27.2.10

Sou apenas um "diletant", como diria J.A. Saraiva

Parece que as Falklands/Malvinas voltaram a animar a política internacional, como se diz aqui. Haverá concerteza um milhão de coisas interessantes para dizer sobre este tema. O meu contributo não vai além disto, a primeira coisa que me vem à cabeça quando oiço falar nas Falklands:



26.2.10

Bocas

Ontem, estava a escrever este post, abandonado em modo de rascunho, à espera sei lá do quê.

“Olho para trás e reparo que, desde há algum tempo, os posts deste blog raramente ultrapassam a meia dúzia de caracteres. Tornei-me, pois, num postador de bocas. Não tem nada de particularmente negativo mas não era bem isto que eu queria. O problema é que este modo de boca é, frequentemente, bastante irresistível. A piadinha e o trocadilho fácil, a inevitável contradição, devidamente achincalhada (…)”

Entretanto, A.R escreve mais este excelente texto (com licença)

“Uma boca histriónica tornou-se numa questão de Estado. Os jornais são bocas em delírio. A RTP justifica o serviço público com as bocas do prós-e-contras. A SIC tem uma boca loura e o ego de uma boca. Na Assembleia da República, a prestação dos deputados mede-se em função das bocas regimentais. O Partido Socialista atura as bocas da deputada internacional Ana Gomes. Não deixa de ser estranho que as oposições gritem a uma só boca. Os polícias cultivam os segredos na boca e os magistrados a boca nos segredos. Não menos relevantes serão as bocas deste blogue. A Ética da Comissão dissolveu-se em bocas. Até a Presidência tremeu com as bocas de Fernando Lima. A única forma segura de nos falarmos é de boca em boca. Depois de tantas bocas, apenas nos restam as bocas das urnas.”

É assim, uns não vêem mais longe do que o seu próprio umbigo e outros, enfim, vêem.

E duques!

"O bom futuro é o que jamais me esperou"

Guri

25.2.10

Tanto charivari e afinal eram todos a favor


Parece que, afinal, o casamento gay foi aprovado por unanimidade (não está online - bolas - mas está na edição de papel - juro, vão à pág 7). Aguardo a qualquer momento o desmentido do CDS-PP e do PSD, sob pena de, conforme ouvi há pouco o jornalista Maia Abreu dizer no Parlamento, isto se convolar em verdade, de acordo com a máxima de que tudo aquilo que não é desmentido é porque é verdade.

Mad, very mad man

França: Campanha publicitária compara tabaco com sexo oral


Definitivamente, compreendo mal o mundo em que vivo.

Textos que ajudam a pensar

Os melhores textos, as reflexões mais claras e interessantes, o ângulo justo sobre o ultra-glosado tema da relação entre o poder político e os media encontra-se aqui. Obrigado João Lopes.

23.2.10

De volta à Tunísia (ah... os ares de África)

A brincar com isto

PORDATA.

Estou na Tunísia (volta daqui a uns minutos)

Como as mentiras, também as verdades devem ser repetidas até que se tornem, mesmo, verdade

"E, por muito que isso possa contrariar certas cassandras muito ouvidas, pode também dizer-se que, do ponto de vista da recuperação da situação económica, Portugal se está a saír melhor do que o simples contexto poderia sugerir.Não apenas a àrea euro inverteu a tendência para a queda, como Portugal a inverteu mais intensamente do que a àrea Euro, a Espanha e a Alemanha."

Paulo Pedroso, Banco Corrido, onde (porque não?) aproveitamos para tirar o esclarecedor gráfico (clicar para ver melhor):


18.2.10

Eu ficava a pintar ovos (desenhava uns olhos e colava lã, assim tipo cabelo) enquanto os meus amigos viam a Galáctica mas não ando por aí a espalhá-lo


Paulo Rangel deu uma entrevista ao I. Disse coisas, à primeira vista, preocupantes, como a ideia de que o ensino (3.ª e 4.ª classe) antes do 25 de Abril é que era bom. À primeira vista, pois à segunda já nem me lembrava disso, tendo em conta o teor das revelações (pelo menos para mim) que mais à frente me aguardavam. Quid revelationes? Estas:

"Sempre fui atento, vivi o 25 de Abril intensamente, aos 10 anos sabia a composição dos governos de cor - enquanto os meus amigos sabiam as equipas de futebol"

Particularmente esta, sobre as suas memórias do 25 de Abril:

"Nessa tarde a minha mãe acabou de bordar um pullover com dois elefantes vermelhos - que ainda guardo.".

Não quero ser injusto para com os outros candidatos mas temo que, com esta do "pullover com dois elefantes vermelhos - que ainda guarda", Rangel já dificilmente perde o título do candidato mais queriducho à liderança do PSD

Blasfemy (por quem sabe)

Blasfemy

A culpa é minha. A favor de todas as evidências, perguntam-me: "mas porque é que perdes o teu tempo a ler aquilo?". Contra as indicações médicas, não resisti a espreitar o primeiro post de José Manuel Fernandes, orgulhosamente anunciado no Twitter. É este, que, por pudor, me escuso reproduzir. Mas deve ser lido (vá, linquem), pois atesta bem a cultura democrática do ex-director o Público e a absurda desproporção das suas reacções. E ajudam, naturalmente, a contextualizar esta sua cruzada.

Crítica literária

O Pedro prova aqui que os clássicos russos são, frequentemente, sobrevalorizados.

E assim vai a nossa democracia de vento em popa...

... com o termo "providência cautelar" a tornar-se anátema: "O que o PS está a fazer é uma espécie de providência cautelar em relação ao que estamos aqui a discutir", disse Agostinho Branquinho, do PSD, ideia que seria mais tarde repetida pelo líder parlamentar, Aguiar-Branco.". Tal como "processo judicial", outro instrumento torpe de silenciamento da comunicação social. Bom bom, são escutas. E insinuações demagógicas e sem sentido, de preferência na primeira página de um jornal, onde o bom nome das pessoas pode ser devida e irreparavelmente enlameado. Tudo em nome de um suposto e totalitário interesse público, onde não há lugar para os direitos e as liberdades dos indivíduos. Eis o verdadeiro encargo que não devíamos querer deixar para as gerações futuras (com o défice e a dívida poderão eles bem).

17.2.10

Olha o que fazem as leis com ideias

Aquisição da nacionalidade portuguesa quadriplica. Sei que andamos mais entretidos com fantasmas mas estas são notícias de um país mais justo, que me deixam particularmente feliz. E a responsabilidade é daquelas leis que, alguns diriam, escondem uma ideologia. Ainda bem.

É mais fácil copiar:

"Anda para aí uma grande indignação, baseada nesta investigação jornalística que consumiu o tempo de três jornalistas, que tiveram de ler mails de uma mailing list (de que aliás eu fazia, faço, parte) que lhes foi devidamente entregue por um sujeito. No fundo, a indignação é um retrato fiel do país. Anda tudo indignado porque, veja-se lá, assessores do governo faziam política. Ou seja, passavam argumentários com informação pública sobre a acção governamental para uma mailing list de que faziam parte bloggers e candidatos a deputados. Tudo durante a campanha eleitoral. Mas onde é que já se viu tal coisa? O que se espera de assessores governamentais é que façam continhas, assinem informações e retirem as mangas de alpaca à hora de regressarem a casa. Política? a minha política é o trabalho e até acho que a política devia ser criminalizada. Pois o meu trabalho é a política e o que me parece que faz falta é exactamente que o Governo faça mais política, que informe mais e que produza mais argumentos, desde logo convincentes. Não é preciso estar muito atento para se perceber que é isso que falta e não o contrário. Pelo meio, fico também com uma certeza: a blogosfera pode revelar-se particularmente útil - representa um meio eficaz para os perturbados mentais fazerem terapia ocupacional e expressarem as suas frustrações. Mesmo se, pelo caminho, violarem correspondência."

Pedro Adão e Silva, aqui, no Léxico Familar

Salta uma petição a favor da liberdade de expressão de Cavaco


Parece que Cavaco Silva disse que nunca façaria comentário público sobre a vida dos partidos. «Há uma coisa que um Presidente da República nunca pode fazer, que é de comentar em público a vida dos partidos políticos. Nunca o fiz, nem faço, nem façarei.» Por uma vez, gostaria de me solidarizar com o actual chefe de Estado. Também tenho um cadastro apreciável de amnésias vocabulares, imediatamente ultrapassadas por um qualquer neologismo inventado à pressão. Um dia, num telefonema de circunstância com uma pessoa com quem não estava particularmente à vontade, informei: "é verdade. o bebé já nasceu... e é raparigo". Como se costuma dizer, falta-me a autoridade para amandar pedras.

adenda: já agora, a ser fiél a transcrição, ninguém se indigna com aquele ", que é de"

12.2.10

É bom ver que nem toda a gente perdeu totalmente a cabeça

"(...) Ontem, por exemplo, a propósito da providência cautelar contra o jornal Sol, foram feitas afirmações ignorantes e afirmações irresponsáveis. Moura Guedes - cujas palavras, dada a sua circunstância, têm um relativo interesse mediático - disse que a providência era a "oficialização da censura". Uma associação de juízes, por seu lado, disse tratar-se de uma forma de condicionamento inaceitável."

"(...) Não nego que o cheiro a napalm logo pela manhã me agrada. No entanto, se a luta política é feita em nome de valores como a liberdade de expressão e a decência, este é um péssimo e perigoso caminho. Na relação entre direitos, eu diria que o de falar livremente pressupõe o de interpor providências cautelares, incluindo providências cautelares para impedir a publicação de notícias (só há liberdade com imputabilidade). "

"Por estes dias, importa não dispersar e manter cabeça fria. Evitar dar cobertura a dilates de personagens circunstanciais, mitigar os danos colaterais de certos voluntarismos, impedir a subversão da luta e a extensão do seu domínio. Para que tudo isto, no futuro, não nos rebente na cara."


Eduardo Nogueira Pinto, no Suction with Valcheck

adenda: o texto não se encontra lincado, pois, aparentemente, foi apagado do blog. Não sei porque razão e nem sei se faz sentido perguntar a alguém porque publica ou deixa de publicar (ou elimina) algo do seu blog. Isso não impede, naturalmente, que tenha ficado curioso...

adenda 2: alertado por um comentário (são tantos os que pululam na minha caixa de comentários que quase não ia dando por ele...), verifico que o texto, afinal, está lá. Aqui.

11.2.10

Direito ao Estado de Direito

Hoje estou em dia não. Sinto que o país está a perder a batalha por uma certa ideia do Estado de Direito que me é cara. O mais recente desses sinais vem com a generalização - alguns diriam crescentemente crescente - de que a justiça constitui um meio de pressão política. Quando o director de um dos principais jornais nacionais considera que uma "providência cautelar constitui um escândalo, que abre a porta à censura prévia", fico preocupado. Recordo que a providência cautelar não é ordenada por um bando de jagunços mas por um juiz, verificados determinados pressupostos (nomeadamente o de um fundado receio de um direito gravemente lesado e dificilmente reparável). Apesar de todos os seus defeitos, a justiça é a última arma que temos para salvaguarda dos nossos direitos e liberdades. Sem ela, resta-nos a justiça privada ou, como tantos parecem desejar, a justiça da praça pública. Apesar de todos os seus defeitos, sem ela sinto-me infinitamente menos seguro. Nem tudo pode ser lido com os óculos da política.

adenda: a questão pode resumir-se assim: os media pensam - e bem - no interesse público mas estão-se marimbando o mais das vezes - e bem, de um modo geral - para os prejuízos, muitas vezes irreparáveis, que a sua acção pode causar nas pessoas objecto das suas notícias. Para estas pessoas (que pode ser qualquer um de nós), a justiça é tudo o que resta.

Um disparate disparatado

Rangel justifica a sua candidatura à liderança do PSD com “o agravamento substancial do agravamento da situação económica e financeira do país”. Embora o PSD já a tenha considerado um mero abalosinho, temos de lembrar de não nos esquecermos do grave agravamento do assinalável agravamento da crescente gravidade da mais grave situação económica internacional desde a Grande Depressão. É , por isso, natural que isto agrave a gravidade do agravamento. Tal como aconteceu em todos os países europeus.

10.2.10

9.2.10

Este texto de João Lopes devia ser estudado na escola

"(...) Dispensemos a discussão sobre que sentido faz pedir isso a um comentador político. O certo é que, mesmo tratando-se de conhecer o ponto de vista do questionado, o discurso está marcado por uma falácia: pressupõe que um ponto de vista (neste caso, sobre a conjuntura política) tem como ponto de fuga uma dicotomia simplista a que, supostamente, todos iremos aquiescer."

"O que é que esta postura televisiva recalca? Três coisas, pelo menos:

1 – os factos são matéria de conhecimento, logo de interpretação, não de razão;

2 – a razão é uma dimensão que só pode nascer de um gigantesco e nunca acabado labor (séculos de filosofia convocam-nos para tal), não da iluminação privilegiada seja de quem for;

3 – a política vive-se na tensão permanente entre diversas razões, tensão potencialmente frutuosa."

João Lopes, Sound + Vision

Uma espécie de alcova (by Monty Python)

Alcova


Alcova. Alcova, alcova, alcova? Alcova! Alcova.

Ainda sobre o post de alcova do Daniel Oliveira

E se, face ao evidente interesse do Paulo nesta história, ele mentiu à Maria sobre o que ouvira? E se ele interpretou mal o que ouvira, não se apercebendo que o marido não chegara, nem tivera intenção se ser infiel? E se o marido estivesse a contar um sonho? E se o marido estivesse a falar de um terceiro? E se? E se? Será que o marido teria alguma vez condições para desfazer o equívoco criado pela calhandrice do Paulo? Contrariamente à minha reacção inicial, as regras de forma protegem tanto as questões de alcova como o estado de direito.

Se para o Daniel Oliveira o Estado de Direito é uma história de alcova, estamos conversados

"O Paulo conta à Maria que o marido dela anda a pular a cerca. O gajo, que é amigo do casal, ouviu telefonemas e conversas que não devia. E o seu interesse na matéria é evidente, já que a Maria, apesar de já não ir para nova, é um… (não sei como se diz em “politicamente correcto”). O Paulo é, portanto, para além de amigo da onça, um alternadíssimo pulha. Não olha a meios para se afiambrar à mulher do próximo. O que diz o infiel apanhado quando é encostado à parede? “Querida, o que ele fez é inaceitável. Não tinha o direito de ouvir as minhas conversas e ainda por cima contar-te. Por isso, vais-me desculpar, mas não te vou dizer nada sobre esse assunto e, se não te importas, continuaremos a viver juntos como se nada se tivesse passado. É a única atitude formalmente correcta. Boa noite.”O que faz a Maria se não for parva?"

O que move Rangel?

1. Paulo Rangel próximo Presidente do PSD? (início a 12-10-2009):


Gráfico do Trocas de Opinião, tirado do Margens de Erro.

Bancos nacionais poderão aumentar "spreads" já durante o mês de Fevereiro...

é o que se noticia aqui. Não parece mas esta é uma boa notícia. Conforme se explica, cristalinamente, no blog de Pedro Lains.

Liberdades

Há qualquer coisa de repugnante nesta iniciativa. Creio que terá algo que ver com o que me parece uma nítida instrumentalização de um valor matricial do Estado de direito para obter ganhos políticos. Faz lembrar aqueles jogadores de futebol que ao mínimo toque (real ou imaginário) se atiram para o chão a fingir uma agressão violentíssima e a clamar pela expulsão do jogador adversário. O problema é que, se não for para fazer humor, com estas coisas não se brinca. Acho, por isso, obscena qualquer tentativa de nos convencer que vivemos num estado limitado em termos de liberdade de expressão. Ou de liberdade de imprensa. Tão obsceno quanto as pessoas que nos querem fazer crer que a Coreia do Norte é uma democracia. Quer isto dizer que não há entorses ou que existem casos em que a liberdade de expressão esteve em causa? Admito que sim. Agora isso é muito diferente de dar a entender que Portugal não é um país livre em matéria de liberdade de expressão. Seria mais ou menos o mesmo que dizer que todos os eurodeputados portugueses parecem mover-se apenas pelos seus interesses partidários, não hesitando em vender uma imagem distorcida do seu país apenas porque lhes dá jeito.

ps: Francisco Assis acaba de fazer no Parlamento a melhor declaração política sobre esta matéria. Aborda todas as questões levantadas por este tema. Clara, simples e recentra o debate nos seus devidos termos. É desta que me faço sócio.

5.2.10

Títulos que são todo um programa

"Governo derrotado na aprovação das alterações à Lei das Finanças Regionais", exulta o site oficial do Bloco de Esquerda. O título não é "Parlamento aprovou lei mais justa para as regiões autónomas" ou "Nova LFR acaba com discriminação da Madeira preconizada pela anterior lei". Não. O grande regozijo é com a derrota do Governo. Não é por isso estranho que uma lei desta natureza recolha o apoio das bancadas da esquerda à direita do hemiciclo. Deve ser isto as leis sem ideias que ainda no outro dia se defendia na abertura do ano judicial.

Lei das Finanças Regionais

Alguns partidos gostam de apontar o que consideram uma incoerência: o facto de os deputados regionais do PS-Madeira terem votado a favor da iniciativa na respectiva assembleia regional, quando os deputados nacionais do mesmo partido a ela se opõem.

Pois bem, nada de mais natural. Enquanto os primeiros representam e devem prosseguir o interesse regional, os deputados nacionais (e, já agora, o Governo) representam o interesse nacional. É normal. O que já não é normal é ver deputados nacionais a representar os interesses regionais da Madeira.

Não foi isso, aliás, que se exigiu durante os anos em que o PSD esteve no poder? Que colocasse os interesses do país acima dos da R.A da Madeira e refreasse a fúria despesista do seu governo regional? A bem do país e, desejavelmente, em contradição com o PSD regional.

Não deixa de ser curioso...

... que sejam os partidos dos extremos do espectro político nacional (BE e CDS) os únicos que manifestam alguma abertura para o diálogo com vista a encontrar uma solução para a polémica da Lei das Finanças Regionais.

4.2.10

E agora coisas realmente importantes

Para quem precise de urgente distracção da Lei das Finanças Regionais, ler esta maravilhosa (dois maravilhosos por dia dá saúde e alegria) entrevista a Urbano Tavares Rodrigues. "Deixo um texto ao meu filho a explicar quem fui", conta o escritor. É engraçado.

Sabemos muito pouco sobre a nossa vida

«É óbvio que não deveria constituir uma surpresa por aí além descobrir que a história da nossa vida incluía um acontecimento, algo de importante, que desconhecemos por completo – que a história da nossa vida é em si mesma, e por si mesma, algo a respeito do qual sabemos muito pouco.» Philip Roth, Casei com um comunista (retirado, com o devido respeito, daqui).

Gosto desta passagem. Conhecemos sempre apenas uma parte da história. Inclusivamente da nossa própria história. Javier Marias tem um conto maravilhoso, em "Todas as Almas". Com a morte, teríamos finalmente acesso às outras partes da história da nossa vida. Atar as pontas soltas. Conhecer o que estivera na penumbra. As revelações. Outras verdades. Revisitar a nossa versão dos acontecimentos, agora sob uma outra luz. A história da nossa vida é algo a respeito do qual sabemos muito pouco, como diz Roth.

3.2.10

Ainda Mário Crespo

Cansaço. Hesito. Cada comentário que tenta desmontar e denunciar o embuste da história de Mário Crespo acaba por dar-lhe a importância que ele tanto parece desejar. Ainda assim, duas brevíssimas notas:

1: M. Crespo está a escrever uma telenovela e não a relatar a realidade. De que outra forma interpretar a omissão à referência a Medina Carreira na crónica acusatória? Os personagens parecem surgir como naqueles seriados escritos na hora, de acordo com os desejos dos telespectadores. "Para uma referência ao Medina Carreira - Prime a tecla 1”; "Para uma referência ao PR - Prime a tecla 2"; "Para outras referências - Prime a tecla 3 e deixe o nome da sua preferência".

2: "Dois problemas [Crespo e Carreira] que precisavam de ser solucionados", pergunta o I? "Sim, presumo que sim", responde Crespo. Andamos a discutir presumos!

Triste Media

Vejo a primeira e última página do DN e pergunto-me se foi apenas esquecimento ou se acharam que a morte de Rosa Lobato Faria não merecia qualquer destaque. É triste, de qualquer das formas.

2.2.10

Democracia (ou o regresso dos títulos pomposos)

Agora esta história do Mário Crespo. Antes as escutas tornadas públicas; ou as escutas ilegais tornadas públicas; ou as conversas privadas tornadas públicas; as teorias conspirativas plantadas em jornais; a publicação de mails privados a pretexto do seu interesse público (quando é que se torna legítimo?); a crítica nos media ao poder político (quais os limites?); a crítica do poder político aos media que o criticam (até onde é que é legítima?); a crítica do poder judicial ao poder político e vice-versa (quais as fronteiras que definem a separação de poderes?); etc.; etc.; etc.. Há uma certa ilusão de que a democracia é um adquirido, cuja aplicação das regras se vai tornando cada vez mais consensuais. No entanto, e como estamos sempre a confirmar, a democracia vive de equilíbrios imperfeitos entre valores e princípios em atracção fatal para o conflito. Equilíbrios que, tantas vezes, consideramos cumprirem insatisfatoriamente a ponderação dos bens em causa. A dúvida, a incerteza e o conflito são, por isso, intrínsecos à sua natureza. Quando muito, o tempo ajuda-nos a lidar melhor com estes elementos.

E agora, ninguém liga ao Cravinho?

Cravinho diz que Governo não pode deixar passar alterações à Lei das Finanças Regionais. Quando critica o Governo as palavras de Cravinho parecem emanadas (acho que isto esgota a minha quota de emanados deste ano) da Providência. Quando defende o Governo, é lido à laia (lido à laia, lido à laia, lido à laia) de nota de rodapé. Curioso número.

Calhandrices


Neste episódio do Mário Crespo, a questão não é se se pode revelar o teor de conversas privadas. O que se passa é que o diz-que-disse é inaceitável como argumento político. Isto parece-me muito simples. Porque, entre muitas outras razões, é indesmentível. Todos os que estão a brandir o diz-que-disse de Mário Crespo em nome da liberdade estão, a meu ver, a comprometê-la e a tolhê-la, pois nada há de menos livre do que carregar o ónus de se defender de um boato, justificar que se disse aquilo e não aqueloutro; que se disse aquilo mas com outra intenção; que se disse aquilo mas a brincar. Este combate nunca se ganha. Por isso, o respeito democrático obriga-nos a não dar crédito à boataria. É difícil, sobretudo quando adere à percepção ou ao preconceito que possamos ter relativamente aos visados. Mas a democracia de um regime também se mede pela sua capacidade de resistir aos processo de intenções. É que os que agora se estão a arvorar em arautos da liberdade parecem esquecer que um dos ataques mais emblemáticos à liberdade foi, precisamente, baseado no rumor. Já sei que não gostam que se lembre mas foi em parte o que aconteceu no caso Dreyfus. Rumor e preconceito. Ninguém está imune a eles mas é uma verdadeira calhandrice (eu gostei) usá-los no combate político.

Le "rating"

Habituados que estamos a desconfiar dos nossos próprios recursos, não raro a informação veiculada por organizações internacionais surge-nos como emanação da verdade. Da OCDE ao FMI, passando pelas prestigiadas organizações não governamentais internacionais como a Transparency International ou a Freedom House, recebemos as suas informações como se de revelações se tratassem. Convém dizer que algumas vezes isso acontecerá. Significativas vezes, se calhar. Mas não deixa de surpreender o amadorismo que muitas revelam. Veja-se, por exemplo, este excerto do relatório (2009) da Freedom House sobre Portugal: "Anibal Cavaco Silva, a center-right candidate (...), won the 2006 presidential election, marking the first time in Portugal’s recent history that the president and prime minister hailed from opposite sides of the political spectrum." (bold meu). Se exceptuarmos a maior parte do tempo (1986-1995 e 2002-2006), portanto... O ponto é que estas imprecisões (por mais desculpáveis que sejam) deixam uma semente de inquietação acerca da forma como estes relatórios são feitos. O que me faz pensar nas agências de rating (e eis que, numa vertiginosa associação de ideias, o termo rating me faz lembrar a expressão francesa para falhanço: rater - curiosa coincidência. Sai um título).

São as entidades reguladoras, stupid!

Em resposta às visões desencantadas com o primeiro ano de mandato de Obama (como aqui ou aqui ) John B. Judis sugere, na TNR, que olhemos para o grande feito desta Administração: as instituições reguladoras.

Mad Men


Primeiras impressões: série imprópria para ex-fumadores.