristemente, este prémio não gerou a merecida onda de discussão sobre os méritos deste género. Foi recebido com olímpica indiferença e, muitas vezes, ignorância (“Rei dos quê?”, ouvi perguntarem!). Se há algo que parece fazer pouco sentido é desvalorizar a importância e a força dos gostos e desgostos dos adolescentes. Mas vocês é que sabem. Eu apenas me quero entreter a recordar os filmes sobre adolescentes, para adolescentes, da minha adolescência, e que são, nomeada e designadamente…

1 - Ferris Bueller's day off
2 - Goonies
3 - Big
4 - War Games
5 - 18 again
6 - Gotcha
7 - Back do the future
8 - Pump up the volume

14.6.10

O toque dos extremos

A educação sexual nas escolas está para uns como a vinda do papa e, genericamente, o sortido de questões do catolicismo está para outros. Tarados uns e fanáticos os outros. E não pela ordem mais evidente.

Gostar de comboios

Enfiar a carapuça


Não sou muito dado a pudores estilísticos, nomeadamente em política. Há imagens mais ou menos felizes, de maior ou menor bom gosto, mas não é muito frequente ficar impressionado e, muito menos, chocado. Muito menos ainda tenho-me como alguém dado a susceptibilidades patrioteiras. Por isso estranho-me quando assisto com incomodidade à benevolência com que a generalidade dos políticos, comentadores, comunicação em geral, aceitam o acrónimo com que o chauvinismo norte-europeu decidiu mimar-nos, aos países do Sul da Europa. PIGS, que é PORCOS (claramente menos fino), que remete para isto, que é como uma parte da Europa de cima olha para a de baixo. Aquilo que me incomoda nem é tanto este epíteto sintetizar a força de um estereótipo que achava remoto, mas a aparente indiferença com que aceitamos (e reproduzimos) este insulto, convertido, pelas notícias, em facto objectivo (hoje, por exemplo, aqui).

9.6.10

Figas

"...in 1981 Margaret Thatcher cut UK government spending in the middle of a recession, and against the advice of 391 economists that it would worsen the recession, and UK GDP started its recovery the same quarter. In 1991 Ruth Richardson in NZ cut government spending against the advice of 15 economists, and NZ GDP started its recovery the same quarter. There are a number of other cases of expansionary fiscal consolidations, and there's a causal theory to explain why this can happen - see http://ideas.repec.org/p/cpr/ceprdp/417.html (shortly, it's that cutting government spending improves people's expectations about the future of the economy and taxes, so they start investing more right now). Of course, correlation does not prove causation, and perhaps there is something about the EU countries now that is so different as to the cases I cite as to make those results no longer likely to hold, but Krugman writes as if he has forgotten entirely about the 1980s and 1990s."

Aqui (via Pedro Magalhães)

Este gajo é muito melhor do que aquele que escreve sobre política nos jornais

"Nunca deixamos de ser o que fomos nem a memória do que fomos. Permanecemos reféns de uma ideia antiga de nós próprios que descobrimos um dia por acaso e na qual continuamos a acreditar por causa de um obscuro dever de coerência."

Pedro Lomba, Sete Sombras, diário das amizades

Les jeux sont faits ou, como eles diriam, let the games begin...

E os candidatos oficiais à sucessão de Gordon Brown no Partido Trabalhista são:

- Ed Balls
- David Miliband
- Ed Miliband
- Andy Burnham
- Diane Abbott

Últimas sondagens conhecidas aqui.

8.6.10

Eu estava a marimbar-me para o iPad, até ver isto:



Via aqui

É como a DECO, mas mais barato

Na crónica desta semana do "Público", José Vítor Malheiros escalpeliza o engodo financeiro das cadernetas de cromos (neste caso, distribuídas gratuitamente à porta da escola dos filhos). Faz as contas e diz-nos que dificilmente uma caderneta se completa por menos de 120 euros. Um serviço público em tempos de crise. Link apenas disponível para assinantes (outro escândalo!).

2.6.10

Dúvidas existenciais

Alguém me pode explicar em que é que uma remodelação do governo pode, nesta altura, ajudar ao que quer que seja? E, já agora, o que é que leva o sujeito do anúncio a ir à Staples comprar agrafos se não tem, em primeira instância, um agrafador? Estou confuso.

Por oposição à escola platónica, mais especulativa?

Alternativa a Cavaco é um "epifenómeno peripatético" (Morais Sarmento, citado pelo DN)

1.6.10

Responsabilidades

Esta é uma verdade que, nos EUA, como na Europa, é repetida vezes de menos: muito frequentemente, a história conta-nos que tem sido a esquerda que tem tido o ónus de consolidar (e com sucesso) as contas públicas, deixadas em desgoverno pela passagem da direita pelo poder. Como a história nos ensina também, o preço desta responsabilidade é a impopularidade.

Critérios

Aqui diz-se que "Solar" é o melhor Mc Ewan. É, provavelmente, o autor que mais prazer me tem dado ler. Se conhecesse Rogério da Costa Pereira (autor do aqui), pedir-lhe-ia que hierarquizasse os livros de Mc Ewan por ordem de preferência. Se em primeiro viesse "A praia de Chesil", seguido de "O Fardo do Amor" e de "Cães Pretos", abandonaria imediatamente o meu local de trabalho para começar a lê-lo. Se a preferência recaísse sobre "Sábado", aguardaria desapressadamente acabar o que ando a ler e, se a legítima dona da obra não estiver com o mesmo intuito, iniciar, sem expectativas expectaculares (calma, é que fica bonito), a sua leitura. Critérios.

Louise Bourgeois


Pouco conheco de Louise Bourgeois, que morreu ontem, já com 98 anos. Mas gosto muito da Maman (em cima), exposta à entrada da Tate. Li o texto que o Guardian e o Público dedicam à artista. Preferi o do Público.