28.5.11

Aceitem um conselho



Na estranha eventualidade de vos parecer engraçado, querido, ou até uma boa ideia, entregarem a vossa cabeça às mãos de uma criança de cinco anos (mesmo que quase seis) com uma máquina destas, deixem-me alertar-vos: não é. Digo-o do alto da minha recém-adquirida (mais ou menos oito horas) autoridade na matéria.

27.5.11

Este post não é sobre Cavaco

Porque razão é que os jornalistas perguntam se a campanha está a ser esclarecedora, "como pediu Cavaco Silva"? Porventura Cavaco tem a patente da ideia de que as campanhas servem (ou deviam servir) para esclarecer? Não é este o entendimento mínimo partilhado por todos? Se Cavaco disser que espera que os candidatos andem com os pés e escrevam com as mãos, os jornalistas também vão perguntar se os candidatos o estão a fazer como Cavaco desejou?

Palavras que me fascinam (ou o contrário, não sei bem)

Sancionar. É uma palavra no mínimo estranha. Não conheço outra na língua portuguesa que signifique uma coisa e o seu contrário. Tanto pode exprimir aprovação, concordância como castigo e punição.

Respeitar os cidadãos

“[Passos] Não defendeu a realização de um referendo, mas foi acusado de o fazer. (…) Defendeu que a Assembleia devia respeitar as petições de grupos de cidadãos e foi acusado de conservadorismo”, diz JMF.

De que falamos quando falamos de cidadãos proporem um referendo? Falamos da possibilidade que a lei oferece a grupos de cidadãos de iniciarem um processo legislativo, por norma reservado aos partidos representados na AR (ou ao governo), que poderá ou não culminar numa proposta de referendo dirigida ao Presidente da República (a quem cabe a decisão final).
Estes são os únicos direitos que assistem aos cidadãos que patrocinem uma iniciativa de referendo: iniciar um procedimento e que o Parlamento tome uma decisão sobre o assunto em causa.

Nunca mas nunca mas nunca têm o direito a que a AR aprove esse referendo. Permitir que 75 mil cidadãos (ou 80, 100, ou 200 mil, etc.) pudessem condicionar a vontade da maioria dos cidadãos, representados no parlamento pelos deputados, eleitos por milhões de pessoas, seria, pense-se um bocadinho, ofender a democracia e o princípio maioritário de forma chocante. Isso sim, seria um desrespeito pelos cidadãos.

Esta á, aliás, uma ideia que volta e meia surge no espaço público, por vezes pela voz de insuspeitos especialistas. Ainda no outro dia, o sociólogo Villaverde Cabral queixava-se na rádio da ineficácia das petições (propriamente ditas), dando como exemplo a petição assinada por mais de 100 mil cidadãos (entre os quais o próprio Villaverde Cabral) que reclamava a revogação do Acordo Ortográfico, cuja pretensão não tinha sido acolhida pela AR. Achar que uma pequena elite de cidadãos mais activos devia condicionar de forma definitiva o Parlamento é que seria uma ofensa grave ao princípio geral de que as escolhas numa democracia são tomadas pela maioria.

Sinto que vos maço.

Um texto sincero e honesto (este, o meu)

Este texto de José Manuel Fernandes (JMF) reflecte vários problemas. Por ordem decrescente de importância, apontaria:

i) O costumeiro ódio por José Sócrates e pelo PS, que cega o autor no momento de sustentar posições, estendendo-o inclusive a todos os que tenham o azar de (ainda que circunstancialmente) estarem do outro lado da sua razão;

ii) A ideia - já tantas vezes repetida por pessoas como JMF que começo a acreditar que acreditam mesmo nela – de que certas declarações de Passos Coelho (sobre a
lei do aborto; sobre Educação) não podem ser objecto de crítica porque são fruto da sua sinceridade e honestidade. Mesmo admitindo que são sinceras e honestas (a mim, pareceu-me mais oportunismo político, mudando uma posição de sempre numa tentativa de flirtar com o eleitorado de direita), desde quando é que isto inviabiliza o escrutínio destas ideias? Já pelo menos desde o projecto de revisão constitucional apresentado pelo PSD que isto sucede. Confrontados com as críticas, furtam-se à discussão da substância invocando um argumento moral (a honestidade; sinceridade; verdade). Ora, correndo o risco de desbaratar caracteres a dizer o óbvio, podem dizer-se muitos disparates de forma autêntica. Isso não faz, evidentemente, com que uma ideia estúpida se transforme numa boa ideia.

Repare-se que esta tese está, aliás, subentendida na defesa feita pelo próprio Passos Coelho, que se insurgiu contra as críticas dizendo que “não há tabus”. Pois não. É precisamente por isso que as ideias que Passos colocou em cima da mesma podem ser discutidas e criticadas;

iii) “[Passos] Não defendeu a realização de um referendo, mas foi acusado de o fazer. (…) Defendeu que a Assembleia devia respeitar as petições de grupos de cidadãos e foi acusado de conservadorismo”, diz JMF. Ora, isto toca num assunto que me é particularmente caro, as petições, ainda que não em sentido próprio (as minhas preferidas). Dedico-lhe o próximo post.

26.5.11

Do (des)interesse pela política

"De qualquer forma, como sublinha o Pedro Magalhães, temo que isto já não vá lá com ideias, propostas, ou programas. Os interessados são uma imensa minoria – 85% dos inquiridos pela Católica afirma não ter lido sequer uma parte dos programas eleitorais de qualquer partido." (Paulo Tavares, no excelente escrita Política, da TSF)

A minha dúvida é a seguinte: os 85% dos inquiridos que afirmam não ter lido sequer uma parte dos programas eleitorais de qualquer partido, referidos aqui pelo Pedro Magalhães, quer mesmo dizer que não se interessam pelos programas e pelas ideias de cada partido? É que é evidente que existem outras formas de tomar conhecimento das propostas eleitorais dos partidos, nomeadamente através da intermediação jornalística.

Pensando no meu caso pessoal, acho que só muito recentemente é que li um programa eleitoral de um partido político, tendo votado em quase todas as eleições com base na informação veiculada pelos media. E julgo que votei de forma esclarecida, pelo menos relativamente às questões que considerava fundamentais. Presumo que assim acontecerá com uma parte significativa das pessoas.

Annecy

Festival de animação de Annecy 2011 começa a 6 de Junho. Um festival de animação é desculpa suficiente para ir a qualquer lado. Festival de Annecy é dos melhores do mundo. Ficar-me-ia por aqui há um ano atrás. 2010 em vez de 2011. Mas conheci Annecy entretanto. Não compreendo como é que chego a esta idade sem que alguém alguma vez me tenha falado de Annecy. Tipo, Annecy é dos lugares mais bonitos para se visitar e, provavelmente, viver deste planeta. Foi preciso ver o Joelho de Claire (claro que podia - e devia - ter visto o filme há mais tempo. Mas caramba). Vale a pena ver a página do festival no Youtube.

Gostar de coisas simples (Dave Brubeck Quartet)

25.5.11

Não fosse não ser obviamente o caso, diria que sou um valente mariquinhas

Muitos se chocam por alguém ser capaz de filmar o espancamento de uma pessoa (neste caso uma rapariga adolescente) sem intervir. A mim choca-me que se consiga simplesmente assistir àquele ataque. Sentimento que, pelo que me é dado a perceber pela quantidade de vezes que as televisões passam as imagens, não é partilhado pela generalidade dos telespectadores.

A embriaguez da Metamorfose





«Vai ser uma bebedeira de sondagens», diz Paulo Portas. Ao ouvir o líder do antigo Centro Democrático Social, depois Partido Popular, e actual CDS - Partido Popular, cada vez menos popular e mais do centro, lembrei-me deste livro de Stefen Zweig.

Já vos disse que gosto muuuuito de Brassens?

Como é bela a liberdade (não sei se já disse aqui que gosto muito do bigode deste senhor. o que canta. sim, já disse)

A política da marcescência


Qualidade, conhecida na botânica por marcescência, que impede a queda da folha caduca enquanto não brota na árvore uma nova promessa de folha. Como a folha que murcha, o governo acusará o desgaste de liderar o país numa conjuntura complexa, de grave crise nacional e, sobretudo, internacional. Mas resistirá à queda enquanto não houver uma alternativa equivalente que o possa substituir.

20.5.11

Dúvidas 2.0

Ahahah, eheheh e hihihi equivalem-se e são para usar indistintamente? Ou cada um é como cada qual?

Coisas

Há coisas que me dão um certo gozo. Como chegar tarde a certas coisas. Modas, tendências, ou apenas coisas. Coisas novas, recomendadas por quem partilha afinidades e gostos. Que ficam guardadas para desfrute futuro. Um certo prazer em não ir a correr atrás destas coisas (coisas e cenas são das palavras mais úteis da língua portuguesa). Por vezes, acabam por cair no esquecimento, para voltar a tropeçar em muitas delas anos mais tarde. E aí renasce o prazer, um outro prazer, de saboreio da promessa de outrora. Por exemplo. Só no outro dia conheci a livraria Pó dos Livros. E o respectivo blogue. Finalmente.

ps: esta história é absolutamente deliciosa.

Um escândalo descobrir isto sozinho

Novo blog. escrita Política. TSF. Pedro Adão e Silva. Paulo Baldaia. Paulo Tavares. Contributos. Pedro Magalhães. Francisco Van Zeller. Muito bom.

17.5.11

É uma coisa que me chateia, imputarem-me motivações

"Para além de serem grandes comunicadores e de possuirem um instinto de sobrevivência impressionante, Sócrates e Portas têm em comum a facilidade com que alteram de perfil, como se adaptam às situações e meios que os envolvem, como mudam de discurso e de prioridades. É o conjunto destas habilidades impares que lhes confere o estatuto de animais políticos.

Mas se estas características até podem ser aplaudidas pelos apreciadores do marketing e da comunicação política, estranho é quando são encaradas como qualidades pelo eleitorado. Fará sentido depositar o voto em alguém com uma incrível capacidade de mudar de perfil, de discurso, com uma habilidade grande para se adaptar, para dar a volta e até ludibriar aqueles que o rodeiam? O voto assumido em animais políticos é, a meu ver, um dos fenómenos mais intrigantes do estudo dos comportamentos eleitorais. Se calhar chegámos a uma variante do mítico slogan político brasileiro: “aldraba, mas faz!”" (João Ricardo Vasconcelos, Activismo de Sofá)

Caro Ricardo*, se eu voto assumidamente num animal político, tu votas (presumo, claro) num enorme demagogo, que vende ilusões mas demite-se de apresentar qualquer solução viável no mundo real, ou, melhor dizendo, cujas consequências das suas propostas (se aplicadas) seriam um descalabro sem nome; que reclama uma pretensa superioridade de esquerda, que se diz coerente, mas que não hesitou em aliar-se à direita e à sua agenda, na desafectação de recursos para a escola pública em benefício do ensino privado, apenas pelo calculismo político de pretender cavalgar uma derrota do PS (quando estavam era a derrotar uma certa ideia de escola pública para o país); que, em nome da pureza ideológica, não hesita em correr o risco de entregar o país a um governo de direita (o mais à direita que este país já conheceu em democracia), o que, particularmente nesta conjuntura de crise/austeridade/fmi, pode ser trágico para o nosso modelo de estado social. Trágico e irreversível. Mas que importa isso, quando mantemos a pureza das nossas ideias, marimbando-nos, se for esse o preço a pagar, para o que venha a acontecer à realidade? Imagino que não vejas assim o teu voto nem seja isto que te mobiliza. Compreendo bem. No teu lugar, ficaria no mínimo irritado se alguém descrevesse nestes termos a minha motivação para votar. Agradecia que fizesses o mesmo relativamente a quem pensa de forma diferente de ti.

* Ricardo, reincido nesta espécie de picardia contigo. Mas é por puro gosto pelo debate, como tenho a certeza que sabes. Just in case...

13.5.11

Frases que não me saem da cabeça (repost)

"I don’t expect the details in any final agreement to look exactly like the approach I laid out today. This is a democracy; that’s not how things work.”

Barack Obama

Via as coisas que ele tem andado a ler

Blogger/Editar mensagens/Rascunhos II:(repost)




O Sidney Lumet morreu ontem (resc, resc, resc. há um mês). Pouco conhecia dele. Depois de ler isto (Shyznogud) e isto (Ferreira Fernandes), fiquei com pena de não conhecer mais, nomeadamente "12 homens em fúria". Logo eu, que quase sempre tenho dúvidas e frequentemente me engano. Mas afinal, conhecia pelo menos um filme. Running on Empty/Fuga Sem Fim (1988). João Lopes fala dele aqui. Eu, já lhe tinha feito aqui uma alusão. Provavelmente, o filme mais depurado da obra de Lumet. Brinco. Esta frase é do João Lopes. Um fabuloso ensaio sobre o combate entre a revolução política e a conservação familiar. Brinco outra vez, esta frase é do Pedro Mexia. Um dos filmes que mais me marcaram durante a adolescência. Só para o caso de terem dúvidas, esta aqui não é do João Lopes nem do Pedro Mexia.


Não sei se já o disse aqui mas fala-se pouco de filmes (bons filmes) para adolescentes.

Blogger/Editar mensagens/Rascunhos: (repost)

Gostar de música é... agarrar-me a qualquer pretexto para continuar na cozinha (até mesmo lavar a loiça. LAVAR A LOIÇA!) apenas para continuar a ouvir as cordas deste senhor, de nome Bruno Cocset.

12.5.11

Frases que não me saem da cabeça

"I don’t expect the details in any final agreement to look exactly like the approach I laid out today. This is a democracy; that’s not how things work.”

Barack Obama

Via as coisas que ele tem andado a ler

9.5.11

Repelências

Ferro Rodrigues, bem como outros membros do Partido Socialista, considera o programa do PSD "radical". Considera que o programa do PSD atenta "fortemente contra os pilares do Estado Social". Considera “anti-democrática” a forma como o líder do PSD tenta condicionar os eleitores, ao excluir o PS e José Sócrates de qualquer possibilidade de entendimento. Considera que se trata de "um programa de uma direita radical como nunca houve em Portugal". Toma, enfim, posição sobre um conjunto de medidas propostas pelo PSD, reagindo ainda a declarações com consequências decisivas para o funcionamento da governação. Posição, opinião, interpretação, versão, etc. É isto que se espera da política pluripartidária, que ofereça visões alternativas dos problemas e das soluções para o país. Pelo que leio aqui, ainda há quem ache que divergir é o mesmo que mentir. Inominável mentiroso. Daí a “figura absolutamente repelente da vida política portuguesa”, vai um passo. Já dado.

"Ferro Rodrigues, uma figura absolutamente repelente da vida política portuguesa, acha, tal como Sócrates, que os portugueses são cobardes (eles lá sabem porquê). Por isso tentam ganhar votos gritando aos quatro ventos mentiras inomináveis sobre o programa eleitoral do PSD. Mas, enfim, as coisas são como são." Fernando Martins, Cachimbo de Magritte.

Bússula eleitoral

"Des études montrent que les personnes qui ne reprennent pas d'emploi pour des raisons financières sont extrêmement minoritaires. Le vrai cancer, c'est le chômage. L'«assistanat» est un repoussoir commode.

Rien n'atteste que les personnes qui touchent le RSA soient passives. Au contraire, elles font preuve d'une grande énergie pour surmonter la perte de confiance, éventuellement la honte de cette situation. Effectivement, les discours politiques ont créé une image très négative de personnes qui, dans leur très grande majorité, connaissent des difficultés sociales de différents ordres: manque de ressources, problème de transport, de santé, parfois isolement." Travailler pour «mériter» son RSA: «Une mesure incantatoire», Libération.

"Tributo solidário, através do qual se assegura que os beneficiários de algumas prestações sociais, nomeadamente do Rendimento Social de Inserção, prestam uma “actividade socialmente útil, em entidades públicas ou do sector social”, garantindo assim a manutenção de hábitos de trabalho" Programa do PSD (págs 89-90)

5.5.11